| Massacre para evitar
contágio na Europa França barra o gado vindo
da Bélgica, onde porcos têm sintomas da doença. Na
Grã-Bretanha, mais de 45 mil bovinos e suínos foram
sacrificados
Pilhas com milhares de bovinos e suínos queimam em
diversos países da Europa. O ritual de sacrifício
começou há 12 dias, quando o primeiro caso de febre
aftosa foi detectado na Grã-Bretanha, e tem o objetivo
de salvar os lucros com a pecuária européia. A doença
só apareceu, por enquanto, em território britânico
— onde foram mapeados 48 focos e mais de 45 mil
animais foram abatidos —, mas o governo belga
suspeita que o problema já chegou ao país.
Quatro províncias francesas anunciaram na sexta-feira e
ontem que estão barrando bois, vacas, ovelhas e porcos
vindos da Bélgica, assim como os produtos lácteos. A
medida só entraria em vigor na terça-feira, mas foi
tomada imediatamente depois de o governo belga admitir
três fortes suspeitas de febre aftosa em uma criação
de porcos em Dixmude, no norte do país, a 30
quilômetros da fronteira com a França.
Apesar de os porcos apresentarem sintomas da doença
(feridas na língua, bolhas, sangramentos e febre), os
resultados dos exames sangüíneos não indicaram a
presença do vírus. Porém, os veterinários preferem
esperar mais 48 horas (até o fim do período de
incubação) para ter certeza de que os animais não
estão infectados. A granja belga foi isolada em um
perímetro de 20km. O ministro da Agricultura, Jaak
Gabriels, instaurou a proibição total do transporte de
animais no país.
Apenas ontem foram detectados oito novos casos da doença
na Grã-Bretanha. Na República da Irlanda, altamente
dependente da atividade pecuária, 500 policiais e mil
militares patrulham a fronteira para evitar a entrada de
animais vindos da Irlanda do Norte — onde foi
descoberto um foco da doença.
As autoridades britânicas não se comovem com a
preocupação estrangeira e prometem suavizar a
proibição de transporte de gado, vigente desde 23 de
fevereiro. Os primeiros carregamentos deverão acontecer
ainda esta semana, segundo indicou o ministro da
Agricultura, Nick Brown. Ele reconheceu que a medida
provoca um ‘‘risco limitado’’ ao se
transportar animais portadores do vírus da febre aftosa
em estado de incubação, impossível de ser detectado.
Brown acrescentou que o risco diminui se os animais forem
levados diretamente ao matadouro e sacrificados em 24
horas. O ministro prometeu que a proibição geral de
transporte do gado — que deve vigorar até o dia 16
— será mantida enquanto a doença não for
erradicada. O ministro da Agricultura da Irlanda do
Norte, Brid Rodgers, disse que ‘‘a vigilância
não deve ser reduzida’’.
Milhares de animais exportados pelos britânicos também
já foram sacrificados em Portugal, Alemanha e Holanda.
Desde 27 de fevereiro, as autoridades francesas ordenaram
o abate de 50 mil ovinos. Eles são eletrocutados e
depois enterrados ou cremados. O ministro da Agricultura
e da Pesca, Jean Glavany, anunciou que os produtores
serão indenizados.
As medidas para conter o avanço da aftosa são rígidas.
O vírus se espalha com rapidez, é levado pelo ar por
vários quilômetros e o contágio pode acontecer pela
respiração. Por isso, os países vizinhos controlam
tudo o que vem da Grã-Bretanha, inclusive os próprios
britânicos. Como o vírus se hospeda facilmente em
sapatos e roupas, os turistas vindos do outro lado do
Canal da Mancha têm seus trajes desinfetados antes de
entrarem em Portugal ou na França. Alguns são levados
para saunas, onde o calor mata o vírus. Na Alemanha, os
alimentos não consumidos em aviões vindos da
Grã-Bretanha são confiscados.
‘‘Estamos atravessando um momento doloroso para
os nossos agricultores. Mas, pelo menos uma parte de
nossa produção de carne está voltando ao
mercado’’, afirmou o primeiro-ministro
britânico Tony Blair. A febre aftosa não afeta o homem
— atinge principalmente animais com casco fendido,
mas pode afetar também ratos e algumas aves —,
porém tem sérias conseqüências para a economia.
Agricultores britânicos estimam que a doença custará
mais de US$ 1 bilhão à indústria de alimentos do
país.
Um comitê de veterinários da União Européia se
reunirá nos dias 6 e 7 para discutir o avanço da
aftosa. A última vez que um surto da doença atingiu a
Grã-Bretanha foi em 1981.
Chile acusa Argentina
Agricultores chilenos acusaram o Serviço Nacional de
Saúde e Qualidade Agroalimentícia da Argentina (Senasa)
de ocultar informações sobre o verdadeira intensidade
do surto de febre aftosa no país. Dirigentes chilenos da
Sociedade Nacional da Agricultura (SNA) e da Federação
de Produtores de Leite acusam o governo argentino de
saber da doença desde o ano passado e não comunicar o
fato oficialmente ao Chile, país onde os rebanhos estão
livres dessa enfermidade. O diretor da Senasa, Víctor
Machinea, admitiu que a zona de risco é cada vez maior e
anunciou que mais de 13 milhões de cabeças de gado
serão vacinadas. Foram estabelecidas áreas de
vigilância nas fronteiras com o Brasil, Paraguai e
Bolívia.
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