Tcheka

 

“Há quem não compreenda a minha música”

 Dois anos depois de “Argui”, Tcheka prepara-se para lançar um novo disco, acompanhado de um DVD oferta. “Nu Monda”, que será posto à venda em Cabo Verde no próximo dia 14 de Março, e na Europa, no dia 26, é composto por 12 faixas escritas pelo músico de Ribeira da Barca. A este “Nu monda”, nas palavras do músico, “foi retirado tudo o que estava a mais a nível musical, da mesma forma como no campo se mondam as ervas daninhas”.

 

Que evolução houve no Tcheka como músico, desde o lançamento do primeiro álbum?

Sinto-me agora mais à vontade, porque já tenho a experiência do outro disco. Desta vez tive mais liberdade para trabalhar uma vez que estava mais por dentro da forma como as coisas se fazem. É por esta razão que sinto que este disco é muito mais eu. O lançamento do primeiro álbum foi um grande incentivo para continuar a trabalhar, com o sentido de exigir mais e mais de mim. Só assim posso levar a cultura para a frente. Fazer música é muito mais do que tocar ou saber compor. Exige ouvir outros músicos, pesquisar outras técnicas de guitarra e composição e dinâmica musical. Só desta maneira posso saber o que estou a fazer, distinguir o que é bom ou mau.

 

Que critérios usa para traçar essa fronteira entre o que supostamente é bom ou mau?

Através desse trabalho de pesquisa e do contacto com novas formas de se fazer as coisas, ou de ouvir música de outras dimensões. Analiso também muitos dvd’s de vários artistas, para ver como actuam quando estão em palco. Isso dá-me pistas sobre como “comportar-me” diante do público. Um dos exercícios que faço várias vezes é tocar em frente de uma câmara de filmar, fingindo que estou em concerto e que a câmara é o público. Quando acabo, analiso a forma como o meu corpo reage à música e tento ver se devia fazer movimentos mais lentos, mais rápidos ou ter outra postura.

 

Isso não retira alguma espontaneidade à actuação?

Esta é uma maneira de melhorar a minha forma de estar no palco e de passar a mensagem ao público, mas sem fugir ao que sou, sem tirar nada de mim. Se houver um dia em que me aperceba que estou a tentar imitar ou ser outra pessoa, deixo a música, porque isso é sinal de que já não há mais nada em mim para dar, em termos artísticos. A arte vem de dentro, e é isso que nos dá a originalidade.

 

De que forma esse trabalho de pesquisa se reflecte no novo trabalho?

Neste disco tentei demonstrar que Santiago e Cabo Verde não são só batuque, que há um outro lado e outros sons da tradição menos conhecidos. Penso que a música cabo-verdiana é tida em conta sobretudo a nível do barlavento, por isso quero mostrar que o sotavento tem muito ritmo, muita tradição. E antes de morrer, só Deus sabe quando, quero mostrar que estas ilhas têm muito para dar, a nível musical. Por exemplo, numa das faixas tem como base um ritmo da ilha do Fogo, que se toca na festa de S. Filipe. Mas mesmo o batuque que gravei neste trabalho não é puro, tentei suavizar um pouco aquela batida forte a que as pessoas estão habituadas.

 

É o tal trabalho de estilização da tradição?

Posso dizer que sim. Mas fiz isto, também, porque acho que em Cabo Verde estamos a precisar de música que faça pensar, que exija que nos sentemos a escutá-la, só assim. As pessoas estão demasiado habituadas à ideia que tudo o que se toca e canta é para se dançar. Penso que é por isso que há quem diga que não compreende a minha música, o que me deixa um pouco triste.

 

Porque é que isso ocorre?

Por um lado, porque talvez haja falta de educação musical em Cabo Verde, mas essa não é a única razão. Quando alguém diz que não compreende a minha música, também se refere ao que eu canto em termo de letras. Eu tento trabalhar a originalidade do crioulo, que está cada vez mais aportuguesado, e isso torna-se complicado para as pessoas da cidade, principalmente, porque já não conhecem nem entendem o crioulo do interior de Santiago. O meu projecto como músico passa também por aí – mostrar às novas gerações que o crioulo se falava assim, desta forma como eu o canto.

