Mulher à Janela

 

      Ela queria tomar o partido do visível, 
       a visão como vela armada para a viagem, 
tensa como a corda do arco       
            na suspensão do gesto inocente sobre a seta. 
        Debruçada, num ofício de corpo presente, 
     viu passar toda a blandícia na brisa. 

 Agora recolhe-se ao copo facetado 
 de que uma só face dá para o mundo
       como a alma no azul escuro de um vitral,
     o vinho quente no fundo de um cálice: 
         o quarto onde guarda o estojo da sua vida 
     com  o sombreamento do dia no soalho. 

          Exasperada pela cintura de gelo na vidraça, 
  para onde declina lentamente a face,
       estenderia o braço se o ser em cada coisa
 lhe fosse dado tocar: o mundo      
       de que ela fosse mais que o alto-relevo  
    fixo para sempre na moldura da janela.



Paulo Teixeira






Caspar David Friedrich

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