CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

19 – A Oração Como Expressão da Vida na Igreja

c - Comunhão com os Santos

A Igreja ora por todos os que morreram na fé, e pede perdão pelos seus pecados, pois não há homem sem pecado: "se ele vier um único dia sobre a terra" (Jo. 14, 5 - Septuaginta). "Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós" (1 Jo. 1, 8). Por isso, não importa quão justo seja um homem, quando ele parte desse mundo, a Igreja acompanha a sua partida com orações por ele ao Senhor. "Irmãos, orai por nós", pede o Santo Apóstolo Paulo aos seus filhos espirituais (1 Tess. 5, 25).

Ao mesmo tempo, quando a voz comum da Igreja testemunha a justiça da pessoa que repousou, os cristãos, à parte de orar por ele, são ensinados pelo bom exemplo de sua vida e colocando como um exemplo a ser imitado.

E quando, depois, a convicção geral da santidade da pessoa que repousou é confirmada por testemunhos especiais, martírio, confissão sem medo, auto-sacrifício ao serviço da Igreja, dom de cura, e especialmente quando o Senhor confirma a santidade da pessoa que repousou por milagres após sua morte quando ela é lembrada em orações então a Igreja glorifica-a de modo especial. Como a Igreja pode não glorificar aqueles que o próprio Senhor chama de Seus "amigos"? "Vós sereis meus amigos,... tenho-vos chamado amigos" (Jo. 15, 14-15), a quem ele recebeu em suas mansões celestiais em cumprimento das palavras: "... para onde eu estiver estejais vós também" (Jo. 14, 3). Quando isso acontece; cessar as orações pelo perdão dos pecados da pessoa que partiu, e pelo seu repouso; elas dão lugar a outras formas de comunhão com a pessoa, nomeadamente:

a - louvação de suas lutas em Cristo, "pois não se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no selador, e da luz em todos que estão na casa" (Mt. 5, 15);

b - petições à pessoa para que ela ore por nós, pela remissão dos nossos pecados, e pelo nosso avanço moral, e que ela possa nos ajudar em nossas necessidades espirituais e em nossas aflições.

É dito: "Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor" (Apoc. 14, 13) e na verdade nós os bendizemos.

É dito: "E Eu dei-lhes a glória que a Mim me deste (o Pai)" (Jo. 17, 22), e nós na verdade damos essa glória à pessoa, de acordo com o comando do Salvador.

Da mesma forma o Salvador disse: "Quem recebe um profeta em qualidade de profeta, receberá galardão de justo" (Mt. 10, 41). "Porque, qualquer que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, este é meu irmão, e irmã e mãe" (Mt. 12, 50). Portanto, nós devemos receber um justo como um justo. Se ele é irmão do Senhor, então ele deve ser o mesmo para nós também. Os santos são nossos irmãos espirituais, irmãs, mães e pais, e nosso amor por eles é expresso pela comunhão em oração com eles.

O Apóstolo João escreveu para seus companheiros cristãos: "O que vimos e ouvimos isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão connosco; e a nossa comunhão é com o Pai, e com seu Filho Jesus Cristo" (1 Jo. 1, 3). E na igreja essa comunhão com os Apóstolos não é interrompida; ela continua com eles no outro reino da existência deles, o reino celeste.

A proximidade dos santos ao Trono do Cordeiro e a elevação por eles de orações pela Igreja na terra é descrito no livro da Revelação (Apocalipse) de São João, o Teólogo: "E olhei, e ouvi a voz de muitos anjos ao redor do trono, e dos animais e dos anciãos; e era o número deles milhões de milhões e milhares de milhares", que louvavam o Senhor (Apoc. 5, 11).

A comunhão em oração com os santos é a realização em factos reais da ligação entre os cristãos na terra e a Igreja Celeste na qual o Apóstolo fala: "Mas chegastes ao monte de Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém Celestial e aos muitos milhares de anjos; à universal assembleia e igreja dos primogénitos que estão inscritos nos céus, e à Deus o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados" (Heb. 12, 22-23).

A Sagrada Escritura apresenta numerosos exemplos do facto que, enquanto ainda vivendo na terra, o justo pode ver e ouvir e conhecer muito do que é inacessível ao entendimento comum. Muito mais esses dons estão presentes com eles quando eles dispensaram a carne e estão no céu. O Santo Apóstolo Pedro viu no coração de Ananias, de acordo com o livro dos Actos (At. 5, 3). A Eliseu foi revelado o acto sem lei do servo Geazi (2 Reis 4), e o que é ainda mais notável, para ele foi revelada as intenções secretas da corte Síria, que ele então comunicou ao Rei de Israel (2 Reis 6, 12). Quando ainda na terra, os santos penetram em espírito mundo acima; e alguns deles vêem coros de anjos, a outros é concedido contemplar a imagem de Deus (Isaias e Ezequiel), e ainda outros são exaltados para o terceiro céu e lá ouvem palavras místicas e impronunciáveis. Ainda mais quando eles estão no céu e são capazes de saber o que está a acontecendo na terra e de ouvir aqueles que apelam a eles porque os santos no céu são iguais aos anjos (Lc. 20, 36).

Da parábola do Senhor sobre o homem rico e Lázaro (Lc. 16, 19-31) ficamos sabendo que Abraão, estando no céu, podia ouvir o grito do homem rico que estava sofrendo no inferno, apesar do "grande abismo" que os separava. As palavras de Abraão sobre os irmãos do homem rico: "Tem Moisés e os profetas; ouçam-nos" (Lc. 16, 29) claramente indicam que Abraão conhece a vida do povo hebreu que ocorreu depois de sua morte; ele sabe de Moisés e da lei, dos profetas e seus escritos. A visão espiritual das almas dos justos no céu, sem nenhuma dúvida, é maior do que a visão era na terra. O Apóstolo escreve: "porque agora temos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido" (1 Cor. 13, 12).

A Santa Igreja sempre manteve o ensinamento da invocação dos santos estando totalmente convencida que eles intercederam por nós perante Deus no céu. Isso nós vemos nas antigas Liturgias. Na Liturgia do Santo Apóstolo Tiago é dito: "Especialmente nós fazemos memória da Santa, Gloriosa e Sempre Virgem, a abençoada «Theotokos». Lembra-te dela, Ó Senhor, e pelas santas orações delas, preserva-nos e tem piedade de nós". São Cirilo de Jerusalém, explicando a Liturgia na Igreja de Jerusalém, destaca: "Então nós também comemoramos (oferecendo o Sacrifício sem Sangue) aqueles que partiram previamente: antes de todos, patriarcas, profetas, apóstolos, mártires para que por suas orações e intercessão de Deus venha a receber nossas petições".

Numerosos os testemunhos dos Professores e Padres da Igreja, especialmente do quarto século em diante, a respeito da veneração pela Igreja dos Santos. Mas já no começo do segundo século existe indicações directas na antiga literatura Cristã a respeito da fé, da oração dos santos no céu por seus irmãos na terra. Os testemunhos da morte por martírio de São Inácio, o Teóforo (no começo do século II) dizem: "Tenho retornado à casa com lágrimas, nós tivemos a vigília de toda a noite... então, depois de dormir um pouco alguns de nós de repente vimos o abençoado Inácio em frente a nós e nos abraçando, e outros igualmente o viram orando por nós". Relatos similares, mencionando as orações e intercessão por nós dos mártires, são encontrados em outros relatos da época da perseguição contra os Cristãos.

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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