CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte III

 

Apêndice

 

 

1 - Novas correntes no pensamento filosófico-teológico Russo

d - O ensinamento da Sabedoria de Deus na Sagrada Escritura

A palavra «Sophia» - sabedoria, é encontrada nos livros sagrados do Velho Testamento (na tradução grega) e do Novo Testamento.

No Novo Testamento é usada em três significados:

1 - No sentido amplo de sabedoria, entendimento: "E Jesus se fortaleceria em espírito, cheio de sabedoria" (Lc. 2, 40); "Mas a sabedoria é justificada por todos os seus filhos" (Lc. 7, 35).

2 - No significado da sábia economia de Deus expressa na criação do mundo, em sua providência sobre o mundo, e na salvação do mundo do pecado: "Ó profundidade das riquezas tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Porque quem compreendeu o intento do Senhor? Ou quem foi Seu conselheiro?" (Rom. 11, 33-34); "Mas falamos a sabedoria de Deus oculta em mistério, a qual Deus ordenou antes dos séculos para nossa glória" (1 Cor. 2, 7).

3 - Em relação ao Filho de Deus como a Sabedoria Hipostática de Deus: "Mas pregamos-lhes a Cristo crucificado... Cristo poder de Deus e sabedoria de Deus" (1 Cor. 1, 23-24); "Que para nós foi feito por Deus sabedoria" (1 Cor. 1, 30).

No Velho Testamento nós encontramos em muitos lugares afirmações acerca da sabedoria. Aqui também há três significados para este termo. Em particular, sabedoria é falada no livro dos Provérbios e nos livros Apócrifos: A Sabedoria de «Joshua», Filho de «Sirach».

Na maioria dos casos, a sabedoria humana é apresentada aqui como um dom de Deus que se deve manter excepcionalmente cuidada. Os próprios títulos dos livros, a "Sabedoria" de Salomão e a Sabedoria de «Joshua», Filho de «Sirach», indica em que sentido - normalmente, no sentido de sabedoria humana - deve-se entender essa palavra aqui. Em outros livros do Velho Testamento episódios separados são citados, os quais descrevem especialmente a sabedoria humana - por exemplo, o famoso julgamento de Salomão.

Os livros acima mencionados introduzem-nos na direcção do pensamento dos professores inspirados por Deus no povo judeu; esses professores inspiraram o povo a ser guiado pela razão, não se entregar a cegas inclinações e paixões, e manter firmemente suas acções ligadas aos comandos da prudência, julgamento correcto, lei moral, e às bases firmes na vida pessoal, familiar e pública.

Uma grande parte do livro dos Provérbios é dedicada a esses assuntos. O título desse livro, "Provérbios", previne o leitor que ele encontrará nele meios de exposição figurativos, metafóricos e alegóricos. Na introdução do livro, depois de indicar que ele é para "conhecimento, sabedoria, instrução", o autor expressa a certeza que "um homem sábio... entenderá uma parábola, e um discurso obscuro, as palavras dos sábios, e suas adivinhações" (1, 6, Septuaginta) - Isso é, ele entenderá seu sentido figurativo, alegórico, sem tomar todas as imagens no sentido literal.

E de facto, adiante no livro, é revelada uma abundância de imagens e personificações na aplicação da "sabedoria que o homem pode possuir. Adquire sabedoria, adquire entendimento... diz à sabedoria, tu és minha irmã; e ao entendimento chama teu parente" (Prov. 7, 4). "Não a desampares, e ela guardar-te-á; ama-a e ela conservar-te-á... exalta-a e ela exaltar-te-á, e abraçando-a tu, ela honrar-te-á; dará a tua cabeça um diadema de graça, e uma coroa de glória te entregará" (Prov. 4, 6.8-9 Septuaginta). O mesmo tipo de pensamento sobre a sabedoria humana está contido na Sabedoria de Salomão.

Está claro que todos esses dizeres sobre sabedoria de modo algum podem ser entendidos como o ensinamento de uma sabedoria pessoal, a alma do mundo, no sentido «sophiológico». Um homem a possui, a obtém, a perde; ela serve a ele; seu início é chamado "temor de Deus"; e lado a lado com a sabedoria é também nomeado de "entendimento" e "instrução" e "conhecimento".

E de onde vem a sabedoria? Como tudo mais no mundo, tem uma fonte única: Deus é "o guia até da sabedoria e o corrector do sábio" (Sabedoria de Salomão 7, 15).

