CARTA
APOSTÓLICA
DO SUMO PONTÍFICE
JOÃO PAULO II
ORIENTALE
LUMEN
AO EPISCOPADO, AO CLERO E AOS FIÉIS
NO CENTENÁRIO DA ORIENTALIUM DIGNITAS
DO PAPA LEÃO XIII
Veneráveis Irmãos
Caríssimos Filhos e Filhas da Igreja
1. A LUZ DO ORIENTE iluminou a
Igreja Universal, a partir do momento em que sobre nós apareceu «a luz do alto»
(Lc 1, 78), Jesus Cristo nosso Senhor, que todos os cristãos invocam como
Redentor do homem e esperança do mundo.
Aquela luz inspirara ao meu
Predecessor o Papa Leão XIII a Carta Apstólica Orientalium dignitas, com a qual
ele quis defender o significado das tradições orientais para a Igreja inteira
1.
Ocorrendo o centenário daquele
acontecimento e das iniciativas concomitantes, com as quais esse Pontífice
pretendia favorecer a recomposição da unidade com todos os cristãos do Oriente,
quis eu que um apelo semelhante, enriquecido por tantas experiências de
conhecimento e de encontro que se realizaram neste último século, fosse
dirigido à Igreja Católica.
Visto que, de facto, acreditamos
que a veneranda e antiga tradição das Igrejas Orientais é parte integrante do
património da Igreja de Cristo, a primeira necessidade para os católicos é
conhecê-la para se poderem nutrir dela e, na maneira possível a cada um,
favorecer o processo da unidade.
Os nossos irmãos orientais
católicos têm viva consciência de que são os portadores, juntamente com os
irmãos ortodoxos, desta tradição. É necessário que também os filhos da Igreja
Católica de tradição latina possam conhecer em plenitude este tesouro e sentir
assim, juntamente com o Papa, a paixão por que seja restituída à Igreja e ao
mundo a manifestação plena da catolicidade da Igreja, que não se exprime apenas
por uma única tradição, nem tampouco por uma comunidade contra a outra; e para
que também a todos nós seja concedido saborear plenamente aquele património
divinamente revelado e indiviso da Igreja universal 2, que se conserva e cresce
na vida tanto das Igrejas do Oriente como das do Ocidente.
2. O meu olhar dirige-se para a
Orientale lumen que resplandece de Jerusalém (cf. Is 60, 1; Ap 21, 10), a
cidade na qual o Verbo de Deus, feito homem para a nossa salvação, hebreu
«nascido da descendência de David» (Rm 1, 3; 2 Tm 2, 8), morreu e ressuscitou.
Naquela cidade santa, quando chegou o dia de Pentecostes e «se encontravam
todos reunidos no mesmo lugar» (Act 2, 13), o Espírito Paráclito foi enviado
sobre Maria e os discípulos. De lá, a Boa Nova foi irradiada pelo mundo,
porque, cheios do Espírito Santo, «anunciavam a Palavra de Deus com
desassombro» (Act 4, 31). De lá, da mãe de todas as Igrejas 3, o Evangelho foi
pregado a todas as nações, muitas das quais se gloriam de ter tido num dos
apóstolos a primeira testemunha do Senhor 4. Naquela cidade, as mais variadas
culturas e tradições encontraram hospitalidade no nome do único Deus (cf. Act
2, 9-11). Dirigindo-nos a ela com saudade e gratidão, encontramos a força e o
entusiasmo para intensificar a procura da harmonia naquela autenticidade e
pluriformidade que permanece o ideal da Igreja 5.
3. Um Papa, filho de um povo
eslavo, sente particularmente no coração o apelo daqueles povos aos quais se
dirigiram os dois santos irmãos Cirilo e Metódio, exemplo glorioso de apóstolos
da unidade, que souberam anunciar Cristo na procura da comunhão entre Oriente e
Ocidente, embora no meio das dificuldades que já, por vezes, contrapunham os
dois mundos. Várias vezes me detive sobre o exemplo das suas acções 6,
dirigindo-me também a todos aqueles que são seus filhos na fé e na cultura.
Estas considerações desejam
agora alargar-se para abraçar todas as Igrejas Orientais, na variedade das suas
diferentes tradições. Aos irmãos das Igrejas do Oriente vai o meu pensamento,
com o desejo de procurarmos juntos a força de uma resposta às interrogações que
o homem, hoje, lança em todas as latitudes do mundo. Ao seu património de fé e
de vida quero dirigir-me, consciente de que o caminho da unidade não pode
conhecer hesitações, mas é irreversível como o apelo do Senhor à unidade.
«Caríssimos, temos esta tarefa comum: devemos dizer juntos, o Oriente com o
Ocidente: Ne evacuetur Crux! (cf. 1 Cor 1, 17). Não se desvirtue a Cruz de
Cristo, porque, se se desvirtua a Cruz de Cristo, o homem perde as raízes, já
não tem perspectivas: destrói-se! Este é o grito no final do século XX. É o
grito de Roma, o grito de Constantinopla, o grito de Moscovo. É o brado de toda
a cristandade: das Américas, da África, da Ásia, de todos. É o grito da nova
evangelização» 7.
Às Igrejas do Oriente dirige-se
o meu pensamento, como numerosos outros Papas o fizeram no passado, sentindo
dirigido, antes de mais, a si mesmos o mandato de manter a unidade da Igreja e
de procurar incansavelmente a união dos cristãos onde tivesse sido dilacerada.
Um laço particularmente estreito já nos une. Temos em comum quase tudo 8; e
sobretudo temos em comum o anelo sincero da unidade.
4. A todas as Igrejas, do
Oriente e do Ocidente, chega o grito dos homens de hoje que pedem um sentido
para a vida. Nele divisamos a invocação de quem procura o Pai esquecido e
perdido (cf. Lc 15, 18-20; Jo 14, 8). As mulheres e os homens de hoje pedem-nos
que lhes indiquemos Cristo, que conhece o Pai e no-Lo revelou (cf. Jo 8, 55;
14, 8-11). Deixando-nos interpelar pelas perguntas do mundo, ouvindo-as com
humildade e ternura, em plena solidariedade com quem as formula, nós somos
chamados a mostrar com palavras e gestos de hoje as imensas riquezas que as
nossas igrejas conservam nos cofres das suas tradições. Aprendamos do próprio
Senhor que, ao longo do caminho, parava no meio da gente, escutava-a,
comovia-Se quando a via «como ovelhas sem pastor» (Mt 9, 36; cf. Mc 6, 34).
D'Ele devemos aprender aquele olhar de amor com o qual reconciliava os homens
com o Pai e consigo próprios, comunicando-lhes aquela força que é a única que
pode sarar o homem todo.
Prante este apelo, as Igrejas do
Oriente e do Ocidente são chamadas a concentrar-se sobre o essencial: «Não
podemos apresentar-nos diante de Cristo, Senhor da História, tão divididos como
infelizmente nos temos encontrado ao longo do segundo milénio. Estas divisões
devem ceder o lugar à reaproximação e à concórdia; devem ser cicatrizadas as
feridas no caminho da unidade dos cristãos» 9.
Para além das nossas
fragilidades, devemos dirigir-nos a Ele, único Mestre, participando na sua
morte, de maneira e purificar-nos daquele apego cioso aos sentimentos e às
recordações, não das grandes coisas que Deus fez por nós, mas das vicissitudes
humanas de um passado que ainda pesa muitíssimo sobre os nossos corações. Que o
Espírito Santo torne límpido o nosso olhar, para que juntos possamos ir ao
encontro do homem contemporâneo, que espera a boa nova. Se, perante os anseios
e os sofrimentos do mundo, dermos uma resposta concorde, iluminante,
vivificadora, contribuiremos verdadeiramente para um anúncio mais eficaz do
Evangelho no meio dos homens do nosso tempo.
I
CONHECER
O ORIENTE CRISTÃO,
UMA EXPERIÊNCIA DE FÉ
5. «No estudo da verdade
revelada, o Oriente e o Ocidente usaram métodos e modos diferentes para conhecer
e exprimir os mistérios divinos. Não admira, por isso, que alguns aspectos do
mistério revelado sejam por vezes apreendidos mais convenientemente e postos em
melhor luz por um que por outro. Nestes casos, deve dizer-se que aquelas várias
fórmulas teológicas, em vez de se oporem, não poucas vezes se completam
mutuamente» 10.
Tendo no coração as perguntas,
as aspirações e as experiências a que fiz referência, a minha mente dirige-se
ao património cristão do Oriente. Não é minha intenção descrevê-lo nem interpretá-lo:
coloco-me em atitude de escuta das Igrejas do Oriente, sabendo que são
intérpretes vivas do tesouro tradicional que guardam. Contemplando-o, vejo
aparecer elementos de grande significado para uma compreensão mais plena e
integral da experiência cristã, e, portanto, para dar uma resposta cristã mais
completa aos anseios dos homens e das mulheres de hoje. Em relação a qualquer
outra cultura, o Oriente cristão tem, de facto, um papel único e privilegiado
enquanto contexto original da Igreja nascente.
