Plataforma afunda mais
e ameaça meio ambiente
Técnicos holandeses, contratados pela
Petrobras, fazem esforços para salvar a P-36. Se o
equipamento submergir, mancha de óleo poderá chegar às
praias
O presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul,
afirmou ontem que a plataforma de petróleo P-36, na
Bacia de Campos, afundou mais meio metro da noite de
sexta-feira até o início da manhã de ontem. Segundo
Reichstul, as perspectivas de que o equipamento não
afunde completamente ficaram mais otimistas, uma vez que
a P-36 havia adernado 1,5 metro no primeiro dia do
acidente, na quinta-feira, e, ontem, estava afundando num
ritmo de 2 metros a cada seis horas. Admitiu, porém, que
os riscos ainda são grandes. A P-36, a maior plataforma
de produção de petróleo em alto-mar do mundo sofreu
três explosões na madrugada da quinta-feira.
A possibilidade de que a plataforma mergulhe no mar
completamente levaram o Ibama a enviar a Campos o
coordenador regional, Carlos Henrique Mendes, para uma
reunião com a diretoria da companhia, para programar
providências preventivas. Na reunião houve
divergêmcias. Enquanto o Ibama sustenta que o óleo pode
chegar à costa, a Petrobras nega essa possibilidade.
Segundo o coordenador regional do Ibama, o óleo diesel
armazenado no interior da plataforma pode chegar às
praias de Cabo de São Tomé (Campos) e Cabo Frio, no
norte fluminense. ‘‘O óleo poderia chegar ao
litoral levado pelas correntes em cerca de oito
dias’’, afirmou. Já o gerente-executivo de
segurança e meio ambiente da Petrobras, Irani Varella
descartou essa possibilidade. Segundo ele, se houver
vazamento, o óleo não irá para a costa e sim para
alto-mar. ‘‘Temos simuladores que nos orientam
sobre isso e os estudos mostram que o óleo tende a se
afastar da costa’’, afirmou. ‘‘Caso o
óleo vá para alto mar, os danos ambientais seriam
mínimos’’.
O gerente-executivo de Exploração e Produção da
Região Sul-Sudeste da Petrobras, Carlos Tadeu da Costa
Fraga, afirmou que 30 pessoas, entre mergulhadores,
engenheiros e técnicos, estão trabalhando na tentativa
de salvar a plataforma. Técnicos holandeses,
especializados no salvamento de embarcações, comandam
as operações. Segundo Fraga, foi providenciada a
vedação da coluna atingida pelas explosões para evitar
mais entrada de água na plataforma. Ele também disse
que foram instaladas mangueiras na P-36 para permitir a
injeção de nitrogênio na coluna inundada. O objetivo
é que o gás expulse a água que está na coluna e, com
isso, a plataforma recupere a sua estabilidade.
Reichstul afirmou que a prioridade é estabilizar a
plataforma para resgatar os corpos dos 10 trabalhadores
desaparecidos. A Petrobras não acredita mais que haja
sobreviventes. ‘‘Eles pagaram com suas
próprias vidas para defender a segurança da plataforma,
dos nossos funcionários e dos nossos terceirizados ,
disse. Ele informou que os dez trabalhadores pertenciam a
duas brigadas de incêndio e tinham a obrigação de
proteger os outros funcionários. ‘‘Nenhuma
pessoa que não estava envolvida no combate foi ferida.
Esses dez trabalhadores são heróis, são
bravos’’, disse Reichstul, em Macaé. A
família de Sérgio dos Santos Souza, uma das vítimas,
no entanto, estava revoltada com o acidente e disse que
os funcionários da brigada de incêndio não estavam
preparados para a função.
‘‘Meu irmão era mecânico. Essas brigadas são
formadas por trabalhadores que têm outras funções na
empresa. Tem eletricistas, operadores de tubulação. É
um absurdo. Eles são submetidos a múltiplas funções
e, num momento desse, de acidente, estão cansados e sem
o preparo adequado. Não são bombeiros’’,
disse Sandra Maria dos Santos Souza. O resgate dos dez
trabalhadores é dificultado porque todos os corpos,
segundo a Petrobras, estão confinados na coluna que
explodiu e está inundada.
Equipes de resgate que estão na plataforma P-36, em
Campos, encontraram um corpo na manhã de ontem. Foi
levado de navio para o Instituto Medico Legal de Macaé,
onde será identificado. Outros nove corpos continuam
sendo procurados. Já o operário Sérgio dos Santos
Barbosa, ferido nas explosões, continua internado em
estado grave. O boletim médico divulgado pelo Hospital
da Força Aérea do Galeão informa que o operador está
sedado, apresentando pressão arterial e níveis de
oxigenação sangüínea satisfatórios e respirando com
o auxílio de aparelhos. O funcionário da Petrobras tem
98% do corpo queimados.
|
Mais dois acidentes
Operário foi arremessado a três metros de
distância por cabo de aço em outra plataforma Petrobras
na bacia de Campos. No Porto de Rio Grande (RS), barcaça
da empresa derramou óleo combustível, contaminando as
águas do canal e provocando a morte de peixes
Menos de 48 horas depois das explosões na plataforma
P36, e antes mesmo que fossem conhecidas as causas,
aconteceram outros dois acidentes em operações da
Petrobras. A Federação Única dos Petroleiros (FUP)
informou que ontem pela manhã um homem ficou gravemente
ferido na plataforma Cherne 2, também localizada na
Bacia de Campos. Antes, ainda de madrugada, 430 litros de
óleo combustível vazaram no Porto de Rio Grande (RS).
