- 10 de março de 2001

Tijuco Alto volta a preocupar quilombolas

São Paulo - Representantes das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira deverão realizar, na próxima segunda-feira, uma manifestação em frente à sede do Ibama, em São Paulo, contra a construção da Usina Hidrelétrica de Tijuco Alto. Proposta pela Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do Grupo Votorantim, para o rio Ribeira de Iguape, na divisa dos estados do Paraná e São Paulo, a barragem está com o processo de licenciamento ambiental paralisado desde 1994, por efeito de uma liminar.

Segundo João Paulo Capobianco, coordenador do Instituto Socioambiental (ISA), as comunidades voltaram a se mobilizar porque o Ibama deverá realizar uma vistoria no local nos próximo meses, para conceder o licenciamento prévio. “Essa vistoria foi marcada inicialmente para o final do ano passado, o que deixou os quilombolas desesperados, mas foi cancelada pelo Ministério do Meio Ambiente depois de pressão imediata de entidades da sociedade civil”, diz.

A hidrelétrica de Tijuco Alto tem o objetivo de aumentar a oferta de energia para o complexo metalúrgico da unidade da CBA instalada em Mairinque (SP). O projeto é motivo de polêmica há anos entre prefeitos do Vale do Ribeira, que vêem no empreendimento fonte de prevenção de enchentes e desenvolvimento para a região, e ambientalistas e comunidade tradicionais, que temem os efeitos ambientais e sociais de barragens no Ribeira de Iguape - único rio de porte médio não barrado no estado de São Paulo e que corta o maior remanescente florestal existente de Mata Atlântica.

Em 1994, após conturbado processo de análise de seu estudo de impacto ambiental, a hidrelétrica obteve licenças prévias dos governos de São Paulo e Paraná. Liminar conseguida em ação civil pública proposta pelo Ministério Público, levou o processo para responsabilidade do Ibama, já que o Ribeira de Iguape, que corre em dois estados, é um rio federal.

Embora não estejam na área de inundação da represa, as comunidades quilombolas, localizadas rio abaixo, temem impactos ambientais como a contaminação da água do rio, pois trata-se de uma região de minerações de chumbo, e os efeitos de uma grande enchente, que obrigaria a liberar de uma vez as águas da barragem.

Segundo Capobianco, porém, o maior problema é que, para combater as enchentes do Ribeira de Iguape, seria necessário a construção de mais três barragens - Itaóca, Funil e Batatal -, projetos da Cesp, que foram abandonados por problemas socioambientais. “Se essas barragens fossem construídas, oito terras quilombolas seriam inundadas em diferentes proporções. João Surra, por exemplo, desapareceria, Praia Grande teria 97% de seu território submerso. Além disso, a maior parte dos moradores perderiam suas casas, pois moram na beira do rio. Desapareceria também a igreja de Ivaporunduva, tombada pelo patrimônio histórico”, diz o coordenador do ISA.

Para as comunidades e ambientalistas que atuam na região, a construção de Tijuco Alto seria o estopim para a construção também das demais barragens. Na opinião de entidades que participam do protesto na próxima semana, como o ISA e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o custo benefício de Tijuco Alto, não compensa os riscos. “Depois de construída, deve gerar pouco mais de 100 empregos na região, que também não será beneficiada pela energia produzida. Além disso, quando a hidrelétrica foi concebida, o gasoduto e as termelétricas ainda não eram alternativa energética no Estado”, defende Capobianco.

A manifestação na frente do Ibama servirá também para marcar o Dia Internacional de Luta contra Barragens, que acontece no próximo dia 14, quando haverá manifestações de atingidos por barragens em Brasília. Uma campanha, disponível no site do ISA (www.socioambiental.org), pede à população que envie mensagens às autoridades responsáveis contra a construção de barragens no Vale do Ribeira.

Especialistas colocam em dúvida ataque de tubarão

Recife - A imprudência dos banhistas tem sido apontada como a causa de várias mortes por ataque de tubarão em Recife nos últimos anos. A vítima mais recente foi o estudante Carlos Alberto Brasileiro, de 20 anos, encontrado morto no último sábado, na praia de Boa Viagem, em Recife, Pernambuco. De acordo com o Instituto Médico Legal (IML), Brasileiro foi atacado por um "animal marinho de grande porte". Para o professor especialista em tubarões e raias, Otto Bismarck, da Universidade Santa Cecília, em Santos, a maior imprudência foi na divulgação do caso. "É claro que o menino pode ter sido atacado por um tubarão, mas não temos condições de afirmar que houve negligência do banhista, nem que ele tenha sido morto pelo animal."

Segundo Bismarck, é possível que o ataque tenha ocorrido quando o estudante já estivesse morto. O professor afirma já ter examinado outros 32 casos com vítimas fatais semelhantes a este, nos quais os corpos apresentavam lesões causadas por tubarões, mas não ficou comprovado se as mordidas foram com as vítimas vivas ou já mortas.

Caso baiano - Para Bismarck, que defenderá este semestre uma tese de doutorado sobre as espécies e ataques de tubarões no Brasil, um caso mais evidente aconteceu na última sexta-feira, no sul da Bahia. Ele disse que um garoto de 12 anos, cuja identidade preferiu manter em sigilo, teve a perna esquerda amputada, enquanto nadava em um praia no sul da Bahia.

