- 18 de março de 2001

P-36 pára de afundar e clima é de otimismo

Bombeamento de nitrogênio em dois dos compartimentos que estavam inundados estabilizou a plataforma, que reduziu sua inclinação em dois graus

A plataforma P-36, no Campo de Roncador, no litoral norte fluminense, parou de afundar ontem e está com 23 graus de inclinação. Com isso, crescem as possibilidades de evitar seu naufrágio. Três explosões em uma das colunas de sustentação da plataforma deixaram um morto, um ferido grave e nove desaparecidos.

‘‘As chances cresceram’’, disse o gerente-geral da Petrobras na Bacia de Campos, Carlos Eduardo Bellot. Por volta das 14h de ontem o bombeamento de nitrogênio nos flutuadores foi interrompido e, até o fim da tarde, não havia sido retomado. O objetivo da operação é expulsar a água para mantar a plataforma estabilizada, eliminando o risco de naufrágio. Já foram bombeadas 4.100 toneladas de nitrogênio em dois dos compartimentos que estavam inundados.

‘‘Paramos porque muito nitrogênio estava sendo perdido devido a furos nos flutuadores. Tivemos que parar a operação para fechar esses orifícios e reiniciar o processo com mais eficiência’’, disse. Bellot ressaltou que não há prazo para o término da operação. ‘‘É impossível prever porque dependemos das condições do mar. As ondas estão aumentado de tamanho e há previsão de uma frente fria para amanhã (hoje) que pode agitar o mar e dificultar o trabalho dos mergulhadores.’’

Segundo Bellot, para que a plataforma volte à sua posição normal é necessária a retirada de pelo menos sete mil toneladas de água. Setecentas toneladas já foram retiradas. Bellot disse que também será utilizado ar comprimido, mas não agora. Para usá-lo, a plataforma precisa de um grau maior de estabilidade. ‘‘As bombas de ar comprimido são mais eficientes para escoar a água, mas precisam ser colocadas dentro das colunas. Já o bombeamento de nitrogênio pode ser feito de fora da embarcação’’, explicou.

Há 41 técnicos — 20 deles são mergulhadores, sendo 11 estrangeiros — distribuídos em 18 barcos, trabalhando em volta da plataforma na vedação e no bombeamento de nitrogênio. A Marítima Engenharia, responsável pelo projeto de construção da plataforma, mandou três mergulhadores e o coordenador dessa equipe, Jeovah Lima, informou que a previsão é de que eles fiquem lá, no máximo, 15 dias. Lima explicou que trabalham períodos de uma hora, três vezes ao dia. ‘‘Os melhores profissionais do Brasil estão na P-36. O que tem menos experiência já mergulha há mais de 15 anos’’, comentou.

A Petrobras também deslocou a plataforma P-23 para perto da P-36, de modo a utilizá-la como base de apoio de operações. Em nota oficial distribuída na tarde de ontem a estatal admitiu que os resultados obtidos com as primeiras tentativas de salvar a plataforma P-36 ‘‘são animadores’’.

Carlos Eduardo Bellot explicou que a P-36 tem seguro para naufrágio e avarias. ‘‘O prêmio é de US$ 500 milhões (pouco mais de R$ 1 bilhão), para o caso de perda total, e de US$ 125 milhões (cerca de R$ 250 milhões) para cobertura de gastos com reparos e salvamento da embarcação’’, informou. Ele observou que, se a plataforma não afundar, será reparada para operar no Campo do Roncador.

‘‘A maioria dos equipamentos eletrônicos está danificada, mas a estrutura ainda pode ser reaproveitada. É claro que ficará mais barato para a empresa reparar o equipamento do que construir um novo’’. O engenheiro ressaltou que a Petrobras estuda alternativas para manter a exploração de petróleo no Campo de Roncador, caso a P-36 naufrague. ‘‘Entre as possibilidades há o remanejamento de outras plataformas da Petrobras ou afretamento de outro equipamento’’, disse. Embora sem falar em cifras, Bellot admitiu que os prejuízos com a interrupção da produção são grandes. ‘‘Estávamos tirando 80 mil barris por dia de um óleo de boa qualidade, que custa cerca de de US$ 30 por unidade no mercado internacional.’’

Bellot admitiu ontem que não havia a possibilidade de resgatar os corpos dos desaparecidos na P-36. ‘‘Temos que esperar mais alguns dias para que o equipamento volte a uma posição na qual seja possível entrar com segurança’’, justificou. Bellot explicou que não foi possível nem mesmo ver os corpos dos funcionários. De acordo com o engenheiro, a maior parte dos cadáveres está em compartimentos lacrados.

‘‘Como não há energia na P-36, fica impossível abrir esses compartimentos. Se tentarmos fazer furos para entrar podemos provocar instabilidade na embarcação’’. Bellot adianta que o momento da entrada nas colunas será definido pelos próprios técnicos. ‘‘Eles estão observando a situação e podem sentir um momento em que haverá segurança para este procedimento. Agora, não é possível definir o grau de inclinação a partir do qual não há mais risco para quem entra nela.’’

