CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte III

 

Apêndice

 

 

1 - Novas correntes no pensamento filosófico-teológico Russo

b - Filosofia e Teologia

No pensamento teológico contemporâneo penetrou a visão que a teologia dogmática Cristã deveria ser suplementada, tornada "frutífera" e iluminada por uma base filosófica e que ela deveria aceitar conceito filosófico nela própria".

"Para justificar a fé de nossos pais, para elevá-la a um novo grupo e consciência racional" - esse é o modo pelo qual V. S. Soloviev define seu objectivo, assim formulado não haveria nada essencialmente digno de repreensão. No entanto, deve-se ser cuidadoso para não misturar duas esferas - aprendizado teológico e filosofia: tal mistura é capaz de conduzir alguém à confusão e eclipsar seu propósito, seu conteúdo e seus métodos.

Nos primeiros séculos do Cristianismo os escritores Cristãos e Padres da Igreja responderam largamente ás ideias filosóficas de seu tempo, e eles próprios usaram os conceitos que tinham sido trabalhados pela filosofia. Porque? Assim eles lançaram uma fonte entre a filosofia grega e a filosofia Cristã. O Cristianismo apresentou-se como uma visão do mundo que era para substituir as visões filosóficas do mundo antigo, ficando acima delas. Então, tendo se tornado no quarto século a religião oficial do estado, ela foi chamada pelo próprio estado para tomar o lugar de todos os sistemas de visões do mundo que existiram até aquela época. Essa é a razão porque, no Primeiro Concílio Ecuménico na presença do Imperador, ocorreu um debate dos professores da fé Cristã com um "filósofo".

Mas não poderia ser uma simples substituição (da filosofia pagã pela Cristã). A apologética Cristã tomou sobre si o objectivo de tomar posse do pensamento filosófico pagão dirigindo seus conceitos para o canal do Cristianismo. As ideias de Platão mostraram-se para os escritores Cristãos como um estágio preparatório no paganismo para a Revelação Divina. À parte isso, no curso das coisas, a Ortodoxia teve que combater o Arianismo, não tanto na base da Sagrada Escritura quanto por meio da filosofia, porque o arianismo havia tomado da filosofia grega seu erro fundamental - nomeadamente, o ensinamento do logos como um princípio intermediário entre Deus e o mundo; estando abaixo da divindade. Mas mesmo com tudo isso, a direcção geral do pensamento patrístico todo foi a base de todas as verdades da fé Cristã baseadas na Revelação Divina e não em deduções racionais e abstratas. São Basílio, o Grande, em seu tratado, «What Benefictcan Be Drawn from Pagan Works», dá exemplo de como usar o material instrutivo contido nesses escritos. Com o espalhamento universal dos conceitos Cristãos, o interesse na filosofia grega gradualmente morreu nos escritos Patrísticos.

E, isso era natural. Teologia e filosofia são distintas antes de tudo por seu conteúdo, a pregação do Salvador na terra declarou para os homens não ideias abstratas, mas uma vida nova para o Reino de Deus; a pregação dos Apóstolos foi a pregação da salvação em Cristo. Por essa razão, a teologia dogmática Cristã tem como seu principal assunto o completo exame do ensinamento da salvação, sua necessidade, e o caminho para ela. Em seu conteúdo básico, a teologia é soteriológica (do grego «soteria» - salvação). Questões de ontologia (a natureza da existência), de Deus em si, da essência do mundo e da natureza do homem, são tratadas na teologia dogmática de maneira muito limitada. Isso não é somente porque elas (essas questões) nos são dadas na Sagrada Escritura de forma limitada (e, em relação a Deus, em forma escondida), mas também por razoes psicológicas. Silêncio referente ao interior em Deus é uma expressão do vivo sentimento da omnipresença de Deus, uma reverência diante de Deus, temor de Deus. No Velho Testamento esse sentimento levou ao temor de até mesmo mencionar o nome de Deus. A área mais importante da contemplação deles era a da verdade da Santíssima Trindade revelada no Novo Testamento, e a teologia Cristã Ortodoxa como um todo seguiu esse caminho.

