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RELIGIÃO (cont.)

1.3. COMO SURGIRAM OS MITOS

       Existem 4 teorias que explicam a origem da mitologia e até certo ponto, todas estão corretas.

1.3.1. TEORIA BÍBLICA

       De acordo com essa teoria, todas as lendas mitológicas têm sua origem nas narrativas das Escrituras, embora os fatos tenham sido distorcidos.
        Assim, Deucalião é apenas um outro nome de Noé, Hércules de Sansão, Arion de Jonas etc. "Sir Walter Raleigh, em sua História Do Mundo, diz: Jubal, Tubal eTubal Caim são Mercúrio, Vulcano e Apolo, inventores do pastoreio, da fundição e da musica. O dragão que guarda os pomos de ouro era a serpente que enganou Eva. A torre de Nemrod foi a tentativa dos Gigantes contra o céu." Há, sem duvida, muitas coincidências curiosas como essas, mas não a ponto de explicar a maior parte das lendas sem cair no contra-senso.

1.3.2. TEORIA HISTÓRICA

       Por essa teoria, todas as personagens mencionadas na mitologia foram seres humanos reais e as lendas e tradições fabulosas a elas relativas são apenas acréscimos e embelezamentos, surgidos em épocas posteriores. Assim, a história de Éolo, rei e deus dos ventos, teria surgido do fato de Éolo ter sido um governante de alguma ilha do Mar Tirreno, onde reinou com justiça e piedade e ensinou aos nativos o uso da navegação a vela e como predizer, pelos sinais atmosféricos, as mudanças dos ventos e do tempo. Cadmo, que, segundo a lenda, semeou a terra com dentes de dragão, da qual nasceu uma safra de homens armados, foi, na realidade um emigrante vindo da Fenícia, que levou a Grécia o conhecimento das letras do alfabeto, ensinado-o aos naturais daquele país. Desses conhecimentos rudimentares, nasceu a civilização, que os poetas se mostraram sempre inclinados a apresentar como a decadência do estado primitivo do homem, a Idade do Ouro, em que imperava a inocência e a simplicidade.

1.3.3. TEORIA ALEGÓRICA

       Segundo essa teoria, todos os mitos da antiguidade eram alegóricos e simbólicas, contendo alguma verdade moral, religiosa ou filosófica, ou algum fato histórico, sob a forma de uma alegoria, mas que, com o decorrer do tempo, passaram a ser entendidas literalmente. Assim, Saturno, que devora os próprios filhos, é a mesma divindade que os gregos chamavam Cronos (tempo), que, pode-se dizer, na verdade destrói tudo que ele próprio cria.

1.3.4. TEORIA FÍSICA

       Para essa teoria, os elementos ar, água e fogo foram, originalmente, objeto de adoração religiosa, e as principais divindades eram personificações das formas da natureza. Foi fácil a transição da personificação dos elementos para a idéia de seres sobrenaturais dirigindo e governando os diferentes objetos da natureza. Os gregos, cuja imaginação era muito viva, povoaram toda a natureza de seres invisíveis, e supuseram que todos os objetos, desde o sol e o mar até a menor fonte ou riacho, estavam entregues a alguma divindade particular.

1.4. OS MITOS

       Existem centenas de mitos e lendas relacionadas a religião greco-romana, dentre tantas fica difícil selecionar os que devem ser citados. Por não ser esse o objetivo desse trabalho escolhi os que melhor ilustram a criação do mundo, os heróis, as guerras e a morte na visão desses povos.

