CÍRCULO PSICO-ORGÂNICO E CICLOS ARQUETÍPICOS
NA ARTETERAPIA
Ana Luisa Baptista
Resumo:
No processo arteterapêutico busca-se
a utilização de técnicas que permitam a livre expressão através dos símbolos - linguagem
do inconsciente. O presente trabalho tem como proposta contribuir para a
leitura simbólica do fazer artístico integrando duas correntes psicológicas: a
Psicologia Analítica e a Análise Psico-Orgânica.
Abstract:
The
Art-Therapeutic process looks for using techniques allowing the free expression
through the language-symbols of the unconscious.
This work aims to contribute to the
artistic-doing symbolic reading, integrating two psychological courses:
Analytical Psychology and Psycho-Organic Analysis.
A natureza da vida
depende de completar ciclos de expressão energética
criados pela forma.
O sentido de um ciclo
é aceitá-lo e segui-lo.
Strephon Kaplan-Williams
OS CICLOS ARQUETÍPICOS
Na Psicologia Analítica o desenvolvimento
da psiquê parte de um estado original de indiferenciação. Neumann (1) denominou
este estado inicial de Ourobórico, representado mitológicamente pelo Ouróboros
– imagem alquímica do dragão que se engendra e engole a própria cauda, devorando
a si mesmo – expressando a continuidade do início e do fim.
O Ouróboros representa “o redondo que contém”. O autocontido,
onde os opostos macho e fêmea, pai e mãe, princípio e fim se unem. Não há antes
nem depois, só a eternidade Tudo é envolvente e contém, circunda, protege,
preserva e nutre. O mundo é dotado de duplo sentido: o que é interno é externo
e o que é externo é igualmente interno.
Durante este estágio
inicial, há predominância absoluta do inconsciente. Vivencia-se o obscuro, o
Caos onde tudo existe, mas nada tem uma forma específica.
Com o nascimento, a criança
passa a viver o estágio da Ouróboros Maternal, caracterizado pela relação
mãe-que-alimenta e bebê. A mãe torna-se, então, o próprio destino da criança, “cuja natureza é pertencer à mãe e ser parte
dependente desta” (2).
Nesta fase, a “relação primal funciona para a criança como
possibilidade de relacionamento com o próprio corpo, com o Self, com o “tu” e
com o mundo” (3). Tal relação é determinante para o sentimento de existir
da criança.
No nível corporal, o Ego e
a consciência se encontram a mercê dos instintos, das sensações e das reações
provindas do ambiente e do corpo. Não há ordenação, centralização, aceitação e
recusa, visto que o Ego ainda não se diferenciou da matriz do inconsciente.
Posteriormente, o
desenvolvimento da personalidade se processa através de quatro Ciclos
Arquetípicos: Matriarcal, Patriarcal, Alteridade e Cósmico.
Estes, porém, são “evolutivos-estruturantes”,
referindo-se: “... a transformação
progressiva da consciência, mais adiante, ao mesmo tempo, a imutabilidade do
arquétipo que rege a sua transformação” (4).
O Ciclo Matriarcal é considerado o mais arcaico, visto que a
consciência, nesta fase, opera muito próximo do inconsciente, permitindo a
vivência da magia, do ocultismo, da superstição, da sensualidade, do instinto,
da criatividade e da regressividade.
Ao se configurar como
imagem arquetípica, a Grande Mãe se manifesta em sua bipolaridade. Por um lado,
traz as imagens de aconchego, de proteção, por outro, de possessão, de
destruição, da mãe devoradora.
Aqui a personalidade começa
a emergir, mas ainda está mergulhada no inconsciente. Vivencia-se um mundo
regido pelos desejos, pelo princípio do prazer, da fertilidade e da
sensualidade. Há uma intensa proximidade afetivo-corporal, visto que o Self,
nesta fase, é apenas corporal.
A vivência do espaço-corpo
passa a se definir na relação entre essas polaridades. A mãe “transforma”
desconforto em conforto, dor em prazer, frio em aquecimento, molhado em seco.
Nesse dinamismo a criança vivencia um mundo de opostos complementares, pois o
meio externo se apresenta de forma binária: calor-frio, seco-molhado,
amor-ódio. Estes são os primeiros organizadores da consciência.
A mãe trás para a criança a
vivência da corporificação, criando um dentro e um fora. É a vivência do “corpo que dá limites à personalidade”
(5), de forma que o sujeito passa a perceber um Eu e um Não Eu.
Em seu desenvolvimento
progressivo, a consciência começa a se distanciar do inconsciente. A criança
agora vivencia também a lógica patriarcal que tem suas bases nas idéias e ações
previamente determinadas. Seus princípios são as regras, as normas, o dever, a
tarefa e a coerência. Entra no Ciclo
Patriarcal.
Desenvolve a capacidade de
recordar-se e de ligar-se ao ambiente, conseguindo integrar sensações e
observações passadas e presentes. Internaliza a noção de continuidade, passa a
ter memória da própria história, percebendo um ontem, um hoje e um amanhã. O
tempo torna-se um regulador da vida neste período.
O espaço se organiza e se
orienta em termos de direções e orientações contrastantes: em cima-em baixo,
frente-trás, de um lado e do outro, perto-longe etc.
Para ela, o pai é o
mediador entre o lar e o mundo. Através de sua força ela adquire segurança e
autoconfiança. E em sua autoridade encontra a ajuda necessária para descobrir
os limites próprios e externos. Os limites no universo patriarcal, porém, são
rígidos, trazendo um componente repressivo, em nome da lei e das regras.
O arquétipo do Pai organiza
a consciência por meio da ordem, dos códigos, da moral e da ética. Representa o
mundo dos costumes, dos valores tradicionais, das normas sociais e das
expectativas culturais no que se refere a atitudes e comportamentos.
A necessidade de ser
protegido e cuidado, assim como a de ser orientado e conduzido no mundo,
estabelece padrões de dependência. Estes são organizadores da psique e
estruturantes.
Tendo internalizado os
arquétipos da Grande Mãe e do Pai, o sujeito constela a Dinâmica do Herói.
Nas mais diversas
narrativas mitológicas o herói ou heroína age de maneira específica. “Constituem
uma tentativa do Inconsciente em criar um modelo de Complexo do Ego ideal, que
permanece em harmonia com as exigências da Psique” (6).
No desenvolvimento humano,
o ápice da dinâmica do Herói acontece na adolescência e no adulto jovem, quando
o sujeito busca um caminho próprio, deixando um registro individual, uma marca
na sociedade a qual se pertence (por ex.: profissionalizar-se, prover o próprio
sustento, buscar parceiros, gerar filhos etc.).
Após a vivência das
polaridades, do mundo de opostos e da Jornada Heróica, chega-se à noção de
identidade única: vive o Ciclo da
Alteridade.
O sujeito caminha rumo ao relacionamento
com o Outro e a sua própria individualidade. O Ego torna-se capaz não só de
afirmar a si próprio, como também de considerar a posição do outro,
relacionando-se com ele dentro da mutualidade. Pode abrir mão da segurança que
encontra dentro dos limites individuais e empatizar-se com a realidade do
outro.
Ao contrário da fase
anterior, onde os opostos são vivenciados como excludentes, na Alteridade as
polaridades são identificadas como tal, mas há a capacidade de relacionar-se
dialeticamente e criativamente com elas. O sujeito vivencia várias facetas de
si próprio e as inter-relaciona. Pode trocar de posições e colocar-se no lugar
do outro.
É no dinamismo da
Alteridade atualizam-se os arquétipos vinculados ao contra-sexual (Arquétipo do
Animus – parte ativa e masculina da mulher) - e Arquétipo da Anima – parte
passiva e feminina do homem) e sua inter-relação (Arquétipo da Coniunctio).
A individualidade, porém,
se faz presente em todos os Ciclos, mas de maneiras diferentes: no Dinamismo
Matriarcal, através da forma particular de cada sujeito em satisfazer-se em
função dos princípios do prazer e da fertilidade; no Dinamismo Patriarcal por
meio da competição na realização de tarefas comuns; e, no Ciclo da Alteridade,
na capacidade de se afirmar e de ao mesmo tempo considerar a posição do Outro,
relacionando-se com este de forma igual para igual.
A partir da integração das
polaridades o sujeito as transcende podendo retornar ao padrão unitário: entra
na Dinâmica Cósmica.
No Ciclo Cósmico a finitude do processo de vida se faz presente e
nítida. O sujeito busca um significado para a sua existência. Atualiza o
Arquétipo da Totalidade Psíquica: o Self.