Agência Estado

Pássaros "fazem greve" para preservar o Pantanal

Essa é a história do livro que está sendo escrito pelo jornalista José Hamilton Ribeiro, que passou anos acompanhando as aves nos ninhais da região

São Paulo - Repórter de muitas guerras e aventuras, o jornalista José Hamilton Ribeiro prepara-se para contar mais uma história. Só que os protagonistas não serão humanos, mas sim pássaros que, revoltados com a poluição do Pantanal, ameaçam não se reproduzir mais e mudar de país se nada for feito. A livro Greve das Garças será uma fábula infanto-juvenil e deverá ser lançado até o final do ano.

A idéia de fazer o livro veio de uma grande reportagem, realizada por Ribeiro para o programa Globo Rural, da TV Globo, que precisou de sete viagens e cinco anos para ser feita. Para documentar e entender o funcionamento de dois ninhais do Pantanal, o repórter fez longas caminhadas, passou horas observando as aves de uma torre montada pelos pesquisadores da Universidade do Mato Grosso e andou de carro, barco e até balão. O resultado é uma série de imagens incríveis, já mostradas na TV, e a consciência de que os pássaros estão ameaçados e, com eles, todo o Pantanal.

"Um levantamento da Universidade do Mato Grosso do Sul mostra que os ninhais no Estado estão diminuindo. Eram mais de 40 há vinte anos. Em 1999, somente 4 estavam ativos", conta Ribeiro. Nos dois ninhais que visitou - um às margens do Rio Vermelho, no Mato Grosso do Sul, e outro descendo o rio Cuiabá, logo após Barão de Melgaço, no Mato Grosso - acompanhou o acasalamento, a construção dos ninhos, o nascimento dos filhotes e a alimentação de cabeças secas, garças brancas, garças cinzas, garcinhas, socós bois, socós dorminhocos, garças morenas, colhereiros, biguás e biguatingas. Em somente um dos ninhais, os biólogos calcularam a existência de 5 mil ninhos, com dois filhotes cada, em média.

Para alimentar todos esses pássaros, são necessários muitos peixes. No Mato Grosso, calcula-se que somente as aves adultas consumam 5 toneladas de peixe por dia, com deslocamentos de até 30 Km para conseguir alimento. Cada ave adulta do ninhal come, por dia, o equivalente a 15% de seu peso, enquanto os filhotes ingerem diariamente 50% de seu peso.

"Os ninhais têm relação com o ciclo de cheias do Pantanal. Seu começo coincide com a chegada da seca, entre maio e junho, quando a vazante baixa concentra peixes e vida aquática em pequenas lagoas, e vai até novembro. Beneficiadas pela abundância de alimentos, as aves também jogam matéria orgânica na água, ou seja, onde há ninhal, há mais peixe. Resumindo, se os pássaros estão bem, o resto vai bem", diz José Hamilton.

No entanto, além sobreviver aos seus predadores naturais - jacarés, sucuris, onças e urubus -, os pássaros que chegam de todas as partes da América para reproduzir no Pantanal, precisam competir com os coletores de iscas vivas (os pescadores), desmatamento, fogo e a presença ostensiva do ser humano. "É só se estabelecer um ninhal, que logo surge um hotel. Estressadas com os turistas, as aves ficam muito mais vulneráveis a todos os predadores".

Fábula - Na história que Ribeiro está escrevendo, um pesquisador observa um comportamento diferente nas aves do ninhal e descobre que há uma mortandade de peixes no rio. Nesse momento, começa a fábula, onde os pássaros resolvem descobrir o que está matando os peixes e decidem não se acasalar, em protesto, no próximo ano. A greve reprodutiva é apenas o primeiro alerta: caso a causa do problema não seja solucionada, as aves ameaçam mudar de país e construir seu ninhal no Paraguai, Bolívia ou, em último caso, nos Estados Unidos.

"A fonte de poluição poderá ser fogo, veneno de alguma lavoura de algodão ou soja, depósito de vinhoto de usinas de álcool nas cabeceiras do rio, ou até sabotagem de alguma empresa que, para desmatar, produz um acidente químico", diz o escritor, que não antecipa o final.

Para José Hamilton, "o Brasil deveria tomar como exemplo o que aconteceu com os Everglades, ecossistema norte-americano semelhante ao Pantanal Mato-grossense, só que dez vezes menor". Lá, há 100 anos foi construído um canal para acabar com as inundações e fazer loteamentos nas terras secas. "Desapareceu a fauna, os canais ficaram vazios e a água do mar infiltrou no lençol freático, tornando salobras as águas das fazendas e a consumida na região de Miami. Agora, estão estudando como eram os rios para restabelecer o que era. Vão dinamitar os diques e gastar bilhões de dólares para consertar o erro".

Autor de um outro livro sobre a região (Pantanal, Amor Baguá), que já está na 15ª edição, Ribeiro acredita que a construção de uma hidrovia no rio Paraguai terá o mesmo efeito sobre o Pantanal. "Querem aprofundar o canal e tirar as curvas do rio. Com isso, as águas rasas, que levam quatro meses para ir de Cuiabá a Corumbá, vão chegar em oito dias, sem parar nos criatórios de peixes. E sem peixes, não há pássaros".

Maura Campanili

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