Um segundo grupo de proclamações na Sagrada Escritura refere-se à sabedoria de Deus, que é a sabedoria de Deus em si. Idéias da sabedoria em Deus estão intercaladas com ideias da sabedoria no homem.

Se a dignidade do entendimento e sabedoria no homem é tão exaltada, quão majestosa ela é então em Deus! O escritor usa as mais majestosas expressões possíveis de modo a apresentar o poder e grandeza da sabedoria Divina. Aqui ele faz um largo uso de modo a apresentar o poder e grandeza da sabedoria Divina. Aqui ele faz um largo uso de personificação. Ele fala da grandiosidade dos planos Divinos que, de acordo com nossas concepções humanas, parecem ter precedido a criação, porque a sabedoria de Deus está na base de tudo o que existe, por essa razão ela está antes de tudo, antes de qualquer coisa que existe. "O Senhor me possui no princípio dos seus caminhos, e antes de suas obras mais antigas. Desde a eternidade fui ungida, desde o princípio, antes do começo da terra, antes de fazer abismos... antes dos montes... eu fui gerada. Quando Ele preparava os céus, ai estava eu" (Prov. 8, 22-25.27 Septuaginta). O autor no livro do Génesis fala da beleza do mundo, enquanto expressa em imagens o que foi dito da criação, ("era muito bom"). Ele diz em nome da sabedoria: "Então eu estava com Ele e era Seu aluno: e era cada dia as suas delicias, folgando perante ele em todo o tempo" (Prov. 8, 30).

Em todas as imagens da sabedoria citadas acima, e outras similares, não há base para se ver num sentido directo nenhum ser espiritual pessoal, distinto de Deus, uma alma do mundo, ou ideia do mundo. Isso não corresponde às imagens dadas aqui: uma "essência do mundo" ideal não poderia ser dita "presente" na criação do mundo (ver a Sabedoria de Salomão 9, 9); somente alguma coisa exterior tanto ao Criador quanto à criação poderia estar "presente". Da mesma forma, ela não poderia ser um "implemento" da criação se ela em si é a alma do mundo criado. Por essa razão, nas expressões citadas acima é natural ver-se personificações (um dispositivo literário), ainda que elas sejam tão expressivas a ponto de chegarem perto de «hypostases» ou pessoas reais.

Finalmente, o escritor do livro de Provérbios é profeticamente exaltado em pensamento até a prefiguração da Economia de Deus no Novo Testamento que é revelada na pregação do salvador do mundo, na salvação do mundo e do género humano, e na criação da Igreja do Novo Testamento. Essa prefiguração é encontrada no nono capítulo de Provérbios: "A Sabedoria já edificou a sua casa, já lavrou as suas sete colunas. Já sacrificou as suas vítimas, já misturou o seu vinho..." (Prov. 9, 1-2, Septuaginta). Essa magnífica imagem é igual em poder às profecias referentes ao Salvador nos profetas do Velho Testamento.

Desde que a economia na salvação foi realizada pelo Filho de Deus, os Santos Padres da Igreja, e, seguindo eles os interpretadores Ortodoxos do livro dos Provérbios em geral, referem-se ao nome "sabedoria de Deus" que essencialmente pertence à Santíssima Trindade como um todo, à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho de Deus, como o Realizador do Conselho da Santíssima Trindade.

Por analogia com essa passagem profética, as imagens do livro de Provérbios, que são indicados acima referentes à sabedoria de Deus (no capitulo 8) são também interpretadas como se aplicando ao Filho de Deus. Quando os escritores do Velho Testamento, para quem o mistério da Santíssima Trindade não estava inteiramente revelado, dizem "Em sabedoria Ele os fez a todos " - para quem acredita no Novo Testamento, um Cristão, no nome "Verbo" e no nome "Sabedoria" é revelada a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho de Deus.

O Filho de Deus, como uma «hipóstase» da Santíssima Trindade, contem em si todos os atributos divinos na mesma plenitude do Pai e do Espírito Santo. No entanto, tendo manifestado esses atributos para o mundo em sua criação e sua salvação, Ele é chamado de Sabedoria Hipostática de Deus. Na mesma base, o Filho de Deus, pode também ser chamado de Amor Hipostático (ver São Simeão, o Novo Teólogo, Homilia 53); Luz Hipostática ("andai [na luz] enquanto tendes a luz" (Jo. 12, 35), Vida Hipostática ("Tu deste à luz a Vida Hipostática" - Cánon da Anunciação, 8); e Poder Hipostático de Deus ("lhes pregamos a Cristo, poder de Deus", 1 Cor. 1, 24).

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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