| - 28 de abril de 2001. |
| Pesquisador aponta
nichos de mercado para a Amazônia Manaus - Em mais de 30 anos de pesquisa na área química na Amazônia, o pesquisador José Guilherme Soares Maia, do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) conseguiu identificar 15 classes de produtos de diversos setores da economia que poderiam se beneficiar dos recursos naturais da região, de modo que promovesse o desenvolvimento sustentável amazônico. Entre esses nichos de mercado que têm potencial para crescer com um maior conhecimento dos compostos das plantas amazônicas estão produtos como fitomedicamentos, corantes, ração animal e inseticidas naturais. Uma das áreas mais promissoras e menos exploradas hoje pela indústria é a produção de óleos essenciais de plantas aromáticas e de aromas de flores, tema de dois livros a serem lançados pelo cientista. "Temos em nosso banco de dados 1.200 plantas aromáticas amazônicas cadastradas", disse ele, na sétima reunião especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que se encerra hoje em Manaus, Amazonas. O tema deste ano é "Amazônia no Brasil e no Mundo". "Até agora, em toda a sua história, a Amazônia só explorou três plantas aromáticas disponíveis na floresta", destacou. Em seu trabalho de identificação de plantas aromáticas e compostos, o pesquisador submeteu diversos óleos obtidos pela pesquisa para um perfumista da França, país líder na produção desses produtos. "Trinta óleos foram classificados por ele como excelentes para perfumaria", contou. Há também o uso das plantas aromáticas para o setor alimentício e outros que se utilizam de aromatizantes. Commodities de baixo preço, como borracha, óleo de resina de copaíba e castanha-do-pará, são alguns dos elementos mais representativos da economia na Amazônia brasileira, mas não são negócios lucrativos e também não visam o desenvolvimento sustentável. Por isso, os pesquisadores buscam alternativas para a economia. "O rendimento do coletor do produto é de alguns centavos por quilo vendido. Já o comprador lucra muito mais coma venda da nossa matéria-prima como um produto natural para os países de Primeiro Mundo", afirmou. Dessa forma, não é apenas descobrindo os compostos que o País poderá ganhar economicamente, mas sim fazendo o produto manufaturado, que gera maior lucro. Janaína Simões |
| Falta cooperação
entre países da Amazônia Manaus - Os pesquisadores brasileiros tendem a ignorar a produção dos outros países do continente que têm floresta amazônica e privilegiar as relações com países desenvolvidos nos estudos sobre a região. A crítica foi feita por Otávio Velho, antropólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no último dia da sétima reunião especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBCP), em Manaus (AM). "Apesar de alguns esforços louváveis, boa parte dos pesquisadores, e falo antes de mais nada dos do Sul do País, ainda age na prática como se os limites da Amazônia se restringissem às fronteiras nacionais", apontou. O Brasil abriga 69% da área total da Amazônia, e o restante se espalha por mais cinco países: Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela. Para o pesquisador, a integração entre esses países fortalece a posição de cada um deles em relação às pesquisas e exploração sustentável da Amazônia, especialmente pelo fato de os países terem de enfrentar uma competição com os países desenvolvidos no mundo globalizado, já que eles têm tecnologia de ponta para pesquisa e um sistema de ciência e tecnologia mais forte. "A integração é importante para que fiquemos fortalecidos frente ao interesse internacional pela região", disse. "Isso pode ser um elemento de política externa importante", prosseguiu. "O curioso é que essa visão de fronteira não é compartilhada pelas populações que são estudadas", ressaltou, exemplificando na área de Antropologia o fato de ser importante haver integração entre os pesquisadores dos diversos países englobados pela floresta para o estudo de populações indígenas aparentadas. "Além dos benefícios advindos com relação aos objetos de estudo, também temos o acesso a arquivos, bibliotecas, sem falar da troca de informações entre nós e os cientistas desses países", ressaltou. "Não podemos nos colocar como praticantes de um outro imperialismo perante nossos vizinhos, mas adotar uma postura de ajuda, de diálogo" recomendou. Ele acredita que os países estão abertos para essa integração. "Eles se ressentem da pouca atenção dada pelos países desenvolvidos ao trabalho deles, e não podemos deixar que esse ressentimento se vire para nós também", afirmou. Para ele, não se pode deixar de fazer essa
integração por conta dos problemas brasileiros
relativos à Amazônia. "A Amazônia não é só
brasileira, e apesar da nossa dificuldade de resolver os
problemas internos, não podemos achar que temos de
tratar só disso" disse. |
| Combate à cocaína
prejudica a Amazônia Manaus - O plano norte-americano de combater as plantações de cocaína da Colômbia com o uso de um fungo transgênico não é aceito por cientistas brasileiros, pois os impactos para a Amazônia provavelmente serão desastrosos, conforme apontou Warwick Kerr, diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), maior entidade de pesquisa científica da região. A falta de informação sobre o plano dificulta qualquer previsão sobre o que esse fungo poderia trazer de problemas para a maior floresta tropical do mundo, segundo Glaci Zancan, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que concluiu ontém a 7ª reunião da entidade em Manaus, Amazonas, com o tema "Amazônia no Brasil e no Mundo". "O problema todo é que não se conhece a fitopatologia das plantas da região e da própria coca", destacou Glaci, professora de Bioquímica da Universidade Federal do Paraná. Fitopatologia é o estudo das doenças que atinge cada espécie de planta. Saber a fitopatologia é necessário para se avaliar o impacto do fungo no meio ambiente. "A espécie que eles escolheram tem em vários lugares do mundo, é muito vulgar e é fitopatógena de várias culturas agrícolas", garante. Além disso, os Estados Unidos mantêm em segredo o gene que será introduzido no fungo para que ataque a coca, vegetal que dá origem à cocaína, o que também impede os cientistas de terem uma primeira idéia do que poderia acontecer caso o plano se concretize. Kerr disse que não deveria nem ter sido cogitada a possibilidade do uso do fungo transgênico para matar as plantações de coca. "É um tipo de fungo, do gênero Fusarium, que pega em várias plantas", disse. "Não queremos um Plano Colômbia aqui, negamos a presença de exército estrangeiro no País e nisso nosso governo está certo", falou Kerr, sobre a questão da presença militar dos EUA em um país que faz fronteira com o Brasil. Na opinião do cientista, a fronteira brasileira com a Colômbia tem sido bem monitorada pelo exército brasileiro, o que ajudaria a impedir uma ação norte-americana em território nacional. Janaína Simões |