CATECISMO ORTODOXO
Parte III
Apêndice
2 - A glorificação dos Santos
b - Testemunhos
do Início da Igreja
Nos
primeiros séculos da Igreja Cristã, três tipos básicos de santos eram
reconhecidos. Eram:
A - do Velho Testamento patriarcas, profetas (entre os quais
São João, o Precursor, é preeminente) e do Novo Testamento os Apóstolos;
B - os mártires, que ganharam coroas de glória pelo
derramamento de seu sangue;
C - hierarcas destacados que serviram a Igreja, assim como
pessoas aclamadas por suas lutas pessoais (os justos e os ascetas).
Com
relação a patriarcas, profetas, apóstolos e mártires ser membro em qualquer
dessas categorias carregava consigo o reconhecimento como santo.
É sabido pela história que reuniões de oração eram
feitas em honra dos mártires tão cedo quanto o primeiro quarto do século II
(conforme São Inácio de Antioquia). Com toda probabilidade, elas começaram no
período imediatamente posterior á primeira perseguição dos Cristãos... a de
Nero. Parece que nenhum decreto eclesiástico especial era requerido para
autorizar a veneração em oração desse ou daquele mártir
É impossível dar uma resposta geral a respeito de
que critério a Igreja usa para reconhecer os santos dessa terceira
classificação. Com respeito aos ascetas em particular, sem dúvida a base geral
e fundamental de sua glorificação é a realização de milagres. Isso porque a
evidência sobrenatural é livre de caprichos e influências humanas. O Prof.
Golubinsky considera essa indicação a única base para glorificação dos ascetas
na história da canonização eclesiástica. Apesar dessa opinião do Prof.
Golubinsky, no entanto, pode-se concluir que a comemoração dos grandes Cristãos
moradores do deserto de antigamente, os lideres e guias do monasticismo, foi
mantida pela Igreja pelos dons didácticos e por elevados alcances espirituais
deles à parte da estrita dependência se eles foram glorificados pelo dom de
realizar milagres. Eles foram enumerados entre o coro dos santos estritamente
por suas vidas ascéticas, sem nenhuma referência particular a tal critério
(realização de milagres).
A antiga glorificação pela Igreja de santos
hierarcas deve ser vista algo diferentemente. O elevado serviço deles foi a
base para sua glorificação; como o santo martírio final foi para os mártires.
No calendário cartaginense, que data do século VII, existe uma inscrição:
"Aqui estão registrados os aniversários (isto é, datas do martírio) dos
mártires e os dias de repouso dos Bispos cuja comemoração a Igreja de Cartago
celebra". Assim, julgando por antigos calendários litúrgicos gregos,
deve-se supor que na Igreja grega todos os Bispos Ortodoxos que não tivessem se
maculado de modo algum eram enumerados entre o coro dos santos locais da
diocese deles, com base na crença que sendo intercessores mesmo na vida além
túmulo. Nos calendários eclesiásticos do Patriarcado de Constantinopla, todos
os Patriarcados, todos os Patriarcas que ocuparam a Sé entre AD 315 (Santo
Metropolitas) e AD 1025 (Santo Eustátios), com
excepção daqueles que foram heréticos ou que por uma razão canónica foram
depostos, são registados na lista dos santos. Essa compilação, no entanto, foi
pouco feita na sequência em que os Patriarcas ocuparam a sé. Com toda
probabilidade, os Bispos mais renomados foram reconhecidos como santos imediatamente
depois do seu repouso; em outros casos essa inclusão ocorreu em algum outro
tempo.
Os nomes de todos os Bispos que partiram entravam no
díptico local - as listas dos que partiram que eram
lidas alto nos ofícios divinos, e todo ano, na data do repouso de cada um deles
sua comemoração era feita com especial solenidade. Sozomem,
o historiador da Igreja, afirma que nas Igrejas individuais ou dioceses, a
celebração de seus mártires locais e a comemoração de seus padres anteriores
(isto é, os hierarcas) eram observadas. Aqui ele usa o termo
"celebração" em referencias à memória dos mártires, mas
"comemoração" em referência aos hierarcas, levando a ser entendido
que na Igreja antiga os eventos dos hierarcas, eram de menor estatura que os dos
mártires (se é próprio falar de um plano geral e não de casos individuais). O
Prof. Golubinsky conjectura que, com relação a hierarcas, depois de um certo
número de anos de orações fervorosas por eles, a celebração anual de suas
memórias eram transformadas num dia de oração para eles. De acordo com o
testemunho de Simeão da Tessalónica, desde os primeiros tempos em
Constantinopla os hierarcas eram enterrados, dentro do santuário, na maior
Igreja, a dos Apóstolos, como as relíquias dos santos, por causa da graça do
divino sacerdócio.
