CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
20 - Escatologia Cristã
j - O julgamento
final
Há numerosos testemunhos na Sagrada Escritura sobre
a realidade e indisputabilidade do Julgamento universal futuro: Jo. 5, 22, 27-29; Mt. 16, 27; 7,
21-23; 11, 22-29; 12, 36.41-42; 13, 37-43; 19, 28-30; 24, 30; 25, 31-46; Act.
17, 31; Judas 14, 15; 2 Cor. 5, 10; Rom. 2, 5; 7, 14-10, 1 Cor. 4, 5; Ef. 6, 8; Col. 3, 24-2; 2 Tess.
1, 6-10; 2 Tim. 4, 1; Apoc. 20, 11-15. Desses
testemunhos a mais completa descrição é dada em Mateus 25, 31-46 ("E
quando o Filho do Homem vier em sua glória...") de acordo com essa
descrição podemos tirar conclusões a respeito das características do
julgamento. Ele será: Universal, isto é, extensivo a todos os homens vivos e mortos,
bons e maus, e de acordo com outras indicações dadas na palavra de Deus, até os
próprios anjos decaídos (2 Ped. 2, 4; Judas 6); solene e aberto, pois o Juiz
aparecerá em toda a sua glória com todos os seus anjos diante da face do mundo
todo; estrito e terrível, executando
Descrevendo da maneira mais brilhante e jubilosa as
características da vida eterna dos justos depois do Julgamento Universal, a
Palavra de Deus fala da mesma maneira positiva, e certeza a respeito dos
tormentos eternos dos homens malignos. "Apartai-vos de mim, malditos
para o fogo eterno", o Filho do Homem dirá no dia do Julgamento: "E
irão estes para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna" (Mt. 25, 41-46). Esta condição de tormento é apresentada na
Sagrada Escritura pintada como um lugar de tormento e é chamada de Gehenna (a imagem da ígnea - com fogo). Gehenna
é tomada do vale de Hinnon nos arredores de
Jerusalém, onde eram feitas as execuções, e também era jogada todo tipo de
coisa suja, e como resultado havia um fogo queimando constantemente como defesa
contra infecções). O Senhor disse: "E se tua mão te escandalizar,
corta-a: melhor é para ti entrares na vida aleijado do que, tendo duas mãos,
ires para o inferno (gehenna) para o fogo que nunca se apaga, onde seu bicho
não morre e o fogo nunca se apaga" (Mc. 9,
43-48). "Haverá choro e ranger de dentes", o Salvador repete muitas
vezes a respeito de Gehenna (Mt.
8, 12 e outros lugares). No Apocalipse de São João, o Teólogo, esse lugar ou
condição é chamado de "lago de fogo" (Apoc.
19, 20). E no Apóstolo
Paulo nós lemos: "Como labareda de fogo, tomando vingança dos que não
conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo" (2 Tess. 1, 9). As imagens do "bicho que não morre" e do
"fogo que nunca se apaga" são evidentemente simbólicas e indicam a
severidade dos tormentos. (Por "simbólica" nossa linguagem contemporânea
racionalista, usualmente entende "não real não mais do que uma
imagem" - uma definição que daria uma idéia
muito confusa da vida na era futura. Com respeito às imagens nas quais futuras
bênçãos e futuros tormentos são descritos, deve-se repetir as palavras do anjo
a São Macário de Alexandria sobre os "pedágios" (citadas no texto
acima): "Aceita as coisas terrenas aqui como a mais fraca descrição das
coisas celestes"; certamente tais imagens como "o bicho" e o
"fogo" correspondem a realidades que são assustadoramente além de
nossa imaginação - e uma realidade que, enquanto não "material" de
acordo com nossa experiência em coisas terrenas, é no entanto de alguma forma
"corporal", correspondendo ao corpo espiritual ressuscitado que os
sentirão! Deve-se ler a assustadora experiência "real" do "bicho
que não morre" por um filho espiritual de São Serafim de Sarov («Are There
Tortures in Hell?« no «Orthodox Life», 1970, nº5) de
modo a se ganhar uma certa indicação da natureza dos futuros na Gehenna). São
João Damasceno diz: "Os pecadores serão entregues ao fogo eterno, que
não será um fogo material como o que estamos acostumados, mas um fogo que Deus
conhece" («Exact Expositiion of the Ortodhodox Faith», Livro 4; 27. tradução inglesa, p 406).
