| - 04 de Maio de 2001. |
| Mineração marítima
ameaça costa capixaba Santa Cruz, ES - A intenção da empresa Thotam Mineração, de extrair algas calcárias da região de Santa Cruz, na plataforma marinha do Espírito Santo, vem encontrando grande resistência por parte dos ambientalistas e dos moradores locais. As algas calcárias são usadas na agricultura para correção do pH do solo, sendo, inclusive, preferidas nos cultivos orgânicos. Elas se acumulam em grande bancos submersos, de forma semelhante aos corais, tendo algas vivas fixadas sobre restos mineralizados de algas mortas. O ambiente é propício para o desenvolvimento de inúmeras espécies marinhas, sendo que, apenas neste banco do Espírito Santo, biólogos ligados à Estação de Biologia Marinha Ruschi estimaram mais de mil espécies de invertebrados e 300 de vertebrados. Conforme levantamento do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), o banco de algas calcárias capixaba é o maior do País, com um estoque de 460 milhões de toneladas, equivalente a 85% de todas as reservas brasileiras. Ele ocorre diante da foz dos rios Piraqueaçu e Piraquemirim, onde estão os manguezais mais extensos daquele litoral, com 13 e 9 quilômetros de extensão, respectivamente. "O impacto da mineração neste banco de algas calcárias traz o risco de extinção de espécies, prejuízos para a reprodução, diminuição de produtividade pesqueira, erosão da orla e extinção de empregos ligados à pesca e ao turismo", explica o biólogo e educador André Ruschi, da EBMR. A Thotam já obteve uma licença de pesquisa de lavra mineral e hoje apresentou a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) da extração que pretende fazer. Mas vem encontrando forte oposição dos ambientalistas e moradores locais. Segundo membros da Associação de Moradores de Santa Cruz, a área onde as algas seriam extraídas fica muito próxima da praia e compromete o turismo, organizado em torno de pousadas e pequenas agências de passeios e trilhas. O porto onde o material seria beneficiado e embarcado em caminhões influencia os mangues vizinhos e fica dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Federal de Santa Cruz, que tem 1.018 km2. Destes 104 são continentais e 913 marinhos, abrangendo, portanto, o banco de algas. Parte da APA coincide com uma área indígena de guaranis e uma das aldeias está bem próxima do terreno cedido à empresa pela municipalidade. Além da ameaça da mineração marítima, os bancos de algas vem sofrendo há cerca de 2 anos, com a coleta sistemática de algas vivas e mortas nas praias, durante a maré baixa, conforme denúncia registrada no Ibama por André Ruschi. Ele alerta para as conseqüências desta coleta indiscriminada, que pode modificar a estrutura do solo e alterar os raros mangues litorâneos, que nascem entre rochas, corais e a areia da praia. Naquela região, o mar tem muitos nutrientes, provenientes do rio Doce, originando um fundo de lodo em boa parte do litoral e sustentando este mangue litorâneo. Para evitar a degradação deste ambiente único, Ruschi sugere proibir a mineração numa faixa de 5 quilômetros a partir da orla, reiterar a proibição à mineração em mangues, estuários e baías e criar planos de emergência para reduzir os riscos de acidentes de grandes proporções. Liana John |