A tradição oriental cristã
implica certa maneira de acolher, compreender e viver a fé no Senhor Jesus.
Nesse sentido, ela está muitíssimo perto da tradição cristã do Ocidente, que
nasce e se alimenta da mesma fé. E, contudo, diferencia-se legítima e admiravelmente,
enquanto o cristão oriental tem uma forma própria de sentir e compreender, e,
portanto, também uma forma original de viver a sua relação com o Salvador.
Quero, aqui, abeirar-me com temor e tremor do acto de adoração que exprimem
estas Igrejas, mais do que assinalar este ou aquele ponto teológico específico,
que emergiu ao longo dos séculos em contraposição polémica no debate entre
Ocidentais e Orientais.
O Oriente cristão, desde as suas
origens, mostra-se multiforme no próprio interior, capaz de assumir os traços
característicos de cada cultura individual, e com um respeito máximo por cada
comunidade particular. Não podemos deixar de agradecer a Deus, com profunda
comoção, a admirável variedade com que permitiu a composição, com tesselas diferentes,
de um mosaico tão rico e variegado.
6. Existem alguns traços da
tradição espiritual e teológica, comuns às várias Igrejas do Oriente, que
distinguem a sua sensibilidade, em relação às formas assumidas pela transmissão
do Evangelho, nas terras do Ocidente. O Concílio Vaticano II sintetiza-as da
seguinte maneira: «É conhecido de todos com quanto amor os cristãos orientais
realizam as cerimónias litúrgicas, principalmente a celebração eucarística,
fonte da vida da Igreja e penhor da glória futura, pela qual os fiéis unidos ao
bispo, tendo acesso a Deus Pai mediante o Filho, o Verbo encarnado, morto e
glorificado, na efusão do Espírito Santo, conseguem a comunhão com a Santíssima
Trindade, feitos "participantes da natureza divina" (2 Ped 1, 4)» 11.
Nestes traços, delineia-se a
visão oriental do cristão, cujo fim é a participação na natureza divina,
mediante a comunhão no mistério da Santíssima Trindade. Ali se delineiam a
«monarquia» do Pai e a concepção da salvação segundo a economia que apresenta a
teologia oriental na linha de Santo Ireneu de Lião e como se espelha nos Padres
Capadócios 12.
A participação na vida
trinitária realiza-se através da liturgia e, de maneira particular, através da
Eucaristia, mistério de comunhão com o corpo glorificado de Cristo, semente de
imortalidade 13. Na divinização e sobretudo nos sacramentos, a teologia
oriental atribui um papel muito particular ao Espírito Santo: pela força do
Espírito que habita no homem, a deificação inicia-se já na Terra, a criatura é
transfigurada, e o Reino de Deus inaugurado.
O ensinamento dos Padres
Capadócios sobre a divinização entrou na tradição de todas as Igrejas Orientais
e constitui parte do seu património comum. Isto pode-se resumir no pensamento
já expresso por Santo Ireneu, em finais do século II: Deus fez-Se filho do
homem, para que o homem pudesse ser filho de Deus 14. Esta teologia da
divinização permanece uma das aquisições particularmente queridas do pensamento
cristão oriental 15.
Neste caminho de divinização,
precedem-nos aqueles que a graça e o empenho no caminho do bem tornaram «muito
semelhantes» a Cristo: os mártires e os santos 16. E, entre estes, ocupa um
lugar muito particular a Santíssima Virgem Maria, da qual germinou o Rebento de
Jessé (cf. Is 11, 1). A sua figura aparece não só como a Mãe que nos espera,
mas também como a Puríssima que — realização de tantas prefigurações do Antigo
Testamento — é ícone da Igreja, símbolo e antecipação da humanidade
transfigurada pela graça, modelo e esperança segura para todos aqueles que
dirigem os seus passos para a Jerusalém do Céu 17.
Embora acentuando fortemente o
realismo trinitário e a sua implicação na vida sacramental, o Oriente associa a
fé na unidade da natureza divina à incognoscibilidade da essência divina. Os
Padres Orientais afirmam sempre que é impossível saber o que é que Deus é; pode
saber-se apenas que Ele é, pois que Se revelou na história da salvação como
Pai, Filho e Espírito Santo 18.
Este sentido da inefável
realidade divina reflecte-se na celebração litúrgica, onde o sentido do
mistério é apreendido tão fortemente por todos os fiéis do Oriente cristão.
«No Oriente, encontram-se as
riquezas daquelas tradições espirituais que o monaquismo, sobretudo, expressou.
Pois, desde os gloriosos tempos dos Santos Padres, floresceu no Oriente aquela
elevada espiritualidade monástica, que de lá se difundiu para o Ocidente e da
qual a vida religiosa dos Latinos se originou como de sua fonte, e em seguida,
sem cessar, recebeu novo vigor. Recomenda-se, por isso, vivamente que os católicos
se abeirem com mais frequência destas riquezas espirituais dos Padres do
Oriente, que elevam o homem todo à contemplação das coisas divinas» 19.
Evangelho, Igrejas e
culturas
7. Já outras vezes pus em
evidência que um primeiro grande valor vivido particularmente no Oriente
cristão consiste na atenção aos povos e às suas culturas, para que a Palavra de
Deus e o seu louvor possam ressoar em todas as línguas. Sobre este tema, já me
detive na carta encíclica Slavorum Apostoli, pondo em relevo que Cirilo e Metódio
«quiseram tornar-se semelhantes, sob todos os aspectos, àqueles a quem levavam
o Evangelho; procuraram integrar-se naqueles povos e compartilhar em tudo a sua
sorte» 20; «tratava-se de um novo método de catequese» 21. Agindo assim, eles
manifestaram uma atitude muito difundida no Oriente cristão: «Ao encarnarem o
Evangelho na cultura peculiar dos povos que evangelizavam, os Santos Cirilo e
Metódio tiveram méritos particulares na formação e no desenvolvimento dessa
mesma cultura, ou, melhor dito, de numerosas culturas» 22. O respeito e
consideração pelas culturas particulares unem-se neles à paixão pela
universalidade da Igreja, que incansavelmente se esforçam por realizar. A
atitude dos dois irmãos de Salonica é representativa, na antiguidade cristã, de
um estilo típico de muitas Igrejas: a revelação anuncia-se adequadamente e
torna-se plenamente compreensível quando Cristo fala a língua dos vários povos,
e estes podem ler a Escritura e cantar a Liturgia na respectiva língua e com as
suas expressões características, como que a renovar os prodígios do
Pentecostes.
Numa época em que se reconhece
ser cada vez mais fundamental o direito de cada povo se exprimir segundo o
próprio património de cultura e de pensamento, a experiência das várias Igrejas
do Oriente apresenta-se-nos como um exemplo autorizado de inculturação bem
sucedida.
A partir deste modelo,
aprendemos que, se queremos evitar o renascimento de particularismos e também
de nacionalismos exacerbados, devemos compreender que o anúncio do Evangelho
deve ser, ao mesmo tempo, profundamente enraizado na especificidade das
culturas e aberto para confluir numa universalidade, que é permuta para o
enriquecimento comum.
Entre memória e
expectativa
8. Hoje, muitas vezes,
sentimo-nos prisioneiros do presente: é como se o homem tivesse perdido a
percepção de fazer parte de uma história que o precede e o segue. A esta
dificuldade de situar-se entre passado e futuro, com espírito grato pelos
benefícios recebidos e pelos esperados, as Igrejas do Oriente, em particular,
oferecem um acentuado sentido da continuidade, que assume os nomes de Tradição
e de expectativa escatológica.
A Tradição é património da
Igreja de Cristo,
memória viva do Ressuscitado, encontrado e testemunhado pelos Apóstolos, que
transmitiram a sua recordação viva aos sucessores, numa linha ininterrupta que
é garantida pela sucessão apostólica, através da imposição das mãos, até aos
Bispos de hoje. A Tradição articula-se no parimónio histórico e cultural de
cada Igreja, nela plasmado pelo testemunho dos Mártires, dos Padres e dos
Santos, bem como pela fé viva de todos os cristãos, ao longo dos séculos, até
aos nossos dias. Não se trata de uma repetição rígida de fórmulas, mas de um
património que guarda o núcleo querigmático vivo e original. É a Tradição que
livra a Igreja do perigo de recolher apenas opiniões mutáveis, e garante a sua
certeza e continuidade.