"Eu sei", escreve São
João Crisóstomo, "que muitos são aterrorizados só pela gehenna, mas eu
acho que a privação daquela glória (do Reino de Deus) é um tormento maior que a
gehenna" (homilia 23, sobre São Mateus). "Essa privação das coisas
boas", ele reflecte em outro lugar, "causará tal tormento, tal
tristeza e opressão, que mesmo que nenhuma punição espere aqueles que pecam
aqui, em si mesma (essa privação) pode atormentar e perturbar nossas almas mais
poderosamente que o tormento da gehenna, muitas pessoas tolas desejam só serem
libertadas da gehena; mas eu considero muito mais atormentador do que a gehenna,
a punição de não estar naquela glória. E eu acho que aquele que é privado dessa
glória deveria não chorar tanto pelos tormentos na gehenna quanto por ser
privado das coisas boas do céu, pois só isso é o mais cruel de todas as
punições" (homilia 1, Papa
Teodoro). Pode-se ler uma explicação similar
São Gregório, o Teólogo, ensina: "Reconhece a
ressurreição, o julgamento, e a recompensa dos justos pelo julgamento de Deus.
E essa recompensa para esses que foram purificados no coração será luz, isto é,
Deus visível e conhecido de acordo com o grau de pureza de cada um, que nós
chamamos também de Reino do Céu. Mas para aqueles que são cegos na mente, isto
é, para aqueles que se tornaram estranhos para Deus, de acordo com o grau de
sua presente cegueira, serão trevas" (homilia 40, «On Holy
Baptismo»).
A Igreja, baseando-se na Palavra de Deus, reconhece
os tormentos na gehenna como sendo eterno e sem fim, e por essa razão condenou
no Quinto Concílio
Ecuménico o falso ensinamento dos origenistas que diziam que os demónios
e pessoas ímpias sofreriam no inferno somente por um certo tempo definido, e
então seriam devolvidos a sua condição original de inocência («apokatastasis» em grego). A condenação do Juízo
Final é chamada no Apocalipse de São João, o Teólogo, de "segunda
morte" (Apoc. 20, 14).
Uma tentativa de entender os tormentos da gehena num
sentido relativo, entender a eternidade como algum tipo de era ou período - talvez longo, mas mesmo assim tendo um fim - foi feita na
antiguidade, assim como é feita hoje; essa visão em geral nega a realidade
desses tormentos. Nessa tentativa são trazidas à tona
concepções de um tipo lógico: a desarmonia entre tais tormentos e a bondade de
Deus é apontada, assim como a aparente desproporção entre crimes que são
temporais e a eternidade das punições por pecado, assim como também a
desarmonia entre essas punições eternas e o fim ultimo da criação do homem, que
é bênção de Deus.
Mas não cabe a nós definir os limites entre a
inexprimível misericórdia de Deus e sua justiça. Nós sabemos que o Senhor: "Quer
que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade" (1
Tim. 2, 4); mas o homem é capaz, através de sua própria vontade maligna, de
rejeitar a misericórdia de Deus e os meios de salvação. Crisóstomo,
interpretando a descrição do Juízo Final, demarca: "Quando Ele (o Senhor)
falou acerca do Reino, depois de dizer: "Vinde, benditos de meu Pai,
possui por herança o reino", Ele acrescenta, que está "preparado
para nós desde a fundação do mundo" (Mt. 25,
34), mas quando falando sobre o fogo, Ele não fala assim, mas Ele acrescenta:
que está "preparado para o diabo e seus anjos" (Mt. 25, 41). Pois eu prepararei para vós o Reino, mas o
fogo Eu prepararei não para vós mas para o Diabo e seus anjos. Mas desde que
vós vos jogastes no fogo, então acuseis a vós mesmos por isso" (homilia 70
sobre Mateus).
