CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
10 – A Igreja
i - Igreja
Apostólica
A
Igreja é chamada "Apostólica" porque os Apóstolos fizeram o início
histórico dela. Eles espalharam Cristianismo até aos confins da terra e quase
todos eles selaram a sua pregação com uma morte por martírio. As sementes do
Cristianismo foram semeadas no mundo pelas palavras deles e regadas com o seu
sangue. A chama inextinguível da fé no mundo eles acenderam pelo poder a sua fé
pessoal.
Os Apóstolos preservaram e transmitiram para a
Igreja o ensinamento da fé e da vida Cristã na forma que eles haviam recebido
do seu Mestre e Senhor. Dando em si próprios o exemplo de cumprimento dos
comandos do Evangelho eles entregaram aos fieis o ensinamento de Cristo pela palavra
da boca baseada na Sagrada Escritura para que ele fosse preservado, confessado
e vivido.
Os Apóstolos estabeleceram na Igreja a graça da sucessão
episcopal, e através dela a sucessão de graça para todo o ministério da hierarquia
da Igreja. Eles colocaram o início da realização dos santos Mistérios do
Corpo e Sangue de Cristo, no Baptismo
e Ordenação.
Os Apóstolos estabeleceram o inicio da estrutura
canónica da vida da Igreja, estando preocupados que tudo deveria ser feito
decentemente e em ordem; um exemplo disso é dado no capítulo catorze da
Primeira Epistola aos Coríntios, que contém instruções para a as assembleias
onde os Ofícios da Igreja são celebrados.
Tudo o que dissemos refere-se ao aspecto histórico.
Mas além disso existe outro aspecto, o interior que dá a Igreja uma qualidade
apostólica. Os Apóstolos não estiveram historicamente na Igreja de Cristo; eles
permaneceram nela e estão nela agora. Eles estiveram na Igreja terrestre, e
estão agora na Igreja celeste, continuando a estar em comunhão com os fiéis na
terra. Sendo o núcleo histórico da Igreja, continuam a ser, estando
espiritualmente vivos, apesar de invisíveis, o núcleo da Igreja, agora e
sempre, na constante existência dela. O Apóstolo João, o Teólogo, escreve: "...
e nós anunciamos, para que também tenhais comunhão
connosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo"
(1 Jo. 1, 3). Essas palavras tem para nós a mesma
força que elas tiveram para os contemporâneos dos Apóstolos; elas contêm uma
exortação para nós estarmos em comunhão com a ordem dos Apóstolos, pois a
proximidade dos Apóstolos com a Santíssima
Trindade é maior que a nossa.
Assim, tanto por razões de carácter histórico quanto
por razões de carácter interior, os Apóstolos constituem a base, fundação da
Igreja. Por essa razão é dito na Igreja: ela é "Edificada sobre o fundamento
dos Apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra de
esquina" (Ef. 2, 20). A nomeação da Igreja
como "Apostólica" indica que ela é estabelecida não sobre só um
Apóstolo (como a Igreja Romana mais tarde veio a pensar), mas sobre todos os
doze; de outra forma ela teria que ter o nome de Pedro,
ou João, ou de algum outro. A Igreja como ela estava adiante do tempo nos
preveniu contra pensar de acordo com um princípio "carnal" (1 Cor. 3,
4): "Eu sou de Paulo, e outro, eu sou de Apolo". No
Apocalipse, a respeito da cidade que descia do céu é dito: "E o muro da
cidade tinha doze fundamentos, e neles os nomes dos doze Apóstolos do
Cordeiro" (Apoc. 21, 14).
Os atributos da Igreja indicados no Símbolo
da Fé: "una, santa, católica, apostólica", referindo-se à Igreja
militante. No entanto, eles recebem o seu significado completo com a
consciência da unicidade dessa Igreja com a Igreja celeste do único Corpo de
Cristo: a Igreja é una, com uma unidade que é tanto celeste, quanto terrestre;
e é santa com uma santidade celeste-terrestre; e é católica apostólica pela sua
ligação inquebrantável com os Apóstolos e todos os santos.
