CATECISMO ORTODOXO
Parte III
Apêndice
2 - A glorificação dos Santos
d - Prática
Russa
A remoção dos corpos do solo começou nos primeiros tempos da Igreja. Como é sabido por documentos do segundo século, os Cristãos reuniam cedo nos túmulos dos mártires nos dias de seus repousos para celebrar esses dias com solenidade. São Basílio, o Grande, e São Gregório, o Teólogo, mencionam a exumação de relíquias dos santos. Em sua vida de Santo Antão, Santo António relata a extraordinária reverência dos Cristãos do Egipto pelos remanescentes dos mártires. É bem conhecido que o Imperador Constâncio (reinou de 337-61), filho de Constantino, o Grande, pôs em relicários as relíquias dos Apóstolos André, Lucas e Timóteo na Igreja dos Santos Apóstolos, nos anos 356 e 357.
Na questão da glorificação dos Santos,
a Igreja Russa seguiu a crença e prática das Igrejas do Oriente. As regras
gerais a respeito formam e continuam sendo as seguintes: a base para a
enumeração de um favorito de Deus que partiu, entre o coro dos anjos era o dom
de realizar milagres; seja durante a sua vida, como na maioria dos casos, ou
depois da morte. Na Igreja Antiga, como foi afirmado, serviços exaltados para a
Igreja ou o fim por martírio eram em si a tal base. Na Igreja Russa ocasiões
similares e de glorificação eclesiástica, a parte de realização de milagres
existiram mas eram excepções.
O que se segue difere de acordo com o grau da
extensão territorial da veneração:
1 - santos locais num
sentido mais estreito, cuja celebração começou no próprio local de seu
sepultamento, fosse num mosteiro ou numa Igreja paroquial (dos quais há
inúmeros exemplos);
2 - santos locais em um sentido mais amplo, isto é,
aqueles cuja veneração fosse virtualmente limitada aos contornos da diocese e
finalmente;
3 - santos gerais ou
universais da Igreja, cuja primeira e segunda categoria pertence ao Dispo
Diocesano, aparentemente com o assentimento do Metropolita ou Patriarca; o
direito da glorificação geral pertence à cabeça da Igreja Russa.
A execução da glorificação dos Santos consistia em
receber relatos dos milagres e a correspondente verificação desses testemunhos.
A essência na glorificação dos santos está em se iniciar uma celebração anual
da memória de um santo, no dia de seu repouso ou no dia da abertura de suas
relíquias, ou ambos. Para a celebração da memória de um santo é requerido um
ofício para ele, assim como uma "vida" escrita. As autoridades
eclesiásticas viam se os ofícios e leitura do Prólogo (Sinaxarion) do santo
foram compostas "de acordo com o padrão", isto é, se estavam
conformes com uma forma e eram satisfatórias do ponto de vista estilístico
literário.
A veneração de um santo glorificado novo começa com
um ofício especial, solene, divino na Igreja na qual os restos corporais do
santo de Deus estavam localizados.