Quando os usos e costumes
próprios de cada Igreja são entendidos como pura imobilidade, certamente
corre-se o risco de tirar à Tradição aquele carácter de realidade viva, que
cresce e se desenvolve, e que o Espírito lhe garante precisamente para que ela
fale aos homens de todos os tempos. E como a Escritura cresce com quem a lê 23,
assim qualquer outro elemento do património vivo da Igreja cresce na
compreensão dos crentes e enriquece-se de contributos novos, na fidelidade e
na continuidade 24. Somente uma zeloza assimilação, na obediência da fé,
daquilo que a Igreja chama «Tradição», permitirá a esta encarnar-se nas
diferentes situações e condições histórico-culturais 25. A Tradição não é
jamais pura nostalgia de coisas ou formas passadas, ou lamento de privilégios
perdidos, mas memória viva da Esposa mantida eternamente jovem pelo amor que
nela habita.
Se a Tradição nos coloca em
continuidade com o passado, a expectativa escatológica abre-nos ao futuro de
Deus. Cada Igreja deve lutar contra a tentação de absolutizar aquilo que faz e,
portanto, de autocelebrar-se ou de abandonar-se à tristeza. O tempo é de Deus,
e tudo aquilo que se realiza nunca se identifica com a plenitude do Reino, que
é sempre dom gratuito. O Senhor Jesus veio morrer por nós e ressuscitou dos
mortos, enquanto a criação, salva na esperança, sofre ainda as dores de parto
(cf. Rm 8, 22); o mesmo Senhor voltará para entregar o cosmos ao Pai
(cf. 1 Cor 15, 28). A Igreja invoca este retorno, e dele são testemunhas
privilegiadas o monge e o religioso.
O Oriente exprime de maneira
viva as realidades da tradição e da expectativa. Toda a sua liturgia, em
particular, é memorial da salvação e invocação do retorno do Senhor. E, se a
Tradição ensina às Igrejas a fidelidade àquilo que as gerou, a expectativa
escatológica leva-as a serem aquilo que ainda não são em plenitude e em que
o Senhor deseja que se tornem, e a procurarem, portanto, sempre novos caminhos
de fidelidade, vencendo o pessimismo porque projectadas para a esperança de
Deus que não desilude.
Devemos mostrar aos homens a
beleza do memorial, a força que nos vem do Espírito e que nos torna testemunhas
porque somos filhos de testemunhas; fazer-lhes saborear as coisas
maravilhosas que o Espírito disseminou na História; mostrar que é precisamente
a Tradição que as conserva, dando, assim, esperança àqueles que, não tendo
visto coroados de êxito os seus esforços de bem, sabem que outros os levarão a
cabo; então o homem sentir-se-á menos só, menos fechado no canto estreito das
suas acções individuais.
O monaquismo como
paradigma de vida baptismal
9. Desejaria agora olhar para o
vasto panorama do cristianismo do Oriente, a partir de uma altitude particular,
que permite distinguir muitos dos seus traços: o monaquismo.
No Oriente, o monaquismo
conservou uma grande unidade, não conhecendo, como no Ocidente, a formação dos
diferentes tipos de vida apostólica. As várias expressões da vida monástica,
desde o rígido cenobismo, como o concebiam os santos Pacómio e Basílio, até ao
eremitismo mais rigoroso de Santo Antão ou de S. Macário o Egípcio,
correspondem mais a fases diferentes do caminho espiritual do que à escolha
entre diferentes estados de vida. De facto, todos fazem apelo ao monaquismo em
si, qualquer que seja a forma com a qual se exprima.
Além disso, o monaquismo não foi
visto no Oriente apenas como uma condição à parte, própria de uma categoria de
cristãos, mas particularmente como ponto de referência para todos os
baptizados, na medida dos dons oferecidos a cada um pelo Senhor, propondo-se
como uma síntese emblemática do cristianismo.
Quando Deus chama de uma forma
total como na vida monástica, então a pessoa pode atingir o ponto mais elevado
de tudo aquilo que a sensibilidade, cultura e espiritualidade são capazes de
exprimir. Isto é válido com maior razão para as Igrejas Orientais, nas quais o
monaquismo constituiu uma experiência essencial e que ainda hoje floresce
nelas, logo que termina a perseguição e os corações podem elevar-se livremente
para os Céus. O mosteiro é o lugar profético no qual a criação se torna louvor
de Deus, e o preceito da caridade, vivida concretamente, se torna ideal de
convivência humana, e onde o ser humano procura Deus sem barreiras nem
impedimentos, tornando-se referência para todos, levando-os no coração e
ajudando-os a procurar Deus.
Desejaria recordar também o
fulgurante testemunho das monjas no Oriente cristão. Ele representa um modelo
de valorização da especificidade feminina na Igreja, forçando mesmo a
mentalidade do tempo. Durante recentes perseguições, sobretudo nos países do
Leste europeu, quando muitos mosteiros masculinos foram encerrados à força, o
monaquismo feminino conservou acesa a chama da vida monástica. O carisma da
monja, com as características que lhe são específicas, é um sinal visível
daquela maternidade de Deus à qual muitas vezes alude a Sagrada Escritura.
Por isso considerarei o
monaquismo, para nele especificar aqueles valores que hoje tenho por muito
importantes para exprimir o contributo do Oriente cristão para o caminhar da
Igreja de Cristo em direcção ao Reino. Estes aspectos, embora às vezes não
sejam exclusivos, quer da experiência monástica, quer do património do Oriente,
todavia frequentemente adquiriram nele uma conotação particular. De resto, o
que procuramos valorizar, não é a exclusividade, mas o enriquecimento recíproco
naquilo que o único Espírito suscitou na única Igreja de Cristo.
O monaquismo foi desde sempre a
própria alma das Igrejas Orientais: os primeiros monges cristãos nasceram no
Oriente e a vida monástica foi parte integrante da lumen oriental
transmitida ao Ocidente pelos grandes Padres da Igreja indivisa 26.
Os fortes traços comuns que unem
a experiência monástica do Oriente e do Ocidente tornam-na uma ponte admirável
de fraternidade, onde a unidade vivida resplandece até mais do que se pode
manifestar no diálogo entre as Igrejas.
Entre Palavra e Eucaristia
10. O monaquismo revela de
maneira particular que a vida está suspensa entre dois vértices: a Palavra e a
Eucaristia. Isto significa que ele é sempre, inclusive nas suas formas
eremíticas, resposta pessoal a uma chamada individual e simultaneamente
acontecimento eclesial e comunitário.
A palavra de Deus é o ponto
de partida do monge: uma
Palavra que chama, que convida, que pessoalmente interpela, como aconteceu com
os Apóstolos. Quando uma pessoa é atingida pela Palavra, nasce a obediência,
isto é, a escuta que muda a vida. Diariamente o monge alimenta-se com o pão da
Palavra. Privado dele, é como se estivesse morto, e não tem mais nada para
comunicar aos irmãos, porque a Palavra é Cristo com quem é chamado a
conformar-se.
Mesmo quando canta com os seus
irmãos a oração que santifica o tempo, ele continua a sua assimilação da
Palavra. A riquíssima hinografia litúrgica, da qual justamente se sentem
orgulhosas todas as Igrejas do Oriente cristão, não é senão a continuação da
Palavra lida, compreendida, assimilada e finalmente cantada: aqueles hinos são
em grande parte paráfrases sublimes do texto bíblico, filtradas e
personalizadas através da experiência do indivíduo e da comunidade.
Perante o abismo da misericórdia
divina, ao monge não resta senão proclamar a consciência da própria pobreza
radical, que imediatamente se torna invocação e grito de júbilo por uma
salvação ainda mais generosa porque inesperada no abismo da própria miséria 27.
Eis porque a invocação de perdão e a glorificação de Deus constituem a
substância de grande parte da oração litúrgica. O cristão vive imerso no
assombro deste paradoxo, o último de uma série infinita, toda ela enobrecida de
reconhecimento na linguagem da liturgia: o Imenso torna-se limite; uma Virgem
dá à luz; através da morte, Aquele que é a vida vence a morte para sempre; no
alto dos Céus, um corpo humano está sentado à direita do Pai.
No apogeu desta experiência
orante, está a Eucaristia,
o outro vértice ligado indissoluvelmente à Palavra, enquanto lugar no qual a
Palavra se faz Carne e Sangue, experiência celeste onde ela volta a ser
acontecimento.
Na Eucaristia, manifesta-se a
natureza profunda da Igreja, comunidade dos convocados à sinapse para celebrar
o dom d'Aquele que é oferente e oferta: eles, participando nos Santos
Mistérios, tornam-se «consanguíneos» 28 de Cristo, antecipando a experiência da
divinização no laço, já inseparável, que, em Cristo, liga divindade e
humanidade.
Mas a Eucaristia é também
aquilo que antecipa a pertença de homens e coisas à Jerusalém celeste.
Revela assim cabalmente a sua natureza escatológica: como sinal vivo de tal
expectativa, o monge continua e leva à plenitude na liturgia a invocação da
Igreja, a Esposa que suplica o retorno do Esposo num «maranatha» repetido
continuamente, não só com palavras, mas com a existência inteira.
