- 16 de abril de 2001.

Austrália também recua no Protocolo de Kyoto

Camberra, Austrália - O governo australiano deu a entender, hoje, que não ratificará o acordo de Kyoto sobre mudanças climáticas. O ministro australiano do Meio-Ambiente, senador Robert Hill, disse que o Protocolo de Kyoto para redução de emissão de gases causadores do efeito estufa foi invalidado pela decisão dos EUA, de não ratificá-lo. “Não acho que Kyoto possa sobreviver sem os Estados Unidos”, disse Hill, garantindo que a Austrália não aceitaria o acordo antes que os EUA o façam. O presidente americano, George W. Bush, declarou no mês passado que os Estados Unidos não iriam ratificar o acordo.

Associated Press

Ervas para exportação

O Brasil exporta plantas medicinais que ajudam no combate a doenças em todo o mundo. Os principais compradores são Alemanha, Estados Unidos, Japão e Itália. Os estrangeiros buscam especialmente estimulantes sexuais, energéticos e ervas que supostamente ajudam no tratamento do câncer. Somente as quatro espécies mais comercializadas para os europeus venderam quase mil toneladas entre 1999 e 2000. Esses números fazem parte de um levantamento preliminar feito pelo Instituto de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) sobre a venda de plantas brasileiras medicinais e aromáticas no mercado interno e externo. Já foram identificadas cerca de 400 espécies. O relatório será publicado em maio.

As primeiras pesquisas feitas pelo Ibama demonstram que as plantas são vendidas em folhas, frutos, sementes, casca, pó, extratos, óleos e raízes. Segundo a coordenadora do Projeto de Conservação e Manejo de Plantas Medicinais do Ibama, Suelma Ribeiro Silva, o levantamento está sendo feito em parceria com o Traffic, programa de monitoramento do comércio de animais e plantas silvestres das representações no Equador do Fundo Mundial pela Natureza (WWF) e World Conservation Union (IUCN), que trabalham com os países da América do Sul.

No Brasil, a maior fornecedora de plantas para a produção de remédios e cosméticos é a floresta Amazônica. Depois, a Mata Atlântica e o Cerrado. A eficácia de várias plantas já foi comprovada cientificamente, mas os médicos ainda não as reconhecem como forma de tratamento.

‘‘O interesse é crescente, por causa da onda naturalista no mundo’’, garante o pesquisador da Faculdade de Agronomia da Universidade de Brasília (UnB), Jean Kleber, considerado o maior conhecedor de plantas medicinais do Distrito Federal. ‘‘No último simpósio sobre fitoterápicos, no ano passado em Recife, foram apresentados 700 trabalhos científicos.’’ Ele diz que em julho haverá um encontro organizado pela UnB, Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) em Brasília, que vai reunir representantes de universidades, de laboratórios, de importadoras e de produtores de ervas medicinais.

A Farmacotécnica é a única farmácia de manipulação do Distrito Federal que cultiva 40 espécies de plantas, usadas em sua indústria de essências. ‘‘Recebemos freqüentes visitas de estrangeiros. Há um mês esteve aqui uma delegação dos Estados Unidos. Há um mês, também, o dr Rogério Tokarski (o dono da Farmacotécnica) fez uma palestra sobre plantas medicinais no Zâmbia. Recentemente, fiz uma palestra na Embrapa onde a maioria era estrangeira. Esse pessoal está interessado no cultivo e princípio ativo das plantas’’, afirma a farmacêutica Leandra Sá de Lima.

Poder de cura

Guaraná
Originário da Amazônia, tem substâncias que mobilizam as reservas de energia do organismo. Por isso, tomado com moderação, alivia o cansaço e tira o sono, mantendo a vigília. Foram exportadas 544 toneladas nos últimos dois anos

Ipê-roxo
Tem substâncias que ajudam a inibir a evolução do câncer. É estimulante do apetite, usado especialmente em pacientes submetidos à quimioterapia ou a outros tratamentos que o deixam debilitados. Foram exportadas 96 toneladas nos últimos dois anos

Marapuama
Espécie do cerrado, foram exportadas 15 toneladas. O maior comprador é a Itália. É energético, com efeito parecido com o guaraná. Muito procurado por causa da fama de ser estimulante do desempenho sexual

Chapéu-de-couro
Conhecido no combate à sífilis, é desintoxicante. Foram exportadas 100 toneladas nos últimos dois anos

Cristina Ávila

Abandono pode acabar com área verde de São Paulo

São Paulo - O abandono do poder público e um contínuo e silencioso processo de ocupação e desmatamento podem acabar em pouco tempo com a maior e mais importante área verde da capital, a várzea dos Rios Capivari e Monos, em Parelheiros, zona sul.

