Terezinha Araújo

 

A voz de anjo

 

Aos três anos de idade, Terezinha Araújo já cantava acompanhada pelo violão do pai, José Araújo, com uma voz de anjo que não perdeu beleza nem frescor com o passar dos anos. O convívio com algumas das mais altas personalidades da cultura cabo-verdiana, dentre eles Amílcar Cabral, Abílio Duarte e Valdemar Lopes da Silva, incutiram-lhe o amor pela cultura do país natal, que soube expressar através do canto em palcos de todo o mundo com a sua voz de anjo, que embala a alma e faz sorrir o coração. No ano passado, lançou «Nôs Riqueza», o seu primeiro álbum a solo, depois de quatro discos como elemento do grupo Simentera. Agora, prepara o segundo CD da sua carreira individual, como conta ao ASemanaOnline nesta entrevista, a par de outros episódios da sua história.

 

Entrevista por: Teresa Sofia Fortes

 

 

- Sei que muito cedo em sua vida descobriu a música. Como se deu esta descoberta?

 

- Achei a música em minha casa com o meu pai, José Araújo, que tocava violão muito bem. A família da minha mãe, mais propriamente os seus irmãos, que viviam em Angola, também tocava. A minha tia Lily Tchiumba era cantora e cantava música cabo-verdiana e angolana, fruto das influências do pai, que era cabo-verdiano, e da mãe, angolana. Foi o meu pai que directamente me transmitiu o amor pela música. Com três anos de idade, ele já me ensinava canções infantis, que eu cantava com ele a acompanhar-me ao violão. Depois, na escola piloto, na Guiné Conakry, Amílcar Cabral e os nossos professores sempre incentivaram uma educação com amor à nossa cultura, valorizando-a todos os dias através das mais diversas manifestações artísticas, música, dança, teatro, etc. Mas foi quando eu tinha oito anos que descobriram o meu talento, num dia em que cantei «Fidjo Magoado», do compositor Jota monte. Nunca mais parei. Em 1973 fui à Berlim,onde participei no Festival Internacional da Juventue e estudantes integrada num grande grupo de jovens que representavam Guiné e Cabo Verde, pois ainda vigorava o projecto de unidade, que chegou ao fim com o golpe de Estado na Guiné. Fui premiada com uma menção honrosa por ser a mais jovem cantora de sempre na história desse festival. Meses depois fui estudar para a União Soviética.

 

- Dedicava-se à música com uma paixão pessoal ou essa dedicação era consequência da forte influência que o seu pai exercia sobre si?

 

- Nunca vivi sem música ... É como o ar que respiro, uma necessidade, uma forma de vida. A minha dedicação à música foi natural e muito apoiada pela minha família, pelos meus professores e por amigos que foram muito importantes para mim, principalmente Amílcar Cabral, Abílio Duarte e Valdemar Lopes da Silva, que me acompanhava ao violão e me ensinou muitas mornas.

 

- Por ser tão natural a sua relação com a música, pensava numa carreira artística?

 

- Nunca pensei na música como profissão. Sabe, nós que éramos crianças naquela época não tivemos uma infância normal, tornamo-nos adultos muito cedo, fruto das circunstâncias em que vivíamos. Por isso, muito cedo foi incutida em nós a consciência das necessidades do nosso pobre país, pelo que queríamos ter uma formação, uma profissão que pudesse contribuir para o seu desenvolvimento. E a música não era opção profissional, mas esteve sempre presente na minha vida. Eu entrei na música durante a luta pela independência de Cabo Verde e Guiné-bissau, daí que aprendi muito cedo as músicas de intervenção, de protesto e de denúncia da situação das colónias, e outras músicas que relatam a vivência do nosso posso.

 

- Então, formou-se em que área profissional?

 

- Formei-me em Educação de Infância (Psicologia e Pedagogia).

 

- Na universidade, havia tempo e espaço para a música?

 

-      Na minha faculdade e não só, eu participava nas diversas actividades culturais que havia. Nós tinhamos a Associação dos Estudantes que também  organizava alguns espectáculos.

 

 

- Teve o privilégio ainda criança de conhecer a Miriam Makeba. Como foi esse encontro?