 

Mesmo com essas dificuldades, após o lançamento do primeiro disco, houve a explosão do Tcheka...

É verdade, mas acho que fui melhor aceite lá fora, no estrangeiro, onde as pessoas têm uma outra formação musical, do que aqui em Cabo Verde. Eu tento fazer com que a minha música chegue a todos, seja universal, pelo menos estou a tentar trabalhar para isso. Quero mostrar lá fora como é o cabo-verdiano e as coisas típicas do nosso país que estão a desaparecer de dia para dia.

 

Pretende, de alguma forma, criar um “estilo Tcheka”, que sirva de referência na música cabo-verdiana?

Pelo menos é o que eu exijo de mim, criar um estilo que tenha alguma coisa a ver com a forma de viver do homem do interior de Santiago e com o dia-a-dia de Cabo Verde. Mas ao mesmo tempo não sei muito bem o que é isso do “meu” estilo, porque é uma coisa que está cá dentro e que não sei explicar. É por isso que não quero tocar músicas de outros compositores. Não é egoísmo ou arrogância, é apenas vontade de mostrar o meu lado das coisas.

 

A música de Pantera objectivava também, de alguma forma, retratar o quotidiano do interior de Santiago. Incluis-te na chamada “geração Pantera”?

Tenho muito respeito pelo Pantera como compositor, mas não acho que ele tenha influenciado o meu trabalho. É claro que tenho artistas referência, mas acho que a pessoa que mais me ensinou e influenciou foi o meu pai.

 

Como será o DVD-oferta que acompanha o seu novo trabalho?

Neste DVD as pessoas vão poder ver um concerto que dei no Maria Matos em Lisboa, uma entrevista que me fizeram na Ribeira da Barca, e um vídeo-clip da nova música “Agonia”, que foi realizada por Eric Persylon.

 

Histórias de “Nu Monda”

 

São doze músicas “que estavam dentro da gaveta” e que saíram cá para fora após a gravação de “Argui”. Doze histórias contadas pela voz de Tcheka, pelas guitarras de Hernâni e Ângelo Andrade, pelo baixo de Kizó e pela percussão de Raul. São relatos da vida do interior de Santiago, que contam também com a contribuição narrativa e musical de Tafá, percussionista de jazz senegalês, convidado para a gravação deste disco. Tcheka revelou em exclusivo a “A Semana Online” dois dos percursos de vida cantados em “Nu Monda”.

 

 

“Estrada Pico Capataz”

É uma história verídica. Havia um capataz que, por não gostar muito de uma camponesa que trabalhava sob as suas ordens, riscou-a da lista de trabalhadores. Sem saber disso, uma manhã essa mulher camponesa sai de casa, em direcção à estrada de Picos, onde os trabalhadores eram chamados para ir para o campo. Quando se apercebe de que não consta da lista, apoiada pelos restantes camponeses, a mulher pede explicações ao capataz, que mesmo assim, se recusa a aceitá-la. Humilhada, volta então para casa, onde estão os filhos, que desde manhã não têm nada para comer. Esta música serve para denunciar o poder excessivo que algumas destas pessoas, que ainda existem, têm na mão.

 

“Malcriado”

Uma mulher é arrancada de casa por um homem que a viola. O marido desta senhora, quando sabe o que aconteceu, pega numa catana para matar o violador. Nesta música uso uma série de metáforas, que disfarçam o acto sexual, a violação da mulher. Estã tudo no refrão: [cantando] “Bu subi’m na côcu/ Bu dadji’m na mudjer/ Ma’n teni machim ta sperábu/ Bu rinca purga, bu durba côcu”. Esta música começa com a cadência e a sequência melódica de acorde altos da morna, mas depois muda totalmente. Nem eu sei bem que estilo é este, foi algo que saiu cá de dentro e que não sei explicar.

 

Pedro Miguel Cardoso

A Semana

 

 

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