- 22 de abril de 2001.

Santuário ameaçado


Existe um santuário ecológico entre os estados de Tocantins, Maranhão, Piauí e Bahia, com três milhões de hectares de matas e campos de cerrado. É a região do Jalapão, onde a beleza do céu e da terra compõem o cenário. Chapadões cobertos de natureza, ricos em nascentes de águas límpidas, habitados por lobos guarás, onças, tamanduás. E onde é muito difícil encontrar um ser humano. Lá, a Serra do Espírito Santo está desmoronando, formando um deserto que já chega a 20 quilômetros quadrados.

A região do Jalapão, localizada a mil quilômetros de Brasília, foi escolhida pela Universidade de Brasília (UnB), Conservation International, Fundação Biodiversitas e Fundação Pró-Natureza como uma das quatro regiões do Brasil prioritárias para a conservação do cerrado. Por estar em uma área de transição para a caatinga (e por isso ser ainda mais rica em fauna e flora) e especialmente por estar praticamente intocada. A densidade demográfica da região é de 0,4 habitante por quilômetro quadrado. As dunas desérticas são uma agressão da própria natureza, não há meios de contê-la. Mas há como evitar que a Serra do Espírito Santo desmorone mais rápido, controlando o turismo de aventureiros que estão descobrindo o lugar.

Para evitar que o deserto cresça, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) vai liderar a partir do dia 30 de maio uma expedição de cientistas e pesquisadores para fazer um levantamento da fauna e flora, e tentar salvar o que resta de cerrado no planeta. Não apenas por causa da beleza — o que seria suficiente para conservá-lo — mas porque ali é berçário de rios. No entorno do Jalapão nascem o Parnaíba e muitos afluentes do São Francisco e do Tocantins.

A soja, que engole campos de cerrado até na Amazônia, somente não passou por cima desse santuário ecológico porque não existem estradas para escoamento de safras. Mas já está circulando seus limites. Na Bahia, ainda não avançou para dentro da reserva porque o terreno, nessa parte perto de Tocantins, é acidentado demais.

Só para ter uma idéia do tamanho das comunidades, os três principais municípios que estão no território do Jalapão no Tocantins — Mateiros, Ponte Alta e São Felix — têm juntos cerca de 20 mil habitantes. Esse mesmo índice demográfico repete-se nos outros estados. ‘‘Nosso desafio é proteger o meio ambiente oferecendo meios de sobrevivência para a população, orientando as pessoas para que não causem danos à natureza’’, afirma o chefe da expedição, Miguel Von Behr, responsável pelo projeto do Ibama chamado Gestão Biorregional do Jalapão.

Miguel é um dos fundadores da organização não-governamental SOS Mata Atlântica. Exímio fotógrafo, já editou um livro sobre a maior concentração de Mata Atlântica preservada do país — Guaraqueçaba, no litoral do Paraná. No futuro, o Jalapão também será um livro. Mas Miguel não se conforma apenas em conhecer a natureza. Também vai desvendar o mistério entre os homens que vivem em uma vasta área de cerrado preservado.

O chefe da expedição, por exemplo, já tem dados sobre a comunidade de Mumbuca, que tem cerca de 100 habitantes dentro do município de Mateiros. Os moradores têm um hábito extraordinário: fazem cestos, chapéus, bolsas com o chamado ‘‘capim dourado’’. O capim, apanhado nos brejos, é dourado mesmo. Os objetos ficam da cor de ouro, como se fossem banhados por metal. O Ibama, governo do estado e prefeitura estão apoiando os artesãos, com projetos para manejo do capim. Ou seja, para que não se esgote e possa ser fonte de renda. Esse artesanato é tradicional dos moradores do povoado, que basicamente vivem de agricultura e pecuária de subsistência e estão exportando sua arte para o Japão.

Miguel Von Behr também tem outros dados sobre a presença humana no lugar. Pesquisou sobre os viajantes que já estiveram no Jalapão. A própria expedição tem o nome de um deles, Gilvandro Simas Pereira. Ele esteve lá em 1942, quando fazia parte da Campanha de Coordenadas Geográficas do Conselho Nacional de Geografia. Foi até o local para determinar o divisor exato dos rios São Francisco, Tocantins e Parnaíba e definir a divisão territorial dos estados.

Os estudos de Gilvandro Pereira registram que a região de planalto tem cerca de 900 metros no trecho em que divide as águas do São Francisco e Tocantins. E atestam o grande número de veredas que descem as chapadas, chamando atenção para os cuidados necessários por causa da seca. ‘‘Com a contínua e inevitável destruição do planalto de arenito, dia virá em que toda a região será seca e um grande deserto possivelmente se formará’’, deixou ele por escrito. Visão de ambientalista do início do século passado, mereceu nomear a expedição científica deste ano.