Entretanto não se trata de
um retorno à vivência Ourobórica, visto que neste momento a consciência se faz
presente.
Embora a seqüência das
etapas do Processo de Individuação se dê numa ordem evolutiva, a sucessão dos
estágios não implica no desaparecimento do anterior quando o outro surge.
Quando há predominância de um destes estágios, os outros permanecem “adormecidos”, mas prontos para assumir o
centro sempre que a situação vivenciada exigir.
O CÍRCULO PSICO-ORGÂNICO
Criado por Paul Boyesen, o
Círculo Psico-Orgânico refere-se tanto à trajetória de vida, como a circulação energética.
Trata-se de um modelo fenomenológico que vincula a experiência psíquica e
corporal do sujeito.
Este se divide em nove
pontos (etapas).
O primeiro ponto,
denominado Necessidade, inicia-se
com o começo da trajetória humana: vai da fase intra-uterina aos primeiros
meses do bebê.
Na vida intra-uterina há
uma fusão orgânica entre mãe e bebê. O recém nascido é “um pequeno sistema de energia dentro do sistema de energia da mãe.
Quando nasce, há um processo de separação dos dois sistemas energéticos. Antes
estava ‘dentro’ dela, agora está ‘próximo’ a ela” (7). O espaço
intra-uterino contém e envolve, de forma que o bebê sente-se totalmente
protegido.
Fora do útero, o espaço é
ilimitado, não há fronteiras. Ao nascer, o bebê tem que lidar com as várias mudanças
internas e externas: muda a sensação térmica, precisa aprender a respirar, a
engolir e a adaptar-se a força da gravidade, a luminosidade, aos novos ruídos
do meio ambiente e a falta do aconchego do universo uterino. Surgem sensações
de fome e sede.
A dependência do outro é
total. Como a personalidade ainda não está delimitada e diferenciada, o bebê
vivencia um estado de completa fusão. Ainda é parte da mãe que o alimenta e
protege, sentindo o corpo da mãe como um prolongamento do seu próprio corpo,
precisando que esta supra todas as suas necessidades físicas e emocionais. Isso
é necessário para que ele crie um contorno em torno de si, uma fronteira entre
eu-outro, eu-meio externo.
Vive um espaço de
receptividade e de atividade ao mesmo tempo: cabe a ele se apropriar do que o
meio lhe oferece, pegando o que necessita para si. Fazer dele o que recebe da
relação com o outro. Cabe ao adulto que lhe cuida ser “interpretante, tradutor, simplificador de um mundo complexo e
desconcertante. Mãe filtro e ponte, protegendo-o da intensidade, força e
variedade de estímulos, para que o bebê os receba na medida em que seja capaz
de absorvê-los ...” (8).
É a partir da interação com
a figura materna - ora ausente, ora presente - que a criança começa a criar seu
envelope corporal: um continente que delimita eu de não-eu, meu de não-meu,
dentro e fora. Esse envelope assegura à psique a certeza e a constância,
possibilitando a vivência do sentimento de bem estar e a construção da sensação
de existência.
Passa, então, para a
segunda etapa do Círculo: a Acumulação.
Aqui a criança começa a
perceber os limites corporais. Surge o sentimento de território, da apropriação
do próprio corpo e dos conteúdos internos.
O outro é agora um espaço
continente de um corpo sem limites, permitindo ao sujeito acumular energia e
apropriar-se do que é seu. A criança precisa ser tocada, manuseada, para poder
sentir a extensão de sua pele e organizar, através do outro, suas emoções. É
quem lhe cuida que lhe faz sentir-se firmemente sustentada, podendo definir-se
corporalmente. Depende totalmente do outro para reconhecer sua existência.
Surge o sentimento de
posse. A criança sente o que é seu: seu corpo, seu território. Pode, então,
começar a estabelecer trocas com o meio externo, dando e recebendo.
De posse de seu corpo,
vivencia a Identidade Orgânica.
Passa a experimentar um movimento de expansão, ampliando sua motricidade com
total autonomia corporal.
Embora já haja um
distanciamento da figura materna, esta ainda é a grande referência da qual o
sujeito pode se afastar e aproximar novamente. Para a criança, poder ir aonde
se quer e retornar, sabendo que a mãe está presente, trás segurança e confiança
nos seus próprios movimentos. Tal presença é percebida tanto pelo campo visual
– a criança localiza a mãe através do olhar - como pelo universo sonoro – ela
chama a mãe e esta responde, bem como escuta a voz da mãe que a chama.
Na quarta etapa, a Força, o sujeito conecta-se com a sua
potência, percebendo a própria força e canalizando sua energia para atuações
específicas.
Necessita agora da lei, dos
limites e das regras. A função paterna é essencial, favorecendo a estruturação
da personalidade e seu encaminhamento rumo ao mundo. É a partir dos limites
dados tanto pelo meio externo, como pelo outro, e da sensação da força deste
outro, que a criança poder vivenciar a sensação da sua própria força e
direcionar sua energia para um objetivo. Ela descobre o poder do “não”, do impedimento, e, a partir dele,
pode afirmar o “sim”, o caminho a
seguir. O outro agora é tanto obstáculo como apoio para viver no mundo.
Ao introjetar os limites e
as regras, o sujeito entra em contato com suas potencialidades e
possibilidades. Vive a experiência de sua Capacidade.
Pode, então, imaginar o que
quer, mas como ainda não há uma escolha definida tem a possibilidade de
visualizar todas as formas de investimento de sua energia no mundo. É a fase do
sonho, da fantasia, quando a energia criativa flui livremente, sem a
necessidade de um direcionamento específico. Aqui as possibilidades são
maleáveis e podem ser modificadas a qualquer instante.
Chega, então, o momento de
optar. A nova fase, o Conceito, fala das escolhas conscientes, do inevitável
confronto com a realidade ao se passar das idéias para a ação.
O sujeito confronta seu
desejo com a realidade e, ao tentar colocá-lo em prática, com as contradições
entre a imagem simbólica (idealizada) com a imagem real (o que é possível
fazer).
A escolha de uma
possibilidade do momento presente exclui todas as demais possibilidades
existentes. A perda das outras possibilidades leva ao luto intrínseco à
escolha: ao se escolher uma possibilidade, dá-se adeus a todas as outras. Uma
vez que a escolha se realizou, nem sempre é possível voltar atrás.
Quando a energia pode
encarnar, ganhar uma forma, o sujeito passa da idealização para o concreto, com
todos os obstáculos existentes na realidade. Vai de encontro ao mundo real.
Vive a Expressão do seu desejo.
A possibilidade da
expressão, do fazer concreto, está intrinsecamente relacionada com a maneira
com que os outros pontos do Círculo foram vivenciadas. O sujeito pode “pedir o que quer, ir ao encontro do objeto
de amor e o pegar, fazer o que planejou” (9).
Depara-se com a reação do
outro, não necessariamente previsível. Faz-se necessário arriscar para poder
realizar o que quer. Tal risco só pode ser vivenciado se o sujeito for capaz de
aceitar a eventual recusa e ser capaz de recomeçar novamente.
A partir da concretização
de seu desejo entra em contato com o que sente: vivencia o Sentimento, que se
conecta à ação.
Vivencia a qualidade de sua
experiência e colhe os frutos de sua realização. Vive a satisfação do encontro
com o outro no mundo e a entrega que possibilita este acontecimento. É capaz de
fundir-se com o outro, mas sem perder a sua identidade. Contata com sua
vulnerabilidade, visto que há uma “abertura
do coração” para o outro.
Chega finalmente ao momento
da Orgonomia, quando o sujeito percebe-se como parte de um todo maior.
Trata-se de um retorno ao
estado original de completude, onde se vive o todo, mas com a consciência de
si. Aqui, “não há questionamentos, nem
ação, é simplesmente um estado de prazer e de bem estar independente”
(10). Vive a completude na sensação de
pertencimento ao cosmos.
Toda vez que o Círculo se
fecha, acaba por se abrir novamente a partir de uma nova necessidade.
CORRELAÇÃO ENTRE OS CICLOS ARQUETÍPICOS E O CIRCÚLO PSICO-ORGÂNICO
Correlacionando os Ciclos
Arquetípicos ao Círculo Psico-Orgânico percebe-se que ambos partem de um estado
de indiferenciação total, no qual a criança está mergulhada.
