- 27 de abril de 2001.

Inpa elogia venda de certificados protegendo Amazônia

Manaus - A proposta de criação do sistema de certificados existente no Protocolo de Kyoto, para controle da emissão de carbono, pode ser positiva para o Brasil se o governo souber negociar o valor desses documentos, segundo Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), que participa da 7ª reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que termina nesta sexta-feira em Manaus.

Ele explicou que o valor do certificados devem ser superiores ao que realmente existe de carbono armazenado na floresta, porque países como o Brasil contribuem duplamente para diminuição da presença do carbono na atmosfera.

Além da promover a captura do gás produzido pelos países desenvolvidos pela conservação da mata, eles reduzem a sua própria emissão ao evitar o desmatamento e as queimadas, que também jogam carbono na atmosfera. "Esse é o segredo para que o clima ganhe, seria um erro básico vender o certificado na base apenas do gás que existe na floresta", disse.

Pela proposta do protocolo, os países em desenvolvimento venderiam certificados para os países desenvolvidos em troca da proteção das florestas e no quanto elas consomem de carbono no seu processo de fotossíntese. Funcionaria de maneira semelhante ao que se faz com ações.

Os países desenvolvidos são os maiores responsáveis pela emissão do carbono, que liberado na atmosfera se junta ao oxigênio para formar o gás carbônico, causador do efeito estufa. "É claro que isso seria acompanhado da redução das emissões por parte dos países desenvolvidos, como os Estados Unidos. Eles vão ter de reduzir suas emissões e para isso os deverão investir uma grande soma em dinheiro", ressaltou.

O pesquisador criticou a posição do presidente norte-americano George Bush, que se recusou a reduzir a emissão de carbono em seu país, responsável por 25% do despejo do gás. "Não adianta fazer como ele, uma hora vão ter de resolver o problema", afirmou.

O Brasil é responsável pela maior parte das emissões globais de carbono por desmatamento, apontou Carlos Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Segundo Fearnside, entre 1981 e 1990, a contribuição do desflorestamento tropical para o efeito estufa foi de 29%, sendo que o Brasil contribuiu com 6% a 7% apenas com o desmatamento na Amazônia.

Em 2000, foram desmatados 17 mil quilômetros quadrados da floresta brasileira. No total, já foram derrubados 560 mil de seus 3,65 milhões de quilômetros quadrados total. "Quase 2 milhões de campos de futebol por ano são desmatados, em média", apontou Nobre.

"Os pequenos agricultores desmatam para sobreviver. Parte dos recursos que viessem com os certificados poderiam ser investidos no treinamento deles, pois temos tecnologias que permitem a sobrevivência dos agricultores mais pobres sem destruir a floresta", sugeriu Nobre. Hoje, há muitos projetos-piloto na Amazônia que funcionam, mas para ele, é preciso ampliar essas iniciativas para toda a população.

O nível atual de carbono na atmosfera é de 370 ppm (partes por milhão). Antes da Primeira Revolução Industrial, essa média era de 280 ppm. Para o futuro, o cenário mais otimista, mantendo-se o crescimento as taxas atuais, aponta que essa média será de 460 ppm, enquanto as mais pessimistas indicam 1.000 ppm. "Nos últimos 400 mil anos, essa concentração nunca passou de 300 ppm de média", ressaltou o cientista do Inpe.

A Amazônia é responsável pelo armazenamento de 70 gigatoneladas de carbono, que se liberadas, ampliariam o efeito estufa de forma assustadora. O fenômeno alteraria temperatura, chuvas e a vegetação da região, que se tornaria uma savana pobre.

Em seus estudos, Nobre detectou que a floresta amazônica está crescendo. A Amazônia seria uma floresta estabilizada, ou seja, haveria um equilíbrio de consumo e produção de carbono. Mas a grande produção do gás está causando o aumento de tamanho das árvores que, teoricamente, não deveriam mais crescer.

Esse efeito, contudo, é limitado pela própria fisiologia das árvores, que não crescem indefinidamente. "A floresta pode saturar e nossa previsão é de que isso aconteça em meados deste século", contou Nobre. Essa função de absorver gás é cíclica. Nos períodos de seca, a floresta atua como fonte de carbono, ou seja, ela elimina gás para a atmosfera. Já nos anos chuvosos, ela absorve mais carbono do que perde, trabalhando como um sumidoro do gás.

Janaína Simões

Ibama multa Rede Ferroviária por vazamento de óleo

São Paulo - O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) realizou ontem, em conjunto com a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), uma inspeção à subestação da Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), em Iperó, interior de São Paulo, onde confirmou a existência de danos ambientais decorrentes do vazamento de 52 mil litros de óleo mineral contaminados com ascarel (substância altamente cancerígena). A subestação fica na antiga Estação Varnhagen, dentro da Floresta Nacional de Ipanema, área de proteção ambiental do Ibama.

Segundo Ofélia Gil Willmerfdors, gerente da Fona Ipanema, a Rede Ferroviária Federal, responsável pela subestação desde a privatização da Fepasa, será autuada em R$ 20 milhões, por infringir a Lei de Crimes Ambientais, e deverá contratar uma empresa especializada para realizar, no prazo de dois meses, um estudo completo sobre os impactos do vazamento e um plano de recuperação da área degradada. “É uma infração extremamente grave, devido à toxicidade do material. Além disso, o local fica a 100 metros da represa de Hedberz, que vai para o rio Ipanema, um rio classe 2, usado para abastecimento e agricultura. Caso o rio ou o lençól freático tenham sido atingidos pelo óleo, a utilização da água poderá ficar até inviabilizada, pois os resíduos de ascarel levam de 20 a 30 anos para desaparecer”, explica. As águas da região são utilizadas ainda para resfriamento do reator nuclear da Marinha.