Mas não foi o único a explorar a região. O botânico inglês George Gardner esteve lá antes, em 1846. ‘‘Embora as partes montanhosas da região sejam secas e de aparência estéril, as pequenas concavidades ou vales que as cortam têm sempre um pequeno regato límpido e fresco que as rega e são geralmente bem servidas de matas’’, registrou em suas pesquisas.
Em 1886, esteve lá o engenheiro James Wells, da Public Works Construction Company, de Londres, contratada pelo governo imperial do Brasil para levantar um itinerário para a Estrada de Ferro Pedro II, que conectaria a região com o rio São Francisco. ‘‘A cada milha percorrida, a região se torna mais e mais aberta. Ao chegar à margem do rio Sapão, ambas as margens aparecem franjadas por finas fileiras de buritis, de oitenta pés de altura; a primeira vez que eu vi essas lindas palmeiras em tal quantidade, na verdade elas formam o aspecto característico da região em que estamos a entrar.’’ Ele ainda comenta sobre as casas ‘‘grosseiramente fortificadas com muros grosso de tijolos secos ao sol’’.

Cristina Ávila

Ministério Público investiga obras em Fernando de Noronha


São Paulo - Uma série de denúncias sobre a realização de obras irregulares no arquipélago de Fernando de Noronha levou o Ministério Público Federal em Pernambuco a enviar, no início de abril, uma recomendação ao administrador-geral do Distrito Estadual, Sérgio José Salles Vaz, para que não autorize qualquer tipo de construção na ilha sem aprovação prévia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama). No documento, os procuradores da República pedem, ainda, que o Ibama faça um levantamento, em 30 dias, das obras irregulares em andamento.

Segundo Marcelo Mesel, da Sociedade Nordestina de Ecologia (SNE), a Assembléia Popular Noronhense, uma entidade formada por ilhéus de Fernando de Noronha, vem denunciando há um ano o licenciamento irregular de construções na ilha, sem que o Ibama tenha tomado providências. Com a recomendação do Ministério Público, o Ibama se comprometeu a marcar, nesta semana, uma data para uma vistoria no local.

Entre as obras denunciadas pelos ambientalistas, estão a construção de um sistema de captação de energia eólica sobre uma duna fóssil, onde o próprio Ibama havia proibido a passagem, e a construção de casas em área destinada à recuperação ambiental. Além disso, Mesel cita a instalação de um dessanilizador de água, sem realização de estudo de impacto ambiental.

“O equipamento, em fase de testes, vai retirar 40 m3 por hora de água do mar. Desse total, vai limpar 15 m3 e devolver ao mar, através de um riacho próximo à praia, os 25 m3 restantes, com 65% a mais de sal. Esse procedimento fatalmente terá um impacto sobre as espécies na praia. O correto seria jogar a água mais para dentro do mar”, diz.

Marcos Costa, um dos procuradores que assinam a recomendação, explica que os problemas em Fernando de Noronha acontecem por falta de um plano de gestão das duas unidades de conservação que ocupam todo o território do arquipélago. “Fernando de Noronha é um distrito estadual, mas totalmente ocupado por uma Área de Proteção Ambiental e um Parque Nacional Marinho, ambos federais, e precisa de um planto de gestão e manejo conjunto (Estado e Ibama) para se adequar às determinações do Sistema Nacional de Unidades de Conservação”, explica.

Segundo Costa, o administrador-geral da ilha esteve reunido com os procuradores e se comprometeu a não licenciar novas obras. “O governo federal também está se mobilizando e peritos do Ibama e do Ministério Público vão fazer vistoria para levantar as irregularidades. Fernando de Noronha tem graves problemas de abastecimento, tanto de água como energia, que precisam ser atendidos, mas sem causar danos ao meio ambiente”, disse o procurador.

Maura Campanili

Reservatórios devem baixar ainda mais até o fim do mês


Brasília - O Operador Nacional do Sistema Elétrico reviu para baixo a avaliação feita na semana passada para o nível dos reservatórios. A previsão passou de 34% para 32,9% no Sudeste/Centro-Oeste e de 34,1% para 33,5% no Nordeste, o que reforça a probabilidade de que o racionamento será inevitável nas três regiões.

A margem de segurança, segundo o próprio ONS, seria de 49% (SE/CO) e de 50% (NE). As chuvas, no entanto, confirmaram a previsão do Instituto Nacional de Meteorologia, divulgada no final de março. E para os próximos dias, também não há previsão de chuvas.

Hoje, o nível dos reservatórios estavam em 33,43% no SE/CO e 34,51% no NE. Até mesmo nas regiões Sul e Norte, o nível das barragens caiu, atingindo 75,5% no Norte e 83,2% no Sul. As previsões para as duas regiões também é de mais queda: 71,9% e 79,3% respectivamente.

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