Do ponto 1 ao 6, - primeira
parte do Círculo Psico-Orgânicao - o desenvolvimento centra-se no Eu, de forma
que a energia se concentra na separação do sujeito de seu objeto de amor, da
saída de um estado de dependência absoluta (ponto 1) para a internalização da
Lei (ponto 6). Ao percorrer essas etapas, se diferencia das figuras parentais e
constrói uma identidade própria.
Estes pontos do círculo
inserem-se nas dinâmicas:
.
Ouróbórica (vivencia da Indiferenciação) – Ponto 1: Necessidade;
.
Matriarcal (que dá início ao processo de adaptação à vida e à satisfação das
necessidades básicas) – Ponto 2: Acumulação e Ponto 3: Identidade Orgânica;
.
Patriarcal (onde se estabelece as bases para o desenvolvimento da consciência)
– Ponto 4: Força, Ponto 5: Capacidade e Ponto 6: Conceito.
Entre os Pontos 5 e 6, o
sujeito passa pela Jornada do Herói. Há uma escolha entre permanecer nos reinos
da Grande Mãe e do Pai, ou seguir o Chamado, rumo à sua própria “expressão no mundo” (11) e à
Individuação.
Dos Pontos 7 ao 9, o foco
do desenvolvimento passa a ser a relação com o Outro. A fronteira entre o
sujeito e o objeto de amor se dissolve e ocorre o desaparecimento do eu na
união com o Cosmos.
Tais pontos inserem-se nas
seguintes Dinâmicas:
.
Alteridade (onde o sujeito pode fundir-se com o outro, mas sem perder a sua
individualidade) – Ponto 7: Expressão e Ponto 8: Sentimento;
. Cósmica (volta ao todo,
mas mantendo a consciência do eu.) – Ponto 9.
OS CICLOS ARQUETÍPICOS E O CÍRCULO PSICO-ORGÂNICO NA ARTETERAPIA
Ouróboros/Ponto da Necessidade – caracterizados pela indiferenciação. Vivencia-se
a ausência de limites corporais: não há percepção do próprio corpo, que é parte
do ambiente ou do outro.
Os movimentos são quase
imperceptíveis, lentos e fluidos. Observamos estes movimentos em processos de
regressão profunda. É comum a vivência de sensações semelhantes ao universo
uterino, muitas vezes acompanhado do desejo de dissolver e ser absorvido pelo todo.
Plasticamente, a criança
vivencia a fase da Garatuja Desordenada (12): não há consciência do material
plástico por ela utilizado, do seu próprio movimento e do rabisco por ela
deixado nas mais diversas superfícies. O mesmo ocorre com a utilização de tintas:
há interesse na exploração do material, mas não há intenção de deixar qualquer
tipo de registro.
Na representação plástica
do adulto, as imagens que chegam neste momento, em geral, não têm forma. São
indiferenciadas - tudo se mistura: não há estrutura, tempo e espaço.
Encontram-se também imagens
referentes às profundezas: abismos, vales, fundo do mar, lagos, poços, interior
da terra, mundo interior, caverna, casas, ninhos, conchas ... Compartimentos
que têm a finalidade de envolver para proteger e lugares de refúgio onde a vida
concentra-se para se transformar.
No trabalho com máscaras, o
uso das Máscaras Neutras (13) leva a vivências regressivas. Diante do rosto sem
contornos precisos e da visão difusa, os movimentos realizados são, em geral,
circulares e “para dentro”. O sujeito
fecha-se em si mesmo ou coloca-se em posição fetal. Muitas vezes busca-se o
apoio do chão, da parede, de almofadas, de bolas grandes. Surgem sensações de
leveza, de estar na água, de flutuação.
Músicas regressivas, descendentes e introspectivas, assim como algumas
técnicas que focalizam o movimento indiferenciado (realizado com tinta aguada
sobre papel) e o trabalho com a água (mergulho, flutuação), que é regressivo
por si só, favorecem o contato com este momento.
|
Aguada de Nanquim sobre papel |
Ecoline ou aqualine, ou
pigmento de xadrez líquido, ou de nanquim coloridos pingados em papel canson
com água; ou o sopro de tinta com canudo em canson umedecido; ou a brincadeira
de escorrer a diluição de nanquim no álcool sobre o papel canson; ou os
trabalhos desenvolvidos através da monotipia; ou a cera derretida jogada
aleatoriamente sobre o papel; ou a técnica de dobragem com anilina em pó sobre
plástico com cola; ou ainda o papel marcado pela fumaça ou chama de uma vela;
ou seja, os trabalhos com manchas, sem formas figurativas, trazem o
indiferenciado, permitindo um mergulho profundo no inconsciente. Trata-se de
atividades em que não se tem controle sobre o que faz nem sobre as imagens que
surgem no papel. Cabe ao sujeito somente acompanhá-las.
Na escrita espontânea, as
histórias trazem conteúdos semelhantes ao início dos mitos de criação. É,
também, comum a representação de imagens vinculadas ao tema do aborto.
No trabalho com o toque
focaliza-se o toque ontológico, que trás a sensação de existência.
Dinâmica Matriarcal – nesta fase podemos observar o corpo desabrochando. O sujeito começa a
explorar as possibilidades sensoriais e a conhecer o próprio corpo. Há
predominância das sensações corporais de prazer e dor. Desenvolve a sensibilidade
de tocar e ser tocado, acolhendo a si próprio e ao outro. Contata com a energia
geradora do Feminino que aconchega e nutre.
As vivências de entrega, de
abandonar-se ao outro, induzem ao universo matriarcal. Os movimentos são
flexíveis, leves, suaves e harmônicos: fluem e deslizam, permitindo um fluxo
energético contínuo. A sinuosidade e a sensualidade, atributos do Feminino,
também caracterizam o movimento.
Quando se focaliza o ponto
da Acumulação numa vivência,
torna-se possível conectar com um espaço protetor, de abastecimento, onde se
pode abandonar a si mesmo com segurança confiando no outro, soltar todo o peso
e relaxar.
O sujeito brinca com o
próprio corpo e com o corpo do outro, porém, mantém-se junto ao solo (Mãe
Terra). Focalizando o movimento, busca-se o prazer no deslocamento: rolar,
arrastar, engatinhar, abrir, fechar. A vivência corporal de abertura e de
fechamento traz as noções de espaço aberto e fechado. Bases da construção das
noções de espaço interno e externo: eu e não-eu.
Pode se introduzir objetos
como mediadores simbólicos da relação com o outro: bolas, panos, cordas, aros,
almofadas, balões etc. Estes são, neste momento, utilizados de forma sensorial,
na relação corpo/objeto.
Neste contexto, no uso de
panos, observa-se o movimento de cobrir, esconder, enrolar, aparecer,
desaparecer. Com cordas, a aproximação e o afastamento, a união e a distância;
os movimentos de segurar e amarrar. Com aros, o espaço circular fechado que
permite o entrar e o sair; trazendo a sensação de estar dentro, contido ou
fora; e, também, o rolar, o soltar (dar, devolver), o capturar (pegar de
volta). Com balões, experimenta-se a leveza através do contato agradável,
afetivo e sensual. Com almofadas, ora se pode cobrir e fazer desaparecer; ora
refugiar-se, esconder-se; ora descansar, repousar e soltar o peso. Com bolas
estabelece-se o vínculo através do rolar: vão e voltam, aproximam-se e
afastam-se; podem ser abraçadas, permitindo a regressão, o movimento de embalo,
o descanso.
No trabalho com o toque, as
técnicas de massagem focalizam o contorno.
O uso de diferentes
texturas leva a algum tipo de impressão sensorial, podendo trazer lembranças ou
a emersão de imagens inconscientes. Tal trabalho acontece na exploração de
diferentes superfícies: lisas, ásperas, enrugadas, esponjosas, crespadas,
aveludadas, acetinadas, felpudas, granuladas, onduladas etc. – podendo ser
realizado tanto corporal como plasticamente.
Na água, símbolo da Grande Mãe, o trabalho com os contrastes, quente
(dando continuidade ao calor dentro e fora do corpo) e frio (afirmando os
limites do corpo), trazem a delimitação corporal.
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Sandplay: a Caixa de Areia |
Sandplay, o trabalho na
caixa de areia, é interessante nesta fase, visto que há a associação de um
espaço delimitado (caixa), onde está contida a matéria (areia) e objetos,
favorecendo o nascimento da representação de conteúdos profundos. O terapeuta
dá espaço para que o paciente possa criar cenas ou desenhos se utilizando o
material.