 

- Olha, na altura, anos 70, eu não tive a noção da importância do encontro com ela. Na ocasião, cantei mais uma vez a música «Fidjo Magoado», na presença de Amílcar Cabral, Sekou Touré e outros dirigentes africanos e de outros países e da própria Miriam Makeba. No fim do espectáculo, ela quis se encontrar com o responsável da comitiva cabo-verdiana-guineense e quando o fez disse-lhe que queria ser minha tutora musical e que estava disposta a colocar-me numa escola de música. Mas os meus pais disseram que não podia, eles consideravam que o mais importante era estudar para se formar em uma outra área. Anos mais tarde, com o Simentera, encontrei a Miriam Makeka no Festival de Angoulême, em França.  Tocamos no mesmo palco.  Depois da sua actuação quiz ir visitá-la no seu camarim, mas naquele dia caiu uma chuva tão forte que não consegui ir. Espero que um dia, a vida me proporcione um outro encontro entre nós duas porque admiro bastante a Miriam Makeba, pela sua postura em relação à música, uma lutadora africana, corajosa, que luta permanentemente pela liberdade e prosperidade do seu povo.

 

- Em 1985, regressou a Cabo Verde, já formada. Também subiu aos palcos cabo-verdianos para cantar?

 

- Quando regressei a Cabo Verde, depois do curso, trabalhei como responsável dos jardins-de-infância do Instituto Cabo-Verdiano de Solidariedade. E como fui ensinada desde cedo a valorizar a cultura da nossa terra, ensinava também às monitoras dos jardins a fazê-lo e elas por sua vez transmitiam essa valorização às crianças. Naquela época, a Granja de São Filipe acolhia várias crianças e ali nós organizávamos várias actividades culturais, com muita música, é claro. No ano seguinte ao que regressei a Cabo Verde, o Lalacho, agora a viver em Portugal e que desenvolve um trabalho como contador de histórias tradicionais, pediu-me para fazer a abertura do Todo o Mundo Canta. Cantei duas músicas e a partir daí surgiram mais convites para cantar em outros eventos – galas, noites culturais, Cimeira dos Cinco – até aparecer o grupo Simentera.

 

- E como foi que entrou para o grupo Simentera?

 

- O Simentera surgiu de uma forma bonita porque foi de uma forma espontânea. Cada um de nós, que depois veio a integrar o grupo, tinha sido convidado para participar  no encerramento do último congresso do PAICV antes da abertura política.  Cada um de nós cantou a sua música e depois o Mário Lúcio Sousa sugeriu que cantássemos juntos a última música. Cantámos aquela música do Paulino Vieira, que diz «alô, alô, Cabo Verde alô, terra sabe»... O público aplaudiu muito e algumas pessoas sugeriram-nos que formássemos um grupo. E dissemos: «porque não?» Mais tarde, encontramo-nos em casa da Arlinda Santos e foi assim desta forma que em 1991, a 14 de Julho, que o nosso grupo começou como uma brincadeira mas se tornou uma coisa séria. Em 1992, lançamos oficialmente o grupo, com uma filosofia de recolha e preservação da nossa música, mas sempre com uma visão universal.

 

- O Simentera já gravou quatro discos, pisou palcos nos quatro cantos do mundo, recebeu prémios ... Pessoalmente, como avalia esses anos?

 

- O Simentera é um grupo que teve um percurso invejável, brilhante porque um grupo que em Março de 1992 se forma e já em Junho foi convidado para representar Cabo Verde na Expo Sevilha ... Nunca mais parámos. Em 1993, participámos junto com Tchota Suari, Augusto Cego e outros artistas nacionais num CD de música tradicional cabo-verdiana produzida por um sueco, intitulado «Folk Music from Cape Verde». Em 1994, fomos à Suécia e à Finlândia para alguns concertos. Seria em Abril de 1995 que gravaríamos o nosso prémio CD - «Raiz» -, um disco muito bonito, que até hoje vende muito bem. A este disco, nestes 10 anos, seguiram-se outros três: «Barro e Voz» (1997), «Cabo Verde em Serenata» (2002) e «Trad´cional» (2004). Com este último disco, o Simentera chegou ao mais alto nível, pois internacionalizou-se com a participação de artistas estrangeiros nas músicas do grupo. Agora, estamos numa fase de reflexão para repensar o nosso grupo. Mas o disco «Trad´cional» precisa ainda ser promovido ... Parece que vai ser este ano.

