Paul Erdös, 1913 — 1996
O Mago dos Números Primos
Matemático Revolucionário não fazia suas próprias contas
.
No meio da noite,
em alguma cidade perto de importantes centros de pesquisas europeus ou
norte-americanos, alguns matemáticos podiam ouvir uma batida na porta de suas
casas. Do lado de fora, um colega franzino, de óculos fundo de garrafa. Numa
das mãos levava a maleta, com pertences pessoais, noutra um emaranhado de
artigos científicos. Nos lábios, uma fase: "Minha cabeça está aberta". Era a
senha que anunciava a chegada do húngaro Paul Erdös (1913-1996), um dos mais
brilhantes matemáticos do século 20, à casa de um amigo e significava "vamos
travalhoar". Incapaz de conseguir uma trabalho fixo ou de manter uma casa, ele
foi sustentado por seus colegas pesquisadores e conseguiu ser o mais prolífico
matemático da História. Escreveu ou colaborou em mais de 1.500 artigos e com
ele partilharam a autoria cerca de 450 diferentes matemáticos. Sua influência é
sentida hoje em diversos campos, mas seu maior feito em parceria com o
norueguês Atle Selberg - foi provar o chamado Teorema do Número Primo. A dupla
mostrou que quanto maior um número, menor a porcentagem de números primos
contidos nele. Por exemplo: até o número 100, 25% dos números são primos. Até o
1.000, a quantidade cai para 17%. Mas se for 1 milhão, a quantidade é de 8%, e
se for 1 trilhão, ela cai para somente 4%. Selberg e Erdös não foram os
primeiros a provar o teorema, mas a forma como realizaram seu trabalho é
chamada de elementar. Os matemáticos criaram um número em homenagem ao gênio
húngaro, o chamado "número de Erdös". Toda pessoa que escreveu um artigo com
Erdös tem o número 1. Todos que escreveram um artigo com alguém que escreveu um
artigo diretamente com Erdös tem o número 2. E assim por diante. Quando nenhuma
ligação pode ser estabelecida entre Erdös e um matemático, este último tem um
número Erdös infinito. Uma demonstração de grande independência ou de completa
falta de importância do matemático. Albert Einstein, por exemplo, tem um número
Erdös 2. E, pasmem, Bill Gates tem um Erdös 4. A brincadeira se tornou tão
conhecida que há um site na internet, o "The Erdös Number Project" (www.oakland.edu/~grossman/Erdoshp.html),
dedicado a catalogar essas relações. Mas as habilidades de Erdös se estendiam
também às palavras e ele criou um vocabulário, o Erdösese. Por exemplo, quando
dizia que um matemático havia morrido, devia-se entender que ele havia se
aposentado ou abandonado a área; quando um matemático havia partido, aí sim
devia-se entender que ele tinha morrido. E quando ia visitar "epsílon", estava
indo ver um bebê, criaturas pelas quais Paul era apaixonado tido filhos ou
casado. (Alessandro Greco)
(Revista Galileu Especial no. 1, Editora Globo, Abril de 2003)
A desigualdade de Erdös-Mordell - Uma História do Teorema
"Considere um triângulo ABC
e um ponto P do mesmo plano. Sejam
as projeções ortogonais de P
nos lados BC nos lados BC, CA e AB respectivamente. Vale então a desigualdade:
com igualdade se e somente se P for o circuncentro
de um triângulo ABC eqüilátero".
Este é o encunciado da famosa Desigualdade de Erdös-Mordell. Ela foi inicialmente conjecturada pelo matemático húngaro Paul Erdös e demonstrada no mesmo ano por Louis Mordell, na revista American Mathematical Monthly (problema no. 3740). Logo após surgiram várias soluções e alguns artigos sobre a desigualdade, cada uma usando variadas técnicas: trigonometria (Louis J. Mordell e P.F. Barrow), desigualdades angulares e semelhanças (Leon Bankoff), teorema de Ptolomeu (André Aves e Hojoo Lee), áreas de polígonos (V.Komornik).
(Revista Eureka 18, dezembro 2003)