Integrando água e areia,
uma dá limite para outra e cria-se a possibilidade de construir.
O desenho com linhas no
espaço, cordas coloridas, lãs, barbantes, liga, envolve, estabelece vínculos.
Os fios se encontram, se embolam, formam um grande emaranhado. Depois seguem ao
encontro de outros espaços, outros fios.
A Colagem é uma atividade
multiplicadora. Quando se trabalha com figuras previamente recortadas entra-se
em contato com uma infinidade de símbolos muitas vezes sem consciência de seu
significado. Colar é ligar uma coisa à outra. Estabelece um vínculo.
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Ártemis: Modelagem em Argila |
A argila, outro símbolo da
Grande Mãe, dá forma a conteúdos inconscientes. Mobiliza a parte sensitiva do
sujeito de forma a possibilitar o contato com outras sensações diferentes da
visual. Permite a construção tridimensional e possibilita a regressão,
principalmente quando trabalhada com os olhos fechados. Já quando se utiliza
argila molhada, enlameada, escorregadia, possibilita-se a vivência da
sensualidade do contato.
Ainda usando a argila, a
ocagem (14) da peça modelada permite o trabalho com o esvaziamento, mantendo-se
o continente. A peça é aberta por dentro, escavada e, por fim, reconstruída.
Nesse espaço interno outras coisas podem ser modeladas e guardadas; pode-se tirar de dentro o que não se quer
mais e jogar fora, ou atribuir novas formas a esses conteúdos e recoloca-los de
outro jeito.
Na relação com o material
plástico as noções de muito e pouco e seus efeitos tornam-se evidentes e
relevantes neste momento. Excesso de material confunde, insuficiência trás a
impossibilidade de criação.
Na música, integrada ao
movimento corporal, trabalha-se o ritmo. Este trás a velocidade na progressão e
na regressão do movimento (movimentos mais rápidos, movimentos mais lentos).
Também focaliza a aproximação e o distanciamento (mais perto, mais longe).
Chegando à Identidade Orgânica, a roda - símbolo
de unidade e totalidade - é um grande marco. A dança de mãos dadas simboliza a
confiança e o apoio mútuo. Trás um espaço sem hierarquia nem competição. Nas
Danças Circulares uma pessoa é o referencial do movimento proposto, mas este é
realizado individualmente pelo sujeito que acompanha a proposta dada.
A aproximação e o
afastamento se fazem presente. O movimento ora vai de encontro ao outro e ao
grupo, ora é de total retraimento. Ainda há uma forte dependência do terapeuta
ou facilitador do trabalho, que é solicitado diretamente ou simplesmente
buscado com o olhar.
A relação com o objeto
enquanto mediador se modifica. O foco é o objeto em si e não mais a relação
corpo/objeto. Este passa a ser utilizado no movimento visando o distanciamento
corporal.
Faz-se importante focalizar
o trabalho com o espaço, o que favorece a consciência de si. É no espaço, seja
ele concreto (físico) ou simbólico (gráfico), que se fortalece a identidade,
possibilitando a autenticidade do sujeito.
A separação de sementes,
contas e outros materiais – mistura de vários objetos - fala da capacidade de
discernir uma coisa da outra, trazendo reconhecimento do que é nosso e do que
não é. O sujeito agrupa o material de acordo com a sua qualidade e o
transforma.
Processo semelhante ocorre
na utilização de teares simples. Armá-lo trás a preparação para criar o
instrumento que permitirá construir a própria história. Quando pronto, o tear
oferece uma forma pré-estabelecida (moldura) que será preenchida da forma
escolhida pelo sujeito. É, então, preciso separar os fios para integrá-los de
uma nova maneira. Tecendo criam-se ligações nas linhas que se entrelaçam e
vínculos nos nós. Destecendo, voltamos atrás nas ligações estabelecidas,
desfazem-se os vínculos.
A pintura no próprio corpo
e no corpo do outro remete às sociedades primitivas e ao trabalho com ritos, de
forma que o desenrolar das atividades levam a rituais e danças tribais. A pintura
vai se gerando sobre a própria pele ou sobre o outro, permitindo um contato
sensual pelo escorregar das mãos e dos dedos. Nesse contato o sujeito pode
imprimir no corpo do outro a sua marca, o seu traço, outras partes de seu
próprio corpo.
|
Pintura Corporal |
Trabalhando com pintura sobre
o rosto, criam-se máscaras. A maquilagem no rosto consiste na aplicação de
vários cremes, bases e tintas de diferentes cores. É necessário conectar-se com
a imagem do rosto no espelho, com os traços e marcas que o tempo deixou.
Algumas pessoas ficam fascinadas com a máscara pintada, outras querem
arrancá-la instantaneamente para reencontrar seus traços conhecidos.
No trabalho com máscaras,
enfatiza-se a construção com os mais diversos materiais: papelão, argila,
madeira, látex, papier-marché, sabonete, gesso etc. Estas podem sugerir um
personagem com rostos com traços definidos ou uma sensação, trazendo somente
cores e traços.
O mesmo ocorre com o
teatro: o foco é a construção de personagens que permite ao sujeito assumir
diferentes papéis, promovendo a formação e fortalecimento da identidade.
Já na música, o trabalho
com o som trás a projeção de si para o espaço externo, enchendo-o com a
presença do eu, expandindo e dando volume, afirmando a identidade. O som, quer
seja realizado com instrumentos ou com a voz, se prolonga para outros espaços,
podendo agregar-se a outros sons. O uso de instrumentos musicais pode trazer
uma grande confusão e desorganização que, aos poucos, vai sendo substituída por
uma nova estrutura.
No desenho, na etapa de
Acumulação, a criança começa a controlar seu movimento, buscando limitá-lo ao
tamanho do papel. Agora ela tem a consciência de que o lápis deixa um traço
sobre a superfície e experimenta este movimento das mais diversas formas. Passa
para a fase da Garatuja Controlada. Já ao utilizar tintas, a criança
preocupa-se em espalhá-la sobre o papel, cobrindo a folha com as cores.
Chegando a fase da
Identidade Orgânica, a criança atribui nome às suas garatujas, passando à fase
de Garatuja Identificada. No final desta fase aparecem as primeiras linhas
circulares, que são movimentos executados com todo o braço. Surgem, então,
espirais e caracóis, que nascem de dentro para fora e de fora para dentro.
A criança desenha a sua
primeira forma: o círculo, marcando a percepção de si como ser independente.
Símbolo do Self, o círculo representa a totalidade psíquica, trazendo a noção
de continuidade, estabilidade e movimento. Esta se apropria de um conteúdo ao
ser nomeada, ganhando uma identidade.
No uso de tintas, seu
propósito é deixar marcas, as quais pode ou não nomear.
Na representação plástica
do adulto observa-se que a qualidade do traço se caracteriza pela fluidez das
linhas, pelo ondulamento, pelas curvas, pelo movimento espiralado, e pela forma
circular. A ligação entre as representações gráficas no espaço se dá pela
proximidade e interdependência – superposição (onde o limite e a imagem se
fundem, ficando inseparáveis). As linhas sugerem a sensualidade, a emotividade,
a instabilidade, a calma.
É comum encontrarmos representações implícitas, sugerindo ao invés de
afirmar. As imagens tendem à abstração, as formas podem se tornar ambíguas e de
difícil definição.
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Pastel Óleo sobre
papel |
Acentua-se a unicidade,
sendo que as representações perdem o sentido fora do conjunto da obra. As
linhas de contorno são somente sugeridas, de forma que as representações de
superfícies abertas são comuns. Não há delimitação do espaço interior da área
do desenho, que permanece fixo a uma determinada faixa, onde se pode observar
os espaços internos e externos. Os limites são implícitos. A tônica da
atividade plástica é sensório-afetiva e emocional. Há simbolização, mas sem
abstração e conceituação. Percebe-se o relacionamento entre as representações,
a imaginação, a associação e as múltiplas ligações estabelecidas. Cores e
linhas predominam a formas.
A harmonia acontece na
relação entre as cores e os elementos representados. O equilíbrio é funcional:
observa-se, nas áreas ocupadas do plano, partes desiguais fisicamente, mas que
se compensam pela equivalência existente entre elas.
Durante esta etapa do Ciclo
não se prioriza o material linear. Preferencialmente propõe-se o trabalho com
as mãos, no qual todo o corpo participa. A pintura a dedo sob papel é,
portanto, um material interessante.