Uma liturgia para o homem
inteiro e para o cosmos inteiro
11. Na experiência litúrgica,
Cristo Senhor é a luz que ilumina o caminho e desvenda a transparência do
cosmos, precisamente como na Escritura. Os acontecientos do passado encontram
em Cristo significado e plenitude, e a criação revela-se por aquilo que é: um
conjunto de traços que somente na liturgia encontram a sua perfeição, a
sua plena finalidade. Eis o motivo pelo qual a liturgia é o Céu sobre a Terra,
e nela o Verbo que assumiu a carne envolve a matéria de uma potencialidade
salvífica que se manifesta plenamente nos sacramentos: aqui a criação comunica
a cada um o poder que lhe foi conferido por Cristo. Assim o Senhor, imerso no
Jordão, transmite às águas um poder que as habilita a serem banho de
regeneração baptismal 29.
Neste quadro, a oração litúrgica
no Oriente mostra uma grande capacidade de envolver a pessoa humana na sua
totalidade: o Mistério é cantado na sublimidade dos seus conteúdos, mas também
no calor dos sentimentos que suscita no coração da humanidade que foi salva. Na
acção sagrada, também a corporeidade é convidada ao louvor, e a beleza, que no
Oriente é um dos nomes mais queridos para exprimir a harmonia divina e o modelo
da humanidade transfigurada (30), mostra-se em toda a parte: nas formas do
templo, nos sons, nas cores, nas luzes, nos perfumes. O tempo prolongado das
celebrações, a repetida invocação, tudo exprime um progressivo compenetrar-se
da pessoa inteira no mistério celebrado. E a oração da Igreja torna-se, assim,
já participação da liturgia celeste, antecipação da bem-aventurança final.
Esta valorização integral da
pessoa nos seus componentes racionais e emotivos, no «êxtase» e na imanência, é
de grande actualidade, constituindo uma escola admirável para a compreensão do
significado das realidades criadas: estas nem são um absoluto, nem um ninho de
pecado e de iniquidade. Na liturgia, as coisas manifestam a sua própria
natureza de dom, oferecido pelo Criador à humanidade: «Deus, vendo toda a
sua obra, considerou-a muito boa» (Gn 1, 31). Se tudo isto está marcado
pelo drama do pecado, que torna pesada a matéria e dificulta a sua
transparência, ela é redimida na Encarnação e feita plenamente teofórica, isto
é, capaz de colocar-nos em relação com o Pai: esta propriedade é sumamente
manifestada nos Santos Mistérios, os Sacramentos da Igreja.
O Cristianismo não rejeita a
matéria; pelo contrário,
a corporeidade é valorizada plenamente no acto litúrgico, onde o corpo humano
mostra a sua íntima natureza de templo do Espírito Santo e chega a unir-se ao
Senhor Jesus, feito também Ele corpo para a salvação do mundo. Isto não
significa uma exaltação absoluta de tudo aquilo que é físico, porque sabemos
bem a desordem que o pecado introduziu na harmonia do ser humano. A liturgia
revela que o corpo, atravessando o mistério da Cruz, está a caminho da
transfiguração, da pneumatização: no monte Tabor, Cristo mostra-o
resplandecente, como é desejo do Pai que volte a ser.
E também a realidade cósmica é
chamada a dar acção de graças, porque o cosmos inteiro é chamado à
recapitulação em Cristo Senhor. Manifesta-se nesta concepção um ensinamento
equilibrado e admirável sobre a dignidade, o respeito e a finalidade da criação
e do corpo humano em particular. Este, tendo rejeitado igualmente todo o tipo
de dualismo e todo o tipo de culto do prazer como fim em si próprio, torna-se
lugar luminoso da graça e, portanto, plenamente humano.
A quem procura uma relação de
autêntico significado consigo próprio e com o cosmos, tantas vezes ainda
desfigurado pelo egoísmo e pela cobiça, a liturgia revela o caminho para o
equilíbrio do homem novo e convida ao respeito pela potencialidade eucarística
do mundo criado: ele está destinado a ser assumido na Eucaristia do Senhor, na
sua Páscoa presente no sacrifício do altar.
Um olhar límpido à
descoberta de si próprio
12. Para Cristo, o Homem-Deus,
volta-se o olhar do monge: no seu rosto desfigurado, homem da dor, ele já
divisa o anúncio profético do rosto transfigurado do Ressuscitado. Ao
olhar contemplativo, Cristo revela-Se como às mulheres de Jerusalém, que
subiram a contemplar o espectáculo misterioso do Calvário. E assim, formado
naquela escola, o olhar do monge habitua-se a contemplar Cristo também nas
pregas escondidas da criação e na história dos homens, também ela inserida na
sua conformação progressiva ao Cristo total.
O olhar, progressivamente cristificado,
aprende desta maneira a separar-se da exterioridade, do turbilhão dos sentidos,
isto é, de tudo aquilo que impede ao homem aquela suave disponibilidade a
deixar-se agarrar pelo Espírito. Percorrendo este caminho, ele deixa-se
reconciliar com Cristo num processo incessante de conversão: na consciência do
próprio pecado e do afastamento do Senhor, que se torna contrição do coração,
símbolo do próprio baptismo na água salutar das lágrimas; no silêncio e na
quietude interior procurada e doada, onde se aprende a fazer bater o coração de
harmonia com o ritmo do Espírito, eliminando toda a duplicidade ou ambiguidade.
Este tornar-se cada vez mais sóbrio e essencial, mais transparente a si
próprio, pode fazê-lo cair no orgulho e na intransigência, se chegar a
considerar que isso é fruto do seu esforço ascético. O discernimento
espiritual, na purificação contínua, torna-o então humilde e manso, capaz de
perceber apenas alguns traços daquela verdade que o sacia, porque é dom do
Esposo, somente Ele plenitude de felicidade.
Ao homem que procura o
significado da vida, o Oriente oferece esta escola para se conhecer e ser
livre, amado por aquele Jesus que disse: «Vinde a Mim, todos os que estais
cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei» (Mt 11, 28). A quem procura o
restabelecimento interior, ele convida a continuar a procurar: se a intenção é
recta e o rumo honesto, no fim o rosto do Pai far-se-á reconhecer, pois está
impresso nas profundidades do coração humano.
Um pai no Espírito
13. O percurso do monge, em
geral, não é traçado unicamente pelo esforço pessoal, mas apoia-se num pai
espiritual, a quem se abandona com confiança filial, na certeza de que nele se
manifesta a terna e exigente paternidade de Deus. Esta figura dá ao monaquismo
oriental uma extraordinária maleabilidade: graças à obra do pai espiritual, o
caminho de cada monge é, de facto, fortemente personalizado nos tempos, nos
ritmos, na maneira de procurar a Deus. Precisamente porque o pai espiritual é o
ponto de ligação e de harmonização, isto permite ao monaquismo a maior
variedade de expressões, cenobíticas e eremíticas. Desta maneira, o monaquismo
no Oriente pôde ser a realização das expectativas de cada Igreja nos diferentes
períodos da sua história 31.
Nesta procura, o Oriente ensina
de maneira particular que existem irmãos e irmãs a quem o Espírito dispensou o
dom de guia espiritual: eles são pontos de referência preciosos, porque vêem
com o olhar de amor que Deus mantém sobre nós. Não se trata de renunciar à
própria liberdade, para se deixar governar por outros: trata-se de tirar
proveito do conhecimento do coração, que é um verdadeiro carisma, para ser
ajudado, com doçura e firmeza, a encontrar o caminho da verdade. O nosso mundo
tem uma necessidade extrema de pais espirituais. Muitas vezes recusou-os,
porque lhe pareciam pouco credíveis, ou o seu modelo aparecia como já superado
e pouco atraente para a sensibilidade comum. Contudo tem dificuldade em
encontrar outros novos, e então sofre no medo e na incerteza, sem modelos nem
pontos de referência. Aquele que é pai no Espírito, se o é verdadeiramente — e
o povo de Deus mostrou sempre que sabe reconhecê-lo —, não fará os outros iguais
a si próprio, mas ajudá-los-á a encontrar o caminho para o Reino.
Certamente, também ao Ocidente é
concedido o dom admirável de uma vida monástica, masculina e feminina, que
guarda o dom do guia no Espírito e espera ser valorizado. Nesse âmbito, e onde
quer que a graça suscite tais instrumentos preciosos de amadurecimento
interior, possam os responsáveis cultivar e valorizar tal dom e todos possam
servir-se dele: experimentarão assim a consolação e apoio que é a paternidade
no Espírito para o seu caminho de fé 32.