1.4.1 PROMETEU E PANDORA - O COMEÇO DO MUNDO

       Antes de serem criados o mar, a terra e o céu, todas as coisas faziam parte de uma massa uniforme e confusa que se dava o nome de Caos, mero peso morto, no qual jaziam as sementes das coisas. Tudo misturado, assim, a terra não era sólida, o mar não era liquido e o ar não era transparente. Deus e a Natureza interviram finalmente e puseram fim a essa desordem, separando a terra, o mar e o céu.
       Um deus (não se sabe qual) pôs-se a determinar o lugar das coisas na Terra. Determinou rios e lagos, escavou vales, levantou montanhas, colocou peixes na água, aves no céu e quadrúpedes na terra.
       Havia a necessidade de um animal mais nobre, então Prometeu, um dos Titãs (uma raça gigantesca que habitou a terra antes do homem), tomou um pouco de terra, misturou água e fez o homem à semelhança dos deuses. Deu-lhe porte ereto para que ele pudesse olhar para as estrelas.
       Prometeu e seu irmão Epimeteu foram encarregados de distribuir as qualidades aos animais, e assim foi feito. Porem, na vez do homem nada restara e os dois irmãos tiveram a idéia de dar o fogo aos homens, desse modo ele seria superior a todos os outros.
       A primeira mulher chamava-se Pandora. Foi feita no céu e cada um dos deuses contribuiu com alguma coisa para aperfeiçoa-la. Vênus deu-lhe a beleza, mercúrio, a persuasão, Apolo, a música etc. Assim a mulher foi mandada à Epimeteu que a aceitou de bom grado Prometeu tinha uma caixa onde guardava as coisas ruins que não tinha usado quando distribuiu qualidades, mas Pandora, tomada pela curiosidade abriu a caixa e espalhou os males e as chagas sobre a Terra, tudo escapou, menos a esperança. Assim, sejam quais forem os males que nos ameaçam a esperança fica.
       Uma segunda versão é de que Pandora foi mandada por Júpiter com boa intenção, a fim de agradar o homem, junto com uma caixa, onde cada deus colocara um bem.Pandora abriu a caixa e todas as coisas escaparam, exceto a esperança. Essa versão é mais aceitável, pois como poderia a esperança estar junta de tantos males?

