- 25 de abril de 2001.

Ibama vai controlar consumo de réptil

Brasília - Para preservar as espécies e também atender ao mercado consumidor de carnes e peles de animais silvestres, o Instituto Nacional do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) decidiu criar o Centro Brasileiro de Conservação e Manejo de Répteis e Anfíbios (RAN). A veterinária e mestre em ecologia Maria de Fátima Gomes Soares, geremte do novo centro, afirma que um dos objetivos do RAN é orientar e acompanhar criatórios de répteis e anfíbios no País.

O RAN vai incorporar o extinto Centro Nacional de Quelônios da Amazônia, encarregado de monitorar a criação de tartarugas-da-Amazônia em cativeiro. Ao levar esta experiência de vários anos a todo o País, o Ibama quer atender a demanda pela criação de animais silvestres. Os maiores interessados, segundo o instituto são donos de restaurantes, fabricantes de medicamentos e empresários da área de moda.

Não se trata de "extensão rural", mas de "orientação" de projetos de manejo sustentável, explica Maria de Fátima. O RAN vai coordenar o trabalho de ampliação de criatórios de todos os tipos de répteis e anfíbios no País, mas para isto vai formar uma estrutura em todas as representações do Ibama.

Existem no Brasil cerca de 200 criatórios autorizados de jacarés e pelo menos 80 de tartarugas. O quilo da carne de jacaré custa em média R$ 18,00 no mercado consumidor. A pele pode ser exportada. O RAN vai autorizar a criação também de iguanas, animais que entraram na lista dos bichos de estimação.

O Ibama não pretende autorizar criatórios de tartarugas-da-Amazônia fora da região de origem destes animais. Os jacarés, no entanto, poderão ser criados em qualquer área do País que tenha condições para manejo sustentável.

Mercado - O novo órgão quer estabelece um mercado "profissional" e competitivo na criação de animais em cativeiro e na comercialização final. Nos próximos meses o RAN vai organizar encontros de empresários rurais interessados em instalar criatórios. E também continuar a política do Centro Nacional de Quelônios da Amazônia, levando informações sobre manejo sustentável às populações de áreas ribeirinhas, para evitar caça, pesca e coleta predatória de animais.

O RAN vai analisar todos os projetos de novos criatórios. Maria de Fátima disse que em 30 dias o Ibama deverá incluir em sua página na internet um ícone do RAN, onde as pessoas poderão tirar dúvidas sobre a criação e o manejo sustentável de répteis e anfíbios.

Hugo Marques

SBPC defende pesquisa científica na Amazônia

Manaus - Grandes projetos sem considerar o ecossistema da Amazônia atrapalharam o desenvolvimento dos estados que abrigam a maior floresta do mundo. Para que o desenvolvimento sustentável possa se consolidar é preciso fortalecer as pesquisas científicas. A critica e a sugestão são da presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBCP), Glaci Zancan, que organiza a 7ª reunião em Manaus, com o tema "Amazônia no Brasil e no Mundo". A ênfase na reunião, que vai até sexta-feira, é como a ciência pode melhorar a qualidade de vida da população amazônica.

"No passado recente, uma forma discutível de soberania nacional na Amazônia levou governos militares a investir em grande projetos, a maioria em desacordo com os ecossistemas regionais", disse ela, no discurso de abertura.

Glaci destacou a política de migração nos estados do norte como um fator que também prejudicou o desenvolvimento sustentável e ainda aumentou as diferenças sociais. "A imigração aumentou em pelo menos 10 vezes a população local ao longo das últimas quatro décadas. Esse mecanismo sem controle gerou, na periferia das cidades amazônicas, multidões crescentes de excluídos, reproduzindo no interior da floresta a anomalia das outras regiões do País", criticou.

A presidente da SBPC frisou que a exploração mineral sem critérios depredou o ambiente, poluindo rios e tornando a vida da população mais difícil, já que boa parte tira seu sustento de atividades ligadas a eles. "O efeito disso foi o aumento da violência, urbana e rural", disse. Todo esse processo, segundo ela, favoreceu uma minoria.

Para ela, a solução é o estabelecimento de um programa estratégico com investimentos bem aplicados em ciência e tecnologia. "Isso é necessário para que o conhecimento da ciência possa ser o propulsor do planejamento com objetivo do bem-estar social", disse.

Ela defendeu o fortalecimento das instituições científicas da Amazônia como forma de melhorar a vida da população, afirmando que dessa maneira, hoje, poderia haver, por exemplo, uma melhor forma de explorar de forma adequada e produtiva o que a floresta amazônica pode oferecer.

