
"Nunca paramos de procurar porque nunca encontramos."

"� pelas m�os que se v� a m�o", dizia o meu pai.
Ao fim e ao cabo, uma obra de arte n�o se realiza com ideias, mas com as m�os."

O primeiro nome deste quadro, pintado de finais de 1906 a julho de 1907, foi Le Bordel d'Avignon. Tratava-se, efectivamente, de uma apresenta��o de mulheres aos clientes de uma casa de passe.Mas, � medida que a elabora��o da obra fora progedindo, as personagens masculinas tinham desaparecido. Quando se ocupa da exposi��o desta tela, em 1916, Salmon d�-lhe o seu t�tulo actual, mais aceit�vel para os organizadores, mas de que Picasso n�o gostava.

Em 1920, a Kahnweiler:
-Sabemos muito bem que o cubismo n�o nos teria apaixonado como apaixonou se n�o tivesse sido uma quest�o puramente �ptica.

A
Fran�ois Gilot,que lhe dizia que as colagens de pap�is lhe pareciam uma
esp�cie de subproduto do cubismo:
-De modo nenhum.O papel colado esteve verdadeiramente no cerne da descoberta,ainda que,esteticamente,se possa preferir-lhes as telas cubistas.Um dos pontos fundamentais do cubismo visava deslocar a realidade;a realidade deixava de estar no objecto,passava a estar na pintura.Quando o pintor cubista pensava:"vou pintar uma compoteira",lan�ava-se ao trabalho,sabendo que uma compoteira em pintura nada tinha a ver com uma compoteira na vida real.�ramos realistas,mas no sentido do ditado chin�s "N�o imito a natureza,trabalho como ela."
"� preciso que a natureza exista, para que possamos viol�-la!"

As minhas telas, acabadas ou n�o, s�o as p�ginas do meu di�rio, e enquanto tais, s�o v�lidas. O futuro escolher� as p�ginas que prefere. N�o me compete a mim fazer a escolha. Tenho a impress�o que o tempo passa cada vez mais rapidamente. Sou como um rio que continua a correr, arrastando consigo as �rvores arrancadas pela torrente, os c�es mortos, detritos de todos os g�neros e os miasmas que nele proliferam.

Gostaria de chegar a um ponto em que ningu�m conseguisse perceber como � que o meu quadro foi feito. Que diferen�a � que isso faz? O que desejo � que do meu quadro emane unicamente a emo��o.

� preciso mostrar todos os quadros que pode haver por detr�s de um quadro.

Nada se pode fazer sem solid�o. Criei para mim mesmo uma solid�o de que ningu�m desconfia. Hoje � muito dif�cil estarmos sozinhos,porque temos rel�gios. Alguma vez viu um santo com um rel�gio? Procurei por todo lado tentando encontrar um, mesmo entre os santos que passam por ser os patronos dos relojeiros.

No fundo, s� o amor importa. Seja ele qual for. E dever-se-ia vazar os olhos aos pintores, como se faz aos pintassilgos para que cantem melhor.

Todo o interesse da arte reside no come�o.Depois do come�o,� j� o fim.
Em pintura pode experimentar-se tudo. Temos at� esse direito. Na condi��o de nunca recome�ar.
Amo acima de tudo a luz.S� acredito no trabalho. S� h� arte com muito trabalho, um trabalho tanto material como cerebral.
Pinto como respiro. Quando trabalho, estou a descansar. N�o fazer nada ou falar com os que v�o ver-me � que me cansa.
Para mim, um quadro � uma soma de destrui��es.
A liberdade de pintar � a liberdade de libertar qualquer coisa de si mesmo. � preciso andar depressa, porque n�o dura.

As declara��es pol�ticas de Picasso s�o muito raras.Sobre a guerra civil que despeda�a a Espanha a partir de 1936,pronuncia-se todavia de forma clara:
-A guerra de Espanha � a batalha da reac��o contra o povo, contra a liberdade. Toda a minha vida de artista mais n�o foi do que uma luta contra a reac��o e contra a morte da arte. No painel em que trabalho agora e a que chamo Guernica, exprimo claramente o meu horror pela casta militar que mergulhou a Espanha num oceano de dor e de morte...
O quadro Guernica � apresentado no pavimento da Rep�blica Espanhola no �mbito da Esposi��o Mundial de Paris de 1937. Os republicanos,que � data ainda governam a Espanha,consideram a tela "anti-social, rid�cula e totalmente inadequada � s� mentalidade do proletariado".
Pelo seu lado, o cr�tico Cl�ment Greenber,na altura marxita, fala de "uma cena de batalha que tivesse passado sob um rolo compressor em mau estado."
Picasso, para responder aos ataques a esta tela ou �s outras produ��es relacionadas com a guerra, precisa:
-N�o pintei a guerra, porque n�o sou esse g�nero de pintor que vai como um fot�grafo � procura de qualquer coisa para representar . Mas tenho a certeza de que a guerra est� nos quadros que fa�o. Mais tarde, talvez, os historiadores...mostrar�o que o meu estilo mudou sob a influ�ncia da guerra. Mas, eu, n�o sei.
A prop�sito de Guernica, Michel Leiris escreve:
"Num rect�ngulo preto e branco, tal como nos aparece a trag�dia antiga, Picasso envia-nos a nossa carta de participa��o: tudo o que amamos vai morrer."

O que me interessa � estabelecer aquilo a que se poderia chamar rela��es de grande amplitude, rela��es muito inesperadas entre as coisas de que quero falar. Nesta dificuldade h� um interesse, e neste interesse h� uma tens�o que, para mim, � muito mais importante do que o equil�brio est�vel da harmonia , que n�o me interessa absolutamente nada. A realidade deve ser trespassada, em todos os sentidos da palavra.

N�o h� uma �nica pintura, um �nico desenho meu que n�o corresponda exactamente a uma vis�o do mundo.

Mais tarde, ningu�m ver� o quadro. Ver�o a lenda que o quadro criou; que importa ent�o que o quadro dure ou n�o dure. Far�o restauros, mas um quadro s� existe pela sua lenda e por nenhuma outra coisa; tamb�m o papel colado pode entrar para a lenda.

Quando vejo um amigo, o meu primeiro gesto � procurar nos bolsos um ma�o de cigarros para lhe oferecer um, como fazia antigamente. Ora, sei muito bem que deix�mos de fumar. Por muito que a idade nos obrigue a renunciar a certas coisas, o desejo fica. � o mesmo com o amor. J� n�o o fazemos,mas o desejo fica. Levamos a m�o ao bolso.
Pablo Picasso
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