A filosofia segue um caminho diferente. Está principalmente interessada precisamente em questões de ontologia: a essência da existência, a relação entre o princípio absoluto e o mundo e suas manifestações concretas, assim por diante. A filosofia por sua natureza vem de «skepsis», de dúvida sobre o que nossas concepções nos contam; e mesmo quando chega a fé em Deus (na filosofia idealista) ela raciocina sobre Deus "objectivamente", como sobre um assunto de conhecimento frio, um assunto que é sujeito a exame e definição racionais, a uma explanação de sua essência e de sua relação como existência absoluta com o mundo de manifestações.

Essas duas esferas - teologia dogmática e filosofia - também devem ser distinguidas por seus métodos e fontes.

A fonte da teologia é a revelação divina, contida na Sagrada Escritura e Sagrada Tradição. O carácter fundamental da Sagrada Escritura e Tradição depende de nossa fé na verdade delas A teologia reúne e estuda o material que é encontrado nessas fontes, sistematiza esse material e o divide em categorias apropriadas, usando nesse trabalho os mesmos meios que as ciências experimentais usam.

A filosofia é racional e abstracta. Ela procede não da fé, como a teologia, mas busca se basear nos indisputáveis axiomas fundamentais da razão deduzindo deles outras conclusões, ou então sobre factos da ciência ou do conhecimento geral humano.

Assim sendo pode-se simplesmente dizer que a filosofia não é capaz de elevar a religião dos pais ao grau do conhecimento.

No entanto, pelas distinções mencionadas acima, não se deve negar inteiramente a cooperação dessas duas esferas. A própria filosofia chega à conclusão que há limites que o pensamento humano por sua própria natureza não é capaz de ultrapassar. O próprio facto que a historia da filosofia durante quase toda sua duração tem sido duas correntes - idealística e materialista - mostra que seus sistemas dependem de uma predisposição pessoal de mente e coração; em outras palavras que elas estão baseadas sobre algo que está além dos limites da prova. O que está além dos limites na prova é a esfera da fé, a fé que pode ser negativa e não religiosa, ou positiva e religiosa. Para o pensamento religioso, o que está "acima" é a esfera da Revelação Divina.

Nesse ponto aparece a possibilidade de uma união das duas esferas do conhecimento, teologia e filosofia. Assim a filosofia religiosa é criada; e no Cristianismo isso significa filosofia Cristã.

Mas a filosofia religiosa Cristã tem um caminho difícil: juntar liberdade de pensamento, como um princípio da filosofia, com fidelidade aos dogmas e todo o ensinamento da Igreja. "Vai pelo caminho livre, qualquer que a mente livre te leve" diz a obrigação do pensador; "Sê fiel a Verdade Divina", sussurra para ele a obrigação do Cristão. Desse modo, pode-se sempre esperar que na realização prática os compiladores dos sistemas de filosofia estarão forçados a sacrificar, desejando ou não, os princípios de uma espera em favor da outra. A consciência da Igreja, recebe bem tentativas sinceras de criar uma visão do mundo filosófica Cristã harmónica; mas a Igreja as vê como criações privadas, pessoais, e não sanciona, a elas com sua autoridade. Em todo caso é essência que haja uma precisa distinção entre a teologia dogmática e a filosofia Crista, e toda tentativa de tornar dogmática em filosofia Cristã deve ser decisivamente rejeitada. (Provavelmente a tentativa mais bem escolhida do ponto de vista Ortodoxo, na criação de uma verdadeira filosofia Cristã no século XIX na Rússia, é encontrada nos ensaios filosóficos de I. M. Kireyevsky (+ 1856), um filho espiritual do Staretz Macarius do Optina que também ajudou ao Staretz nas traduções de Optina dos trabalhos dos Santos Padres. Infelizmente, os pensamentos religiosos russos, na segunda metade do século XIX não seguiram a liderança de Kireyevsky; se tal tivesse acontecido, a Ortodoxia russa teria sido poupada das especulações neo-gnósticas de Soloviev e seguidores tais como Bulgarov e Berdyaev, cuja influência continua nos círculos Ortodoxos "liberais" até os dias de hoje. A filosofia de Kyreyevsky pode muito bem ser considerada a resposta Ortodoxa a essas especulações. (Ver Padre Alexey Young, «A Man is his Faith», London, 1980)).

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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