1.4.2 HÉRCULES

       Hércules era filho de Júpiter e Alcmena. Como Juno era sempre hostil com os filhos de seu marido com mortais, declarou guerra a Hércules desde o seu nascimento. Ainda quando ele estava no berço mandou duas serpentes mata-lo, mas a criança estrangulou as duas.
       Mais tarde, quando adulto, pelas artes de Juno, Hércules ficou submetido a Euristeu e obrigado a executar todas suas ordens.
Euristeu impôs-lhe a realização de façanhas que ficaram conhecidas como "Os doze trabalhos de Hércules".
       A primeira das tarefas foi a luta contra o leão de Neméia, que devastava a região, Euristeu mandou que Hércules o trouxesse. Depois de estrangular o leão, o herói levou-lhe ou rei, mas esse ficou tão amedrontado que mandou que Hércules prestasse conta de seus feitos fora da cidade.
       O próximo trabalho foi a matança da hidra de Lerna, um monstro que habitava a região de Argos. A hidra tinha 9 cabeças, sendo a do meio imortal. Com a ajuda de seu servo Ialaus, Hércules queimou as cabeças e enterrou a imortal sob uma rocha.
       Agora o rei Euristeu pede a Hércules para capturar as corças dos pés de bronze. Uma tarefa dificílima pois por mais que Hércules corresse, nunca chegava à corça. Depois de um ano correndo por todas as regiões ele avista a corça de longe e com grande habilidade acerta uma flecha entre o tendão e o osso da pata do animal.
       Depois Hércules tem que capturar o monstruoso javali que assola a região de Erimasto. Quando se livra dessa tarefa, é obrigado a limpar as cavalariças do rei Augias, soberano negligente que há anos não manda recolher o estrume dos cavalos. As cocheiras estão tão sujas que exalam um gás mortal. Abrindo buracos nas paredes e desviando rios das regiões, limpa-as.
       Em seguida, o herói tem que ir ao lago Estinfalo, onde vivem pássaros antropófagos, que tem bicos e assas de bronze. Com seu arco, consegue abater varias aves e espantar o resto para paises longínquos.
       Depois, atravessou o mar para amansar o touro de ventas de fogo que assola a ilha de Creta. Mais tarde, na outra extremidade da Grécia, captura as terríveis éguas carnívoras do cruel rei Diomedes.
       A nona tarefa e buscar o cinturão de Hipólita, rainha de um temível grupo de guerreiras chamadas amazonas. Hércules desperta um interesse em Hipólita, algo que nunca tinha sentido por um homem. Ela acaba dando o cinturão para Hércules, mas Juno entra disfarçada no meio das amazonas e espalha que Hércules quer seqüestrar Hipólita. As guerreiras passam a ataca-lo e Hércules acha que foi traído pela rainha. Mata-a e suas guerreiras.
       A próxima tarefa é buscar os bois do gigante Gerião, tido como o homem mais forte do mundo.
Hércules rouba o gado e para evitar que o gigante o siga ele separa os dois continentes, formando as colunas de Hércules, que hoje conhecemos como estreito de Gibraltar.
       No 11º trabalho Hércules busca as maças de ouro do jardim das Hesperides.
       Só resta um trabalho a cumprir - o mais difícil! Hércules tem que descer ao inferno e capturar Cérbero, o horrível cão de três cabeças que guarda esses sinistros lugares. Ao final de um combate em que recebe varias dentadas, Hércules doma o animal e leva-o a Euristeu, cumprindo assim s doze tarefas.
       Num impeto de loucura, Hércules matou o amigo Ifitus e foi condenado a tornar-se escravo da rainha Onfale por três anos. Durante esse período o herói modificou muito sua natureza, tornando-se efeminado, às vezes usando vestes femininas.
       Passados três anos Hércules casou-se com Dejanira. Numa certa ocasião o casal tinha que atravessar um rio que era guardado pelo centauro Nessu, o qual atravessava os passantes mediante pagamento.
       Hércules atravessou sem ajuda, mas pediu a Nessu que atravessasse sua esposa. O centauro tentou rapta-la, mas Hércules acertou-o com uma flecha. Nessu então disse a Dejanira que pagasse um pouco do seu sangue e guardasse, pois esse seria uma poção para conservar o amor do marido.
       Não demorou muito parta que Dejanira usasse o feitiço. Ela jogou o sangue em um manto de Hércules e depois lavou-o, tirando a mancha, mas mantendo o feitiço. Quando ele o vestiu o veneno causou-lhe dores terríveis e Hércules viu-se prestes a morrer.
       Dejanira se matou de desgosto pelo que fez e Hércules dirigiu-se ao monte Eta onde construiu uma pira funerária e acendeu-a.
Enquanto o fogo queimava, Júpiter convocou uma reunião mo Olimpo onde todos os deuses, inclusive        Juno, concordaram em torna-lo imortal.
       E assim Hércules juntou-se a seu pai por toda a eternidade.