Não temos o direito de entender as palavras do
Senhor só condicionalmente, como ameaça ou como um certo meio pedagógico
aplicado pelo Salvador. Se nós entendermos nessa maneira nós erramos, já que o
Senhor não instila em nós nenhum desses entendimentos e nós nos sujeitamos à
ira de Deus de acordo com a Palavra do Salvador: "porque o ímpio provocou
Deus? Pois ele disse em seu coração. Ele não inquirirá".
Além disso, o próprio conceito de "raiva"
em relação a Deus é condicional e antropomórfico, como aprendemos do
ensinamento de Santo
António, o Grande (conhecido entre nós como Santo Antão), que diz:
"Deus é bom, desapaixonado e imutável. Agora se alguém pensa que é
razoável e verdadeiro afirmar que Deus não muda, pode-se perguntar como nesse
caso, é possível se falar de Deus rejubilando sobre aqueles são bons e
mostrando misericórdia para aqueles que o honram, enquanto afastando-se dos
maldosos e ficando raivoso com os pecadores. Para essa pergunta deve ser
respondido que Deus não rejubila nem fica com raiva, por rejubilar e ficar
ofendido são paixões; nem Ele se comove pelos dons daqueles que o honram, por
isso significaria que Ele é movido por prazer... Ele é bom, e Ele só concede
bênçãos e nunca provoca dano, permanecendo sempre o mesmo. Nós homens, de outro
lado, se permanecemos bons assemelhando-nos a Deus, somos unidos a Ele; mas se
nós nos tornarmos malignos não assemelhando-nos a Deus; mas tornando-nos
malignos nós fazemos Dele nosso inimigo. Não é que Ele fica raivoso connosco de
maneira arbitrária, mas são os nossos pecados que impedem que Deus brilhe
dentro de nós, e nos expõe aos demónios que nos punem. E se por orações e actos
de compaixão nós recebemos alívio de nossos pecados, isso não significa que nós
tenhamos ganho de Deus e façamo-lo mudar, mas sim que através dos nossos actos
e nosso virar-se para Deus nós curamos nossa malignidade e assim mais uma vez
nós nos regozijamos com a bondade de Deus. Assim dizer que Deus afasta dos
malignos é como dizer que o sol se esconde dos cegos" (Philokalia,
vol 1, texto 150; tradução inglesa por Palmer – Sherrara - Ware, p. 352).
Digno de atenção também é o comentário simples a
esse respeito do Bispo Teofano, o Recluso: "Os
justos irão para a vida eterna, mas os pecadores satanizados para os tormentos
eternos, em comunhão com os demónios. Esses tormentos terminarão? Se o
satanismo é tornar-se como Satanás terminou, então esses tormentos também
poderiam acabar. Mas até então nós devemos acreditar que assim como a vida
eterna não terá fim, assim também os tormentos eternos que ameaçam os pecadores
não terão fim. Nenhuma conjectura pode mostrar a possibilidade do fim do
satanismo. O que Satanás viu depois da sua queda! Quanto poder de Deus foi
revelado! Como ele mesmo foi batido pelo poder da Cruz do Senhor! Como até
agora toda a sua astúcia e malícia são derrotadas por esse poder! Mas ele ainda
é incorrigível, ele constantemente se opõe; e quanto mais longe ele vai, mais
teimoso ele se torna. Não há esperança nenhuma dele ser corrigido! E se não há
esperança para ele, não há esperança também para os homens que tornam-se
satanizados por sua influência. Isso significa que deve haver inferno com
tormentos eternos".
Os escritos dos santos ascetas cristãos indica que
quanto mais alta a consciência moral, mais agudo torna-se o sentimento de
responsabilidade moral, o medo de ofender Deus, e consciência da inevitável
punição por se desviar dos mandamentos de Deus. Mas exactamente o mesmo grau é
o que aumenta a esperança na misericórdia de Deus. A esperança nela e o pedir
por ela ao Senhor é para cada um de nós uma obrigação e uma consolação.
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)