- 26 de abril de 2001.

Pesquisa mostrará potencial do jatobá para reter carbono


São Paulo - Pesquisadores do Instituto de Botânica de São Paulo iniciam no próximo dia 5 de maio, em convênio com a Universidade Federal de Viçosa (MG), um experimento para verificar o comportamento da muda de jatobá, durante 60 dias - período crítico do estabelecimento da planta -, em duas situações atmosféricas diferentes. As mudas serão colocadas em estufas especiais da Universidade de Viçosa que reproduzirão, no primeiro caso, as condições atuais de concentração de carbono (CO2), de 360 partes por milhão (ppm), e, no segundo caso, uma atmosfera enriquecida com 720 ppm de CO2, concentração prevista para meados deste século, por conta do aumento nas emissões do gás.

Os cientistas querem saber o efeito que o aumento de carbono pode provocar na espécie e, futuramente, verificar o seu potencial como seqüestradora de carbono para projetos de recuperação florestal. Coordenada pelo botânico Marcos Silveira Buckeridge, presidente da Sociedade Botânica de São Paulo, a pesquisa tem várias frentes e estuda a importância das reservas de açúcares das plantas (que incluem a celulose e outros polímeros importantes no seqüestro de carbono) para o crescimento inicial e estabelecimento de espécies nativas da Mata Atlântica e do Cerrado.

O aumento das concentrações de carbono na atmosfera, responsável pelo efeito-estufa, tem motivado pesquisas no mundo todo que buscam ações que levem a diminuição ou manutenção das concentrações de CO2 na atmosfera. As plantas são fundamentais nesse processo pois, na presença de luz, água e carbono, fazem a fotossíntese e produzem glicose. Esta, por sua vez, permite que as plantas respirem e produzam cristais de polissacarídeos (celulose), onde o carbono fica preso.

Mas, enquanto na agricultura o ciclo (tempo que o carbono fica na planta) é muito curto - pois ao consumirmos os alimentos, devolvemos o CO2 à atmosfera através da respiração -, nos ecossistemas naturais o carbono permanece seqüestrado por tempo consideravelmente mais longo. Quando manejados de maneira sustentável, podem seqüestrar carbono indefinidamente.

O potencial de reter carbono, porém, é diferenciado para cada espécie e varia conforme o estágio de vida da planta. Quando a planta se aclimata (ou termina o estágio inicial de crescimento), diminui a produção de fotossíntese e utiliza menos CO2. "Espécies que não se aclimatam, por sua vez, podem explodir sua produção na presença de mais carbono", diz. "O grande desafio da ciência hoje é descobrir como esse processo funciona. Por isso, escolhemos o jatobá (do gênero Hymenaea), uma espécie brasileira, de grande sucesso biológico, encontrada da Costa Rica até o norte do Paraná", diz Buckeridge.

"Entendendo o metabolismo dos polissacarídeos relacionados à síntese de celulose poderemos acelerar o crescimento da planta ou mexer no genoma e fazê-la produzir mais celulose, aumentando a retenção de carbono", explica o botânico. "Com um crescimento mais rápido, pode-se pensar em plantações sustentáveis de jatobá e a imobilização do carbono, através da fabricação de móveis, por exemplo". Como uma espécie clímax, ou tardia, o jatobá tem uma madeira mais dura, o que significa mais carbono seqüestrado.

Segundo o biólogo da Cetesb Marcos Aidar, um dos pesquisadores do projeto, outras espécies nativas também estão sendo estudadas, como o pau-jacaré, a copaíba, a sesbania e a rudgea. "Em programas de recuperação florestal, precisamos seguir um modelo de sucessão que inclui espécies pioneiras (como a embaúba), intermediárias (como o manacá) e tardias. É esse mosaico que irá seqüestrar carbono até atingir o equilíbrio", diz o doutor em biologia vegetal.

Marcos Buckeridge conta ainda que, através de uma associação com a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, o projeto busca criar uma rede neural (programa de computador que aprende com os dados inseridos) para o jatobá. "Madeleine Dela Veiga, aluna do professor Antônio Saraiva, da Poli/USP, está desenvolvimento o programa. Durante um ano, vamos medir vários parâmetros ambientais e de fotossíntese, na fase de crescimento da planta. O objetivo é poder prever a capacidade de absorção de carbono do jatobá", diz.

Esse tipo de conhecimento poderá permitir escolher em uma área, medir os padrões ambientais e prever quanto um jatobá poderá seqüestrar de carbono, por exemplo, em 50 anos. Nas futuras bolsas de commodities ambientais, será uma informação valiosa.

As pesquisas coordenadas pelo Instituto de Botânica fazem parte do Projeto Biota, da Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo, e possuem recursos da ordem de R$ 1 milhão para o período 1998/2002. Com o tema "Os carboidratos de reserva e estruturas e seu papel no estabelecimento e manutenção das plantas em seu estado natural", o projeto envolve cerca de 40 pesquisadores e parcerias com a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Cetesb, Poli/USP, Universidade Federal de Viçosa, Biologia Celular da Universidade de Campinas e Universidade de Purdue (Estados Unidos).

