- 30 de abril de 2001. (parabéns Márcio e Bianca)

Amazônia deve privilegiar indústria de alta tecnologia

Manaus - A Zona Franca de Manaus é um modelo aceito por cientistas para o desenvolvimento industrial da Amazônia, mas com restrições. A mudança do nome oficial Pólo Tecnológico de Manaus reflete a nova vocação econômica que se tenta dar à região, que é ter uma base industrial formada por empresas de alta tecnologia, chamadas limpas, por afetarem em menor grau o meio ambiente. "Cada fábrica deve ser examinada quanto ao seu tipo de poluição e consumo da mata, e quem consome muito não deve se instalar aqui", apontou Warwick Kerr, diretor do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Para ele, a indústria na Amazônia caminha cada vez mais para a informática e eletroeletrônicos, que usam as tecnologias limpas. Para que realmente funcione, um projeto como o da Zona Franca - que dá isenção fiscal para que as empresas se estabeleçam no local - precisa gerar uma cadeia produtiva ao seu redor, conforme explicou Glaci Zancan, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). "As fábricas precisam ter núcleos tecnológicos para haver inovação tecnológica; não basta fazer apenas montadoras, por exemplo", apontou ela.

Para isso, é necessário lutar para que o governo tenha um plano estratégico para o desenvolvimento científico e tecnológico da Amazônia, assunto que foi discutido na sétima e última reunião especial da SBCP, que terminou na sexta-feira em Manaus e cujo tema foi "Amazônia no Brasil e no Mundo". Dos recursos destinados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), apenas 2% vão para pesquisas na Amazônia, segundo apontou Adalberto Luís Val, pesquisador do Inpa.

Ele criticou o atual modelo para a área científica, porque distribui de maneira desigual as verbas para o setor no País, privilegiando os Estados das regiões Sul e Sudeste. "Apesar disso, o Inpa foi a instituição no Brasil que mais publicou trabalhos científicos entre os anos de 1981 e 1993, seguido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pela Universidade de São Paulo" contou. "Precisamos de ciência e tecnologia para ocupar essa região, mas temos pouco mais de mil doutores, sendo uma parte deles envolvidos com a administração dos institutos", apontou. Outro problema é a evasão de pesquisadores da Amazônia. Segundo apontam alguns cientistas da Amazônia, seria necessário no mínimo 2 mil doutores na região.

O governo atual está apenas começando este trabalho. Além de bolsas obtidas junto às agências federais de fomento à pesquisa, a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), órgão ligado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, separa uma parte de seus recursos para ciência e tecnologia. "Destinamos 2% de nosso orçamento para essa finalidade. No ano passado, o volume total investido em ciência e tecnologia foi de R$ 52 milhões, em 65 projetos na região", disse João Carlos Santos Jr., do Departamento de Promoção de Investimentos (Depin) da Suframa.

Segundo ele, mais de 400 indústrias estão espalhadas pelo pólo tecnológico hoje, que é baseado em indústrias de alta tecnologia. Apenas o setor de eletroeletrônico faturou em 2000 um pouco mais de US$ 10 bilhões. Santos justificou a continuidade de uso do modelo da Zona Franca e o uso do mesmo em outros locais da Amazônia pelo fato de ele ter impulsionado o desenvolvimento de Manaus e por ter consolidado a infra-estrutura local. "É um modelo que está em fase de maturação, de transformações", afirmou.

As mudanças se referem, segundo ele, principalmente ao fato de a Zona Franca estar aumentando as exportações, deixando de atender apenas ao mercado interno. No ano passado, a região exportou US$ 1,2 bilhão.

A função da Suframa é formar parceria com os Estados e trabalhar com a administração de recursos a fundo perdido na área de apoio à produção e desenvolvimento regional. Ela elaborou um projeto onde os cinco Estados onde atua: Roraima, Amazonas, Acre, Amapá e Rondônia; escolhem cinco setores industriais que querem de desenvolver. Dentro desses setores, os pesquisadores fazem projetos para receber investimento para seus estudos.

Cada Estado pode propor cinco projetos. "São 25 projetos por ano nos cinco estados, totalizando 100 projetos até 2003", afirmou.

Além de verba para investir no setor, a Suframa realizou workshops para discutir a cadeia produtiva e extensão rural, que foram estudados pela instituição, estudou plataformas tecnológicas, elaborou projetos demonstrativos, e ajudou na criação de dois centros tecnológicos; o Centro de Biotecnologia da Amazônia e de energia alternativa.

Para os pesquisadores, sem a gestão correta dos recursos, de nada adianta os esforços, pois o que é feito nos laboratórios não chega à população local Os supostos desvios de dinheiro na Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), por exemplo, não afetam diretamente o trabalho científico, pois a entidade não tinha trabalho nessa área. "Mas foi um dinheiro jogado no lixo, se você desse R$ 120 para cada garoto ir para a escola, poderíamos manter 300 mil crianças na escola por 10 anos com o desvio de verba" exemplificou Kerr.

Janaína Simões

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