Cercas ilusórias da
conservação da natureza
Empenhado em conservar suas idílicas paisagens de
savana e sua impressionante fauna, o governo do Quênia
criou, a partir da década de 40, várias reservas e
parques nacionais. A criação dessas áreas protegidas
obedeceu a um modelo de conservação da natureza que tem
como um de seus pressupostos a completa exclusão de
populações humanas de seu interior. Por conta disso,
removeram dessas áreas os masais, povo que ali habitava
há algumas centenas de anos, manejando suas áreas de
caça, coleta e agricultura de pequena escala com o
auxílio do fogo. A justificativa dos defensores de tal
modelo de conservação foi a de que a presença dos
masais representava um risco para a perpetuação
daqueles cenários selvagens, em que veados, zebras e
antílopes pastavam livremente.
No entanto, a saída dos masais teve efeito inesperado:
aquelas belas paisagens que se queria conservar foram
descaracterizadas e a fauna que as habitava desapareceu.
Reinou a perplexidade: se o suposto fator de degradação
da paisagem, os masais, foi removido, como isso poderia
acontecer? O fato é que os criadores dos parques
quenianos ignoravam que os masais eram peça chave em um
mecanismo de manutenção daquela paisagem e também da
diversidade biológica ali contida.
Por meio do uso moderado do fogo, eles garantiam alta
diversidade de espécies vegetais na savana e contínua
atração da fauna, seduzida pelas novas folhas que
brotavam em abundância após as queimadas, especialmente
em ambientes onde as plantas já estavam adaptadas ao
fogo. Para restaurar a paisagem perdida, os responsáveis
pelos parques do Quênia foram obrigados a trazer os
masais de volta, para que continuassem vivendo ali
segundo seu modo tradicional. Em certos casos, tiveram
que simular as formas de manejo do ambiente dos masais.
A história dos masais nos traz a pergunta: será que a
conservação da biodiversidade e a ocupação de uma
área por populações humanas são interesses
forçosamente excludentes, como defende o modelo
ocidental tradicional de proteção da natureza aplicado
no Quênia? Esse modelo, delineado pelo colonialismo
europeu e consagrado nos Estados Unidos no século 19,
tem enfrentado provações mesmo em seu país de origem.
O Parque Nacional Grassland, nas planícies orientais
norte-americanas, foi criado para conservar paisagens de
campo, manejadas pelos nativos para controlar a
distribuição sazonal do bisão, sua maior fonte de
alimento. Queimadas no outono produziam crescimento
antecipado do capim e atraíam os bisões na primavera, e
queimadas na primavera diminuíam a oferta de alimento e
dirigiam os bisões para outras áreas. Esse fogo regular
contribuía para a presença dos bisões e a manutenção
das características daqueles campos, que constituíam as
paisagens pré-invasão européia.
A chegada dos europeus alterou radicalmente o aspecto
desse ambiente. A saída dos nativos e,
conseqüentemente, a redução das queimadas nas savanas
e campos remanescentes e a extinção dos bisões um
século atrás fizeram com que arbustos e árvores
dominassem a paisagem, alterando completamente as
características que se pretendia preservar. Para tentar
recuperar algo daquele antigo cenário, o Parque Nacional
Grassland depende da permissão para que o gado paste na
área, de maneira similar à do bisão.
O que é natural? Muitas pesquisas antropológicas,
históricas e ecológicas realizadas nas últimas
décadas vêm acumulando evidências que revelam ser a
natureza muito menos selvagem do que parece ser. Na
verdade, constata-se que a natureza selvagem e intocada
não existe apartada da humanidade, mas, ao contrário,
é uma criação humana. Comprova-se, ainda, que os
pressupostos do modelo ocidental tradicional de
conservação da natureza, que exige sacrificar
populações humanas, removendo-as de ambientes que
historicamente ocupam, não é eficiente para a
proteção da biodiversidade. O problema central desse
modelo é a insistência em tentar preservar paisagens
como se elas fossem uma fotografia sem
perceber que fundamental é a conservação dos processos
que geram e mantêm essas paisagens.
Historicamente, a criação de áreas protegidas no
Brasil chamadas tecnicamente unidades
de conservação tem seguido o modelo
ocidental tradicional de conservação da natureza,
fundamentado na lógica de cercar para
preservar. Muitas são verdadeiros símbolos
dos dilemas desse modelo. Há áreas de onde a
população foi removida à força, como da Estação
Ecológica de Anavilhanas, no Amazonas, e se desconhecem
as conseqüências biológicas desse fato
entretanto, sabe-se dos resultados perniciosos para as
famílias desalojadas. Há unidades de conservação onde
a população permanece
ilegalmente, sendo alvo de
contínuas polêmicas, como no Parque Nacional do Jaú,
também no Amazonas. E há, ainda, áreas protegidas
completamente sobrepostas a terras indígenas, como o
Parque Nacional do Pico da Neblina e as terras indígenas
balaio e ianomâmi.
Para piorar, a sobreposição dessas áreas tem resultado
em disputas entre órgãos do governo federal,
desgastados e enfraquecidos, que em vez de somarem
esforços para solucionar os problemas insistem em
considerar populações humanas e conservação da
biodiversidade interesses irreconciliáveis.
