CATECISMO ORTODOXO
Parte III
Apêndice
2 - A glorificação dos Santos
e - Necessidade
de Alta Autoridade
Na Igreja Russa, como no Oriente Ortodoxo, quanto
maior a área proposta para a veneração, maior a autoridade eclesiástica
necessária para confirmá-la.
Quando em 1715, o Padre e os paroquianos da Igreja da Ressurreição em Totma (Província de Vologda) procuravam o Arcebispo de Veliky Ustiug com o pedido de, em vista dos muitos milagres que tinham ocorrido no túmulo de Maximus, um Padre e "louco em Cristo" da cidade, que havia repousado em 1650, o Arcebispo abençoou a construção de uma Igreja dedicada a Santa Parasceva sobre o seu túmulo "como era costume para os santos de Deus, e também construir sobre suas relíquias um sarcófago e um santo ícone para cobri-lo". Em resposta a esse pedido, o Arcebispo decretou "que um monumento fosse construído naquela Igreja e que «molebens» fossem cantados para São Máximo de maneira santa, como para os outros favoritos de Deus". Assim, pode-se concluir que o Arcebispo abençoou a veneração local baseado em sua autoridade pessoal.
Como exemplos de como a execução Sinodal de assunto
pertinentes aos justos que partiram aconteciam, citaremos vários extractos de
actos relacionados à glorificação de santos "de toda a Rússia".
Observando a instituição da celebração geral
eclesiástica da memória de São José de Volotsk, o seguinte relatório é
encontrado em uma das antologias de Volokolansk:
"Por ordem do justo-fiel e amante de Cristo o
Soberano Autocrata, Tsar e Grande Príncipe Feodor Ivanovich de Toda a
Rússia, e com a benção de seu pai, Sua Santidade Job,
primeiro Patriarca de Moscovo e de toda Rússia, o tropário, «kondakion», «estiquérios» e
cánon, e todo o ofício para a Liturgia para nosso venerável pai e abade José de
Volotsk, foram corrigidos pelo abade Josafa em 01 de
Junho, 7099 (isto é, 1591). E o Soberano Autocrata, Tsar
e Grande Príncipe Feodor Ivanovich
de Toda Rússia, e Sua Santidade Job, Patriarca de Moscovo e Toda Rússia e o
Concílio todo, em assembleia geral testemunharam o canto do tropário, «kondanion», os «estiquerios», o
cánon, e o ofício da Liturgia para o venerável José. Baseados na opinião de
todo o Concilio, o Tsar e o Patriarca ordenaram que o
oficio fosse cantado e celebrado em todos os lugares no dia 04 de Setembro, o
dia do repouso do nosso venerável Pai José, o Taumaturgo, que é o dia da
comemoração dos santos e justos ancestrais de Deus, Joaquim e Ana. O Soberano, Tsar e Grande Príncipe Feodor Ivanovich ordenou que «menaion» impresso e em todos «menaia» no mesmo dia o «kondakion»,
«estiquério», cánon e todo o oficio para o venerável
José fosse impresso, junto com a festa da Natividade da Santíssima «Theotokos»
e aquela dos Ancestrais de Deus, assim instituindo e confirmando que essa festa
fosse celebrada dessa maneira, imutável, em todos os lugares, para sempre.
Amén.". A veneração de São José foi instituída três vezes - duas localmente e uma generalizada. Suas relíquias não
foram abertas e permanecem até o dia presente em baixo de uma lápide.
Por um decreto do Patriarca Job (reinou 1586-1605)
datado de 1600 e localizado no Mosteiuro Korniliev na Província de Vologna,
fica-se sabendo como o estabelecimento da veneração geral de São Cornélio de Komel aconteceu. O abade José do Mosteiro de Korniliev relatou ao Patriarca que uma capela lateral havia
sido construída no Mosteiro em honra de São Cornélio, que ele não havia sido
consagrado ainda, e que "por muitos anos eles haviam pedido cura para São
Cornélio e tinha recebido, e os cegos, os coxos e aqueles que estavam aflitos
com muitas dores foram curados". Com isso, o Abade José submeteu ao
Patriarca em Concílio os estiquéros, canones, e vida de São Cornélio. O Patriarca, Bispos, e
todos os outros que atendiam o Concílio questionaram o Arcebispo Jonah de Vologda a respeito dos milagres de São Cornélio e
receberam dele a resposta que de facto "no relicário de São Cornélio o
Taumaturgo, muitos milagres inefáveis tiveram lugar, e é bem sabido que os
milagres realizados por ele não são falsos". Mais tarde, eles todos
prestaram atenção no «estiquério», cánon e vida de
São Cornélio e acharam que a vida escrita estava "de acordo com a imagem e
semelhança". Depois disso, o Patriarca e o Concílio relataram o assunto ao
Tsar Boris Feodorovich Godunov (reinou
1548-1605), e o soberano, tendo conferido com o Patriarca e com o Concílio,
ordenou que as "Vésperas fossem celebradas e a Vigília de Toda Noite e a
Liturgia de Deus fossem servidas na Igreja Católica Apostólica da Puríssima
Mãe de Deus, dedicada à sua Dormição
na cidade capital de Moscovo, no dia da comemoração do Santo Mártir Patrício,
Bispo de Prusa, em 19 de Maio, e nas catedrais das
províncias metropolitanas, nas sés arquiepiscopais e episcopais de toda a
Grande Rússia, como era feito para o resto dos santos; e nos mosteiros de São
Cornélio, e na Igreja Catedral de Sofia a Sabedoria de Deus em Vologda, e nos
subúrbios, e nas santas Igrejas de Deus e nos distritos distantes e nas cidades
circundantes e todo o território submetido ao Arcebispo de Vologda, é ordenado
celebrar a memória de Cornélio o Taumaturgo em 19 de Maio".