Quando se propõe desenhos
utiliza-se os pastéis secos e a óleo, o carvão vegetal, o lápis sanguínea, os
lápis aquarelados.
O suporte gráfico deve ser
grande, permitindo muito movimento. Pode também ser maleável (panos em
diferentes texturas).
Com relação à música, neste
período, estas estimulam o contato. Ora vinculam-se ao ritmo binário (batimento
cardíaco); ora ao movimento de embalo e ao toque, adquirindo uma tonalidade
sensório-afetiva; ora à sensualidade e à sinuosidade, movimentos
característicos do Feminino.
A escrita espontânea traz
conteúdos vinculados aos arquétipos da Grande Mãe e da Criança Interior em
todos os seus aspectos. Os temas enfatizam a natureza indefesa e carente da
criança e o lado protetor da mãe, girando em torno do acolhimento, da proteção,
do abandono, da rejeição, da aceitação incondicional do outro, da regressão, da
perseguição, da superproteção.
Dinâmica Patriarcal – nesta fase a maior consciência corporal facilita o processo de
diferenciação que leva a Individuação. O corpo torna-se um instrumento para
exercer a força do Ego - que determina as ações - e o movimento é projetado no
espaço e aprimorado: busca-se o domínio, a precisão, o ímpeto e a firmeza na
realização do mesmo. Cada um busca uma forma própria de expressão que marca sua
identidade e individualidade.
Devido à crescente
consciência corporal, o sujeito reconhece a facilidade e a dificuldade na
realização do movimento, identificando pontos de maior tensão.
No que se refere a cada
fase do Círculo Psico-Orgânico, na etapa da Força, o espaço é demarcado, delimitando-se o espaço individual,
mesmo na proposta grupal. O movimento é determinado e decidido, muitas vezes
direcionado para um foco.
As vivências induzem ao reforço
da identidade, à força, ao poder, à motivação, à capacidade e à coragem. Os
jogos e brincadeiras corporais se dão na posição ereta.
No uso do espaço,
pode-se vivenciar obstáculos a serem ultrapassados, pelo salto, ou
arrastando-se por baixo destes.
As almofadas, agora, são
utilizadas para soltar a raiva e a agressividade, socando, chutando, batendo. O
mesmo pode acontecer com as bolas que podem ser perseguidas, apanhadas,
golpeadas, arremessadas, cair em buracos e cestos, passar entre balizas. Todos
os jogos de luta e combate fazem parte deste momento.
Prioriza-se materiais
que possibilitam a expressão linear (lápis de cor, lápis preto, pillot) para a
criação de desenhos, pois facilitam a definição da forma.
Entre estes se destaca o
giz de cera (no formato de lápis ou de tijolos), que por sua constituição,
empresta sua força para o sujeito resistindo à pressão intensa. A sobreposição
de nanquim sobre a folha pintada com esse material para a criação de um desenho
com objeto pontiagudo é uma técnica interessante, visto que se não houver
pressão no colorir, não é possível a absorção do nanquim nem a criação da
imagem posterior.
Trabalhar com limites
também faz parte desta fase. O simples fato de sugerir a criação de uma imagem
a partir de uma linha no papel, já reduz as infinitas possibilidades de
criação.
O uso de contornos
estabelece o limite entre alguma coisa que termina e outra que começa. Tanto a
proposta do uso de contornos previamente delimitados com os mais diversos
materiais, como os moldes vazados ou a definição da forma pelo espaço vazio
através da pintura envolta, e, também, o trabalho com o positivo e o negativo
(interior e exterior), favorecem a vivência de domínio e controle.
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Linhas criando vários
contornos ao redor de obstáculos: pillot preto sobre papel |
O Desenho Ditado requer atenção
tanto às solicitações realizadas quanto à localização das formas no espaço. E o
desenho com obstáculos, seja ele realizado com formas figurativas ou não, fala
das barreiras intransponíveis e da necessidade de buscar outros caminhos.
Também a técnica de
reservar uma área da folha com fita crep ou outro material, assim como a
técnica de resistência à cera de vela, ou a de mascarar o papel reservando
áreas na qual a tinta não penetra têm objetivos semelhantes. No último caso,
porém, o limite não é explícito, mas descoberto durante a realização da
atividade.
Já ao solicitar a
interpretação de um mesmo trabalho através das tonalidades de cores preto,
branco e cinza, exercita-se a disciplina, a obediência e o rigor.
O tamanho do suporte
gráfico e o formato dado a este trazem, por si só, um limite prévio. Agora este
pode ser reduzido ou ampliado de acordo com a proposta do trabalho.
O tempo estipulado para
a realização de uma determinada proposta – seja ela livre ou não – também marca
o limite.
Recortar, colar e
sobrepor se adequam a este momento. Recortar é dar forma, requerendo
coordenação motora e paciência. É interessante utilizar vários tipos de
espessuras nos papéis para esta atividade, assim como tesouras com lâminas
variadas.
O trabalho com o entalhe
e a escultura em madeira e pedra impõe a obediência a partir da resistência do
material, uma vez que não se pode voltar atrás no que
foi retirado. Ao tirar trabalha-se o desapego.
A estrutura
com arame - material frio e resistente, que pode ser amassado, dobrado e
cortado - trás o trabalho com ângulos e o reconhecimento dos limites. O arame
se flexibiliza, mas com bastante dificuldade.
No trabalho teatral
focaliza-se as técnicas do Teatro do Oprimido (15), propiciando o confronto
entre diferentes personagens, cada qual com sua forma de ser e o seu ponto de
vista.
Com música, seguir um ritmo
pré-determinado tanto no uso de instrumentos, na dança ou no trabalho plástico
obriga a adequar o fazer a possibilidade dada pelo meio externo, obrigando a
obediência à norma.
Na fase da Capacidade há percepção do que se pode
realizar com o corpo e a previsão do movimento se faz possível. Neste momento é
interessante associar o trabalho corporal à imagem, de forma a trazer a imagem
para o movimento.
Plasticamente, a escolha
de todas as imagens que parecem interessantes ou chamam a atenção estimula o
contato com múltiplas possibilidades. O mesmo ocorre quando se propõe
composições integrando imagens de trabalhos já realizados, partes de gravuras
e/ou fotos, compondo um novo trabalho. Tal processo leva a a visualização de
novas possibilidades.
A Amplificação da
imagem, seja por meio do trabalho plástico, corporal, cênico ou literário,
facilita a percepção de novos pontos de vista.
Também as técnicas de
associação, tanto verbal como plasticamente têm esse objetivo. Plasticamente, a
partir de uma imagem central de onde partem fios, pode-se sugerir a busca de
outras imagens associadas a esta ou ainda a outras imagens que se associam à
primeira.
Retirar um objeto,
pessoa ou animal de uma figura transferindo para uma outra folha e criar-lhe um
novo contexto; ou recortar parte de uma imagem trazendo conteúdos que saem de
dentro desta; ou as técnicas de Desenho Raio X , propiciam o contato com o
imaginário.
Sugerir fazer de outra forma uma representação plástica, um personagem
ou um movimento trás possibilidades diferentes para uma mesma situação. O mesmo
ocorre quando se pede para contar uma história de outro jeito ou criar uma
parte desta. Outros pontos de vista surgem nessas atividades e podem ser
considerados.
As técnicas que trazem
imagens do futuro a curto, médio e longo prazo, bem como aquelas que permitem a
visualização de novas possibilidades para o momento presente, são adequadas
nesta fase.
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A Ponte: imagens do passado que se
quer deixar e do futuro que se deseja construir (Colagem e Pastel Óleo) |
Estimula-se a fantasia e
a criatividade, indo do figurativo para a abstração.
O momento seguinte, o Conceito, é a fase da escolha: escolher
com quem se deseja vivenciar algo específico, escolher dentre todos os
materiais aquele que se deseja trabalhar.
A limitação a partir da
escolha favorece a definição. Solicitar que o sujeito escolha várias imagens ou
outros materiais, deixando uma parte destes e trabalhando com a outra, obriga
uma escolha consciente. Tal proposta pode se dar tanto de uma forma direta - na
solicitação para a re-seleção de parte do material; como indireta - na utilização
de um suporte que não permite a utilização de todo o material selecionado.
O mesmo ocorre com a escrita de
palavras soltas associadas a algo pré-estabelecido, para posteriormente
selecionar algumas para a criação de uma história ou poema.