O vazamento foi denunciado à Cetesb e confirmado em janeiro último. Na ocasião, a Rede Ferroviária foi multada em R$ 50 mil e foi dado um prazo para a retirada do material. Segundo Geraldo do Amaral Filho, da Diretoria de Controle de Poluição da Cetesb, a Rede chegou a pedir autorização para levar o óleo contaminado para uma empresa em Campinas, mas o pedido foi indeferido, porque a empresa não era autorizada a manipular ascarel. “No dia 18 de abril, voltamos a aplicar uma multa, dessa vez de R$ 100 mil e reiteramos as exigências, que não foram cumpridas”, diz Amaral.

O óleo era utilizado para resfriamento dos transformadores e capacitadores das subestações de energia da Fepasa que, com a privatização da rede, ficaram abandonadas, tornando-se alvo de saques e arrombamentos. Na tentativa de encontrar cobre ou outros materiais de valor, essas pessoas estão se expondo a substâncias tóxicas. No caso de Iperó, há a suspeita de que 12 mil litros do óleo tenham sido roubados e comercializados. “Se isso aconteceu, essas pessoas estão correndo perigo”, avisa Ofélia.

A situação, no entanto, não é isolada. “Os saques estão ocorrendo em todas os locais, em São Paulo e outros estados, onde a Rede está em liquidação. Por isso, o Ibama vai realizar, em conjunto com os órgãos estaduais, uma ação conjunta de verificação em todas as subestações abandonadas”, explica a gerente da Flona Ipanema. Derramamentos de ascarel e mercúrio já foram constatados também nas estações Brigadeiro Tobias (Sorocaba) e de Mairinque. No caso de Iperó, a Cetesb fez a remoção do mercúrio, “mas a responsabilidade pela recuperação é do poluidor”, afirma o assistente de direção da Cetesb.

O ascarel, identificado como PCB, é um óleo cancerígeno que penetra no organismo através da pele e se aloja principalmente no fígado. Seu efeito é irreversível. O solo contaminado por essa substância deve ser totalmente removido e levado para depósitos especiais. O maior risco nesse tipo de derramamento é a contaminação da água, seja de lençol freático, seja de lagos, rios e nascentes. “Apesar da quantidade ser significativa, a atual falta de chuva torna a drenagem lenta, por isso estamos torcendo para que não tenha acontecido o pior”, diz Ofélia Willmerfdors.

Maura Campanili

Risco de contaminação atinge águas da Amazônia

Manaus - Os pesquisadores estão descobrindo que a poluição já pode estar afetando não só os rios, mas também os lençóis freáticos na Amazônia. "Ela já começa a aparecer em águas subterrâneas de Belém (capital do Pará), próximo de lixões", disse Antônio dos Santos, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), na sétima reunião especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Manaus, Amazonas. Como os estudos sobre o problema ainda estão em fase inicial, os cientistas não sabem se essa contaminação se espalhou e como ela afeta os rios que são formados pelos lençóis freáticos.

A questão da água é ainda mais preocupante para o pesquisador Reynaldo Luiz Victória, da Universidade de São Paulo (USP), porque para ele pouca atenção se dá aos problemas envolvendo a bacia amazônica. "Isso fica em segundo plano e parece que as pessoas se esquecem que a Amazônia forma a segunda maior bacia fluvial do mundo", destacou. Ele falou sobre o assunto durante a apresentação, na reunião, de sua pesquisa sobre os impactos das mudanças do uso e cobertura do solo na bacia do Ji-paraná, em Rondônia, e quais mudanças esses processos provocam na qualidade das águas. Para ele, isso acontece porque é mais visível para as pessoas a derrubada de uma árvore ou o sofrimento de um animal que perde seu habitat por conta da intervenção humana predatória.

Os estudos em rios de grande volume de água, como o Amazonas, não permitem identificar o impacto da ação humana, exatamente por haver muita água, daí a escolha do pesquisador pela bacia do Ji-paraná, que é de média escala. Ao fim da pesquisa, Victória e sua equipe vão produzir um mapa digital georeferenciado (ou seja, terá marcações de pontos geográficos para fins de localização) da região.

O Brasil possui 12% de toda a água do mundo, e 70% desse volume estão na Amazônia. A floresta, como um todo, abriga 1/5 da disponibilidade mundial de água doce, sendo que o Brasil detém 69% da área total da Amazônia. O índice de chuvas por ano atinge 15 trilhões de metros cúbicos por ano e 48% dessa água é utilizado e evapotranspirado pelo ecossistema. Os outros 52% são escoados pelos rios. Só o rio Amazonas tem 17% de toda a água líquida da região.

Santos propôs uma série de medidas para o tratamento do problema da água na Amazônia. A primeira é amplia os estudos sobre a água de superfície e a subterrânea. Também apontou que a execução do zoneamento ecológico-econômico deve ter como referencial as bacias hidrográficas que formam a bacia amazônica, e a necessidade de se consolidar a aplicação do Código Florestal e da lei que criou o Sistema Nacional de Recursos Hídricos.

Fortalecer os municípios para que eles possam atuar em educação ambiental e monitoramento das matas ciliares é outra sugestão. "O governo deveria também tornar disponível programas e atividades de recuperação de áreas degradadas e recompor as mini-bacias na zona urbana, que precisam de obras de saneamento básico", destacou. Intensificar a vigilância quanto aos poluidores das águas e determinar o nível de poluição são ações básicas que precisam ser tomadas pelas autoridades públicas.

Janaína Simões

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