- 16 de março de 2001

O pior acidente da era Reischtul

Rio — Henri Phillipe Reichstul completa no próximo sábado dois anos de gestão na presidência da Petrobras. Esses últimos dois dias, na sua opinião, estão sendo os momentos mais críticos desse período, por causa da aflição vivida com os nove funcionários desaparecidos e pelo menos um morto, no acidente da P-36.

‘‘Sem dúvida, esse é o pior acidente de minha gestão. A morte de um funcionário e os desaparecidos representam um baque muito grande. É um momento muito difícil’’, comentou o presidente da estatal. Desde sua posse, Reichstul tem enfrentado frequentes acidentes ambientais causados por vazamentos em dutos da Petrobras, que causaram desgaste na imagem da empresa. O maior deles, em julho do ano passado, derramou 4 milhões de litros de óleo na área da refinaria Presidente Vargas, em Araucária (PR).

Reichstul rejeita as afirmações de que os acidentes poderiam fazer parte de uma estratégia que tem a finalidade de facilitar o processo de privatização da Petrobras. Por essa tese, o desgaste de imagem tornaria a população favorável à venda da estatal. ‘‘Todo o esforço do governo e da minha gestão tem sido no sentido de transformar a Petrobras numa empresa de energia integrada, não apenas de extração de petróleo, tornando-a mais competitiva diante da concorrência’’, ressalta. ‘‘Só neste ano estamos investindo US$ 6 bilhões e ninguém faz isso para enfraquecer a empresa.’’

Ele também foi veemente ao afirmar que nenhuma das investigações em torno dos acidentes da Petrobras indicou a possibilidade de que tenha havido sabotagem de funcionários descontentes ou de agentes externos. ‘‘Seria uma saída muito fácil enveredar por esse caminho’’, comentou. ‘‘Mas não temos nenhuma evidência de sabotagem.

A preocupação imediata da empresa, segundo ele, é dar apoio às famílias dos empregados desaparecidos na explosão e fazer esforços para que seja possível o resgate de corpos na estrutura da plataforma.

Agência Folha


Falhas de montagem

As explosões na maior plataforma de petróleo da Petrobrás podem ter ocorrido por uma falha de montagem. Segundo um ex-presidente da Petrobras, é provável que algum item tenha passado despercebido durante o período de quatro meses de inspeção antes do início da operação. ‘‘Deve ter sido uma falha boba, mas com conseqüências desastrosas’’, comentou o ex-presidente, que pediu para não ser identificado.

Segundo ele, este acidente é típico de equipamentos com menos de cinco anos de uso, cuja vistoria não teve o rigor necessário. A P-36 estava operando há apenas 11 meses. Um técnico da Petrobras que participou da equipe de engenheiros que acompanhou a obra da P-36 garante que o equipamento ‘‘era absolutamente seguro’’ — apesar das adaptações que sofreu para extrair petróleo a uma profundidade superior à inicial.

A grande concentração de plataformas na Bacia de Campos (71) transforma a região em um ‘‘barril de pólvora flutuante’’, como define o presidente do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, Fernando Carvalho.

O gerente geral da Petrobras na Bacia de Campos, Carlos Eduardo Bellot, reconhece que os trabalhadores embarcados nas plataformas estão expostos a um risco excessivo e permanente. ‘‘Trabalha-se com gás e óleo em altíssimas condições de temperatura e pressão e, portanto, com muito risco. Cabe a nós aliviar este risco’’, afirma. Cada plataforma de produção é um colosso de aço com altura equivalente a prédios de mais de 30 andares e peso entre 25 mil e 40 mil toneladas.

Para Bellot, seria leviano dizer que, em função do acidente, a direção da empresa esteja negligenciando da questão ambiental e de segurança. ‘‘Catástrofes deste porte acabam com a imagem de uma empresa’’, lamenta.

Inquérito apura acidente

O Ministério Público do Estado do Rio instaurou inquérito civil público para apurar responsabilidades pelo acidente na plataforma P-36 e o eventual crime ambiental provocado pelo desastre. No ofício, assinado pela promotora de Justiça Gabriela Tabet de Almeida, há uma determinação para que a Petrobras seja notificada a apresentar, no prazo de 20 dias, esclarecimentos técnicos sobre o acidente. A Polícia Civil de Macaé terá o mesmo prazo para dar informações sobre a instauração de inquérito policial e remeter cópias de eventuais peças técnicas, termos de declarações e relatórios constantes dos respectivos autos. A Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) também terão 20 dias para elaborar um laudo pericial do local do acidente sobre eventuais danos ambientais provocados pelo desastre.

Agência Estado

Ministro elogia gestão da estatal

O ministro de Minas e Energia, José Jorge, afirmou ontem que não vê problemas na permanência do presidente da Petrobras, Henri Philippe Reichstul, à frente da empresa após o acidente na plataforma P-36. ‘‘Acidentes infelizmente acontecem’’, disse o ministro. Segundo José Jorge, Reichstul tem tomado todas as providências possíveis para contornar os problemas decorridos do acidente. ‘‘Ele tem feito uma boa administração’’, afirmou José Jorge, se referindo também aos vazamentos de óleo em áreas de proteção ambiental registrados nos últimos anos. Ontem à tarde, em Recife, o ministro e o presidente Fernando Henrique Cardoso participaram de evento de lançamento do Projeto Alvorada. Os dois não se falaram. José Jorge disse também que evitou ir ao lugar do acidente porque a sua visita implicaria a ocupação de um dos helicópteros usados pelas equipes técnicas de resgate.

Agência Folha

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