A região tem valor estratégico no fornecimento de água para a cidade. Especialistas alertam que o impacto de sua destruição seria sentido até no clima, pelo fato de ela servir de barreira à entrada de frentes de umidade vindas do oceano pela Serra do Mar.

A região incluída na Área de Proteção Ambiental (APA) cuja criação pode ser aprovada nesta terça-feira pela Câmara abrange toda a bacia hidrográfica do Capivari-Monos e trechos das bacias da Guarapiranga e da Billings.

Não há dados específicos sobre a possível APA, mas a Bacia do Guarapiranga teve, no período 1990-2000, aumento de 4% ao ano na taxa de ocupação, em virtude de loteamentos clandestinos e invasões. O índice é superior ao de todas as outras regiões da cidade.

Com isso, estão ameaçados mananciais, mas também a flora e a fauna locais. Vivem ali diversas espécies ameaçadas de extinção - como pequenos pássaros, pavões-do-mato, arapongas, lontras, antas, mãos-peladas, quatis, macacos e até onças.

Dotada de várias cachoeiras e nascentes, a bacia conta com altos índices de chuva e tem no Capivari o único rio considerado livre de qualquer tipo de contaminação na capital. Ele hoje abastece o Reservatório Guarapiranga a uma vazão de 1 metro cúbico por segundo, mas seu potencial é cinco vezes maior.

O outro rio da região, o Monos, já se encontra em processo de degradação, como efeito do esgoto doméstico lançado irregularmente em seu leito, principalmente nos loteamentos do bairro da Barragem.

A coordenadora do Projeto Capivari-Monos da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Maria Lúcia Bellenzani, citou entre as atividades que podem ser estimuladas com a criação da APA agricultura orgânica, floricultura, piscicultura, reflorestamento comercial e ecoturismo.

Mas, para que isso ocorra, é necessário criar um estrutura que garanta apoio a pequenos empreendedores, com maior segurança contra assaltos, cursos sobre empreendimentos ecologicamente corretos e educação ambiental.

Isso poderia ajudar a reverter um pouco o grau de miséria da população local. "Faltam oportunidades de emprego, o analfabetismo é alto e os indicadores socioeconômicos são os piores da cidade, contribuindo para os mais altos índices de mortalidade infantil", diz a técnica.

Para ela, a mudança vai trazer benefícios econômicos reais para a população local.

Líderes comunitários, como Vanda Maria da Silva, de 41 anos, da Associação de Moradores da Barragem, e Maria Lúcia Cirillo, 44, de Engenheiro Marsilac, têm a mesma expectativa. Ambas fazem trabalho voluntário em programas de alfabetização.

Vanda está organizando um programa com o objetivo de atrair grupos de estudantes para passeios ecológicos. "Com a criação dessa área de proteção, o próximo passo é incentivar as pessoas a conhecerem a região."

Maria Lúcia espera que a criação da APA vá "integrar o local ao resto da cidade". "Temos pouca infra-estrutura e esse lugar está esquecido, sem saúde, emprego e segurança."

Mas, enquanto isso não ocorre, pairam ameaças em diversas frentes. A expansão dos loteamentos clandestinos, a caça e o extrativismo ilegal de palmito e plantas raras, como bromélias, além da retirada de terra orgânica destroem o delicado equilíbrio do ecossistema local.

São freqüentes as denúncias da retirada ilegal de terra vegetal, ou terra preta, na cabeceira do Monos. A reportagem flagrou a prática há uma semana, quando acompanhava uma equipe de fiscalização do Departamento de Uso do Solo Metropolitano (Dusm), da Secretaria de Estado do Meio Ambiente.

Pelo menos duas vezes por semana, caminhões vão ao local, no Jardim Santo Antônio, na Barragem, comprar o material para vender em floriculturas e casas de material para jardinagem.

A remoção é considerada crime ambiental. Ela reduz a área de filtragem das águas da nascente e aumenta a de alagamento, provocando inundações e reduzindo a vazão.

No fim da tarde, os desempregados Jonas Marcelino da Silva, de 26 anos, e Reinaldo Jesus de Oliveira, de 18, retiravam o material em carrinhos de obra. Flagrados pelos fiscais, disseram que cada carrinho rende, em média, R$ 1,00. Afirmaram que ganham R$ 40,00 com o caminhão cheio e recebem, após muito esforço, um salário mínimo por mês com o negócio.

O grosso do lucro fica com o atravessador. Um carrinho pode render até cinco saquinhos, vendidos a R$ 5,00 nas lojas. "Era pescador na Billings, e como lá não dá mais peixe, só tenho essa opção para alimentar minha família", disse Silva, pai de um menino de 5 anos.

José Gonçalves Neto

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