CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
11 – Os Santos Mistérios ou
Sacramentos
d - Os Mistérios
ou Sacramentos
A vida interior da Igreja é mística (ou sacramental). (A palavra
“mistérios” - grego «mysteria» - é o termo usado no
oriente Ortodoxo; “sacramentos”
(do latim «sacramenta»), o termo usado no ocidente latino. Desde que o último
termo foi usado no ocidente antes do cisma da
Igreja Romana não há nada errado com o seu uso pelos Cristãos Ortodoxos do
ocidente, especialmente porque poucas pessoas no ocidente estão familiarizadas
com a palavra “mistérios”; mas as pessoas Ortodoxas frequentemente preferem
usar o termo grego. A forma adjectiva “mística”, usada no oriente, tem por
certo uma conotação bem diferente e mais interior, que o adjectivo ocidental
“sacramental”, que se refere mais especificadamente aos ritos exteriores dos
Mistérios). Ela não coincide de todo com a história da Igreja, que mostra-nos
só os factos exteriores da existência da Igreja, e especialmente a sua entrada
em conflito com a vida do mundo e com as paixões do mundo. A vida interior da
Igreja é a cooperação mística de Cristo como a Cabeça, com a Igreja como seu
Corpo, no Espírito Santo, por meio de todas as ligações reforçadoras mútuas: “Grande
é este mistério: digo-o porém, a respeito de Cristo e da igreja”, instrui o
Apóstolo (Ef. 5, 32).
Por isso quando os Apóstolos chamavam-se
“despenseiros dos Mistérios de Deus”, dizendo: “que os homens nos considerem
como ministros de Cristo, e despenseiros dos mistérios de Deus” (1 Cor. 4,
1, em grego «oikonomos mysterion Theou»),
eles tinham em mente várias formas de seu ministério e do cargo de
despenseiros: a - pregação; b -
o Baptismo
daqueles que tinham chegado a acreditar; c - a chegada
do Espírito Santo através da ordenação; d - o reforço
da união dos fiéis com Cristo pelo Mistério da Eucaristia;
e - o aprofundamento dos corações dos fiéis nos
Mistérios do Reino de Deus, e o aprofundamento dos mais perfeitos dentre eles
na “sabedoria de Deus oculta em mistério” (1 Cor. 2, 7).
Assim a actividade dos Apóstolos estava cheia de
elementos místicos (mysterion). Entre eles o lugar
central e culminante estava ocupado pelos ritos sagrados. Daí ser inteiramente
natural que na vida da Igreja a série de momentos especiais e mais importantes
do ministério de doacção da graça, para a série de ritos sagrados, gradualmente
adquirisse preeminência o nome de “Mistérios”: Santo Inácio, o Teóforo, um discípulo imediato dos Apóstolos, escreve a
respeito de diáconos que eles da mesma forma são “servos dos mistérios de Jesus
Cristo” (Epístola aos Trallians, par. 2). Essas
palavras de Santo Inácio derrotam a assertiva dos historiadores protestantes
que na Igreja antiga o conceito de “mistérios” ou “sacramentos” supostamente
nunca foi aplicado para os ritos sagrados da Igreja.
Os ritos sagrados chamados Mistérios são, como eram,
picos numa longa cadeia de montanhas composta dos ritos e orações remanescentes
dos Ofícios Divinos.
Nos Mistérios, orações são juntadas com bênçãos de
uma ou outra foram, e com actos especiais. As palavras de bênçãos acompanhadas
por actos sagrados exteriores são, como foram, vasos espirituais pelos quais a
graça do Espírito Santo é vazada e dada aos membros da Igreja que são fiéis
sinceros.
Assim, “um mistério (sacramento) é um acto sagrado
que sob um aspecto visível comunica à alma de um fiel a invisível graça de
Deus”.
O nome de “mistério” tornou-se estabelecido na
Igreja como se referindo a sete ritos: Baptismo, Crisma,
Comunhão (a Eucaristia), Arrependimento,
Ordenação,
Matrimónio
e Unção
dos Enfermos. (No Oriente Ortodoxo pode dizer-se que, sete é olhado como o
número “absoluto” de Mistérios como tende a ser encarado no Oriente Latino.
Mais comummente, é verdade, só sete Mistérios são mencionados mas certos outros
ritos sagrados, tal como Tonsura Monástica, podem ser considerados,
informalmente como “Mistérios”). O «Longer Christian Catechism» assim define
a essência de cada Mistério:
“No Baptismo o homem nasce misticamente para a vida
espiritual. No Crisma ele recebe graça que dá crescimento e reforça. Na
Comunhão ele é nutrido espiritualmente. No Arrependimento ele é curado de
doenças espirituais (pecado). No Sacerdócio ele recebe as graças
espiritualmente reservadas para se regenerar e nutrir outros, por meio de ensinamento,
oração e Mistérios. No Matrimónio ele recebe graça que santifica o casamento e
o nascimento e criação de crianças, na Unção ele é curado das doenças do corpo
por meio da cura de doenças espirituais”.
Para a vida da Igreja como um todo, tanto como Corpo
de Cristo e como “O pátio do rebanho de Cristo”, o seguinte é extremamente
importante e está no lugar principal: a - o Mistério
do Corpo e do Sangue de Cristo, ou a Eucaristia; b - o
Mistério da Santificação das pessoas escolhidas para o serviço na Igreja nos
graus da hierarquia ou ordenação, que dá a indispensável estrutura da Igreja; e
junto com esses, c - o Mistério do Baptismo, que faz
crescer os números da Igreja. Mas outros Mistérios também, que são indicados
para a doacção de graça para fiéis individuais, são indispensáveis para
plenitude da vida e santidade da Igreja.
Deve-se distinguir a “eficácia” do Mistério (isto é,
que nele há um autêntico poder doador de graça) da “efectividade” do Mistério
(isto é, a extensão em que é concedido o poder doador de graça para alguém que
recebe o Mistério). Os Mistérios são “meios que agem infalivelmente por graça
sobre aqueles que vêem a eles” como é dito na Epístola dos Patriarcas
Orientais. No entanto, o proveito da recepção deles pelos fiéis - seu poder renovador e salvador - depende do homem se
aproximar do Mistério dignamente. Uma recepção indigna de um Mistério pode
trazer não justificação, mas condenação. A graça não interfere com a liberdade
do homem; não age sobre ele irresistivelmente. Com frequência, fazendo uso dos
Mistérios da fé, pessoas não recebem deles aquilo que eles poderiam dar; pois
seus corações não estão abertos para receber graça, ou então elas não preservam
os dons de Deus que receberam. É por isso que acontece que pessoas baptizadas
não só não preenchem os votos dados por elas ou por seus padrinhos de Baptismo,
e não só são privadas da graça de Deus já dada a elas, mas com frequência, para
sua própria perdição espiritual, elas tornam-se inimigas de Deus, negadores,
descrentes, “apóstatas”.
Por esses factos da vida a dignidade dos Mistérios
não é de modo algum diminuída. A grande obtenção da santidade, justiça, as
fileiras de mártires pela fé, confessores ascetas, e taumaturgos (os que
realizam milagres), que ainda na terra tornam-se “anjos terrestres e homens
celestes” - obtenção não ouvida fora do verdadeiro
Cristianismo - são acções da graça invisível de Deus, recebida no Baptismo e
Crisma, mantida aquecida através do Arrependimento e Comunhão dos Santos
Mistérios, e preservada na consciência humilde e trémula que
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)