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Desenho de Contraste: Carvão com
Borracha |
Todos as técnicas que
trabalham os contrastes ajudam a colocar uma questão em evidência e a
diferenciar a partir dos opostos que se excluem. Trabalhar com opostos trás a
generalização e a comparação, elementos intrínseco ao processo de separação.
Usando o fogo, queimar
aquilo que não se quer mais numa fogueira ou nas chamas branda de uma vela,
deixando o vento carregar as cinzas, reafirma as escolhas.
Retirar os excesso de tinta
com esponja ou algodão; de papéis em colagem aleatória com papéis de ceda
colorido; em ambos, deixando somente o essencial, também ajuda a delimitar o
campo do desejo.
A construção de histórias a
partir das possibilidades de ação dos personagens obriga a uma escolha,
trazendo a avaliação das conseqüências das mesmas.
Com teatro, a técnica do
Psicodrama Pedagógico trás a delimitação física – espaço protegido para se
mergulhar no personagem – e a delimitação da ação – congelamento da cena.
Requer atenção ao roteiro previamente criado e ao estudo do personagem.
No trabalho com máscaras,
usa-se máscaras prontas de diferentes modelos e materiais. Cabe o sujeito
escolher com qual deseja trabalhar. Aqui a escolha implica num processo
psíquico de aceitação e recusa. Conteúdos são projetados sobre as máscaras.
Algumas fascinam e outras causam profunda repulsa. Tal escolha pode se dar para
diferentes propostas: construção de personagem, encenação, expressão corporal,
imaginação ativa, escrita espontânea.
A representação plástica
com modelos originais de objetos, de pessoas, de situações, da realidade ou de
um espaço, realizadas a partir da observação direta destes sob vários ângulos e
aspectos, refere-se tanto aos aspectos formais e normativos – cores, formas, a
harmonia ou não, as proporções, a orientação, a colocação e a organização
espacial. Trás a possibilidade de ver de outra forma, considerando novas
posições.
Ao contrário da etapa
anterior, trabalhar o processo da abstração para a figuração coloca o sujeito
frente ao concreto, à realidade objetiva. Parte-se da imaginação para a
realização: “... imaginar é um pensar
específico para um fazer concreto” (16).
Na representação plástica,
na medida em que a criança adquire a noção de si mesma, passa a operar,
interferir, representar, estabelecer analogias, semelhanças e diferenças. Chega
à fase Pré-Esquemática. Esta é marcada pela da representação de formas soltas e
dispersas no papel, mostrando a incapacidade de relacionar os elementos no
espaço. Seu desenho é realizado em etapas: parte por parte até formar uma figura.
Ela pode hierarquizar o espaço, dividindo-o e separando seus elementos.
Aqui, se junta ao movimento
do círculo outras formas geométricas, trazendo o dinamismo (triângulo) e a
instabilidade (triângulo apoiado sob uma de suas ápices); o equilíbrio e a
imobilidade (quadrado, retângulo). Aparecem também as representações com duas
perpendiculares: horizontal e vertical, posteriormente, as linhas oblíquas
(ângulos).
O uso de formas concretas
mostra diferentes conteúdos que são constantemente modificados na mudança das
formas representadas. Pode-se observá-los tanto na utilização de materiais
lineares como no uso de tintas.
As relações de tamanho
(pequeno e grande) e de posição (em cima, em baixo, no meio) são retratadas no
espaço.
No uso da modelagem observa-se
a bidimensionalidade: figuras que se apóiam na superfície, ficando “deitadas” sobre ela.
Na fase da Capacidade a
criança aprimora suas formas e, quando chega ao Conceito passa para a fase
Esquemáica. Esta é marcada por uma tomada de posição frente o mundo exterior. A
criança já tem um conceito próprio do que está ao seu redor, que será
modificado por novas experiências. Usa-se da realidade como ponto de partida
para o imaginário.
Isso se evidencia nos desenhos
através de: a. uma ordem definida do espaço, onde as relações espaciais são
representadas pela linha de base ou linha terra - simbolizando tanto a base
onde as coisas são colocadas, como a superfície do terreno; e b) modificação da
sua forma de desenhar, passando a representar um todo integrado, marcado pela
continuidade da linha de contorno.
O conceito definido da
figura e do meio é representado através do “esquema
puro”, que não expressa nenhuma experiência intencional. A riqueza do
esquema, os detalhes, dependerão da personalidade de cada criança e da passagem
pelas etapas anteriores.
Aqui a criança vincula a
cor ao objeto, de acordo com as convenções e organizações pré-estabalecidas.
Um recurso bastante
utilizado neste momento é a dobragem, quando a criança desenha de um lado e do
outro da folha de papel, expressando a visão de um lado e de outro da cena.
Também o desenho Raio X, onde desenha o que imagina estar dentro de uma
determinada forma, é bastante utilizado.
Na modelagem, surge a
tridimensionalidade: formas que se apóiam uma sobre outra.
Com o desenrolar do
desenvolvimento, a criança não mais representa com base na observação visual,
mas na realidade sentida e caracterizada por si mesma: chega ao Realismo. Não
sentido mais a necessidade de esquemas, concebe planos, sobrepondo as imagens
(coloca uma sobre a outra).
Somente nesta fase adquire
consciência de superposição. Desenha, por exemplo, árvores que superpõem ao
próprio céu, quando antes desenhava uma ao lado da outra.
Torna-se, então, capaz de
utilizar-se dos efeitos de luz, sombra e distância: passa para a fase do
Pseudonaturalismo.
No adulto a qualidade do
traço é marcada pela forma e pelas linhas, rigidamente definidas, delimitando o
espaço, contendo e estabilizando o movimento. Surgem retas horizontais,
verticais e diagonais.
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Risco com Agulha em Papel Craft sobre guache preto. Desenho com
pastel seco e giz. |
As linhas horizontais e
verticais são estáticas, marcando a ausência de movimento. As primeiras sugerem
a posição deitada, dando a idéia de sono, repouso, morte, calma e imobilidade.
As segundas sugerem a postura humana, a posição em pé. Já as diagonais são mais
dinâmicas e, embora não sejam fluidas, sugerem o movimento.
A linha de contorno surge
representada no espaço, definindo a superfície claramente, permitindo a
percepção de espaço interno e externo. A superfície fechada pode ser
representada em diferentes áreas do espaço, sem perder seu significado. Os
limites são explícitos. A justaposição é, pois, a forma de relacionamento entre
as representações: componentes individuais e separáveis que podem existir
independentes da situação em que são vistos.
Encontra-se aqui o uso de
perspectiva, a esquematização ou a normatização racional de dados no espaço,
trazendo uma visão racionalista do mesmo, estritamente focal e individualizada.
Busca-se o equilíbrio
racional das formas e cores. O foco está nos detalhes colocados no todo. Não se
observam formas e cores contrastantes, visto que nesta fase os opostos são
excludentes: somente uma faceta do símbolo aparece representada. Obtém-se um “equilíbrio mecânico” das formas através
da subdivisão de planos em partes justapostas e iguais.
Observam-se efeitos de
distanciamento, tamanhos relativos, direcionamento, alinhamento,
ortogonalidade, simetria, regularidade, eqüidistância.
Para facilitar a expressão
linear, se utiliza pincéis, lápis, penas. Estes mantém um distanciamento entre
sujeito e obra.
Os suportes gráficos trazem
superfícies rígidas que podem ser organizadas em formatos diversos. Além do
papel em diferentes espessuras, pode-se usar o papelão e a madeira.
As músicas utilizadas são
ascendentes, tendo o ritmo bem marcado. Reforçam a identidade, a assertividade,
a determinação.
Os conteúdos das escritas
espontâneas vinculam-se aos arquétipos do Pai e do Herói, aos mitos posteriores
ao surgimento da consciência. Os temas abordam a ordenação, a vida civilizada,
a oposição, a destruição, o devoramento, os conflitos morais, a culpa, a
competitividade, as tradições, o respeito à autoridade, a propriedade, a
justiça, o dever, o cumprimento das obrigações e da palavra dada. Já a jornada
do herói fala do nascimento difícil, da luta pela sobrevivência, da missão a
cumprir, do encontro com a morte, da hybris (17), do métron (18).
Alteridade – nesta fase ocorre a descoberta das possibilidades de expressão
através da troca. Há um encontro com o outro, onde se estabelece um diálogo
corporal, sem que se imponha um movimento nem se deixe levar pelo movimento do
outro. O movimento é tanto influenciado pelo outro, como pelo meio, recebendo
influência de ambos, mas também os influencia.