Segundo ele, o garoto estava "pegando jacaré" com o pai quando sentiu uma pressão, seguida por uma dor muito forte na perna, que foi arrancada seis centímetros abaixo do joelho. Nem o pai, nem o garoto chegaram a ver o animal, mas tudo leva a crer, segundo Bismarck, que foi mesmo um tubarão.

Embora a maior parte das ocorrências se concentre nas praias de Pernambuco, o professor adverte para que banhistas e surfistas estejam sempre alertas em qualquer região do Brasil. Depois de Pernambuco, as maiores incidências de ataques estão em São Paulo, em especial na Baixada Santista, onde existe grande concentração de banhistas.

Cuidados - Alguns cuidados básicos, segundo Bismarck, podem prevenir possíveis ataques: evitar ir muito para o fundo do mar, nadar sozinho, entrar na água com ferimentos no corpo, urinar ou defecar no mar e nadar nos horários em que os tubarões procuram mais por alimentos (geralmente do entardecer até o amanhecer, das 16h às 8h).

Os tubarões também costumam aparecer mais perto da costa nos períodos de lua cheia e nova, quando existe maior variação das marés, em dias de ventos fortes e em locais de águas mais turvas. Praias lotadas, segundo Bismarck, também são alvos preferidos dos tubarões.

No caso de a pessoa avistar um tubarão ou animal estranho, o professor aconselha que saia imediatamente do mar, mas sem fazer estardalhaço, pois as vibrações da água chamam ainda mais a atenção do tubarão.

E na pior hipótese, se a pessoa for atacada pelo peixe, que tente acertar socos e pontapés, em especial no focinho, que é a parte mais sensível do animal. "O homem é sem dúvida a presa que mais luta pela sobrevivência no momento de ataque", diz. Em alguns casos, segundo ele, essa "luta" pode fazer com que o tubarão se afaste e desista da presa.

Dieta - É consenso entre os estudiosos da área, que o homem não é o alimento preferido dos tubarões e que esse animal, pintado como um "monstro," é, na verdade, "inofensivo", como afirma o professor de zoologia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Ulisses Leite Gomes. "O homem nunca fez parte da dieta dos tubarões. Os ataques acontecem porque há invasão do território deles.", diz. O professor afirma que os tubarões se alimentam de peixes de pequeno e médio portes, incluindo outros tubarões.

Segundo Gomes, das cerca de 80 espécies existentes no Brasil, apenas três ou quatro costumam atacar, entre elas o tubarão cabeça-chata, muito comum nas praias do Nordeste e que já foi encontrado em rios, como o Amazonas.

Ainda assim, muitas vezes o banhista é atacado por ser confundido com uma foca ou outro animal marinho de médio porte. Gomes lembra que a mordida de um tubarão pode ter o impacto de até uma tonelada.

Porto inseguro - Na opinião do professor Gomes, uma das explicações para o aumento de ataques de tubarões em Recife pode estar na construção do Porto de Suape, em 1989, que desequilibrou o ecossistema da região. O professor Otto Bismarck concorda. "Entre tantos outros problemas ambientais está o aumento de tubarões na região." Desde 1992, foram registrados 33 ataques no litoral sul de Pernambuco, das quais 11 morreram, segundo dados de pesquisa realizada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Em Recife, o último ataque havia sido em dezembro de 1999, também na praia de Boa Viagem, no qual a vítima teve uma perna amputada, mas conseguiu sobreviver.

Luciana Xavier

Tubarões atacam por engano

Campinas, SP - Vítimas de uma péssima imagem, forjada por livros e filmes de aventuras, os tubarões, na verdade, não são vilões sanguinários sempre prontos a atacar pessoas. São predadores, sim, mas reagem de acordo com o instinto e não com a racionalidade imaginada pelo homem. Conhecer um pouco mais sobre estes peixes, sua percepção e seu comportamento, pode fazer uma grande diferença para o banhista, surfista ou mergulhador, que um dia encontrar um deles dentro d´água.

Existem 350 espécies de tubarões, das quais 12 são potencialmente perigosas para o homem. A maioria destas tem ótimo olfato, péssima visão e instinto territorial. Ou seja, conseguem detectar, de longe, animais feridos (pelo cheiro do sangue) e movimentos e defendem o território em que habitam contra invasores.

Em geral, alimentam-se de presas debilitadas ou feridas e têm nas focas, leões marinhos e outras espécies semelhantes seu alvo principal. Por isso, têm percepção aguçada para animais se debatendo na superfície da água, que é como parecem os humanos, seja nadando, seja remando em cima de uma prancha de surfe. Segundo especialistas como William Burns, do Pacific Center for International Studies (PCIS), de Wisconsin, devido a esta percepção equivocada é que os tubarões atacam o homem.

Para evitar "enganos" é importante, em primeiro lugar, não se aventurar no território de tubarões. Se o banhista já está na água e o tubarão por perto, o jeito é limitar ao máximo os movimentos ou subir na primeira prancha de surf ou barco que aparecer e retirar da água braços e pernas. Se for inevitável, ao nadar ou surfar em águas desconhecidas ou com histórico de acidentes, é fundamental levar companhia. A maioria dos casos com morte se dá por falta de socorro.

Liana John

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