1.4.3 ULISSES E A GUERRA DE TRÓIA

       Todos os monarcas gregos estão reunidos no palácio do rei Tindaro. Hoje sua filha Helena, tida como a mais bela mulher, escolherá um marido entre os monarcas.
       Tindaro esta preocupado pois sabe que quando Helena escolher um, os outros podem ficar com ciúmes, ocasionando até mesmo guerras.
       Um desses reis é Ulisses, soberano de Itaca, apresenta-se diante do rei Tindaro e sugere:
       - O rei! Peça a todos as pretendentes de Helena que jurem defender em qualquer circunstância o marido que ela escolher.
Pouco depois, em uma cerimônia solene no maior salão do palácio, todos os soberanos prestam o juramento exigido por Tindaro.
       Helena entra na sala com uma coroa de flores, olha cada um dos príncipes, para e deposita a coroa na cabeça de Menelau, o mais rico dos Aqueus, que agora reina em Esparta.
       Longe dali esta um jovem pastor de ovelhas chamado Paris Alexandre. Ele desconhece que seus pais não são os pobres pastores com os quais ele vive e sim Priamo e Hecuba, rei e rainha de Tróia, a mais rica e poderosa cidade de Ásia menor.
       Quando Hecuba estava grávida de Paris, ela sonhou dar a luz a serpentes flamejantes. Os adivinhos foram unânimes: a criança causaria a destruição do império. Priamo abandonou o filho as feras no monte Ida, mas ele foi amamentado por uma ursa e salvo por um camponês que adotou-o.
       Às vezes os deuses pregam peças bem cruéis nos homens... Todas as divindades estão divertindo-se num banquete. Todas? Não, Júpiter não quis convidar Éris, a Discórdia, a fim de evitar as brigas que ela sempre provoca. Com raiva, Éris resolve vingar-se. Arranja um pomo de ouro e grava nele as palavras "À mais bela" e, invisível, lança-a no meio do banquete. Júpiter segura a maça e lê as inscrições em voz alta. No mesmo instante começa a maior algazarra. Todas as deusas reivindicam o premio. Júpiter lança um raio e acalma todo mundo. Depois declara que apenas três podem merecer o premio: Vênus, a deusa do amor, Minerva, a deusa da sabedoria, e, é claro, Juno, sua mulher, que ele não quer magoar.
       Mas é necessário um arbitro. Preocupado em não descontentar duas deusas, Júpiter recusa-se a ser o juiz. Então, confia a maça de ouro à Mercúrio, seu mensageiro, e encarrega-o de levar as três deusas ao mais belo dos mortais - Páris. A decisão caberá a ele.
       Pode-se imaginar o grande espanto do pastor quando vê quatro divindades à sua frente. Mercúrio explica-lhe o problema, dá-lhe a maça e deixa-o escolher.
       O embaraço de Páris é imenso. Em toda a sua vida, nunca viu criaturas tão magníficas.
       Se for escolhida, Juno propõe-lhe riquezas e poder. Minerva oferece-lhe o conhecimento e sabedoria. Já Vênus promete-lhe o amor da mais bela das mortais.
       Em gratidão Vênus revela a Páris a verdade sobre o seu nascimento.
       Algum tempo depois, anuncia-se em todas as aldeias os jogos olímpicos de Tróia. Páris comparece e graças a sua força vence todas as provas. O rei Priamo felicita-o e coroa-o vencedor. O rapaz, então, mostra os panos que o envolviam quando foi abandonado. O soberano, esquecendo a profecia, o reconhece e concede o lugar de príncipe.