Desde tempos antigos até o presente, a glorificação
dos santos tem sido conduzida da mesma maneira na Igreja Russa; por essa razão
não houve período em sua historia que possa ter dependido de uma mudança de
condição ou do método pelo qual a glorificação foi feita. Independente de uma
glorificação oficial, e em outros casos antes da glorificação, existiu ainda
uma "veneração" de ascetas virtuosos que partiram. Em muitos casos
foi erigida uma capela sobre o túmulo do que partiu, e dentro dela era colocada
uma prancha de túmulo ou um relicário (se o que partiu era enterrado dentro da
Igreja, o relicário era colocado sobre o local do sepultamento; usualmente isso
era um sarcófago vazio que não continha corpo, já que o corpo estava abaixo do
solo). Paniquidas eram cantadas no túmulo e, às vezes até "molebens"
para o que partiu. Essa caprichosa declaração de tal pessoa como um
"santo" pelo canto de "molebens" foi proibida pelas
autoridades eclesiásticas como ilícitas. Existiram casos de na vida da Igreja
Russa que ofícios foram compostos para santos ainda não glorificados por uma
decisão sinodal especial; esses casos passaram para uso privado. Assim no
século XVI, Photius um monge do Mosteiro de
Volokomansk, compôs um ofício para o que partiu José de Volotsk e submeteu-o ao
Metropolita Macário de Moscovo (reinou 1543-64). "O grande luminar e
professor do mundo todo, Sua Eminência Metropolitana Macário", a supra
inscrição do ofício afirma, "tendo recebido esse ofício, abençoou o monge Photius para usá-lo em suas orações em sua cela até a
celebração de uma exposição sinodal". Ocasiões similares de bênçãos pelas
altas autoridades eclesiásticas de iniciativas pessoais na composição de
ofícios para ascetas ainda não glorificados por um decreto sinodal não eram
muitos frequentes. Em uma das «sborniki» (antologias) de São Cirilo do Mosteiro
de White Lake é encontrada
um artigo "Sobre a Vanglória de Jovens Monges Compõe Novos Cánones e Vidas
de Santos". O autor anónimo desse artigo se opõe a monges que,
"buscando glória terrena e querendo atrair a atenção daqueles em
autoridade, compõe novos cánones, escrevem vidas dos que repousaram e que Deus
ainda não glorificou!" Em sua conclusão, o autor admoesta compiladores de
cánones e vidas dizendo: "Ó infantis, não componham novos cánones e vidas
para serem cantados por indivíduos em casa ou em celas monásticas, sem a bênção
da Igreja".
Em essência não há distinção entre santos celebrados
pela Igreja toda e santos locais. Santos das duas classes são glorificados por
uma resolução de autoridade hierárquica. Os fiéis viram-se para ambos com seu
rogo em oração por assistência. A Igreja chama ambos de "santos". Na
Igreja Russa, como entre as Igrejas Ortodoxas do Oriente, santos locais em
muitos casos passam para a categoria de santos na Igreja Universal. Uma das
marcas distinguindo santos universalmente venerados de santos locais é que é
verdade que, até a metade do século XVI, não existiam em geral nome de santos
russos nas listagens oficiais, mas depois do século XVI eles começaram a
aparecer. No «Book of Epistles» (apostólo) impresso em
Moscovo no final do século XVI, há sete santos russos encontrados: São Sérgio
de Radonezh, São Pedro, Metropolita de Moscovo, Santo
Aléxis, Metropolita de Moscovo, São Leôncio, Bispo de Rostov,
São Cirilo de Byelozersk, o Grande Príncipe Vladimir, e os Santos Portadores da Paixão Boris e Gleb. Mas começando com o
primeiro «Liturgicon» (Sluzhebinik), impresso em
1602, uma lista dos santos geralmente celebrados foi introduzida nas listas
mensais no «Typiconi» e nas listas dos santos em
outros livros litúrgicos. Durante o período sinodal, nas resoluções do santo
sínodo relativo a glorificações eclesiásticas gerais, a seguinte indicação é
encontrada em muitas ocasiões "...nos livros impressos na Igreja é
requerida permissão para inserir nomes nas listas com o resto".
Na Igreja Russa, os primeiros a serem enumerados
entre o coro dos santos foram os príncipes Boris e Gleb (nomeados de Roman e David
nos seus baptismos); daí então seguiu São Teodósio do Lavra, das Grutas de
Kiev; então, talvez São Nicetas, Bispo de Novgorod, e a grande Princesa Olga. Ao todo, até o século
XVIII, haviam cerca de setenta nomes de santos glorificados russos, dos quais
vinte e dois eram celebrados por toda a Igreja Russa. Os Concílios de 1547 e
1549, convocados sob a presidência do Metropolita Macário institui a celebração
de vários santos novos, e elevou o grau de outros acrescentando trinta e nove
nomes aos vinte e dois que já estavam recebendo veneração geral, elevando o numero
para sessenta e nove. Entre esses dois Concílios e o estabelecimento do Santo
Sínodo, tanto quanto cento e cinquenta novas glorificações tiveram lugar na
Rússia Moscovita, dos quais as datas exactas de cerca de um terço deles são
conhecidas; das demais referências indirectas, tais como a construção de
Igrejas e altares laterais dedicados a eles, e alguma menção de passagem na
literatura do período, nos proveram com alguma evidência de alguma sanção
oficial da veneração deles.