Comunhão e serviço
14. Precisamente na separação
progressiva daquilo que no mundo lhe dificulta a comunhão com o seu Senhor, o
monge reencontra o mundo como lugar onde se reflecte a beleza do Criador e o
amor do Redentor. Na sua oração, o monge pronuncia uma epiclese do Espírito
sobre o mundo e tem a certeza de que será ouvido, porque ela participa da mesma
oração de Cristo. Deste modo, ele sente nascer em si um amor profundo pela
humanidade, aquele amor que a oração, no Oriente, tantas vezes celebra como
atributo de Deus, o Amigo dos homens, que não hesitou em oferecer o seu Filho
para a salvação do mundo. Nesta atitude, é então concedido ao monge contemplar
aquele mundo já transfigurado pela acção deificante de Cristo, morto e
ressuscitado.
Seja qual for a modalidade que o
Espírito lhe reserva, o monge é sempre e essencialmente o homem da comunhão.
Com este nome se indicou também desde a antiguidade o estilo monástico da vida
cenobítica. O monaquismo mostra-nos como não existe vocação autêntica que não
tenha nascido da Igreja e para a Igreja. Disso é testemunha a experiência de
tantos monges que, fechados nas suas celas, mostram nas suas orações uma paixão
exraordinária, não só pela pessoa humana, mas por todas as criaturas, na
invocação incessante para que tudo se converta à corrente salvadora do amor de
Cristo. Este caminho de libertação interior na abertura ao Outro torna o monge
o homem da caridade. Na escola do apóstolo Paulo, que indica a plenitude da lei
na caridade (cf. Rm 13, 10), a comunhão monástica oriental esteve sempre
atenta a garantir a superioridade da caridade em relação a qualquer lei.
Ela manifesta-se, antes de mais,
no serviço aos irmãos na vida monástica, mas também à comunidade eclesial,
segundo formas que variam nos tempos e nos lugares e que vão das obras sociais
à pregação itinerante. As Igrejas do Oriente viveram com grande generosidade
este empenho, a começar pela evangelização, que é o serviço mais elevado que o
cristão pode oferecer ao irmão, para prosseguir em muitas outras formas de
serviço espiritual e material. Mais, pode-se dizer que o monaquismo foi na
antiguidade — e, com interrupções, também em tempos posteriores — o instrumento
privilegiado para a evangelização dos povos.
Uma pessoa em relação
15. A vida do monge justifica a
unidade que existe entre espiritualidade e teologia no Oriente.
O cristão, e o monge em
particular, mais do que procurar verdades abstractas, sabe que somente o seu
Senhor é Verdade e Vida, mas sabe também que ele é o Caminho (cf. Jo 14,
6) para atingir a ambas: conhecimento e participação são, portanto, uma
única realidade: da pessoa ao Deus em três Pessoas, através da Encarnação
do Verbo de Deus.
O Oriente ajuda-nos a delinear
com grande riqueza de elementos o significado cristão da pessoa humana. Ele
está centrado na Encarnação, da qual recebe luz a própria criação. Em Cristo,
verdadeiro Deus e verdadeiro homem, manifesta-se a plenitude da vocação humana:
para que o homem se tornasse Deus, o Verbo assumiu a humanidade. O homem que
conhece continuamente o gosto amargo do seu limite e do seu pecado, não se
perde na recriminação ou na angústia, porque sabe que dentro de si actua o
poder da divindade. A humanidade foi assumida por Cristo sem separação da
natureza divina nem confusão 33, e o homem não é deixado sozinho a tentar, de
mil maneiras e muitas vezes frustradas, uma subida impossível ao Céu; existe um
tabernáculo de glória, que é a Pessoa santíssima de Jesus, o Senhor, onde o
divino e o humano se encontram num abraço que nunca poderá ser desfeito: o
Verbo fez-Se carne, em tudo semelhante a nós, excepto no pecado. Ele derrama a
divindade no coração doente da humanidade e, infundindo-lhe o Espírito do Pai,
torna-a capaz de tornar-se Deus pela graça.
Mas, se isto nos foi revelado
pelo Filho, então a nós é concedido abeirar-nos do mistério do Pai, princípio
de comunhão no amor. A Trindade Santíssima aparece-nos então como comunidade de
amor: conhecer um tal Deus significa sentir a urgência de que Ele fale ao
mundo, que comunique; e a história da salvação não é senão a história do amor
de Deus pela criatura, que Ele amou e escolheu, querendo-a «como o ícone do
Ícone» — assim se exprime a intuição dos Padres orientais 34 —, isto é,
plasmada à imagem da Imagem, que é o Filho, conduzida à comunhão perfeita pelo
santificador, o Espírito de amor. E mesmo quando o homem peca, este Deus
procura-o e ama-o, para que a relação não seja rompida e o amor continue a
fluir. E ama-o no mistério do Filho, que Se deixa matar na cruz por um mundo
que não O reconheceu, mas é ressuscitado pelo Pai, como garantia perene de que ninguém
pode matar o amor, porque todo aquele que dele participa é atingido pela
glória de Deus: é este homem transformado pelo amor, que os discípulos
contemplaram no Tabor, o homem que todos nós somos chamados a ser.
Um silêncio que adora
16. Contudo, este mistério
esconde-se continuamente, cobre-se de silêncio 35, para evitar que, em vez de
Deus, seja construído um ídolo. Somente numa purificação progressiva do
conhecimento de comunhão, o homem e Deus se encontrarão e reconhecerão, no
abraço eterno, a sua nunca extinta conaturalidade de amor.
Nasce assim aquele que é chamado
o apofatismo do Oriente cristão: quanto mais o homem cresce no
conhecimento de Deus, mais O percebe como mistério inacessível, insondável na
sua essência. Isto não se deve confundir com um misticismo obscuro, onde o
homem se perde em enigmáticas realidades impessoais. Antes, os cristãos do
Oriente dirigem-se a Deus como Pai, Filho, Espírito Santo, Pessoas vivas,
carinhosamente presentes, às quais exprimem uma doxologia litúrgica solene e
humilde, majestosa e simples. Eles, porém, percebem que nos aproximamos desta
presença sobretudo deixando-nos educar para um silêncio de adoração, porque, no
ápice do conhecimento e da experiência de Deus, está a sua transcendência
absoluta. Mais do que através de uma meditação sistemática, chega-se a um
tal silêncio mediante a assimilação orante da Escritura e da Liturgia.
Nesta humilde aceitação do
limite da criatura perante a transcendência infinita de um Deus que não cessa
de revelar-Se como o Deus-Amor, Pai do Senhor nosso Jesus Cristo, no júbilo do
Espírito Santo, vejo expressa a atitude da oração e o método teológico que o
Oriente prefere e continua a oferecer a todos os crentes em Cristo.
Devemos confessar que todos
precisamos deste silêncio repleto de presença adoradora: a teologia, para poder
valorizar plenamente a própria alma sapiencial e espiritual; a oração, para que
nunca esqueça que ver Deus significa descer do monte com um rosto tão radiante
que seremos obrigados a cobri-lo com um véu (cf. Êx 34, 33) e para que
as nossas assembleias saibam dar espaço à presença de Deus, evitando a
celebração de si próprias; a pregação, para que não se iluda julgando
suficiente multiplicar palavras para atrair a experiência de Deus; o
compromisso, para renunciar a fechar-se numa luta sem amor e perdão. Dele
precisa o homem de hoje, que muitas vezes não sabe calar-se com medo de ter de
enfrentar-se consigo mesmo, de revelar-se, de sentir o vazio que se torna ânsia
de significado; o homem que se atordoa no barulho. Todos, crentes e
não-crentes, precisam de aprender um silêncio que permita ao Outro falar,
quando e como quiser, e a nós compreender esta palavra.
II
DO
CONHECIMENTO AO ENCONTRO
17. Passaram-se trinta anos
desde que os Bispos da Igreja Católica, reunidos em Concílio com a presença de
não poucos irmãos das outras Igrejas e Comunidades eclesiais, escutaram a voz
do Espírito, que iluminava verdades profundas sobre a natureza da Igreja,
manifestando assim que todos os crentes em Cristo se encontravam muito mais
próximos do que se poderia pensar, todos em caminho para o único Senhor, todos
apoiados e sustentados pela sua graça. Emergia daqui um convite cada vez mais
premente à unidade.
A partir de então, muito caminho
foi percorrido no conhecimento recíproco. Ele intensificou a estima e
frequentemente permitiu-nos rezar juntos ao único Senhor e também uns pelos
outros, num caminho de caridade que é já peregrinação de unidade.
Depois dos passos importantes
que foram dados pelo Papa Paulo VI, eu quis que se prosseguisse pelo caminho do
conhecimento recíproco na caridade. Posso testemunhar a alegria profunda que
suscitou em mim o encontro fraterno com tantos Chefes e Representantes de Igrejas
e Comunidades eclesiais durante estes anos. Juntos partilhámos preocupações e
anseios, juntos invocámos a união entre as nossas Igrejas e a paz no mundo.