       Páris torna-se favorito do rei, que não hesita em manda-lo nas mais diferentes missões. Um dia, manda-o a Grécia resolver problemas diplomáticos. Na volta Paris detem-se em Esparta. Sendo príncipe de Tróia, é recebido no palácio por Helena.
       Em pouco tempo o amor nasce entre eles, Páris não se esqueceu da promessa de Vênus, e Helena, sentindo-se negligenciada pelo marido, resolve embarcar com o príncipe para Tróia.
       Ao retornar e descobrir a traição Menelau fica furioso. É declarada guerra à Tróia...
       Lembrado do juramento feito no dia de seu casamento, Menelau parte para convocar todos os reis presentes naquele dia para a guerra. Um deles é Ulisses, que agora reina em Itaca com paz e prosperidade, e tem um filho recém nascido. Ele não deseja partir em guerra. Ademais um oráculo havia lhe previsto que se partisse só retornaria em 20 anos.
       Ulisses então bola um estratagema...
       Quando chegam ao palácio, Agamenom, Menelau e Palamedes, encontram Penélope em prantos, gritando que Ulisses esta louco e que não tem serventia em guerra.
       Os reis vão ao seu encontro e ele está na praia, seminu, com um arado puxado por um boi e um burro, e semeando sal na areia.
       Palamedes, desconfiado, quer ter certeza da loucura do rei; ele pega Telêmaco, filho de Ulisses e o põe em frente ao carro de boi, se ele estiver realmente insano deixara o filho ser pisoteado.
       O mais rápido possível Ulisses para os animais e confessa a mentira, arma-se, junta sua guarda e parte com os reis. Após de juntarem a Aquiles, os gregos partem para Tróia. Dez anos de guerra continua, do lado grego perdeu-se Aquiles, um dos seus maiores guerreiros, e do lado troiano foi-se Heitor, o favorito de Apolo.
       Mas se a força não derruba tróia, talvez a astúcia...
       O primo de Ulisses Símon, chega aos porões de Tróia, sujo e surrado, e diz-se prisioneiro dos gregos, ele entra em Tróia sem que o rei perceba que ele é um espião que quer destruí-lo.
       Pela manhã não se vê uma só tenda grega, um navio, nada, a não ser um enorme cavalo de madeira. O rei Troiano manda chamar Simon na esperança de uma explicação. O espião engana-os dizendo que os gregos partiram por estarem cansados de lutar em vão e que o cavalo significa boa sorte na viagem e que se ele entrar em Tróia toda a frota naufragará.
       Dando gritos de felicidade os súditos de Priamo trazem o cavalo para o centro da cidade e a noite, depois de uma festa, vão dormir.
       Do ventre do cavalo saem 10 soldados gregos que tem facilidade em matar as sentinelas e abrir os portões, os navios voltaram com a escuridão e todo o exercito invade a cidade. Os troianos não têm nem tempo de se reunir, são dizimados. Somente Enéias e alguns fogem.
       Menelau recupera Helena e o antigo pastor do monte Ida, morto no decorrer da guerra, sem querer acabou cumprindo a profecia: causou a completa destruição de sua cidade.