Os nomes dos santos do sudeste da Rússia deveriam
ser colocados numa categoria própria, encabeçados da lavra das Grutas de Kiev.
Circunstâncias históricas, particularmente a subjugação dos poderes
estrangeiros (Lituânia e Polónia), resultando em muito poucas glorificações
naquela região. Um ofício geral para os santos das Grutas de Kiev foi
comissionado pelo Metropolita Pedro Moghila
(1633-46), a quem foi apresentado em 1643. Antes disso, mas ainda sob Pedro Moghila, o «Pantericon of the Caves» foi compilado,
assim como relatos ocorridos no Lavra e em suas grutas durante os quarenta e
quatro anos precedentes à compilação do livro.
Da vida de São Job de Pochaev,
escrita por seu discípulo e assistente no governo do Mosteiro de Pochaev, nós sabemos como a glorificação do venerável, ocorreu
cuja memória é especialmente reverenciada na diáspora russa. A abertura de suas
relíquias foi realizada sete anos depois do repouso do santo, pelo Metropolita
Dionísio (Balaban) de Kiev (reinou 1657-63). A causa
imediata disso foi uma aparição ocorrida três vezes do venerável Job para o
Metropolita enquanto ele estava dormindo, informando a ele que estava agradando
a Deus que suas relíquias fossem abertas. Após a terceira aparição, o
Metropolita (que aparentemente conheceu São Job e o Mosteiro de Pochaeu durante seu período de Bispo de Lutsk)
"assim entendeu que esse assunto estava de acordo com a providência de
Deus e, não demorando, apressou-se para o Mosteiro de Pochaeu,
levando consigo Kyr Theopano
(krekhovestsy), Arquimandrita do Mosteiro de Obruchsky, que acontecia de estar com o Metropolita naquela
hora. Chegando no Mosteiro, com todo o seu clero, ele inquiriu seriamente a
respeito da vida pura e honorável de São Job
Depois da unificação das Rússias
Moscovita e Kievana, os santos da Rússia deveriam
então serem referidos como "santos de toda a Rússia" - os do norte e do leste da Rússia. Essa era de facto a
prática, apesar de não antes de 1762, um decreto ter sido publicado pelo Santo
Sínodo permitindo a inserção dos nomes dos santos Kievanos
nas listas mensais gerais de Moscovo, e permitindo que seus ofícios fossem
impressos em «Menaion». Esse decreto foi repetido
duas vezes depois.
No Período Sinodal, os seguintes santos foram
glorificados para veneração de toda a Igreja (eles estão apresentados em ordem
cronológica, de acordo com as datas de suas glorificações): São Demetrio, Metropolita de Rostov;
Santo Inocêncio, primeiro Bispo de Irkutsk, São Metrofano, Primeiro Bispo de Voronzh;
São Rhikon de Zadonsk,
Bispo de Voronezh; São Teodósio, Arcebispo de Chernigv; São Serafim de Sarov;
São Joasaf, Bispo de Belgorod;
São Hermogeno, Patriarca de Moscovo; São Pitirim, Bispo de Tampov; São
João, Metropolita de Tobolsk; São José, Bispo de
Astrakahm.
Existiram também glorificações locais de santos
durante o período sinodal. Mas mesmo para essa era não existem listas acuradas
ou os fatos confiáveis a respeito de circunstancias e datas da glorificação
deles, já que as decisões para glorificações locais foram feitas sem
proclamação formal, nos registros dos decretos dos Santos Sínodos, pois até o
aparecimento das publicações oficiais do Sínodo - The Church Register e o Diocesan Register - esses não
eram de todo publicado.
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)