Sua esperança é que a aplicação dos recursos dos fundos setoriais criados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) possam multiplicar o número de pesquisadores científicos da Amazônia.

Janaína Simões

Pesquisador aponta o desaparecimento de línguas indígenas

Manaus - Pelo menos 61 línguas indígenas amazônicas correm atualmente o risco de se extinguir em um curto prazo de tempo e deveriam ser priorizadas para pesquisa, apontou o lingüista Aryon Dall´Igna Rodrigues, do Laboratório de Línguas Indígenas do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB) que participou do simpósio sobre línguas indígenas na reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus. O tema da reunião deste ano é "Amazônia no Brasil e no Mundo" e o evento contou com a participação de 400 pessoas apenas no primeiro dia, segundo a entidade.

"No mundo globalizante de hoje, consideram-se línguas ameaçadas de extinção aquelas que têm menos de 100 mil falantes", disse. Por esse critério, segundo ele, todas as línguas indígenas do Brasil estão entre as mais ameaçadas de desaparecimento. Nesse contexto, ele ressaltou que para a realização de uma pesquisa sobre as línguas, priorizando-se as faladas por não mais de 200 pessoas, chegaria-se às 61 línguas que deveriam ser pesquisadas de imediato. "Dessas, 28 têm sido estudadas, algumas de maneira mais completa, enquanto as demais ainda não foram objeto de estudo", ressaltou.

A língua com maior número de falantes na Amazônia é a dos Tikúna ou Tukúna, um povo com população de cerca de 30 mil pessoas que vivem às margens do rio Solimões, desde a foz do rio Jutaí até a fronteira com o Peru e Colômbia. Há mais 4.500 Tikúnas no Peru e outro tanto em território colombiano. Uma estimativa aponta que há 400 anos havia perto de 700 línguas na Amazônia. Hoje, seriam 140 línguas, apenas 20%. "Isso implica no desaparecimento, em 400 anos, de mais de 500 povos diferenciados não só por suas línguas, mas também por suas culturas", apontou.

Apenas nos últimos 10 anos, morreram últimos falantes do Kokáma no Brasil, mas há possibilidades da língua ter sobrevivido no Peru ou na Colômbia, onde haveria alguns idosos que ainda falam a Kokáma. Também morreu a última pessoa que falava Baré no País, podendo haver alguns na Venezuela. "Não tenho conseguido notícias nos últimos anos do falante da língua Máku", contou. Só há sobreviventes idosos dos que falam Anambé, Kuruáya e Xipáya. O povo Amanayé só se lembra de expressões soltas de sua língua.

O isolamento da Amazônia contribuiu para a diversidade de línguas faladas na região. Com a chegada européia, culturas se modificaram ou simplesmente deixaram de existir. Atualmente, os povos sobreviventes são os que estavam mais afastados das margens dos rios, meio de penetração dos colonizadores. Recentemente, segundo Rodrigues, alguns se deslocaram para os vazios criados pelas ações de extermínio, de escravização e de remoção de pontos de aldeamentos missionários.

De acordo com o pesquisador, muitos desses povos estão em situação precária, com as línguas "moribundas" É o caso dos Xipáya e os Kuruáya no baixo Xingu, os Kanoê, os Arikapú, os Puruborá e outros em Rondônia, e os Tariána no alto rio Negro. Em algumas aldeias, os jovens usam preferencialmente outra língua - principalmente o português - por pressões e apelos externos.

Em outros, é o próprio povo que está no fim. No entanto, isso não é regra: há populações reduzidas que conseguem manter a língua tradicional, caso do Tapirapé, em Mato Grosso, que conseguiu aumentar sua população de 50 para 400 habitantes e falam ativamente sua língua. Há povos de grande contingente que não usam mais sua língua original, como os Múra, da região de Autazes, no baixo Madeira, cuja população é de 1.400 pessoas e que não falam mais a língua Múra.

Conhecer as línguas é o único meio para salvá-las do desaparecimento, mas uma série de fatores atrapalha a realização de estudos dessa natureza. "As iniciativas para realizar um programa de pesquisa lingüística urgente falham pela falta de recursos financeiros, pela indiferença e incompreensão até nos meios universitários e pela ausência de pesquisadores bem treinados", criticou. A saída, para Rodrigues, é assegurar não só a sobrevivência das línguas como também encontrar um meio para que a adaptação das respectivas culturas às novas situações não impliquem em desvalorização e eliminação dos conhecimentos e conceitos dos povos indígenas.

Janaína Simões

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