Na origem da beleza está unicamente a ferida, singular, diferente para cada qual, escondida ou visível, que todos os homens guardam dentro de si, preservada, e onde se refugiam ao pretenderem trocar o mundo por uma solidão temporária mas profunda. Fora de miserabilismos. A arte de Giacometti parece querer revelar essa ferida secreta dos seres e das coisas, para que nos ilumine.

Zona secreta, solidão onde se refugiam os seres- e as coisas-, é ela que dá beleza à rua: por exemplo, se for sentado num autocarro basta olhar pela janela. A rua cede o que o autocarro devassa. Sigo demasiado depressa para ter tempo de reter rostos ou gestos, a velocidade exige do meu olhar igual velocidade, e por isso nem um rosto, um corpo, ou atitude sequer, me esperam: tudo está ali a nu. Registo: um homem enorme, curvado, muito magro, peito escavado, óculos, o nariz comprido; uma dona-de-casa gorda caminha lentamente, pesada, triste; um velho sem graça, uma árvore solitária, ao lado outra árvore solitária, ao lado outra árvore solitária, e outra...; um empregado, outro, uma multidão de empregados, a cidade inteira cheia de empregados curvados, todos juntos num pormenor que os meus olhos registam: bocas crispadas, ombros caídos...uma a uma, talvez devido à velocidade dos meus olhos e do veículo, as suas atitudes ficam rabiscadas tão depressa, tão rápido surpreendidas em seu arabesco, que cada ente é-me revelado no que tem de novo e insubstituível- invariavelmente uma ferida- graças à solidão onde essa ferida os coloca e eles mal reconhecem, se bem que todo o seu ser aí aflua. Atravesso assim uma cidade esboçada por Rembrandt, com cada qual e cada coisa fixos numa verdade que dispensa beleza plástica. A cidade- feita de solidão- seria admirável de vida não fôra o meu autocarro cruzar-se com um par de namorados a atravessar um largo: agarrados pela cintura, a rapariga engendrou este gesto encantador: meter e tirar a mãozinha no bolso traseiro do blue-jean do rapaz, gesto gracioso de afecto que banaliza uma página inteira de obras-primas.
Solidão, como eu a entendo, não designa estatuto de miséria mas secreta soberania, nem profunda incomunicabilidade mas conhecimento mais ou menos obscuro de uma singularidade intocável.

É
inevitável tocar as estátuas: afasto os olhos e a minha mão
prosegue sozinha à descoberta: pescoço, cabeça, nuca,
ombros... Confluem sensações na ponta dos dedos. Nenhuma se
repete, de modo que a mão percorre essa paisagem variada e viva.
...
Os meus dedos repetem o percurso dos de Giacometti, mas enquanto os dele procuravam
apoio no gesso húmido ou no barro, os meus retomam-lhe os passos com
segurança. E afinal! a mão vive, a mão
vê.
...
Vamos beber um copo. Ele toma café. Pára para melhor captar
a beleza penetrante da rua de Alésia, beleza suave, por causa das acácias
cuja folhagem pontiaguda, acerada, à transparência do sol, mais
amarelo que verde, parece derramar sobre a rua uma poalha doirada.
Ele Que bonito, que bonito...
...
(Setembro de 57) Dei com a mais bela estátua de Giacometti há
três anossob a mesa, ao baixar-me para apanhar uma beata. Cheia
de pó, escondida, o pé de alguém poderia já tê-la
quebrado inadvertidamente...
Ele Se ela tiver força, acabará por mostrar-se, mesmo
que eu a esconda.
...
Ele Bem bonito!...bem bonito!...
Ainda que lhe custe, manteve levemente o sotaque dos Grisons... Bem bonito!
olhos arregalados, sorriso amável; referia-se à poeira
que cobre as garrafas de terebentina empilhadas na mesa do estúdio.
...
de: Jean Genet, O Estúdio de Alberto Giacometti, Assírio & Alvim. Tradução de Paulo da Costa Domingos.

de Henri-Cartier Bresson
Em estado puro
Numa das esculturas de Giacometti, tocadas ainda de fogo, um homem caminha,
em movimento solitário e eterno. Não sabemos se entra, se sai
da morte, mas conseguimos reconhecer, na nobreza do cobre, a própria
condição humana. Como benção ou danação,
o escultor devolve- nos a vida em estado puro. Viver é também
isso. Percorrer um campo de anémonas, quase com vergonha do que trazemos
escondido, na mão.
Mário Rui de Oliveira