Sentimo-nos conjuntamente mais responsáveis pelo bem comum, não só
individualmente, mas também em nome dos cristãos dos quais o Senhor nos fez
pastores. A esta Sé de Roma têm chegado, por vezes, os prementes apelos de
outras Igrejas, ameaçadas ou atingidas pela violência e pela prepotência. A
todas, ela procurou abrir o coração. Por elas, logo que foi possível,
levantou-se a voz do Bispo de Roma, para que os homens de boa vontade ouvissem
o grito daqueles nossos irmãos sofredores.
«Entre os pecados que requerem
maior empenho de penitência e conversão, devem certamente ser incluídos os que
prejudicaram a unidade querida por Deus para o seu povo. Ao longo dos mil anos
que estão para se concluir, mais ainda do que no primeiro milénio, a comunhão
eclesial, «algumas vezes não sem culpa dos homens de um e de outro lado» 36,
conheceu dolorosas rupturas que contradizem abertamente a vontade de Cristo e
são escândalo para o mundo. Tais pecados do passado fazem sentir ainda,
infelizmente, o seu peso e permanecem como tentações igualmente no presente. É
necessário emendar-se, invocando intensamente o perdão de Cristo» 37.
O pecado da nossa divisão é
gravíssimo: sinto a necessidade de que aumente a nossa disponibilidade comum ao
Espírito, que nos chama à conversão, a aceitar e a reconhecer o outro com
respeito fraterno, a cumprir novos gestos corajosos, capazes de dissolver
qualquer tentação de retraimento. Sentimos a necessidade de ultrapassar o grau
de comunhão que já atingimos.
18. Cada dia se torna em mim
mais vivo o desejo de rememorar a história das Igrejas, para escrever
finalmente uma história da nossa unidade, e voltar assim ao tempo, logo após a
morte e ressurreição do Senhor Jesus, em que o Evangelho se difundiu pelas
culturas mais diferentes, e teve início uma permuta fecundíssima, ainda hoje
testemunhada pelas liturgias das Igrejas. Embora não faltem dificuldades e
contrastes, as cartas dos Apóstolos (cf. 2 Cor 9, 11-14) e dos Padres 38
mostram laços fraternos estreitíssimos entre as Igrejas, numa plena comunhão de
fé no respeito pelas especificidades e identidades. A experiência comum do
martírio e a meditação das Actas dos mártires de cada Igreja, a participação na
doutrina de tantos santos Mestres da fé, numa profunda intercomunicação e
partilha, reforçam este sentimento admirável de unidade 39. O desenvolvimento
de diferentes experiências de vida eclesial não impedia que, mediante relações
recíprocas, os cristãos pudessem continuar a saborear a certeza de estarem na
sua própria casa em qualquer Igreja, porque de todas se elevava, numa admirável
variedade de línguas e de entoações, o louvor do único Pai, por Cristo, no
Espírito Santo; todas se reuniam para celebrar a Eucaristia, coração e modelo
da comunidade, não só no que diz respeito à espiritualidade ou à vida moral,
mas também pela própria estrutura da Igreja, na variedade dos ministérios e dos
serviços sob a presidência do Bispo, sucessor dos Apóstolos 40. Os primeiros
concílios são um testemunho eloquente desta constante unidade na diversidade
41.
E mesmo quando se adensaram
certas incompreensões dogmáticas — ampliadas muitas vezes pelo influxo de
factores políticos e culturais — que conduziam já a dolorosas consequências nas
relações entre as Igrejas, permaneceu vivo o esforço de invocar e promover a
unidade da Igreja. No primeiro enlace do diálogo ecuménico, o Espírito Santo
permitiu-nos a consolidação na fé comum, perfeita continuação do querigma
apostólico, e disto damos graças a Deus de todo o coração 42. E se, lentamente,
já nos primeiros séculos da era cristã, foram surgindo contraposições no
interior do corpo da Igreja, não podemos esquecer que durante todo o primeiro
milénio, não obstante as dificuldades, perdurou a unidade entre Roma e
Constantinopla. Compreendemos cada vez melhor que não foi tanto um episódio
histórico ou uma simples questão de preeminência a dilacerar o tecido da
unidade, mas um progressivo alheamento, de modo que a diversidade dos outros
deixou de ser percebida como riqueza comum, para ser vista como
incompabilidade. E quando o segundo milénio conhece um endurecimento na
polémica e na divisão, aumentando cada vez mais a ignorância recíproca e o
preconceito, não cessam, contudo, encontros construtivos entre Chefes de
Igrejas, desejosos de intensificar as relações e favorecer os intercâmbios,
assim como não esmorece a obra santa de homens e mulheres que, reconhecendo no
antagonismo um grave pecado e estando apaixonados pela unidade e pela caridade,
de muitas maneiras tentaram promover, com a oração, com o estudo e a reflexão,
com o encontro aberto e cordial, a procura da comunhão 43. É toda esta obra
meritória que vai confluir na reflexão do Concílio Vaticano II e encontrar como
que um emblema na abrogação das excomunhões recíprocas de 1054, desejada pelo
Papa Paulo VI e pelo Patriarca ecuménico Atenágoras I 44 .
19. O caminho da caridade
conhece novos momentos de dificuldade, após os acontecimentos recentes que
envolveram a Europa central e oriental. Irmãos cristãos, que juntos tinham
sofrido a perseguição, olham-se com desconfiança e temor no momento em que se
abrem perspectivas e esperanças de maior liberdade: não é este um novo e grave
risco de pecado que todos, com todas as forças, devemos tentar vencer, se
queremos que povos à procura do Deus do amor, mais facilmente O possam
encontrar, em vez de serem escandalizados de novo pelas nossas divisões e
contraposições? Quando, por ocasião da Sexta-Feira Santa de 1994, Sua Santidade
o Patriarca de Constantinopla Bartolomeu I ofereceu como prenda à Igreja de
Roma a sua meditação sobre «O Caminho da Cruz», quis recordar esta comunhão na
recente experiência do martírio: «Nós estamos unidos nestes mártires entre
Roma, a «Montanha das Cruzes» e as Ilhas Solovieskj e tantos outros campos de
extermínio. Estamos unidos, tendo estes mártires como pano de fundo: não
podemos deixar de estar unidos» 45.
Portanto, é urgente que se tome
consciência desta gravíssima responsabilidade: hoje podemos cooperar para o
anúncio do Reino ou tornarmo-nos fautores de novas divisões. O Senhor abra os
nossos corações, converta as nossas mentes e nos inspire passos concretos,
corajosos, capazes, se for necessário, de romper com lugares-comuns, fáceis
resignações ou posições de impasse. Se quem deseja ser primeiro é chamado a
tornar-se servo de todos, então do ímpeto desta caridade ver-se-á crescer o
primado do amor. Peço ao Senhor que inspire, antes de mais, a mim próprio e aos
Bispos da Igreja Católica, gestos concretos como testemunho desta certeza
interior. Exige-o a natureza mais profunda da Igreja. Todas as vezes que
celebramos a Eucaristia, sacramento da comunhão, nós encontramos no Corpo e no
Sangue partilhado o sacramento e o apelo da nossa unidade 46. Como poderemos
ser plenamente credíveis, se nos apresentamos divididos perante a Eucaristia,
se não somos capazes de viver a participação no mesmo Senhor que somos chamados
a anunciar ao mundo? Perante a exclusão recíproca da Eucaristia, sentimos a
nossa pobreza e a exigência de envidar todos os esforços para que chegue o dia
no qual participaremos juntos do mesmo Pão e do mesmo Cálice 47. Então a
Eucaristia voltará a ser plenamente sentida como profecia do Reino e ecoarão
com plena verdade estas palavras tiradas de uma antiquíssima oração
eucarística: «Como este pão partido estava espalhado pelas colinas e, colhido,
se tornou uma só coisa, assim a tua Igreja se reúna, dos confins da Terra, no
teu Reino» 48.
Experiências de unidade
20. Efemérides de particular
significado encorajam-nos a dirigir o nosso pensamento, com afecto e
reverência, às Igrejas Orientais. Antes de mais, como se disse, o centenário da
Carta apostólica, «Orientalium Dignitas». A partir de então, teve início um
caminho que, entre outras coisas, levou, em 1917, à criação da Congregação para
as Igrejas Orientais 49 e à instituição do Pontifício Instituto Oriental 50,
pelo Papa Bento XV. Depois, a 5 de Junho de 1960, foi instituído por João XXIII
o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos 51. Em tempos recentes,
a 18 de Outubro de 1990, promulguei o Código dos Cânones das Igrejas Orientais
52, para que fosse salvaguardada e promovida a especificidade do património
oriental.
São estes os sinais de uma
atitude que a Igreja de Roma sentiu sempre parte integrante do mandato confiado
por Jesus Cristo ao apóstolo Pedro: confirmar os irmãos na fé e na unidade (cf.
Lc 22, 32). As tentativas do passado tinham os seus limites derivados da
mentalidade dos tempos e da própria compreensão das verdades sobre a Igreja.