O outro é percebido como um
igual, com quem “através dos olhos – o
espelho da alma, eu conecto meu outro e me torno uno com ele. ‘Eu te reconheço’
é o contato, é a rendição, onde eu me mostro, me entrego” ... Mas na vida
precisamos expandir ... ‘Eu te dou passagem’ e continuo a caminhada. ‘Eu sigo
meu caminho ...’” (19). E eu “Olho no teu olho... Vejo o que você faz... Voltar a mim é a
minha diferença” (20).
O amadurecimento da
consciência corporal relativisa os opostos, de forma que é possível sentir-se
bem, mas consciente da própria dificuldade, dor ou insatisfação.
O reconhecimento da “Alteridade da Psique” facilita o
trabalho com a técnica da Imaginação Ativa, onde o Ego participa da cena, mas
não rege os acontecimentos que se desenrolam. Consciente e inconsciente podem,
então, travar um diálogo onde o Ego faz as perguntas e os diferentes
personagens do universo inconsciente, as responde.
Na Expressão, o sujeito vai de encontro ao mundo e ao outro. A
vivência corporal se expande, ocorrendo uma conexão tanto com os níveis mais
densos e concretos da matéria sólida, como com a percepção dos níveis mais
sutis do corpo como fonte de energia. Isso possibilita a troca em diferentes
instâncias, não mais se vivencia pólos distintos, mas gradações sutis entre um
pólo e outro.
Os trabalhos de integração
grupal que privilegiam o encontro com o outro ou com o grupo através da música
e do movimento são priorizados neste momento.
A construção com blocos de madeira, tapete emborrachado, lego, almofadas etc, assim
como o uso de tijolos de argila com massa corrida ou água, gesso, papier
marché, massa de modelar em várias texturas concretizam a ação. Entre as
múltiplas técnicas destaca-se o trabalho com móbiles, onde o equilíbrio das
formas se faz essencial.
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Diálogo Tônico: Máscara de Pintura no Rosto |
No uso de máscaras,
focaliza-se a interação com o outro, buscando a percepção dos personagens que
atraem - com quem se quer compartilhar algo, e dos que causam repulsa - com os
quais não se deseja interagir. Faz-se importante observar o diálogo tônico e
verbal que se trava entre esses diferentes personagens.
A escolha de várias máscaras
aliada à técnica de escrita espontânea, permite o diálogo entre várias facetas
de si mesmo.
Aqui se retorna a questão
da delimitação. Agora se faz possível perceber que “a própria aceitação de limites – das delimitações que existem em todos
os fenômenos, em nós e na matéria a ser configurada por nós – é o que nos
propõe o real sentido da liberdade de criar” (21). Trata-se da real
aceitação dos limites.
A utilização das técnicas
de esculpir em madeira e pedra focaliza agora a interação com o material: o
respeito ao veio da madeira ou da pedra. O trabalho com gesso vazado tem a
mesma conotação. Faz-se necessário respeitar o que é determinante na matéria
para utilizá-la.
Processo semelhante ocorre
com o uso de aquarelas em papel já molhado: as cores não se misturam
completamente, sobrepõem-se, e o resultado final não pode ser previsto. Quando
se comete um erro não há possibilidade de se voltar atrás, como em certas
escolhas.
O desenho a partir de
formas previamente dadas visa o trabalho com as possibilidades concretas: não
há como retirar as formas, mas transformá-las e integrá-las em uma nova imagem.
Ao chegar ao Sentimento o sujeito vincula a ação ao
sentir.
As vivências propiciam
diferentes possibilidades de expressão através da troca. No movimento é
possível fluir com o outro, acompanhá-lo e ser acompanhado por este. A
aproximação cria um sentimento de intimidade e confiança, de forma que a
entrega e a sustentação se alternam nas dinâmicas. Busca-se a simultaneidade –
fazer algo junto e ao mesmo tempo – e o equilíbrio recíproco através do diálogo
corporal e do olhar.
O contato com o sentimento
leva a re-significação da dor. Com esse objetivo o trabalho de arrumar a sua
água - símbolo da emoção - em pote transparente com materiais diversos (pedras,
areia, terra, conchas, plantas etc.), leva a um contato mais profundo com os
sentimentos.
Usa-se a água para
dissolver dobraduras, imagens ou cartas escritas picadas. Pode-se depois
reutilizá-las (através da técnica de papier marché ou de reciclagem de papel
possibilitam a transformação de conteúdos).
A água também é usada para
lavar as feridas abertas com um pigmento e pincel sobre papel canson molhado.
Tanto a anilina quanto a aguada de guache podem ser usadas para dissolver e
lavar o que precisa ser transformado. O mesmo ocorre ao queimar o que não se
quer mais no fogo brando da vela: o fogo transformador. Este não queima nem
esfria, mas mantém aquecido, transformando.
Para que o verdadeiro encontro aconteça, é preciso relacionar-se com
autenticidade. No uso de máscaras, é essencial ver o rosto atrás do rosto
escondido. Tirar as máscaras é, simbolicamente, tirar as Personas. A técnica da
construção de máscaras sobre o rosto com gases gessada é interessante nesse
momento. Ao colocar o gesso sobre o rosto surge uma das muitas máscaras que se
usa nas mais diversas relações. Ao descolá-la do rosto, depara-se tanto com a
máscara externa – o que se coloca para fora, visível para o outro, como com o
seu lado interior, “a máscara interna”
- com aquilo que ela esconde.
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Máscara Gessada |
Juntar pedaços do caminho
percorrido também faz parte deste momento do Ciclo. As técnicas de trabalho com
a linha da vida facilitam a lembrança dessa trajetória. Já o trabalho com
genogramas e árvores genealógicas representados através de cores e símbolos fala
dos vínculos e das relações estabelecidas.
A pintura, com os mais
diversos materiais, facilita que a emoção flua livremente. Quanto mais aguada
maior é a carga emocional, visto que o controle do material é dificultado.
Cor e emoção têm uma
ligação direta. É através da cor que obtemos o impacto expressivo. A cor se
vincula ao estado emocional, enquanto a forma se liga muito mais ao racional. A
cor dá vida às coisas, tendo uma linguagem e simbologia própria. A análise das
cores utilizadas numa obra fala diretamente do lugar do sentimento e da emoção.
Todo trabalho realizado com
a cor pura (uma única cor), assim como as técnicas de escurecimento ou de
clareamento de superfícies com tintas, intensificam a sensação da cor e,
conseqüentemente, a sensação das emoções.
Cabem aqui as técnicas de
construção de mosaico, a costura de retalhos de panos, a colagem com papéis
coloridos ou figuras picados.
O trabalho com imagens do
passado, por meio de objetos e fotografias se adequa a este momento, visto
carregam imagens que trazem lembranças e desencadeiam emoções e sensações
vividas. Remetem a um tempo-espaço antigo e trazem a memória de registro de
fatos passados, pessoas, emoções e, por associação, outras imagens desta e de
outras épocas, possibilitando o resgate e a resignificação da história pessoal.
No trabalho com fotos, passado e presente se encontram, permitindo um diálogo
entre o eu-hoje e o eu-ontém.
Também a sugestão de que o
sujeito fotografe a partir de vivências, permite observar, através do olhar do
fotógrafo, as escolhas das expressões e dos contextos. A fotografia trás a
síntese do momento vivido.
Com relação à música
prioriza-se as que trazem uma tonalidade afetiva. Em geral são mais regressivas
e descendentes, trazendo o desejo do contato e o sentimento de fusão com o
outro.
Aqui a representação
plástica pode ser compartilhada. Há um acordo no uso do espaço gráfico junto
com o outro. O mesmo se dá com as construções com objetos, modelagem ou
corporais. Existe agora a possibilidade do fazer simultâneo.
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Desenho Compartilhado |
Nesta etapa do Ciclo há
percepção de que o criar livremente consiste num dinâmico processo de
desdobramento das limitações e de suas redefinições. As representações
plásticas trazem diferentes maneiras de relacionar tanto a totalidade com o
específico como os conteúdos contrastantes: a luz com a sombra, a proximidade
com a distância. Busca-se a harmonia no equilíbrio; a fluidez na assertividade;
a compreensão do símbolo tanto no nível racional como afetivo. A harmonia estabelece
os acordos entre as partes.
As representações trazem
não só uma visão de mundo pessoal e cultural como também os valores
individuais. Há, portanto, um estilo próprio e bem definido no fazer artístico,
configurando dois tipos básicos de representação: visual (figurativo)
caracterizado pela objetividade e pelo realismo e hápico (abstrato)
caracterizado pela subjetividade e pela tonalidade afetiva.