Ailton Carlos Constantino, que estava operando uma sonda,
foi atingido por um cabo de aço que se rompeu e o
arremessou a três metros de distância. Ele bateu a
cabeça em um corrimão e teve ferimentos no maxilar e
cortes no rosto. Constantino é funcionário de uma
empresa que presta serviços à Petrobras. De acordo com
a FUP, 82 trabalhadores morreram em unidades da Petrobras
desde 1998, sendo que 66 deles eram prestadores de
serviço. A federação atribui parte dos acidentes à
terceirização.
No Rio Grande do Sul, um provável descuido no
reabastecimento de um navio cargueiro provocou o
vazamento de 430 litros de óleo combustível no terminal
de contêineres do Porto de Rio Grande. Dezenas de
técnicos da Petrobras instalaram bóias de contenção
para evitar que a mancha negra, já espalhada pela orla
do canal de acesso ao porto, seguisse para oceano.
A Marinha instaurou inquérito para apurar as causas do
acidente, ocorrido por volta das 4h. O navio Intrépido,
da empresa carioca Transroll, estava atracado no cais
para completar o reservatório de combustível. Uma
barcaça da Petrobras fazia o abastecimento, quando uma
válvula do casco da embarcação se abriu. O vazamento
só foi descoberto porque os funcionários viram a
mancha. Os equipamentos da embarcação não acusaram
problemas de pressão no tanque.
‘‘Há indícios de que houve falha de algum dos
tripulantes, pois o óleo se acumulou ao longo do cais,
no lado oposto ao que a Petrobras fazia o fornecimento do
combustível’’, alegou o assessor ambiental do
Porto de Rio Grande, Paulo Maier.
O óleo foi canalizado para a margem do canal,
enegrecendo a areia e os trapiches da 4ªSeção da
Barra, comunidade de pescadores próxima ao local de
vazamento. Uma inspeção aérea feita por técnicos da
Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam)
constatou que o combustível derramado ficou confinado no
canal, sem contaminar águas de mar aberto.
Quatro horas depois do acidente, a Petrobras, que se
prontificara a comandar a operação de rescaldo,
designou operários para trabalhar na sucção do óleo
acumulado na orla. Mergulhadores da empresa também
fizeram um levantamento fotográfico da parte submersa do
cais, cuja perícia apontará se há resquícios de óleo
na estrutura. A coordenadora da Fepam, Lúcia Anello,
promete uma devassa nos sistemas de emergência dos
navios e do terminal de contêineres.
‘‘Tão logo foi verificado o vazamento, agimos
ao lado da Petrobras conforme as normas internacionais
para casos como esse. Providenciamos a contenção do
óleo e a posterior remoção, sob supervisão dos
órgãos ambientais gaúchos’’, afirmou o
diretor comercial da Transroll, Caio Morel.
‘‘Agora, paralelamente à Capitania dos Portos,
abriremos uma sindicância interna para vermos se
realmente houve falha de algum dos 19 tripulantes. Mas
adiantamos que o vazamento foi ínfimo diante da
capacidade do 980 toneladas do tanque. O navio
Intrépido, construído em 1991 sob nossa encomenda,
passa por revisões periódicas’’, disse ele.
O gerente-geral da Bacia de Campos, Carlos Eduardo
Sardemberg Bellot, negou que um estrangeiro, cujo nome
seria John Joseph, seria mais um ferido no acidente da
plataforma P-36. Segundo ele, Joseph foi desembarcado da
plataforma, após o acidente, com prioridade porque tinha
problemas de saúde e sentiu-se mal. Ele era um dos
quatro estrangeiros entre os 175 tripulantes da P36.
Estão todos mortos
Agora é oficial. Em nota divulgada ontem à noite, a
Petrobrás informou que não há sobreviventes entre os
nove desaparecidos na explosão na plataforma P36,
ocorrida na madrugada de quinta-feira. Segundo a empresa,
três engenheiros com ampla experiência em operações
de sistemas flutuantes, estabilidade de embarcações e
construção naval ‘‘entraram como voluntários
na plataforma e constataram que a coluna onde deve estava
trabalhando os desaparecidos está completamente
inundada’’. As famílias já foram informadas
das mortes. A causa mais provável da explosão é um
vazamento de gás.
Além da equipe que constatou a inundação, uma outra
passou toda a tarde tentando manter a plataforma
estabilizada com injeções de substâncias químicas nos
compartimentos e uso de equipamento pesado. Doze navios
estão sendo usados na operação, mas seu sucesso está
cada vez mais distante.
A confirmação das mortes fulminou as esperanças que a
maioria dos parentes dos desaparecidos ainda acalentava
até o começo da noite de ontem. ‘‘Eles
insistiam em dizer que o lugar onde os desaparecidos
estão tem oxigênio e que por isso eles poderiam estar
vivos’’, contou a assistente social do
Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, Maria da
Graça Alcântara da Costa Rocha.
Segundo ela, as famílias vinham recebendo informações
da empresa a respeito do acidente e das condições de
resgate dos desaparecidos a cada três horas. Os
familiares foram mantidos, todo o tempo, numa sala na
base da Petrobras em Macaé, localizada numa área cujo
acesso é proibido à imprensa. Maria Domingas Souza,
mulher do operador de produção Luciano Cardoso Souza,
um dos funcionários que desaparecidos, passou a manhã
de ontem junto com outros familiares das vítimas, foi
para casa para conversar com os três filhos de 13, 15 e
18 anos, por volta das 13h, e voltou para a empresa logo
depois. ‘‘Vou ficar aqui para saber
informações sobre o que está sendo feito. Depois que
resgatarem meu marido, quero mais é que a plataforma
afunde’’, desabafou.
Agência Folha
|