 

- Além de Terezinha Araújo, em 2004, outros dois elementos do Simentera – Teté Alhinho e Mário Lúcio Sousa – lançaram álbuns a solo. Não teme que as carreiras individuais de cada um enfraqueçam o conjunto?

 

- O meu disco saiu quase na mesma altura que o de Mário Lúcio Sousa, mas o meu era para ser gravado há muito mais tempo. Vicissitudes da vida e o facto de ao longo destes anos eu ter dado prioridade ao Simentera, adiaram o projecto. Mas, voltando à sua questão, posso dizer que na minha opinião, os trabalhos a solo não constituem um perigo para o Simentera. O grupo ainda está activo ... Olha, a Teté Alhinho gravou três discos a solo como elemento do Simentera e isso não prejudicou o grupo. O nosso trabalho como grupo Simentera vai continuar e com qualidade.

 

- O seu disco a solo, «Nôs Riqueza», é uma múltipla homenagem. Pode nos falar um pouco disso?

 

- O meu disco é dedicado em especial ao meu pai, José Araújo. O disco tinha sido concebido para ser feito quando ele ainda era vivo, ou seja, há 12 anos. Depois da morte dele, fiquei a amadurecer a ideia. Entretanto, tive dois filhos, que enquanto bem pequenos eram a minha prioridade, o Simentera também consumia muito o meu tempo. Morreram também o Abílio Duarte e o Valdemar Lopes da Silva, e decidi por isso fazer o disco em homenagem a eles, ao meu pai, e também a Amílcar Cabral. Ao lançar o disco «Nôs Riqueza» no ano passado, realizei um sonho que não era só meu, mas também do meu pai. Se não gravasse esse disco estaria eternamente em dívida com ele.

 

- Se alguém quisesse comprar «Nôs Riqueza», mas estivesse ainda com algumas dúvidas, o que lhe diria para o convencer totalmente de que é um bom disco?

 

- Quem melhor definiu o meu disco foi a minha prima, que escreveu o prefácio. Ela disse que em «Nôs Riqueza» canto as minhas terras – Cabo Verde, Angola e Guiné Bissau - , a morabeza, a saudade, o amor, a dignidade humana e a luta pela paz e presto homenagem a algumas pessoas importantes da minha vida com uma música de uma determinada época (dos anos 50 até a independência).

 

- Como está a ser feita a promoção de «Nôs Riqueza»? Agrada-lhe a recepção que lhe tem sido reservado até agora?

 

- Sabe, desejamos sempre fazer o melhor, mas temos limitações. Fiz o lançamento em Cabo Verde no início do ano passado. Viajei no mesmo ano já em Novembro a Europa, onde  para além de alguns concertos de promoção, pude fazer o lançamento oficial em Paris. Para este ano, está prevista uma digressão de promoção para o mês de Maio. As informações que tenho dizem que o disco está a ser bem acolhido em Portugal e França. Infelizmente, tenho poucos discos à venda em Cabo Verde. Para o lançamento que fiz aqui mandei vir  1500 discos, mas todo o dinheiro conseguido com a realização de espectáculos foi para pagar o IVA e dívida com a fábrica do disco. Felizmente tenho conseguido pagar até agora alguns tranches, mas ainda está faltando uma parte. Como dizia o Ildo Lobo, infelizmente temos que importar a nossa própria cultura.

 

- Um segundo disco faz parte dos seus planos?

 

- Sim, a produtora alemã que fez o meu primeiro disco – o Malagueta Music - já me pediu um segundo disco, ainda para este ano. Está previsto que eu viaje para a Europa no próximo mês de Maio para espectáculos de promoção de «Nôs Riqueza», já com a ideia de iniciar os trabalhos do novo disco. Estou por isso, a elaborar o projecto desse disco.

 

- Projecta um disco na mesma linha de «Nôs Riqueza» ou deseja fazer um álbum diferente?

 

- Será certamente um disco diferente. «Nôs Riqueza» é um disco específico, de homenagens específicas. O segundo disco será necessariamente um disco mais leve e descontraído e com música variada, fruto da minha vivência com as culturas da Guiné, Cabo Verde e Angola.

 

- E consegue conciliar bem a carreira musical com o trabalho e a família?

 

- Sim, consigo conciliar tudo isso com muito “ginástica” e apoio incondicional da minha família, colegas de trabalho e pessoas sensíveis á música de Cabo Verde. A eles todos, o meu profundo agradecimento.

A Semana

 

 

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