Christian Svoboda1
Vespertino, fim
da jornada dos nobres trabalhadores
Corpos exaustos
Homens cansados
O trem apita
Olhos vidrados
A porta se abre
Homens quase montados uns sobre os outros
E estavam curvados
Como quem segura um arado
Talvez tenha sido um dia de cultivo árduo
Pois cada dia para esses homens parece contar como mais um fardo
Mas eis a promessa da noite
Dama velada!
Traga a alegria!
Traga as mulheres!
Traga a cachaça!
Sol da meia-noite
e quinze
Embora o escuro se faça presente
a sombra é uma ilusão aparente
Sinto o calor do sol pairar no ar
Levantando esta Segunda com seus fardos,
seus anseios, suas expectativas e
inclusive o romance noir.
Tudo flutua leve à primeira
vista
pelos ares amores, derrota e conquista
A semana inteira vem se apresentar
e quando dormes, sentes a cabeça pesar.
E a esperança, resquício
de fé
parece ter caído quando fiquei de pé
como o sonho que precede o acordar.
Impetuoso és! Coração
palpitante.
Nada espera, segue adiante.
Não crê, bate, pulsa. Teu desejo é minha via.
Poesia de Estrada:
O caminhoneiro e a musa
Não me entendas mal, minha querida.
Mas vejo que na rodagem da nossa vida,
eu fui e sou muita areia para ti!
Com isso não te menosprezo,
Inclusive tens uma bela e ampla caçamba
Mas insistes em usá-la
Somente para passeio!
A peste a o agricultor
O mal que te afliges
vício corrupto
tu bens o quiseste
tu és o responsável absoluto
Toma o que é teu
e pega pela mão
pois é ela quem faz
o que a mente se torna terra
é a mão que semeia
Astuto é o coração
que resiste ao tempo
e seu último alento
é mirar no horizonte a linha da salvação.
Tempo e Alma
Se tudo é movimento
então todo tempo é presente
Quando corro e aspiro a,
tudo que me faz bem e me expande
corre junto de mim.
E quando cresço, o positivo se refaz e sigo adiante.
E tudo que é bom para mim, me acompanha
e me faz continuar sempre em frente.
Quando corro e aspiro a,
tudo que me faz mal e me subtrai
corre para longe de mim, no
sentido contrário.
E se me diminuo, o negativo
se confirma e fico atrás do que eu deveria ser.
E tudo que é mal para mim,
me faz denso e me deixa sempre para trás.
É por isso que vivemos um
único momento
O agora se confirma como
senhor irredutível de uma única verdade
A vida é um eterno movimento
Tempo contínuo de viver.
Navegar é
preciso
Navegar é preciso, viver não é
dizem os versos dessa canção lusitânica
O mar
suas ondas, infinitos espelhos solares
Refletem a grandeza, em luminosidade, do astro maior.
E cada onda carrega consigo
uma parte do sol com o seu movimento
Mas o que é o mar senão
eterno movimento
Sim! Eterno...
...movimento
Por isso navegar é preciso
E a vida...
Bem, a vida é o vento, é o farol, é onda,
é parte do grande mar, do eterno movimento.
Infiniti
Se a sede de absoluto insiste a
resposta imediata
diga ao tempo que a areia não está acabada
diga ao infinito que hoje a vida
é apenas nata
Mas se o amanhã insiste em
se presenciar
diga-lhe, pois, que a vontade de
ser hoje ainda não está a findar
Deixe o futuro às ciganas
porque se falha a previsão não és tu
que te enganas.
Eu que não
amo você
Que Gessinger me perdoe o trocadilho
Mas ouso outro sentido que insiste em se me apresentar.
Meus amores, minhas grandes paixões!
Que lembranças daqueles tempos!
A uma não lhe convinha a noite,
à outra os drinques, os coquetéis, o vinho,
à outra a badalação noturna e
à outra não lhe agradava o enlace.
Não que tudo isso é
ruim ou bom,
mas digamos que para cada momento
há uma história e suas personagens.
Qual não foi meu alívio ao me surpreender com o eco dessas palavras:
Ainda bem que eu não sou elas!
Eu que não amo você!
Estação
do Lado
Estamos tão inseridos nesse sistema
que nem nos damos conta
que existe vida fora da vida
Por isso quero mesmo que apenas
por algumas vezes
colocar o pé do outro lado desse corredor histórico alucinado
e assim ver de fora tudo o que eu não me deixo ver de dentro
Vejo o túnel fantasmagórico
que pinta um mundo nas mentes humanas
mas fora dessa cores... parece que nada há além dessas cores
Por isso quero mesmo que apenas
por algumas vezes
pisar no esterco, espatifar-me no chão,
conquistar vitória do outro lado da estação
Sensação
Marítimas
Que toda sofisticação seja improvável, eu descordo,
pois o arco da abóbada celeste toca a terra onde moro.
No mesmo chão em que a desgraça
se permeia,
está a semente da graça que não se permite tornar-se alheia.
E como uma nau, navego pelos mares
da vida.
Descomunal! Cego andei pelos ares de feridas.
Sobre o dorso, ondas quebram e a
dor era insuportável
Sob remorso, ando sequer, e eram como, um apelador desagradável
O marujo errante, viu a nau descer
no horizonte,
e o caramujo delirante, de vergonha tal, cava e na areia se esconde.
Desiderio
Quantos sonhos pode o homem ter?
Se são tantos os caminhos e infinitas são as possibilidades.
Quantos amores pode o homem ter?
Se incontáveis são as formas de vida.
Se é infinita a vida que nasce.
Quantas vidas pode o homem ter?
A resposta, sempre
a mesma,
se constitui em uma simples frase
que nos revela pura beleza:
- Tantos quantos o homem quiser!