Mas desejaria aqui reafirmar que este empenho tem na sua raiz a convicção de
que Pedro (cf. Mt 16, 17-19) quer colocar-se ao serviço de uma Igreja unida na
caridade. «A tarefa de Pedro é a de procurar constantemente os caminhos que
servem a conservação da unidade. Assim, ele não deve criar obstáculos, mas sim
procurar caminhos. O que não está, de facto, em contradição com a tarefa que
lhe foi entregue por Cristo de «confirmar os irmãos na fé» (cf. Lc 22, 32).
Além disso, é significativo que Cristo tenha pronunciado estas palavras
precisamente quando o Apóstolo estava para O renegar. Era como se o próprio
Mestre lhe quisesse dizer: «Recorda-te de que és fraco, que também tu tens
necessidade de uma incessante conversão. Podes confirmar os outros enquanto
tens consciência da tua fraqueza. Dou-te como tarefa a verdade, a grande
verdade de Deus, destinada à salvação do homem, mas esta verdade não pode ser
pregada e realizada senão amando». É necessário, sempre, «veritatem facere in
caritate» — «praticar a verdade na caridade» (cf. Ef 4, 15)» 53. Hoje, sabemos
que a unidade pode ser realizada pelo amor de Deus, somente se as Igrejas o
quiserem juntas, no pleno respeito das várias tradições e da necessária
autonomia. Sabemos que isto pode realizar-se somente a partir do amor de
Igrejas que se sentem chamadas a manifestar sempre cada vez mais a única Igreja
de Cristo, nascida de um único Baptismo e de uma única Eucaristia, e que querem
ser irmãs54. Como já tive oportunidade de afirmar, «é una a Igreja de Cristo;
se existem divisões devem ser superadas, mas a Igreja é una, a Igreja de Cristo
entre o Oriente e o Ocidente não pode ser senão uma, una e unida» 55.
Certamente, na perspectiva
actual, sabemos que uma união verdadeira só será possível no pleno respeito da
dignidade dos outros, sem considerar o conjunto de usos e costumes da Igreja
Latina como sendo mais completo ou mais idóneo para mostrar a plenitude da
recta doutrina; e sabemos ainda que tal união deverá ser precedida por uma
consciência de comunhão que penetre inteiramente a Igreja e não se limite a um
acordo entre cúpulas. Hoje estamos conscientes — e já foi reafirmado várias
vezes — de que a unidade se realizará como e quando o Senhor quiser, e que ela
exigirá o contributo da sensibilidade e criatividade do amor, talvez mesmo indo
para além das formas já experimentadas historicamente 56.
21. As Igrejas Orientais que
entraram na plena comunhão com esta Igreja de Roma quiseram ser manifestação de
tal solicitude, expressa segundo o grau de amadurecimento da consciência
eclesial naquele tempo 57. Entrando na comunhão católica, elas não tinham de
modo nenhum a intenção de renegar a fidelidade à sua tradição, que
testemunharam secularmente com heroísmo e muitas vezes pagando com o sangue. E
se, às vezes, nas relações com as Igrejas Ortodoxas, se verificaram equívocos e
abertas contraposições, todos sabemos que devemos invocar incessantemente a
misericórdia divina e um coração novo capaz de reconciliação, para além de
qualquer afronta sofrida ou infligida.
Várias vezes foi reafirmado que
a já realizada união plena das Igrejas Orientais Católicas com a Igreja de Roma
não deve comportar para elas uma diminuição na consciência da própria
autenticidade e originalidade 58. No caso de isto se ter verificado, o Concílio
Vaticano II exortou-as a redescobrir plenamente a sua identidade, tendo elas «o
direito e o dever de se regerem segundo as próprias disciplinas peculiares,
enquanto se recomendam por veneranda antiguidade, são mais conformes aos
costumes dos seus fiéis e resultam mais aptas a buscar o bem das almas» 59.
Estas Igrejas trazem na sua carne uma dilaceração dramática, porque é ainda
impedida uma comunhão total com as Igrejas Orientais Ortodoxas, com as quais,
contudo, partilham o património dos seus pais. Uma conversão constante e comum
é indispensável, para que elas procedam decididamente e com desassombro para a
compreensão recíproca. E conversão é pedida também à Igreja Latina, para que
respeite e valorize plenamente a dignidade dos Orientais, e acolha com gratidão
os tesouros espirituais de que as Igrejas Orientais são portadoras para
proveito da inteira comunhão católica 60; mostre concretamente, muito mais do
que no passado, quanto estima e admira o Oriente cristão e quanto considera
essencial o seu contributo para que seja vivida plenamente a universalidade da
Igreja.
Encontrar-se, conhecer-se,
trabalhar juntos
22. Grande é o meu desejo de que
as palavras que São Paulo dirigia do Oriente aos fiéis da Igreja de Roma,
ressoem hoje nos lábios dos cristãos do Ocidente a respeito dos seus irmãos das
Igrejas Orientais: «Em primeiro lugar, dou graças ao meu Deus, por Jesus
Cristo, a respeito de vós, porque a vossa fé é conhecida em todo o mundo» (Rm
1, 8). E logo depois o Apóstolo das Gentes declarava com entusiasmo o seu
propósito: «Na verdade, desejo-vos ver, para vos comunicar alguma graça
espiritual, a fim de vos fortalecer, ou antes, para convosco me reconfortar no
meio de vós, pela fé que nos é comum a vós e a mim» (Rm 1, 11-12). Eis,
portanto, delineada admiravelmente a dinâmica do encontro: o conhecimento dos
tesouros de fé dos outros — que procurei descrever — produz espontaneamente o
estímulo para um novo e mais íntimo encontro entre irmãos, que seja de
autêntico e sincero intercâmbio recíproco. É um estímulo que o Espírito suscita
constantemente na Igreja e que se torna mais insistente precisamente nos
momentos de maior dificuldade.
23. De resto, tenho bem
consciência de que neste momento algumas tensões entre a Igreja de Roma e
algumas Igrejas do Oriente tornam mais difícil o caminho da estima recíproca em
vista da comunhão. Várias vezes estaSé de Roma se esforçou por emanar
directrizes que favorecessem o caminho comum de todas as Igrejas, num momento
tão importante para a vida do mundo, sobretudo na Europa Oriental, onde
acontecimentos históricos dramáticos impediram muitas vezes às Igrejas
Orientais, em tempos recentes, a plena realização do mandato da evangelização
que, contudo, sentiam premente 61. Hoje, situações de maior liberdade
oferecem-lhes renovadas oportunidades, embora os meios à sua disposição sejam
limitados, por causa das dificuldades dos países onde estão presentes. Desejo
afirmar fortemente que as comunidades do Ocidente estão prontas para favorecer
em tudo — e não são poucas aquelas que já trabalham neste sentido — a
intensificação deste ministério de diaconia, pondo à disposição de tais Igrejas
a experiência adquirida em anos de exercício mais livre da caridade. Ai de nós,
se a vantagem de um fosse causa da humilhação do outro ou de estéreis e
escandalosas competições! Da sua parte, as comunidades do Ocidente
considerarão, antes de mais, um dever partilhar, onde for possível, projectos
de serviço com os irmãos das Igrejas do Oriente, ou contribuir para a
realização de tudo aquilo que elas empreenderão ao serviço dos seus povos e, em
todo o caso, nunca ostentarão, nos territórios em que convivem juntas, uma
atitude que possa parecer desrespeitadora dos fatigantes esforços que as Igrejas
do Oriente procuram cumprir, com tanto maior mérito quanto mais precárias são
as suas disponibilidades.
Exprimir gestos comuns de
caridade uma para com a outra e juntas em relação aos homens que se encontram
em necessidade, aparecerá como um acto de imediata persuasão. Deixar de
cumpri-lo, ou até mesmo testemunhar o contrário, levará quantos nos observam a
pensar que qualquer empenho de aproximação entre as Igrejas na caridade é
apenas afirmação abstracta, sem convicção nem consistência.
Vejo como fundamental o apelo do
Senhor a trabalhar de todas as maneiras para que todos os crentes em Cristo
testemunhem juntos a própria fé, sobretudo nos territórios onde é mais
consistente a convivência entre os filhos da Igreja Católica — latinos e
orientais — e os filhos das Igrejas Ortodoxas. Após o martírio comum padecido
por Cristo sob a opressão dos regimes ateus, chegou o momento de sofrer, se for
necessário, para nunca faltar ao testemunho da caridade entre cristãos, porque,
se entregarmos o nosso corpo a fim de ser queimado, mas não tivermos caridade,
de nada nos servirá (cf. 1 Cor 13, 3). Teremos de rezar intensamente para que o
Senhor toque as nossas mentes e os nossos corações e nos dê a paciência e a
mansidão.
