Alexey Pajitnov, 1955 —
O Desafio do Camarada Russo
Não existe uma fórmula perfeita para ganhar no game Tetris, nem mesmo com
a ajuda de um computador
Quando o engenheiro soviético Alexy Pajitnov criou o game
Tetris em 1985, no final da Guerra Fria, não imaginava que alguns anos depois
seu brinquedo seria quebra-cabeça eletrônico de maior sucesso no mundo
capitalista. O jogo roubou horas produtivas de milhões de pessoas e foi
considerado altamente viciante numa época em que os games eram mais simples.
Muitos aficionados se lembram da experiência de sonhar com os bloquinhos
coloridos se encaixando.
Hoje, Tetris pode parecer banal para adolescentes acostumados
a pilotar simuladores de vôo. Mas uma equipe de matemáticos dos EUA mostrou que
a coisa não é bem assim. Mesmo supondo que tivéssemos tempo para pensar, não
seria fácil saber o melhor lugar para encaixar cada bloco que cai na tela.
David Liben-Nowell e colegas do MIT(Instituto de Tecnologia
de Massachusetts), nos EUA, provaram que a elaboração de uma estratégia para se
dar bem no Tetris envolve um dos tipos de problema mais complexos da matemática.
O cálculo da solução requer um número de etapas exageradamente grande, porque
não há como obter respostas diretas. É preciso testar várias. Em outras palavras,
seria muito difícil um programa de computador ser infalível no jogo. É provável
que um robô se saia melhor que jogadores humanos no Tetris, mas um software com
fórmula 100% perfeita precisaria de soluções mais rápidas, em número de etapa
menor.
O inocente Tetris, afinal traz em si uma das questões mais
misteriosas da matemática: a diferença entre problemas classificados como
P(polinomial) e como NP(polinomial não-determinístico). Nos problemas P, é
possível criar um algoritmo (série de regras, como as da divisão) que chega
diretamente à resposta. Em NP, o computador tem de “testar” várias soluções até
achar a certa, por isso demora mais. “Não-determinístico significa basicamente
chute”, explica Liben-Nowell. Quando o problema tem inúmeras alternativas de
resposta, mesmo que a verificação de cada uma delas seja simples, um computador
pode levar anos de chute até escolher a certa.
Na verdade, alguns matemáticos desconfiam que todo problema
NP também pode ser solucionado com um algoritmo P, mas ninguém conseguiu provar
isso ainda. A questão “P=NP?” é uma das mais estudadas em ciência da computação,
e o felizardo que respondê-la levará o prêmio de U$ 1 milhão oferecido pelo
Instituto de Matemática Clay, nos EUA. Dentro dos problemas NP, o Tetris foi
classificado como do tipo NP-completo, o que dá uma qualidade especial. “Se for
possível dar uma solução eficiente para um problema NP-completo, então
poderíamos usar isso para dar uma solução eficiente para qualquer problema NP”,
diz Liben-Nowell.
Seria curioso se o inocente Tetris ajudasse a resolver um dos
maiores enigmas da matemática, mas não parece ser essa intenção do MIT, já que
existem problemas NP mais relevantes. Além disso, quando publicou seu trabalho
em outubro passado, Liben-Nowell já parecia estar meio cansado: “Sonhei com
algumas peças do Tetris se encaixando”.(Rafael Garcia)
(Revista Galileu Especial no. 1, Editora Globo, Abril de 2003)