Recentemente o Brasil aprovou uma lei instituindo o
Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc), que
traz no seu cerne um retrato fiel desse debate. A nova
lei que define as condições de criação e
funcionamento de uma área protegida traz alguns
pequenos avanços no que tange à preocupação com os
processos ecológicos. Mas, por outro lado, mantém
várias categorias de unidades de conservação que não
admitem a presença humana e continua tratando as
populações humanas e as áreas protegidas como
elementos antagônicos. Enquanto tal cenário perdurar,
os conflitos entre as populações e os órgãos
responsáveis pelas áreas protegidas só tendem a se
acirrar, prejudicando tanto a conservação da
biodiversidade quanto as populações.
Em um país como o Brasil, cuja vasta biodiversidade
deriva dos modos de vida de sua vasta sociodiversidade,
é fundamental superar as limitações do modelo
cercar para preservar e
considerar de forma séria o papel das populações
humanas nos processos mantenedores de diversidade
biológica, levando em conta o bem-estar das gerações
presentes e futuras. O destino das sobreposições entre
unidades de conservação e terras indígenas permanece
aberto, sendo alvo de discussões em um grupo de trabalho
interinstitucional formado pelo governo federal.
Trata-se, portanto, de nova oportunidade para
abandonarmos de vez um modelo de conservação que tem
gerado enorme dívida social e não tem sido eficaz na
conservação de nossa rica biodiversidade.
Nurit Bensusan, mestre em Ecologia, é coordenadora de
biodiversidade do Instituto Socioambiental (ISA)
Marco Antonio Gonçalves, jornalista, é assessor do
Programa Brasil Socioambiental do Instituto
Socioambiental (ISA)
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DNER defende traçado
da BR-116 que corta floresta
São Paulo - O diretor-geral do distrito
paulista do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem
(DNER), Deuzedir Martins, afirmou que as críticas de
alguns ambientalistas ao projeto de duplicação do
trecho de serra da Régis Bittencourt (BR-116) são
"medíocres". Ele refuta a acusação dos
ecologistas de que o DNER optou pelo projeto mais caro e
invasivo ao meio ambiente. "O traçado defendido por
eles aumentaria em 40% os custos das obras, orçadas em
R$ 280 milhões", declarou.
Segundo Martins, o projeto do DNER privilegia a
segurança dos motoristas e o fluxo do tráfego. O trecho
polêmico compreende 5,3 km de um total de 30 km que
será duplicado na Serra do Cafezal, entre as cidades
paulistas de Miracatu e Juquitiba. No local, existe uma
reserva particular (Fazenda Itereí). Para não destruir
a mata, os ambientalistas querem que o DNER faça a
duplicação acompanhando o traçado existente da via,
construindo a segunda pista bem ao lado da atual.
O departamento defende que a nova pista seja separada
em alguns metros da atual, por razões de segurança.
"No trecho de 5 km da serra, as encostas são altas
e íngremes; as possíveis quedas de barreiras atingiriam
as duas pistas e o trânsito ficaria interrompido".
De acordo com Martins, as pistas precisam estar separadas
para que as máquinas possam trabalhar sem que o tráfego
seja interrompido totalmente.
"A Régis Bittencourt é a principal ligação do
Sul com o Sudeste, ela não pode parar". A
duplicação da rodovia no trecho da Serra do Cafezal
será tema de duas audiências públicas, hoje, em São
Paulo, e em Miracatu, na quarta-feira. As audiências
foram solicitadas pelo Ministério Público e mais de 70
entidades de classe e ambientalistas, que defendem a
mudança no traçado proposto pelo DNER. As audiências
serão organizadas pelo Ibama, que deverá dar o parecer
final sobre o caso.
Segundo Martins, as discussões ambientais que
envolvem a duplicação estão sendo realizadas desde
1994. A duplicação será feita pela futura
concessionária da estrada, que terá administração
privada. Segundo Martins, o processo se licitação foi
interrompido em dezembro para análise do Tribunal de
Contas da União (TCU). A duplicação do trecho de serra
da Régis, segundo ele, deverá começar em 2003.
Renata Stuani
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ONG lança campanha em
Parque de Brasília
A Organização Não-Governamental (ONG) Amigos do
Futuro aproveitou a Páscoa para iniciar a campanha Não
me descarte, eu sou reciclável. Até dezembro, no
segundo domingo de cada mês, os ambientalistas se
reúnem em frente à administração do Parque Rogério
Piton Farias, promovendo shows, teatro, brincadeiras,
distribuindo brindes e ajudando adultos e crianças a
criar uma consciência ambiental.A ONG tem mais de mil
participantes.
Lamise Teixeira Silva, 5 anos, passeava no parque com
a mãe, a economista Edileuza Teixeira Silva, e entrou
nas brincadeiras. Aprendeu que a coleta de lixo deve ser
seletiva e de onde vêm o plástico, o alumínio, o
vidro. Foi alertada de que não deve desperdiçar água e
energia. A ONG montou uma Ecoteca, visitada diariamente
por alunos e professores, coordena projeto ambiental em
250 escolas públicas, trabalha com menores carentes e
treina 20 garotos da Escola Meninos e Meninas de Rua do
Parque. Queremos ampliar esse
número, explica Rejane Pieratti, fundadora
da ONG.
Kleber Lima
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