O ensinamento Ortodoxo da Igreja, que é nele próprio
muito claro e repousa sobre a Sagrada
Escritura e a Sagrada
Tradição, tem que ser contrastado com outro conceito que está largamente
espalhado no mundo protestante contemporâneo e que tem penetrado até
A disseminação de tal visão é ajudada pelo facto que
lado a lado com a Igreja Ortodoxa existe fora dela um número de Cristãos que
excedem em muitas vezes o número de membros da Igreja Ortodoxa. Com frequência
nós podemos observar nesse mundo Cristão fora da Igreja um fervor religioso e
uma fé, uma vida moral digna, uma convicção - na
direcção do fanatismo - um comportamento correcto, uma organização e uma ampla
actividade caritativa. Qual é a relação de todos eles com a Igreja de Cristo?
Com certeza, não existe razão para olharmos essas
confissões e seitas como no mesmo nível que as religiões não-Cristãs. Não se
pode negar que a leitura da Palavra de Deus tem uma influência benéfica em
qualquer um que nela procurar instrução e reforço da fé, e que reflexão devota
sobre Deus o Criador e sobre o Provedor e Salvador, tem um poder elevado também
entre os Protestantes. Nós não podemos dizer que as orações deles são
totalmente infrutíferas se elas vem de um coração puro, pois "em qualquer
nação aquele que teme o Senhor, é agradável a Ele" (Act. 10, 35
paráfrase). O Deus Omnipresente e Bom Provedor está sobre eles, e eles não
estão privados da misericórdia de Deus. Eles ajudam a restringir a aproximação
moral, vícios e crimes; e eles opõem-se ao espalhamento do ateísmo.
Mas tudo isso não nos dá base para considera-los
como pertencendo à Igreja. Já o facto que uma parte desse amplo mundo Cristão
fora da Igreja, particularmente o Protestantismo
todo, nega a ligação com a Igreja Celeste, isto é, a veneração em oração da Mãe
de Deus e dos santos,
e da mesma forma orações feitas pelos mortos, indica que eles destruíram a
ligação com o Uno Corpo de Cristo que une em si o celeste e o terrestre. Além
disso, é um facto que essas confissões não-Ortodoxas "romperam" de
uma ou outra forma, directa ou indirectamente, com a Igreja
Ortodoxa, com a Igreja em sua forma histórica; eles mesmos cortaram a
ligação, eles "partiram" dela. Nem nós nem eles temos o direito de
fechar os olhos para esse facto. O ensinamento dos Não-Ortodoxos contêm
heresias que foram decididamente rejeitadas e condenadas pela Igreja em seus Concílios
Ecuménicos. Nesses numerosos ramos do Cristianismo não há unidade, nem
interior, nem exterior - seja com a Igreja Ortodoxa ou
entre eles mesmos. A unificação supra-confessional (o "movimento
ecumenista") que se está observando agora não entra nas profundezas da
vida dessas confissões mas tem um carácter exterior. O termo
"invisível" pode referir-se somente à Igreja celeste. A Igreja na
terra, ainda que tenha seu lado invisível, como um barco que tem uma parte
escondida na água e é invisível aos olhos, ainda permanece visível, porque ela
consiste de pessoas e tem formas visíveis de organização e de actividades
sagradas.
Por conseguinte é muito natural afirmar que essas
organizações religiosas são sociedades que estão "perto", ou
"proximidade", "encostada", ou talvez até mesmo
"contígua" a Igreja, mas às vezes "contra" ela; mas elas
estão todas "fora" da Una Igreja de Cristo. Algumas vezes cortaram-se
da Igreja, outras foram para longe. Algumas ao ir embora, ao mesmo tempo
mantiveram ligações de sangue com a Igreja. Outras perderam todo parentesco, e
nelas o verdadeiro espírito e as bases do Cristianismo foram distorcidas.
Nenhuma delas encontra-se sob a actividade da graça que está presente na
Igreja, e especialmente a graça que é dada nos mistérios da Igreja. Elas não
são nutridas por aquela mesa mística que conduz ao longo dos passos da
perfeição moral.
A tendência na sociedade cultural contemporânea de
colocar todas as confissões no mesmo nível não é limitada ao Cristianismo;
nesse mesmo nível igual para todos são colocadas também as religiões
não-Cristãs, baseado no facto que todas "conduzem a Deus", e além
tomadas todas juntas, elas superam largamente o mundo Cristão em número de membros.
Todas essas visões "unitilizadoras" e
"equalizadoras" indicam um esquecimento do princípio de que podem
existir muitos ensinamentos e opiniões, mas existe uma só verdade. E a união
Cristã autêntica - unidade na Igreja - só pode ser
baseada na unidade de mente e não em diferenças de mente. A Igreja é "a
coluna e firmeza da verdade" (1 Tim. 3, 15).
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)