Dama de Azul
Sim!
A vi pairar sobre mim
como uma rede azulada
Em fumaça ela dançava
E que movimentos graciosos!
Era íntima, era linda e era minha!
Sim! Era minha.
Era para mim aquele espetáculo único e maravilhoso
E a vida toda fez parte de mim
Como um infante pus-me a rir e
havia um quê de emoção que suspendia minhas preocupações
e me jogava em um momento de encontro íntimo
Um encontro de vida
E a Dama de Azul,
sedutora jubilosa corria no vento, eis a melodia da alma
E os parceiros embriagados de desejo, rodopiava no ar valsas e árias,
lampejos!
Eu fico ali sentado
Platéia única
do espetáculo
Cronos e Ânima
Tic, tac
vida, morte
Tic, tac
oportunidade, sorte
Tic, tac
fraco, forte
Tic, tac, tic, tac
Tic, tac
corrida, tempo
Tic, tac
escolha, momento
Tic, tac
vontade, pensamento
Tic, tac, tic, tac
Tic, tac
vida, morte
Tic, tac
escolha, não é sorte
Tic, tac
vontade, ser forte
Tic, tac, tic, tac
Di profundis Sagitas
Cravei minha flecha
No espírito que se encontra sobre a nuvens
Assim, toda vez que visar outro alvo
Lembrarei sempre que posso mirar na ousadia do impossível.
O chamado do Poeta
Chamaram o Poeta
para que de uma gota d'água fizesse um oceano de poesia.
Chamaram o Poeta
para que de um grão de areia fizesse um castelo de aventuras.
Por fim, pois o Poeta que é,
faz da vida uma poesia e da poesia faz muitas vidas.
Poesia minha
Se ouso o sofrimento
É porque o coração está se rendendo,
E provocas tanta ânsia,
A minha própria ignorância.
Se ouço o zunir do vento,
É porque a comoção está se revertendo,
E colocas minha sina,
A mirar o que alucina.
E provocas tanta ânsia,
A mirar o que alucina.
E colocas minha sina,
A minha própria ignorância.
Hidromel translúcido em cascata
Corre, grita, chora,
desce, vai segue adiante,
deixa transparecer tudo e
ficar translúcido.
Poesia afetada
poeta afetado
coração que chora
Se tiver que chorar,
chore mas não
esqueça das gotas de
hidromel, desta
cascata em noite serena.
O verdadeiro poeta esqueceu-se das palavras e fluiu no momento.
Cada página um avanço.
Cada letra um sinal, um endereço,
onde o poeta bem conhece
o lugar da tua prece
Com o peito estufado,
o Sol pôs-se a irradiar.
E um momento assim
vale uma eternidade.
Não, não venha me
dizer que fracassei não sou homem para me acovardar
Sou homem para vencer
Ainda estou de pé
É a flexibilidade que me mantém
Já não me sepulto mais
Vivo a cada dia.
Dar-se por a Vida que é a
Vida que embevece da vitória do dia-a-dia e do clamor da minha prece.
Sem pressa é o tempo que me assola,
Mas que não seja sem ânimo o fogo que me queima.
Da sábia quietude, bronze do Sol
Reflito cada semente e colho cada fruto.
Da minha água servem-se as propostas.
De meu leito servem-se os sonhos
De cada instância vejo a luz resplandecente no véu do céu
anil.
Passeggiata
Passo por lugares que me acolheram
Mas sigo adiante,
O tempo urge
A alma exige o
Caminhar constante
Esta é a minha poesia
Respiro, verso e folia.
O Cego e a Flor
De uma divina semente nasce a planta na relva quente.
E ao vir da primavera
Lá está ela,
Eloqüente flor.
O biólogo que a avistou, verificou nos manuais de botânica, e por
um exuberante composto nome latino lhe chamou.
O amante, notando-lhe grande beleza, arrancou a flor sem sutileza para dar ao
seu amor.
E o cego, não podendo vê-la, sentiu-a no toque de suas mãos
e dela nada esperou, nada pediu.
Desconfio, e presumo com certa certeza, que o cego foi aquele que mais a conheceu.
O Gênio do Fumo
Atiça, acende esse fogo e liberta este gênio.
Atiça o espírito do fumo, seu fumante desvairado.
Vai, acende e me liberta, e eu, espírito livre, entrarei pela tua boca
e desembocarei em tua alma.
Viajo por dentro da tua ânima
E sair carrego comigo os teus pesares
E grato sou por ser fumaça livre
Feliz sou se relaxares.
Puxa o ar, e no teu respiro a minha
alma nasce,
A incandescência, divino sol interior, queima esse fumo
E libera mais que fumaça
Liberta o meu gênio.
Quando sopras, eu, gênio livre,
danço na fumaça que se rebusca frente a teus olhos
Escuta! Escuta o meu canto de liberdade! O corpo da minha fumaça se retorce
de regozijo
Sou livre e o vento me carrega para o mundo, no qual agora pertenço.
Sim, meu bom amigo! Não estou mais enclausurado, sou gênio livre,
obrigado!
O homem e a máquina de
voar
Por séculos o homem foi seduzido pelo desejo de voar como os pássaros
A sua magnitude e o esplendor de seu vôo significam poder dar asas às
Próprias idéias
Às próprias esperanças
E hoje pergunto justamente
A quem restará a inveja da grandiosidade
àquele que ensinou a voar ou
àquele que voou.
Aquele que viu o nascer do vôo
inveja o futuro
e tudo que se há de explorar e descobrir.
Aquele que está no futuro inveja aquele outro que
com seus pés deu os primeiros passos de uma nova era.
Qual será o mais abençoado, o princípio ou o desfrutado?
Notas
1 - Graduando em psicologia pela UNISINOS. E-mail: [email protected]