Maura Campanili

Cultivo de frutos típicos da Amazônia está ameaçado

Manaus - O cultivo de frutos típicos da Amazônia é uma das alternativas para o desenvolvimento da região, mas corre uma séria ameaça frente à outras culturas que foram introduzidas na área depois da chegada dos europeus ao Brasil e que ocupam um espaço cada vez maior na economia local. O alerta foi dado hoje por Charles Clement, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), no segundo dia da sétima reunião especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus, Amazonas. O tema deste ano é "Amazônia no Brasil e no Mundo".

Clement fez um estudo sobre a origem da agricultura na Amazônia, avaliando também o presente e o futuro da atividade na região. "As razões para o que chamamos de erosão genética pós-contato continuam e é severa, podendo levar ao desaparecimento de cultivos", apontou. A erosão genética das espécies vegetais acontece quando um cultivo perde importância ou é abandonado, deixa de ser plantado. "Hoje temos na Amazônia o cultivo da soja, do arroz, da banana, dos citros, ou seja, estamos abandonando os cultivos daqui por culturas típicas asiáticas", destacou.

A Amazônia é o segundo centro de diversidade genética no mundo tropical e só perde para o sudeste da Ásia. Tem um grande potencial para aproveitamento de espécies vegetais, principalmente plantas frutíferas, de usos diversos. De acordo com o pesquisador, algumas espécies podem inclusive substituir culturas como a do milho, caso da pupunha. "Poderia-se desenvolver uma economia frutícula, ou seja, é perfeitamente possível o desenvolvimento sustentável", afirmou.

Essa vocação no setor da agricultura é histórica e começou com os índios. Na época dos primeiros contatos entre os povos amazônicos e os europeus colonizadores, havia 138 cultivos diferentes, segundo Clement. Desses, metade era cultura americana e 83 delas eram nativas. A Amazônia pode ter sido uma das primeiras regiões neotropicais onde a agricultura se originou, em função das temperaturas mais amenas que as registradas nos Andes no início do Holoceno, período geológico atual e que começou há 12 mil anos, com o fim do Pleistoceno.

"Os povos pré-agrícolas possuíam conhecimento necessário para a agricultura e se transformaram em agricultores quando houve uma mudança drástica no final do Pleistoceno", disse. Essa alteração se refere ao final da última glaciação e início do período interglacial atual, quando as temperaturas ficaram mais amenas e causaram uma retração da calota de gelo para os pólos, abrindo novos espaços para a agricultura.

Esses povos já faziam alterações nas plantas para melhorar a qualidade do cultivo, ou seja, praticavam o que se chama de domesticação do cultivo, daí a proliferação das espécies trazidas por eles. As espécies domesticadas em que haviam maior diversidade de plantas e menor extensão de área se concentrou no baixo Amazonas e alto Solimões., áreas onde havia sociedades indígenas muito desenvolvidas. No caso das plantas, o fenômeno da domesticação torna os homens dependentes delas. A sobrevivência das espécies domesticadas também depende do homem. "Se elas são abandonadas, simplesmente morrem", explicou. Quanto mais domesticado o cultivo, menor o número de paisagens em que ele pode sobreviver.

Quando chega um novo cultivo, gera-se a erosão de outros. Um exemplo foi a banana, que veio da África e rapidamente foi introduzida no Amazônia. Daí a preocupação do pesquisador, já que hoje a Amazônia passa pelo aumento de áreas de cultivo de espécies que não são típicas da região, em detrimento de outras que poderiam se tornar economicamente aproveitáveis e, ao mesmo tempo, preservar a Amazônia por serem plantas locais.

Janaína Simões

Petrobras repovoa Baía de Guanabara de caranguejos

Rio de Janeiro - A Petrobras lançou hoje na Área de Proteção Ambiental (Apa) de Guapimirim, no Grande Rio, um milhão de larvas de caranguejo para recuperação dos manguezais da Baía de Guabanara, degradados pela poluição. O objetivo da empresa é fazer os crustáceos retornarem à região. Em um ano, as larvas alcançarão a fase de reprodução e, em quatro anos, serão caranguejos adultos. Até lá, os animais serão monitorados por biólogos.

O programa de repovoamento de caranguejos em larga escala nasceu em janeiro do ano passado, através de uma parceria da Petrobras com o Ibama e de entidades ambientalistas. A espécie utilizada é conhecida como caranguejo uçá (Ucides cordatus), presente na maior parte da costa brasileira, inclusive nos manguezais da baía - o animal se alimenta principalmente de matéria em decomposição no ambiente.

Coordenado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), o projeto está sendo desenvolvido desde março de 2000 num laboratório no Espírito Santo. As larvas foram lançadas na mesma densidade encontradas com que são encontradas na natureza, quatro caranguejos por metro quadrado. A gerente corporativa de Meio Ambiente da Petrobras, Elizabeth Calazans, disse que o projeto poderá ser aplicado em toda a costa do País. "Nosso objetivo é recuperar áreas degradadas e proporcionar a substância de comunidades que vivem próximas a manguezais, além de propiciar a exploração comercial da pesca do caranguejo", afirmou Elizabeth.

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