- 02 de Maio de 2001.

Índios da Venezuela procuram atendimento médico no Brasil

São Paulo - Mais de 600 índios yanomamis da Venezuela foram atendidos em postos de saúde brasileiros desde o ano passado, segundo informações da Urihi Saúde Yanomami, organização não-governamental que, em convênio com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), presta atendimento a cerca de 6,8 mil índios, 52% dos yanomamis no Brasil.

O êxodo teve início no ano passado e está se intensificando. Um relatório da Urihi informa que 453 yanomamis provenientes de aldeias na Venezuela, próximas à fronteira brasileira no Amazonas, foram atendidos nos postos Auaris, Xitei, Homoxi e Toototobi, em 2000. Somente nos três primeiro meses de 2001, foram feitas 225 notificações de atendimento de índios venezuelanos, metade das ocorrências em 2000.

Todos os casos registrados no ano passado se referiam a doenças infecto-parasitárias, entre as quais 184 casos de malária, 110 de infecções respiratórias agudas, 48 casos de doenças dermatológicas, 30 casos de conjuntivite, 13 de diarréia e desidratação, 2 de tuberculose e 4 de coqueluche. Houve quatro óbitos, sendo dois de crianças com menos de um ano de idade.

Segundo o médico Cláudio Esteves de Oliveira, presidente da Urihi, os índios venezuelanos que chegam aos postos brasileiros relatam ter presenciado muitas mortes de pessoas nas aldeias e durante a viagem, provavelmente por malária.

“Os índios têm resistência baixa a doenças como tuberculose e coqueluche, o que dá maior gravidade aos casos. Os yanomamis brasileiros contam com uma boa cobertura vacinal, mas os venezuelanos não possuem nenhuma”, diz Oliveira. O médico informa que a procura por atendimento no Brasil vem aumentando devido à melhora no atendimento aos índios brasileiros, que passaram a ter, a partir de 1999, atendimento permanente com os convênios da Funasa com organizações não-governamentais.

“A situação é dramática, pois esses grupos, às vezes de 70 a 80 pessoas, se deslocam a pé por cerca de cinco dias por regiões onde não são muito conhecidos. Chegam aos postos em péssima situação, desnutridos e muitos com malária”, diz o médico. Essas comunidades permanecem nos postos brasileiros por duas a três semanas, dependendo do fornecimento também de alimentação das equipes da Urihi, que recebem o suprimento de avião. “Esses índios só recorrem ao Brasil por falta absoluta de opção, mas podem gerar um colapso na assistência brasileira, por conta do aumento da demanda”.

Segundo Cláudio Oliveira, os yanomamis não recebem nenhuma assistência médica na Venezuela. “Em 1998, fizemos uma expedição de cerca de 60 dias pela região do rio Siapa, na Venezuela, e verificamos, numa população de cerca de 800 índios, que 30% estavam com malária, com um índice espantoso de mortalidade. Essas informações foram passadas ao governo venezuelano, mas nenhuma providência foi tomada”, diz.

Desde que a Urihi assumiu a assistência aos yanomamis, os índices de mortalidade infantil e geral diminuíram muito entre os índios. Somente na região de Auaris, onde vivem 1.700 yanomamis, foram registrados 500 casos de malária em janeiro de 2000. Em março de 2001, foram apenas 20 ocorrências da doença.

Maura Campanili

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