1.4.4. AS REGIÕES INFERNAIS

       Essa parte é retirada dos poemas de Virgilio, contando a passagem de Enéias, acompanhado pela Sibila (guardiã do local), pelas regiões infernais a encontro de seu pai.
       É a região vulcânica perto do Vesúvio toda cortada de fendas, das quais se levanta chamas sulfúreas, enquanto o solo é sacudido pelo desprendimento de vapores, e ruídos misteriosos saem das entranhas da terra. Supõe-se que o lago Averno ocupa a cratera de um vulcão extinto. Tem a forma de um circulo com meia milha de largura, é muito profundo, e suas margens, muito elevadas, eram cobertas na época de Virgilio por uma densa floresta. Vapores mefíticos levantam-se de suas águas de modo que não havia vida em suas margens e nenhuma ave as sobrevoava. Ali, segundo o poeta, encontrava-se uma gruta que dava acesso às regiões infernais e ali Enéias ofereceu sacrifício às divindades infernais, Prosérpina, Hecate e as Fúrias. Logo em seguida, ouviu-se um rugido vindo das profundezas da terra, os bosques que cobriam os morros foram sacudidos e o ladrilho de cães anunciava a aproximação das divindades.
       Enéias desceu com Sibila à caverna e logo de cara encontraram os Pesares, as vingativas Ansiedades, as pálidas Enfermidades, a melancólica Velhice, o Medo e a Fome que induzem ao crime, o Cansaço, a Miséria e a Morte, formas horríveis de serem vistas. As fúrias ali estendem seu leito, assim com a Discórdia com seus cabelos de serpente.
       Foram então ao negro rio Cócito, onde encontraram o barqueiro Caronte, velho e esquálido, mas forte e vigoroso, que recebia em seu barco passageiros de todas as espécies. Todos se aglomeravam para passar ansiosos por chegarem a margem oposta. O severo barqueiro, contudo só levava quem escolhia, empurrando o restante para trás. Enéias quis saber o motivo da discriminação e a Sibila explicou que só passam aqueles que recebem os devidos ritos fúnebres, e os demais vagueiam por 100 anos pela margem do rio até serem recolhidos.
       Do outro lado da margem foram recebidos pelo cão de três cabeças, com pescoço eriçado de serpentes. O cão latiu por suas três gargantas mas a Sibila deu-lhe um bolo especialmente preparado por ela e que o fez dormir.
       Chegou-lhes então aos ouvidos choro de crianças, ao lado também estavam os que haviam parecido em conseqüência de falsas acusações, Minos os ouvia como juiz e julgava as ações. A categoria seguinte era daqueles que haviam morrido pelas próprias mãos, odiando a vida e buscando refugio na morte.
       Vinham, em seguida, regiões da tristeza, divididas em aldeias isoladas, que atravessavam espessos bosques de mirto. Por ali vagueavam aqueles que haviam caído vitimas de um amor insatisfeito.
       Entraram depois nos campos por onde vagueavam os heróis caídos na batalha. Ali viram muitas sombras de guerreiros gregos e troianos. Os troianos rodeavam Enéias e não se satisfizeram em vê-lo. Indagavam a causa de sua vinda e faziam numerosas perguntas. Os gregos porem, vendo a brilhante armadura do herói, viraram as costas e fugiram. Sibila apressou Enéias que desejava continuar com seus amigos.
       Chagaram a um lugar onde a estrada se dividia, uma levando ao Elisio, outra as regiões dos condenados. Enéias viu de um lado as muralhas de uma grande cidade, em torno da qual o Flégeton rola suas águas furiosas. Diante dele estava a porta de bronze que nem os deuses, nem os homens conseguiriam arrombar. Do lado da porta erguia-se uma torre de onde do alto vigiava Tisífone, a fúria vingativa. Da cidade vinham rangidos de dentes, o ruído de ferro e correntes sendo arrastada. Enéias quis saber que crimes aqueles cometeram para sofrer tal castigo.
       - Aqui é o poço do julgamento de Radamanto, que desvenda os crimes praticados em vida e que o criminoso pensou esconder em vão - respondeu a Sibila. Tisífone aplica seu chicote de escorpião e entrega os criminosos a suas irmãs, as Fúrias.
        Naquele momento abriam-se as portas de bronze e Enéias viu no interior um hidra de cinqüenta cabeças guardando a entrada, atrás da hidra havia o abismo de Tártaro, tão profundo que seus recessos estavam tão abaixo da terra quanto o céu estava acima de suas cabeças. No fundo desse poço jaz a raça dos titãs, que fez guerra aos deuses. Lá também se encontra o gigante Títrio, cujo corpo é tão imenso que, estendido, ocupa mais de nove acres, enquanto um abutre lhe come o fígado, que, mal é devorado crece de novo, de modo que o castigo nunca terá fim.
       Enéias viu grupos sentados diante de uma mesa cheira de iguarias, tendo por perto uma fúria, que lhes arrancava o alimento dos lábios, mal se preparavam para saboreá-los. Outros sustentavam sobre suas cabeças um rochedo prestes a cair, mantendo-os sobre um constante estado de alerta. Estes eram os que haviam odiado seus irmãos, ultrajado seus pais, iludindo os amigos que neles confiavam ou que, tendo-se enriquecido, guardavam o dinheiro apenas para si, sem permitir que os outros dele compartilhassem; estes últimos consistiam grupo mais numeroso. Ali também estavam os que violaram o voto matrimonial, lutaram por uma causa má ou se mostraram infiéis com seus patrões. Havia um que vendera seu país a troco de ouro, outro que perverterá as leis, fazendo-as dizer uma coisa hoje e outra coisa amanhã.