24. Penso que uma forma
importante de crescermos na compreensão recíproca e na unidade, consiste
precisamente em melhorar o nosso conhecimento uns dos outros. Os filhos da
Igreja Católica já conhecem os caminhos que a Santa Sé indicou para que eles
possam atingir tal objectivo: conhecer a liturgia das Igrejas do Oriente 62;
aprofundar o conhecimento das tradições espirituais dos Padres e Doutores do
Oriente cristão 63; seguir o exemplo das Igrejas do Oriente na inculturação da
mensagem do Evangelho; combater as tensões entre Latinos e Orientais e estimular
o diálogo entre Católicos e Ortodoxos; formar, em instituições especializadas
sobre o Oriente cristão, teólogos, liturgistas, historiadores e canonistas,
que, por sua vez, possam difundir o conhecimento das Igrejas do Oriente;
oferecer, nos seminários e faculdades teológicas, um ensino adequado sobre tais
matérias, sobretudo aos futuros sacerdotes 64. São indicações sempre muito
válidas, sobre as quais desejo insistir com ênfase particular.
25. Para além do conhecimento,
julgo muito importante o contacto recíproco. A este propósito, faço votos por
que uma acção particular seja exercida pelos mosteiros, precisamente pelo papel
muito especial que reveste a vida monástica no interior das Igrejas, e pelos
muitos pontos que unem a experiência monástica, e portanto a sensibilidade
espiritual, no Oriente e no Ocidente. Uma outra forma de encontro é constituída
pelo acolhimento de docentes e estudantes ortodoxos nas Universidades
Pontifícias e outras instituições académicas católicas. Continuaremos a fazer
todo o possível para que tal acolhimento possa assumir maiores proporções. Que
Deus abençoe, também, o nascimento e o desenvolvimento de lugares destinados
precisamente à hospitalidade dos nossos irmãos do Oriente, também nesta cidade
de Roma, que guarda a memória viva e comum dos chefes dos apóstolos e de tantos
mártires.
É importante que as iniciativas
de encontro e intercâmbio envolvam da maneira e forma mais ampla as comunidades
eclesiais: sabemos, por exemplo, quão positivas podem resultar iniciativas de
contacto entre paróquias, como que «geminadas» por um recíproco enriquecimento
cultural e espiritual, mesmo no exercício da caridade.
Considero de modo muito positivo
as iniciativas de peregrinações comuns aos lugares onde a santidade se
manifestou de maneira particular, recordando homens e mulheres que, em todos os
tempos, enriqueceram a Igreja com o sacrifício da própria vida. Neste sentido,
seria, portanto, um acto de grande significado chegar ao reconhecimento comum
da santidade daqueles cristãos que, nos últimos decénios, em particular nos
países do Leste europeu, derramaram o sangue pela única fé em Cristo.
26. Um pensamento particular vai
também para os territórios da diáspora onde vivem, no âmbito de maioria latina,
muitos fiéis das Igrejas Orientais que deixaram as suas terras de origem. Estes
lugares, onde é mais fácil o contacto sereno no interior de uma sociedade
pluralista, poderiam ser o ambiente ideal para melhorar e intensificar a
colaboração entre as Igrejas na formação dos futuros sacerdotes, nos projectos
pastorais e caritativos, inclusive em proveito das terras de origem dos
Orientais.
Aos Ordinários latinos daqueles
Países, recomendo de maneira particular o estudo atento, a plena compreensão e
a fiel aplicação dos princípios enunciados por esta Sé Apostólica sobre a
colaboração ecuménica 65 e sobre os cuidados pastorais dos fiéis das Igrejas
Orientais Católicas, sobretudo quando estes se encontram desprovidos de uma
Hierarquia própria.
Convido os Hierarcas e o clero
oriental católico a uma colaboração estreita com os Ordinários latinos para uma
pastoral eficaz, que não seja fragmentária, sobretudo quando a sua jurisdição
se estende por territórios muito vastos onde a falta de colaboração significa,
efectivamente, isolamento. Que os Hierarcas orientais católicos não descurem
nenhum meio para favorecer um clima de fraternidade, de estima recíproca e
sincera, e de colaboração com os seus irmãos das Igrejas às quais não nos une
ainda uma comunhão plena, em particular em relação àqueles que pertencem à mesma
tradição eclesial.
No Ocidente, onde não houver
sacerdotes orientais para assistir os fiéis das Igrejas Orientais Católicas, os
Ordinários latinos e os seus colaboradores envidem esforços para que aumentem
naqueles fiéis a consciência e o conhecimento da própria tradição, e sejam
chamados a cooperar activamente, com o seu contributo específico, para o
crescimento da comunidade cristã.
27. Relativamente ao monaquismo,
tendo em consideração a sua importância no cristianismo do Oriente, desejamos
que ele floresça nas Igrejas Orientais Católicas e sejam encorajados todos
aqueles que se sentem chamados a trabalhar para esta consolidação 66. De facto,
existe uma ligação intrínseca entre a oração litúrgica, a tradição espiritual e
a vida monástica, no Oriente. Precisamente por isso, também para eles, uma
retomada bem constituída e motivada da vida monástica poderia significar um
autêntico florescimento eclesial. Não se deverá pensar que isto irá diminuir a
eficácia do ministério pastoral, que, pelo contrário, sairá fortalecida por uma
tão robusta espiritualidade e, desta maneira, reencontrará a sua posição ideal.
Este voto refere-se também aos territórios da diáspora oriental, onde a
presença de mosteiros orientais daria maior solidez às Igrejas orientais naqueles
países, oferecendo, além disso, um contributo precioso à vida religiosa dos
cristãos do Ocidente.
Caminhar juntos para a
«Orientale Lumen»
28. Ao concluir esta Carta, o
meu pensamento vai para os queridos Irmãos: os Patriarcas, os Bispos, os
Sacerdotes e os Diáconos, os Monges e as Monjas, os homens e as mulheres das
Igrejas do Oriente.
No limiar do terceiro milénio,
todos nós sentimos chegar às nossas Sés o grito dos homens, esmagados pelo peso
de ameaças graves e no entanto, talvez mesmo sem o saberem, desejosos de
conhecer a história de amor querida por Deus. Esses homens sentem que um raio
de sol, se for acolhido, pode ainda dispersar as trevas do horizonte da ternura
do Pai.
Maria, «Mãe do astro que não
conhece ocaso» 67, «aurora do místico dia» 68 «oriente do Sol de glória» 69,
indica-nos a Orientale Lumen.
Do Oriente, todos os dias surge
de novo o sol da esperança, a luz que restitui ao género humano a sua
existência. Do Oriente, segundo uma linda imagem, voltará o nosso Salvador (cf.
Mt 24, 27).
Os homens e as mulheres do
Oriente são para nós sinal do Senhor que volta. Nós não podemos esquecê-los,
não só porque os amamos como irmãos e irmãs, redimidos pelo mesmo Senhor, mas
também porque a saudade santa dos séculos vividos na plena comunhão da fé e da
caridade nos impele, censura os nossos pecados, as nossas incompreensões
recíprocas: nós privámos o mundo de um testemunho comum que teria, talvez,
podido evitar tantos dramas, se não mesmo mudar o sentido da História.
Nós sentimos a dor de ainda não
podermos participar na mesma Eucaristia. Agora que o milénio se encerra e o
nosso olhar se dirige completamente para o Sol que nasce, reencontramo-los com
gratidão no trajecto do nosso olhar e do nosso coração.
O eco do Evangelho, palavra que
não desilude, continua a ressoar com força, enfraquecida apenas pela nossa
divisão: Cristo grita, mas o homem tem dificuldade em ouvir a sua voz, porque
não conseguimos transmitir palavras unânimes. Escutamos juntos a invocação dos homens
que querem ouvir a Palavra de Deus inteira. As palavras do Ocidente precisam
das palavras do Oriente, para que a Palavra de Deus manifeste cada vez melhor
as suas riquezas insondáveis. As nossas palavras encontrar-se-ão para sempre na
Jerusalém do Céu; mas invocamos e queremos que esse encontro seja antecipado na
Santa Igreja que ainda caminha para a plenitude do Reino.
Queira Deus abreviar o tempo e o
espaço! Cedo, bem cedo, Cristo, a Orientale Lumen, nos conceda a graça de
descobrir que, na realidade, não obstante tantos séculos de afastamento,
estávamos muito próximos, porque juntos, talvez sem o sabermos, caminhávamos
para o único Senhor, e portanto uns para os outros.
Que o homem do terceiro milénio
possa gozar desta descoberta, finalmente atingido por uma palavra concorde e,
por isso, plenamente credível, proclamada por irmãos que se amam e agradecem as
riquezas que se doam reciprocamente. E, desta maneira, apresentar-nos-emos a
Deus com as mãos puras da reconciliação, e os homens do mundo terão uma nova
motivação sólida para acreditar e para esperar.
Com estes votos, sobre todos
estendo a minha Bênção.
Vaticano, 2 de Maio, memória
de Santo Atanásio, Bispo e Doutor da Igreja, do ano de 1995, décimo sétimo de
Pontificado.
Fonte: Vaticano