Vemos nesses extractos que a instituição da
glorificação de santos era tratada com grande atenção e zelo. Mais de uma vez
as autoridades eclesiásticas negaram pedidos para glorificação dos
reverenciados que partiram se elas não viam provas incontestáveis e firmes nas
quais pudessem basear tal glorificação.
As palavras dos decretos sinodais a respeito de
glorificação dos santos mostra-nos claramente o entendimento Ortodoxo dessas
acções como uma confissão conciliar universal de parte da Igreja de uma firme
crença ou certeza que Deus glorificou Seu favorito nos céus, e que por isso nós
devemos glorifica-Lo também, com júbilo, na terra. Esse pensamento é expresso
nos actos do período sinodal, e foi notado exacta e completamente.
No relato oficial da glorificação do Santo Hierarca Metrofanes de Voronnezh, nós
lemos: "Quando pela investigação que foi conduzida, um verdadeiro ato de
Deus, maravilhoso
O decreto de glorificação de São Thikon
de Zadonsk diz: "A memória de Sua Graça Thikon, Bispo de Voronezh... tem
sido honrada com reverencia entre o povo Ortodoxo russo que se dirigiu ao
Mosteiro de Zaronsk para o túmulo do Hierarca de
grandes distancias em uma grande multidão, orando pelo repouso da alma desse
hierarca e esperando por sua orante intercessão diante de Deus. Memória das
elevadas virtudes Cristãs com que ele brilhou na sua vida terrestre, novas da
evangélica sabedoria que ficaram em seus escritos, divinamente iluminados, e as
miraculosas curas de diversos males realizados no seu túmulo trouxeram muitos
fiéis para a veneração do Santo Hierarca. Em tudo isso
uma pia esperança que esse Hierarca que tem sido
glorificado por Deus seja enumerado entre o coro dos santos. Mesmo no fim do
último século XVIII tal esperança foi expressa em petições submetidas para Sua
Alteza Imperial e para o Santíssimo Sínodo". Arcebispo Antonio
de Voronezh, no próprio dia de seu (Tikhon) repouso, escreveu uma carta ao Imperador Nicolas a respeito do universal fervoroso desejo de
inúmeros peregrinos "que esse grande luminar da fé e boas obras que agora
jaz embaixo de um arbusto, seja colocado diante dos
olhos de todos". O Sínodo, em seu relato ao soberano, anunciou sua
decisão, começando com as seguintes palavras: "Reconhecendo o Bispo Thikon de Voronezh como entre o
coro dos santos que foram glorificados pela graça de Deus pela fragrância da
santidade e seu incorrupto corpo como santas relíquias".
A resolução a respeito da glorificação de São
Serafim de Sarov é expressa de maneira similar:
"Reconhecendo o pio Staretz Serafim que repousou na Hermitage
de Sarov, como estando no coro dos santos
glorificados pela graça de Deus".
Como é bem sabido, e ainda lembrado por algumas
pessoas, nas últimas décadas antes da queda da Rússia, a glorificação dos
santos da Igreja Russa, tais como São Teodósio de Chernigov,
São Serafim de Sarov e outros casos posteriores,
foram grandes festividades religiosas nacionais, no centro das quais estavam as
aberturas das relíquias desses santos de Deus. Geralmente, as glorificações de
Santos Russos no século dezoito ao século vinte foram marcadas pela abertura de
suas santas relíquias. Isso mostra que esses actos estavam intimamente ligados,
apesar de que, como já foi dito, a abertura das relíquias não era uma condição absolutamente essencial e nem sempre seguiu-se imediatamente
depois do acto de glorificação.
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)