       Íxon ali estava, preso por uma roda que girava incessantemente, e Sísifo, cuja tarefa consistia em rolar um enorme pedra até o alto de um morro, mas quando de encontrava bem avançado na colina, a pedra, impelida por uma força repentina, rolava de novo para a planície. Sísifo a empurrava de novo para cima, coberto de suor, mas em vão. Tântalo, de pé dentro de uma lagoa, com o queixo ao nível da água, sentia, no entanto, uma sede devoradora, e não encontrava meios de saciá-la, pois, toda vez que baixava a cabeça, a água fugia, deixando terreno sob seus pés inteiramente seco. Frondosas árvores carregadas de frutos, pêras, romãs, maças e apetitosos figos abaixavam seus galhos, mas, quando tentava alcança-los, o vento empurrava o galho para fora de seu alcance.
       A Sibila advertiu Enéias que era tempo de deixarem aquelas regiões melancólicas e procurarem a cidade dos eleitos. Atravessaram uma estrada coberta de trevas e chagaram aos Campos Elíseos, onde moram os felizes. Respiraram um ar mais puro e viram todos os objetos envoltos em uma luz avermelhada. A região tinha um sol e estrelas próprios. Os habitantes distraíam-se de varias maneiras, alguns praticando exercícios de força e agilidade sobre uma relva macia, outros dançando e cantando. Orfeu feria as cordas de sua lira, produzindo sons arrebatadores. Ali viu Enéias os fundadores do estado Troiano, heróis magnânimos, que haviam vivido em épocas mais felizes. Contemplou com admiração os carros de guerra e as armas reluzentes, agora descansando sem uso. As lanças estavam cravadas no solo, e os cavalos, desarreados, vagavam pela planície. O mesmo orgulho pelas esplendidas armaduras e pelos fogosos corcéis que os antigos heróis sentiam em sua vida os acompanhava ali. Enéias viu outro grupo jovialmente escutando os acordes da musica. Estava em um bosque de loureiros, onde o grande rio Pó tem sua origem. Ali moravam os que morreram devido a ferimentos causados pela causa de sua pátria e também os santos sacerdotes e os poetas que apresentam pensamentos dignos de Apolo e outros que contribuíram para alegrar e adornar a vida com suas descobertas nas artes úteis e tornaram sua memória abençoada, prestando serviços a humanidade. Traziam em torno da testa fitas brancas como a neve.
       Foi lá que Enéias encontrou-se com a imagem incorpórea de seu pai.
       - Ó meu pai! Tua imagem esteve sempre diante de mim para guiar-me e proteger-me.
       Enéias avistou depois, diante de si, um vale amplo, com arvores que a brisa sacudia, onde corria o rio Letes. Em suas margens uma multidão caminhava.
       - São as almas que devem receber os corpos em tempos oportunos. Enquanto isso vagueiam nas margens do Letes e bebem o esquecimento de sua vida anterior. Explicou Anquises, pai de Enéias.
       - Ó pai - exclamou Enéias - é possível que alguém tenha tanto amor a vida a ponto de querer deixar estas tranqüilas regiões pelo mundo superior?
Anquises respondeu explicando o plano da criação. O Criador, disse ele, fez originalmente o material do qual se compõe as almas com os quatro elementos, o fogo, o ar, a terra e a água, que, quando unidos, tomam forma da parte mais excelente, o fogo, e se transformam em chama. Esse material espalhara-se como a semente entre os corpos celestes, o sol, a lua e as estrelas. Dessa semente os deuses inferiores criaram o homem e todos os outros animais, misturando-a, em varias proporções, com a terra que temperava e reduzia sua pureza. Quanto mais a terra predomina na mistura, menos puro é o individuo, e vemos homens e mulheres com os corpos plenamente desenvolvidos sem a pureza da infância. Desse modo, a impureza contraída pela parte espiritual está em proporção com o tempo de união do corpo com a alma. Essa impureza pode ser purgada até a morte, o que é feito ventilando as almas na corrente atmosférica, ou emergindo-as na água, ou queimando-as no fogo. Alguns poucos, dos quais Anquises da a entender que faz parte, são admitidos imediatamente no Elisio, para ficar ali. Os restantes, porém, depois de purgados das impurezas da terra, são devolvidas as vidas, dotadas de novos corpos, com a lembrança de sua antiga vida inteiramente apagada, graças a lavagem nas águas do Letes. Existem ainda, contudo, alguns que estão tão profundamente corrompidos que não podem receber corpos humanos e são transformados em animais, leões, tigres, gatos, cães, macacos etc.
       Anquises e Enéias ainda conversaram por um tempo e Anquises revelou que Enéias travaria uma guerra na Itália, venceria e fundaria um estado troiano que seria soberano no mundo.
       Pai e filho se despediram e então Enéias retornou ao mundo superior por um atalho que o poeta não especifica.

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