CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
20 - Escatologia Cristã
h - O erro do
quiliasmo
Bastante espalhado nos dias de hoje está o ensinamento a respeito do reino de Cristo na terra por mil anos antes do universal ou Juízo Final; esse ensinamento é conhecido pelo nome de "quiliasmo" (do grego «chiliasmos», mil anos). A essência desse ensinamento é o seguinte: muito antes do final do mundo, Cristo virá novamente para a terra para derrotar o Anticristo e ressuscitar somente os justos, para estabelecer um novo reino na terra no qual os justos, como recompensa por suas lutas e sacrifícios, reinarão junto com Ele pelo período de mil anos, regozijando-se com todas as coisas boas da vida temporal. Depois disso seguir-se-á uma segunda universal ressurreição dos mortos, o julgamento universal, e a universal e eterna doacção de recompensas. Essas são as ideias dos quiliastas. Os defensores desse ensinamento baseiam-se nas visões do visor de mistérios (João, o Teólogo) no 2º capítulo do Apocalipse. Ali é dito que um anjo desceu do céu e amarrou Satanás por mil anos que as almas daqueles que foram degolados por testemunho de Jesus e pela Palavra de Deus vieram à vida e reinaram com Cristo por mil anos. "Esta é a primeira ressurreição" (Apoc. 20, 5). "E acabando-se os mil anos, Satanás será solto da sua prisão e sairá a enganar as nações" (Apoc. 20, 7-8). Logo então segue o julgamento do Diabo e daqueles que foram enganados por ele. Os mortos serão levantados e julgados de acordo com seus feitos. "E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo... esta é a segunda morte" (Apoc. 20, 15). Sobre os que foram ressuscitados na primeira ressurreição, no entanto, na segunda morte não terá poder.
As visões quiliásticas estiveram espalhadas na
antiguidade principalmente entre os heréticos. No entanto, elas também podem
ser encontradas em certos escritores antigos, Cristãos da Igreja Universal,
(por exemplo Papias de Hierápolis, Justino o Mártir, Irineu de
Lyon). Em tempo mais recentes essas visões foram ressuscitadas nas seitas
protestantes; e finalmente, nós vemos tentativas de certos teólogos modernistas
de nosso tempo de introduzir ideias quiliásticas também no pensamento teológico
Ortodoxo.
Como foi indicado, nesse ensinamento são supostos
dois julgamentos futuros, um para os justos ressuscitados, e então um segundo,
universal; há duas ressurreições futuras, primeiro uma dos justos, e então outra dos pecadores; há duas futuras
vindas do Salvador em glória; há um futuro puramente terreno -
ainda que bendito - reino de Cristo com os justos com uma definida época
histórica. Formalmente, esse ensinamento é baseado num incorrecto entendimento
da expressão "a primeira ressurreição"; enquanto interiormente, sua
causa está enraizada na perda, entre as massas do sectarismo contemporâneo, da
fé na vida depois da morte, na beatitude dos justos no céu (com quem as massas
não têm comunhão em oração); e outra causa em certas seitas,
é para ser encontrada nos sonhos utópicos para sociedades escondidas atrás de
ideias religiosas e inseridas nas misteriosas imagens do apocalipse.
Não é difícil ver o erro na interpretação
quiliástica do 2º capítulo do Apocalipse. Passagens paralelas claramente
indicam que a "primeira ressurreição" significa renascimento
espiritual na vida eterna em Cristo através do Baptismo,
uma ressurreição através da fé em Cristo, de acordo com as palavras: "Desperta,
tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos e Cristo te esclarecerá" (Ef. 5, 14). "Vós ressuscitastes com Cristo",
lemos muitas vezes nos Apóstolos (Col. 3, 1 e 2, 12; Ef. 2, 5-6). Procedendo disso, por reino de mil anos
deve-se entender o período de tempo desde o início do reino da graça da Igreja
de Cristo, e em particular da triunfante Igreja do céu, até o final do mundo. A
Igreja que é militante na terra em essência também é triunfante na vitória
executada pelo Salvador, mas ainda enfrenta batalha com o "príncipe desse
mundo", uma batalha que terminará com a derrota de Satanás e com o final
de joga-lo no lago de fogo.
A "segunda morte" é o julgamento dos
pecadores no Juízo Final. Ela não tocará aqueles que "tem parte na
primeira ressurreição" (Cap. 20, 6); isso significa que aqueles que são
espiritualmente renascidos em Cristo e purificados pela graça de Deus na Igreja
não serão submetidos a julgamento mas entrarão na vida abençoada do Reino em
Cristo.
Se em algum tempo foi possível expressar ideias
quiliásticas como opiniões particulares, foi só até o Concílio
Ecuménico expressar o seu julgamento sobre isso. Mas quando o Segundo
Concilio Ecuménico (381), condenando todos os erros do herético Apolinário,
condenou também o seu ensinamento sobre os mil anos do Reino de Cristo e
introduziu no próprio símbolo
da fé as palavras a respeito de Cristo: "E seu Reino não terá
fim" - tornou-se não mais possível de todo um
Cristão Ortodoxo manter essas opiniões. (Um dos padres lideres da Igreja no
inicio que combateu a heresia do quiliasmo foi o Bem-aventurado
Santo Agostinho: ver as suas discussões sobre isso no «The City of God»
20, 7-9, p. 718-728. Ele liga a "prisão" do Diabo por mil anos (Apoc. 20, 2) com a "prisão" do "homem
valente" em Mc. 3, 27 (ver também Jo. 12, 31; as palavras de Cristo logo antes de sua Paixão:
"agora será expulso o príncipe desse mundo"), e afirma que "a
prisão do demónio é ele ser impelido a exercer todo o seu poder para seduzir o
homem". Os Cristãos Ortodoxos que experimentaram a vida da graça na Igreja
podem entender bem o que os protestantes não podem: que os "mil anos"
(o período todo) do Reino de Cristo com os seus santos e o poder limitado do
Diabo é agora.
Um erro relacionado largamente espalhado entre
protestantes contemporâneos, é o "rapto".
Não ouvido antes do século XIX, essa crença diz que durante a "grande
tribulação" próximo ao fim do mundo (ou antes ou depois do
"milénio" de acordo com várias versões), os verdadeiros Cristãos
serão "raptados" para o ar, para escapar dos sofrimentos que
existirão para os que permanecerem na terra. Isso é baseado numa interpretação
errada de 1 Tess. 4, 17, que ensina que no final do mundo propriamente dito os
fiéis serão "arrebatados nas nuvens", junto com os mortos
ressuscitados, "a encontrar o Senhor" que está vindo para o
julgamento e a abertura do eterno Reino dos Céus. A Escritura é bem clara que mesmo
os eleitos sofrerão na terra no período de "tributação", e que por
eles esse período será abreviado (Mt. 24, 21-22).).
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)