Na Igreja grega, até o século XI, muito poucos do
coro dos hierarcas foram santos venerados universalmente pela Igreja, toda. A
maior parte dos hierarcas permaneceu santo local das Igrejas individuais (isto
é, dioceses), e cada diocese/Igreja individual celebrava só os seus próprios
hierarcas locais, com um número muito pequeno de hierarcas venerados
universalmente por toda a Igreja. Com o século XI a transformação do coro de
hierarcas de local para universal, ocorreu, e como resultado existe um grande
número de nomes. Essa foi provavelmente a razão pela qual, desse século em
diante, a enumeração de hierarcas entre o coro dos santos foi levada mais
estritamente, e como um critério para a enumeração de qualquer Patriarca de
Constantinopla, entre os santos foi declarado necessário ter-se irrefutáveis
evidências de seus milagres, e isso foi requerido também para a glorificação
dos ascetas.
Nas Igrejas locais (dioceses) o direito de
reconhecer indivíduos como santos pertencia aos seus bispos e seu clero ou a
oficiais sujeitos a autoridade deles (bispos e clero). É também bem possível
que os bispos não realizassem tais actos sem o conhecimento e consentimento do
Metropolita e do Sínodo dos Bispos da província metropolitana. Às vezes os
leigos determinavam antecipadamente, de sua determinação erigiam Igrejas
dedicadas a tais ascetas aparentemente na certeza, que a benção
da hierarquia, ocorreria num futuro próximo.
Quando Simeão, o Pio, staretz e guia de São Simeão,
o Novo teólogo, repousou no Senhor depois de quarenta e cinco anos de trabalhos
ascéticos. São Simeão conhecendo a intensidade de suas lutas, sua pureza de
coração, sua proximidade de Deus e a Graça do Espírito Santo que o recobria,
compôs em sua honra um Eulogio, assim como hinos e cánones, e celebrava a sua
memória anualmente com grande solenidade, tendo pintado um ícone dele como
santos. Outros, talvez, dentro e fora do mosteiro, seguiram seu exemplo, pois
Simeão, o Pio, tinha muitos discípulos e admiradores entre monges e leigos. São
Sérgio II, então Patriarca de Constantinopla (reinou 999-1019), ouviu sobre
isso, e convocou São Simeão a apresentar-se diante dele e questionou-o a
respeito da festa e do Santo que estava sendo tão honrado. Mas percebendo que
Simeão, o Pio, tinha levado uma vida tão exaltada, ele não proibiu a veneração
de sua memória, e ainda enviou lamparinas e incenso em memória de Simeão, o
Pio. Dezesseis anos se passaram sem incidentes. Mas mais tarde, um certo
influente Metropolita aposentado que residia em Constantinopla objectou a
qualquer veneração conduzida por iniciativa privada. Tal coisa parecia a ele
blasfema e contrária à ordem da Igreja. Algumas poucas paróquias através de
seus padres e alguns leigos concordaram com o Metropolita, e nesse ponto
começaram as perturbações que duraram cerca de dois anos. Para atingir sua
meta, os oponentes de São Simeão não pararam com difamações dirigidas ao Santo
e seu staretz. São Simeão recebeu a ordem de comparecer perante o Patriarca e o
seu Sínodo para dar uma explicação. Sua resposta foi que, seguindo os preceitos
dos Apóstolos e dos Santos
Padres, ele não poderia se refrear em honrar seu guia, mas que ele não
compelia outros a fazê-lo, que ele estava agindo de acordo com sua consciência,
e que os outros poderiam fazer o que achassem melhor. Satisfeito com essa
apologia, eles no entanto ordenaram a São Simeão que daí por diante celebrasse
a memória de seu staretx tão modestamente quanto possível sem qualquer
solenidade. A controvérsia continuou por cerca de seis anos, no entanto, uma
vingança completa foi lançada contra o ícone de Simeão, o Pio, no qual ele
estava pintado na companhia de outros santos, com uma inscrição que se referia
a ele como "santo" e obscurecido por Cristo, o Senhor em posição de benção. O resultado disso foi que, para a paz da mente e o
estabelecimento da paz, São Simeão decidiu deixar Constantinopla e assentou-se
num lugar remoto perto da antiga Igreja de Santa Marina, onde mais tarde ele
construiu um mosteiro, com relação à questão da veneração em si, o decreto
prévio permaneceu em vigor, isto é, a celebração era permitida desde que não
fosse conduzida com solenidade (conforme "Life of S. Symeon the
New Theologism"
O incidente citado acima demonstra de um ponto de
vista, que conhecimento de uma vida justa e ascética conduz a firme convicção a
respeito de sua permanência na companhia dos santos depois de sua morte e a sua
veneração; de outro lado, o incidente testemunha o facto que naquele tempo
(século XI), os costumes e procedimentos da Igreja requeriam uma definida
confirmação pelas mais altas autoridades da Igreja e um decreto sinodal
sancionando a veneração pública.
No futuro a Igreja Grega conheceria duas
classificações dos novos santos glorificados: mártires e ascetas.
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)