A capacidade de espelhar o
outro aparece como reflexos nas imagens.
O desenvolvimento e a
realização da personalidade trás a busca da medida de si mesmo. Plasticamente,
o que dá a medida das coisas é a proporção: justa relação das partes entre si e
de cada parte com o todo. Relacionamentos proporcionais requerem o sentido da
totalidade: capacidade de integrar as partes para entender-se como um todo.
A divisão do espaço trás a
coerência das partes ao formar um todo e a simultaneidade, o movimento visual
que resulta da comparação de tamanhos e posições no plano. Observa-se imagens
onde coisas acontecem ao mesmo tempo e no mesmo espaço.
A escrita espontânea trata
do Feminino e do Masculino em relação, retratada nos mitos ligados aos pares
arquetípicos e seus múltiplos relacionamentos. Surgem histórias sobre a
irmandade, a sedução, a dominação, a competição, o equilíbrio, a relação
amorosa.
Cósmica/Orgonomia – é característica desta fase a percepção do corpo como parte de uma
totalidade. Vivencia-se a inteireza e a completude, a harmonia, a graça e a
firmeza. Misturam-se os sentimento de imortalidade com a percepção do tempo
finito da encarnação.
Corpo e alma são
transcendidos e diluídos em algo maior. Vivencia-se o Self, não só o Ego.
Contata-se com um sentido transcendente para a vida, significando seu próprio
ciclo de existência.
Estados alterados da
consciência, êxtases místicos, experiências de iluminação são comuns. Estas,
porém, requerem um enraizamento que levam a percepção do mundo para além da
matéria. Nesse estado há uma sensação de inteireza, de presença, de lucidez e
um profundo silêncio interior que produz paz, tranqüilidade e equilíbrio.
Cabe aqui o trabalho de
meditação - focalizando elementos da natureza (fogo, água etc.), as cores, as
imagens, o movimento. Nestas vive-se um estado de contemplação. A atenção
focaliza o mundo interno, permitindo um mergulho profundo em si mesmo. Ao
contemplar, não apenas se olha, mas se estabelece uma relação profunda com o
objeto contemplado, reconhecendo sua existência independente e fundindo-se a
este, ao mesmo tempo.
|
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Símbolos e imagens do Self,
onde macrocosmos e microcosmos interagem e se integram numa dinâmica única, são
constelados. As noções de tempo e espaço desaparecem nas representações, mas a
estrutura se mantém. É comum a representação de mandalas e de outros símbolos
vinculados à eternidade, ao infinito, à iluminação, ao processo existencial e
ao cosmos.
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Mandala do Sol: Síntese da construção de diferentes
grupos. |
As representações plásticas
trazem configurações que apresentam um alto grau de integração e coerência, com
significados sutis e diferenciados. Múltiplos componentes podem integrar uma
nova totalidade, o que facilita o trabalho sintético.
Toda síntese resulta de um
processo de transformação e não do somatório de partes, criando uma nova totalidade
com outra identidade. Na síntese de vários materiais ou temas surgem símbolos e
configurações diferentes com novas características e possibilidades, integrando
diferentes significados.
Marco desta fase, a luz
traz a visão de profundidade. Percebe-se somente “pulsações” que deixam transparecer um ritmo, marcando aspectos
temporais não cronológicos, fora do espaço. Há, então, um maior grau de
claridade correspondente a um nível maior de aproximação e um escurecimento
mais profundo, referente a um afastamento maior.
As músicas utilizadas neste
período são ascendente, trazendo a sensação de transcendência, como se o
sujeito estivesse totalmente conectado com o “todo”.
Aparece na escrita
espontânea a imagem arquetípica do Velho Sábio. Os temas focalizam o auto
conhecimento, a aceitação da dor, a superação do destino, o centro em volta do
qual tudo se organiza. Refere-se também ao ciclo vida-morte-renascimento, o
eterno retorno, tão bem retratado no Mito de Fênix.
CONCLUSÃO
Em Arteterapia, a análise simbólica
do fazer artístico retrata a existência de uma continuidade no fluxo das
imagens do inconsciente. Através delas visualizamos o caminho do percurso do
desenvolvimento humano rumo à Individuação.
Tal caminho é espiralado e
cíclico, de forma que retornamos várias vezes a determinados caminhos para
conhecê-los melhor e percebê-los mais profundamente. Nesse trajeto, passamos
por inúmeros lugares. Às vezes paramos e ficamos por longo tempo. Em outros
momentos passamos batidos, tão rápido, que nem vemos a estrada. Alguns lugares
são muito conhecidos, pois voltamos a eles várias vezes; outros bastante
evitados.
Os Ciclos Arquetípicos e o
Círculo Psico-Orgânico falam desse percurso. Tomando-os como referencial, o
arteterapeuta pode: a) perceber o momento vivenciado pelo cliente, permitindo
uma avaliação diagnóstica; b) acompanhar o desdobramento de processos
intrapsíquicos, identificando temas que possuam relação significativa com o
momento vivido na terapia; e c) sugerir técnicas diversas que possibilitem o contato
com conteúdos que este necessita ativar e integrar em si, facilitando o
processo de auto conhecimento.
No percurso do
desenvolvimento humano os movimentos, as imagens e as palavras “fluem” nas mais diversas instâncias. As
propostas dos diferentes canais expressivos constelam dinâmicas referentes a
cada etapa deste percurso, trazendo novos conteúdos para serem integrados,
ampliando cada vez mais a consciência.
ANA LUISA BAPTISTA
Psicóloga Clínica (CRP 05/23146).
Arteterapeuta pela Clínica Pomar.
Especialista em Psicologia Junguiana pelo Instituto
Brasileiro de Medicina e Reabilitação - IBMR.
Formanda em Terapia Psico-Corporal pela Escola Francesa de
Análise Psico-Orgânica - EAPO.
Analista Trainée da Associação Junguiana do Brasil pelo
Instituto Junguiano/RJ.
Coordenadora de cursos de Formação e de Grupos de Vivências
em Arteterapia desde 1996.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
(1),
(2) e (3) - NEUMANN, Erich – A Criança:
Estrutura e Dinâmica da Personalidade em Desenvolvimento dede o Início de sua
Formação. São Paulo: Cultrix, 1991 – p. 35; p. 25.
(4)
BYINGTON, Carlos – Desenvolvimento da
Personalidade: Símbolos e Arquétipos. Rio de Janeiro: Ática, 1987, p. 43.
(5) JUNG, C G - CW16, p. 294.
(6)
LEITE, Isabela Fernandes Soares - O
Herói: uma Jornada Através dos Tempos. Mimeo, Instituto Brasileiro de
Medicina e Reabilitação.
(7)
REICH, Eva – Prevenção da Neurose a
Partir do Nascimento – p. 29. In Cadernos de Psicologia Biodinâmica – vol.
1. São Paulo: Summus, 1983.
(8)
SOTTER, Edna Maria – O Corpo do Bebê:
Campo de Comunicação Entre Mãe e Filho – In Revista do Corpo e da
Linguagem, Rio de Janeiro: Ed. Icobé Ltda, p. 77.
(9)
BESSON, Jaqueline e BRAULT, Yves – O
Círculo Psico-Orgânico. In ADIRE 1991 e Manuel d’ Enseignement de L’ EFAPO
1991, 1994, p. 14.
(10),
(11) SASHARNY, Silvana – Análise
Psico-Orgânica – 1ª Jornada Reichiana, 2000, p. 5.; p. 4.
(12)
As fases do desenho aqui citadas referem-se ao trabalho de Lowenfeld sobre o
desenvolvimento do desenho no decorrer da infância.
(13)
Máscaras que cobrem toda a cabeça, confeccionadas em tecidos elásticos de cores
variadas e que tiram a precisão da expressão.
(14)
Corte de uma peça com fio de nylon em vários pedaços, retirando o barro interno
e deixando a superfície.
(15)
Criado por Augusto Boal.
(16),
(21) OSTROWER, Fayga - Criatividade e
Processos de Criação; Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro, 1987, p. 160.
(17)
Orgulho, descomedimento.
(18)
A justa medida.
(19)
BONETTI, Maria Cristina de Freitas, in RAMOS, Renata C. L. (org.) – Danças Circulares Sagradas: uma proposta de
Educação e Cura – São Paulo: TRIOM: Faculdade Anhembi Morumbi, 1998.
(20)
Autor desconhecido.