CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
20 - Escatologia Cristã
c - Sobre as
Questões dos "Pedágios".
A Nossa Guerra não é contra a carne e nem contra o
sangue.
A nossa vida entre uma população que, apesar de ser
nominalmente Cristã, tem em muitos aspectos concepções e visões diferentes das
nossas no Reino da fé. Às vezes isso inspira-nos a responder a questões da
nossa fé quando elas são levantadas e discutidas de um ponto de vista não
Ortodoxo por pessoas de outras confissões religiosas, e às vezes por Cristãos
Ortodoxos que não têm mais (ou nunca tiveram) uma base Ortodoxa firme sob
seus pés.
Nas condições limitadas de nossas vidas desafortunadamente
nós somos incapazes de reagir totalmente a afirmações ou a responder as
questões que surgem, no entanto, às vezes sentimos essa necessidade. Em
particular, nós temos ocasião agora de definir a visão Ortodoxa dos
"pedágios", que é um dos tópicos de um livro que apareceu em inglês
sob o título «Christian Mitology»
pelo Cánon George Every. Os
pedágios são a experiência da alma Cristã imediatamente depois da morte, como
essas experiências são descritas pelos Padres
da Igreja e por ascetas Cristãos. Em anos recentes tem sido observada uma
aproximação crítica a uma completa série de crenças da nossa Igreja; essas
crenças são vistas como "primitivas", o resultado de uma
"ingénua" visão do mundo, e elas são caracterizadas por palavras como
"mitos", "mágicos", e semelhantes. E é nossa obrigação
responder.
O assunto dos pedágios não é especificadamente um
tópico da teologia Cristã Ortodoxa; não é um dogma
da Igreja em sentido preciso, mas engloba material de carácter moral e
edificante, podendo dizer-se pedagógico. Para se aproximar do assunto
correctamente, é essencial compreender as bases da visão do mundo Ortodoxo. "Porque,
qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele
está? Assim também, ninguém sabe as coisas de Deus, senão o espírito de
Deus" (1 Cor. 2, 11-12). Nós mesmos devemos chegar mais perto da Igreja,
"para que possamos conhecer o que nos é dado gratuitamente por
Deus" (1 Cor. 2, 12). Na questão presente a base é: nós acreditamos na
Igreja. A Igreja é o corpo celeste e terrestre de Cristo, pré-designado para a
perfeição moral dos membros de sua parte terrestre e para a abençoada, jubilosa
e sempre activa vida de suas fileiras em seu reino celeste. A Igreja na terra
glorifica a Deus, une os fiéis e os seus próprios filhos quanto a vida do
género humano. Seu objectivo principal é ajudar os fiéis a atingir a vida
eterna em Deus, o alcançar da santidade, sem a qual "ninguém terá o
Senhor" (Heb. 12, 14).
Assim, é essencial que haja constante comunhão entre
aqueles que estão na Igreja e na terra e a Igreja celeste. No Corpo de Cristo
todos os seus membros são interactivos. No Senhor, o Pastor da Igreja, existe,
como existiu, dois rebanhos: o celeste e o terrestre (Epístola dos Patriarcas
Orientais, século XVII). "... se um membro
padece, todos os membros padecem; e se um membro é honrado, todos os membros se
regozijam com ele" (1 Cor. 12, 26). A Igreja celeste regozija, mas ao
mesmo tempo simpatiza com seus companheiros membros na terra. São Gregório, o
Teólogo, deu a Igreja terrestre de seu tempo o nome de "Ortodoxia
sofredora"; e assim permaneceu até hoje. Essa interacção é valiosa e
indispensável para o objectivo comum que "cresçamos em tudo naquele que
é a cabeça, Cristo, do qual todo o corpo bem ajustado, e ligado pelo auxílio de
todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, faz o aumento do corpo,
para a sua edificação em amor" (Ef. 4,
15-16).
O
fim disso tudo é a deificação no Senhor, que "Deus seja tudo em
todos" (1 Cor. 15, 28). A vida terrestre do Cristão deveria ser um
lugar de crescimento espiritual, progresso, ascensão da alma para o céu. Nos
temos um profundo pesar que, com a exceção de uns
poucos de nós, apesar de conhecer nosso caminho, nós nos mantemos bem afastados
dele por conta de nosso apego àquilo que é exclusivamente terrestre. E, apesar
de estarmos prontos para oferecer arrependimento, ainda continuando a viver
descuidados. No entanto, não existe em nossas almas aquela assim chamada
"paz da alma" que está presente na psicologia cristã ocidental, que é
baseada em algum tipo de "moral mínima", isto é, tendo cumprido minha
obrigação que provê uma disposição conveniente da alma posso ocupar-me com
interesses mundanos.
No entanto, é precisamente ai, onde a "paz da
alma" termina, que se abre um campo de perfeição para o trabalho interior
dos Cristãos, "Porque se pecarmos voluntariamente depois de termos
recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados,
mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar
os adversários... horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (Heb.
10, 26-27.31). Passividade e descuido não são naturais para a alma; sendo
passivos e descuidados nós nos rebaixamos. No entanto, para nos levantarmos
precisamos de constante vigilância da alma, e mais do que isso, luta.
Com quem é essa luta? Só consigo mesmo? "Porque
não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas sim contra as potestades,
contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da
maldade, nos lugares celestiais" (Ef. 6,
12).
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)