O Assalto

de

Ilona Bastos

                   
                 
               
               
               
   

O pai Francisco levantou-se do sofá e bocejou.

- Bom, está na hora de irmos para a cama - disse ele. - Estou cheio de sono.

A filha mais velha, a Luiza, olhou para a irmã, Ana, e fez uma careta.

-Não! – protestou. – Ainda é tão cedo!

A mãe olhou para o relógio e concordou com o marido:

- Temos mesmo de ir dormir, meninas, para amanhã nos levantarmos bem dispostos e podermos gozar o Carnaval.

Com ar ensonado, o pai desligou a televisão. E a mãe foi fechar a porta da rua, dando três ruidosas voltas à chave. As filhas seguiam, aflitas, os seus movimentos.

- Não podemos ir já para a cama - insistiu a Ana.

- Mas, porquê? - surpreendeu-se a mãe. E as meninas entreolharam-se, nervosamente.

Lembravam-se das recomendações da avó Adelina, que lhes pedira para guardarem bem o segredo e não estragarem a surpresa.

- Já são onze horas - disse a mãe. - Não compreendo a vossa insistência...

- É uma surpresa... - murmurou a Luiza, sem se conter.

Antes que a mãe pudesse fazer alguma pergunta sobre o assunto, soaram fortes campainhadas por toda a casa.

- Quem poderá ser agora? - perguntou o pai.

A Luiza e a Ana saltitaram, alegremente.

- Vamos abrir! Vamos abrir! É a surpresa!

Aberta a porta da rua, apresentou-se, à entrada, um palhaço, que cumprimentou a família:

- Boas noites a todos! Isto é um assalto!

A mãe Isabel reconheceu de imediato a voz simpática e a figura elegante da avó Adelina, e deu-lhe um abraço.

- Que grande surpresa! - exclamou.

- É um assalto! - afirmou a avó Adelina, alegremente. - Avancemos para a cozinha!

E, seguida por um grupo de entusiastas foliões, mascarados de trapalhões, damas antigas, índios e cowboys, invadiu a cozinha, aí depositando embrulhos, caixas e sacos, enquanto os mais pequenos se espalhavam pela casa, atirando serpentinas e papelinhos.

Rapidamente, o pai Francisco colocou no giradiscos uma música brasileira de Carnaval, convidando à dança. Acendeu todas as lâmpadas do candeeiro da sala e, com a ajuda das filhas, afastou a mesa para um canto e enrolou a carpete.

Preparava-se um esplêndido baile de Carnaval!

- Meninas, então as vossas fantasias? - perguntou a avó Adelina.

As netas correram ao quarto para vestirem as suas máscaras. A Ana transformou-se numa cigana, com um longo vestido rodado, bordado com missangas e lantejoulas. Enfeitou o cabelo com uma rosa vermelha, que lhe tornou as faces mais rosadas. A Luiza tornou-se numa bela nazarena, com as suas sete saias, o lindo avental bordado, o chapéu preto e o lenço. Os seus olhos brilhavam de alegria, quando se olhou no espelho.

Regressadas à sala, encontraram a mesa posta e coberta de doces e goluseimas. Havia bebidas, sanduiches, croquetes, rissóis e umas empadas com um aspecto delicioso.

Ao centro da mesa, apetitoso, fora colocado um belo semi-frio de natas e chocolate.

Todos conversavam, satisfeitos, desvendando aos donos da casa os planos do assalto e a identidade dos mascarados.

O pai Francisco ria-se como não fazia há muito: quem diria que aquela estranha criatura de duas caras era afinal o primo António, sempre tão sisudo! E quem poderia supor que a Dona Arminda, amiga da avó Adelina, habitualmente tão recatada, dançaria tão entusiasticamente ao som do "Mamã eu quero..."?!

A mãe prendeu também uma flor no cabelo, que a fez parecer logo mais jovem. O pai escolheu um chapéu de chinês, que lhe deu um aspecto muito cómico. Inspirado, executou um sapateado notável, que foi premiado com uma grande salva de palmas.

Satisfeita, a Luiza segredou à irmã:

- Estás a ver aquelas empadinhas? Vou comer uma!

Gulosa, a menina escolheu a que lhe pareceu mais douradinha e deu-lhe uma vigorosa dentada.

- Ah! Que horror! - exclamou logo de seguida, devolvendo a empada ao prato.

A avó Adelina deu uma gargalhada bem disposta:

- Então, gostaste das minhas empadas de Carnaval? Uma especialidade, com recheio de algodão! Mas prova o semi-frio, que parece estar muito bom. Foi feito pela prima Alzira!

A risota foi geral, quando a mãe Isabel tentou cortar uma fatia do famoso gelado. Não havia talher que lhe chegasse, pois afinal também ali havia uma partida carnavalesca - o doce não passava de uma esponja coberta de natas e chocolate!

As danças e brincadeiras prolongaram-se pela noite fora, e a família divertiu-se como nunca, esquecida do cansaço do dia, do sono, da hora e da vontade de ir para a cama.

Quando, finalmente, os "assaltantes" saíram, depois de despedidas efusivas, a Luiza e a Ana perguntaram aos pais:

- Não ficaram zangados connosco por termos começado uma festa exactamente quando estavam tão cansados e queriam ir descansar, pois não?

O pai Francisco e a mãe Isabel fizeram um ar muito sério, trocaram um olhar e franziram as sobrancelhas, deixando as meninas apreensivas.

Depois, não se contiveram por mais tempo e desataram a rir, dizendo:

- É Carnaval, ninguém leva a mal!

As filhas riram também, aliviadas.

Estavam todos muito felizes, e aquela fora, de longe, a melhor de todas as festas de Carnaval!

   
               
       
       
       

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