- 04 de março de 2001

Massacre para evitar contágio na Europa

França barra o gado vindo da Bélgica, onde porcos têm sintomas da doença. Na Grã-Bretanha, mais de 45 mil bovinos e suínos foram sacrificados

Pilhas com milhares de bovinos e suínos queimam em diversos países da Europa. O ritual de sacrifício começou há 12 dias, quando o primeiro caso de febre aftosa foi detectado na Grã-Bretanha, e tem o objetivo de salvar os lucros com a pecuária européia. A doença só apareceu, por enquanto, em território britânico — onde foram mapeados 48 focos e mais de 45 mil animais foram abatidos —, mas o governo belga suspeita que o problema já chegou ao país.

Quatro províncias francesas anunciaram na sexta-feira e ontem que estão barrando bois, vacas, ovelhas e porcos vindos da Bélgica, assim como os produtos lácteos. A medida só entraria em vigor na terça-feira, mas foi tomada imediatamente depois de o governo belga admitir três fortes suspeitas de febre aftosa em uma criação de porcos em Dixmude, no norte do país, a 30 quilômetros da fronteira com a França.

Apesar de os porcos apresentarem sintomas da doença (feridas na língua, bolhas, sangramentos e febre), os resultados dos exames sangüíneos não indicaram a presença do vírus. Porém, os veterinários preferem esperar mais 48 horas (até o fim do período de incubação) para ter certeza de que os animais não estão infectados. A granja belga foi isolada em um perímetro de 20km. O ministro da Agricultura, Jaak Gabriels, instaurou a proibição total do transporte de animais no país.

Apenas ontem foram detectados oito novos casos da doença na Grã-Bretanha. Na República da Irlanda, altamente dependente da atividade pecuária, 500 policiais e mil militares patrulham a fronteira para evitar a entrada de animais vindos da Irlanda do Norte — onde foi descoberto um foco da doença.

As autoridades britânicas não se comovem com a preocupação estrangeira e prometem suavizar a proibição de transporte de gado, vigente desde 23 de fevereiro. Os primeiros carregamentos deverão acontecer ainda esta semana, segundo indicou o ministro da Agricultura, Nick Brown. Ele reconheceu que a medida provoca um ‘‘risco limitado’’ ao se transportar animais portadores do vírus da febre aftosa em estado de incubação, impossível de ser detectado.

Brown acrescentou que o risco diminui se os animais forem levados diretamente ao matadouro e sacrificados em 24 horas. O ministro prometeu que a proibição geral de transporte do gado — que deve vigorar até o dia 16 — será mantida enquanto a doença não for erradicada. O ministro da Agricultura da Irlanda do Norte, Brid Rodgers, disse que ‘‘a vigilância não deve ser reduzida’’.

Milhares de animais exportados pelos britânicos também já foram sacrificados em Portugal, Alemanha e Holanda. Desde 27 de fevereiro, as autoridades francesas ordenaram o abate de 50 mil ovinos. Eles são eletrocutados e depois enterrados ou cremados. O ministro da Agricultura e da Pesca, Jean Glavany, anunciou que os produtores serão indenizados.
As medidas para conter o avanço da aftosa são rígidas. O vírus se espalha com rapidez, é levado pelo ar por vários quilômetros e o contágio pode acontecer pela respiração. Por isso, os países vizinhos controlam tudo o que vem da Grã-Bretanha, inclusive os próprios britânicos. Como o vírus se hospeda facilmente em sapatos e roupas, os turistas vindos do outro lado do Canal da Mancha têm seus trajes desinfetados antes de entrarem em Portugal ou na França. Alguns são levados para saunas, onde o calor mata o vírus. Na Alemanha, os alimentos não consumidos em aviões vindos da Grã-Bretanha são confiscados.

‘‘Estamos atravessando um momento doloroso para os nossos agricultores. Mas, pelo menos uma parte de nossa produção de carne está voltando ao mercado’’, afirmou o primeiro-ministro britânico Tony Blair. A febre aftosa não afeta o homem — atinge principalmente animais com casco fendido, mas pode afetar também ratos e algumas aves —, porém tem sérias conseqüências para a economia. Agricultores britânicos estimam que a doença custará mais de US$ 1 bilhão à indústria de alimentos do país.

Um comitê de veterinários da União Européia se reunirá nos dias 6 e 7 para discutir o avanço da aftosa. A última vez que um surto da doença atingiu a Grã-Bretanha foi em 1981.

Chile acusa Argentina

Agricultores chilenos acusaram o Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentícia da Argentina (Senasa) de ocultar informações sobre o verdadeira intensidade do surto de febre aftosa no país. Dirigentes chilenos da Sociedade Nacional da Agricultura (SNA) e da Federação de Produtores de Leite acusam o governo argentino de saber da doença desde o ano passado e não comunicar o fato oficialmente ao Chile, país onde os rebanhos estão livres dessa enfermidade. O diretor da Senasa, Víctor Machinea, admitiu que a zona de risco é cada vez maior e anunciou que mais de 13 milhões de cabeças de gado serão vacinadas. Foram estabelecidas áreas de vigilância nas fronteiras com o Brasil, Paraguai e Bolívia.

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