CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

20 - Escatologia Cristã

d - Aqui nos aproximamos do assunto dos pedágios

Não é por acaso que a Oração do Senhor terminava com as palavras: "Não nos deixe cair em tentação mas livra-nos do Maligno". A respeito do Maligno, em outro de Seus discursos o Senhor disse aos seus discípulos: "Eu via Satanás, como raio, cair do céu" (Lc. 10, 18). Jogado para baixo do céu, ele tornou-se então um residente das esferas inferiores, o príncipe das potestades do ar, o príncipe da legião de espíritos imundos. "E quando o espírito imundo tem saído do homem" mas não encontra repouso para si, ele retorna a casa de onde havia saído e achando desocupada, varrida e adornada "então vai e leva consigo outros espíritos piores do que ele e entrando habita ali, e são os últimos actos desse homem piores do que os primeiros. Assim acontecerá também a essa geração má" (Mt. 12, 43-45).

Foi só uma geração? A respeito da mulher curada que foi curada no Sábado, o Senhor não respondeu: "E não convinha soltar desta prisão. No dia de sábado esta filha de Abraão, a qual há dezoito anos Satanás a tinha presa?" (Lc. 13, 16).

Os Apóstolos em suas instruções não esquecem de nossos inimigos espirituais: São Paulo escreve aos Efésios: "Em que noutro tempo andastes segundo o curso desse mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência" (Ef. 2, 2). Desse modo, agora, "revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do Diabo" (Ef. 6, 11). "porque o Diabo... bramando como leão, busca a quem possa devorar" (1 Ped. 5, 8). Sendo Cristão, podemos chamar essas citações da Escritura de "mitologia"?

Esses avisos dados a gerações previas encontrados na palavra escrita de Deus também se referem a nós. Por isso os obstáculos à salvação são os mesmos. Alguns deles são devidos à nossa própria falta de cuidado, nossa auto-confiança, nossa falta de preocupação, nosso egoísmo, ás nossas paixões do corpo; outros estão nas tentações e os tentadores que nos circundam; em pessoas, e nos poderes invisíveis das trevas que nos circundam. Eis ai porque, em nossas orações pessoais diárias nós pedimos a Deus. Não permitir nenhum "sucesso do maligno" (das Orações Matutinas), isto é, que não nos seja permitido nenhum sucesso em nossos feitos que possa ocorrer com a ajuda dos poderes das trevas. Em geral, em nossas orações privadas e também nas louvações divinas públicas, nós nunca perdemos de vista a idéia de sermos transladados para uma vida diferente após a morte.

Nos tempos dos Apóstolos e dos primeiros Cristãos, quando os Cristãos eram mais inspirados, quando a diferença entre o mundo pagão e o mundo dos cristãos era muito mais clara, quando o sofrimento dos mártires era a luz do Cristianismo, existia menos preocupação em apoiar o espírito dos Cristãos orando sozinho. Mas o Evangelho é abrangente! As demandas do Sermão da Montanha não tiveram significado só para os Apóstolos! E por isso, nos escritos dos Apóstolos nós já lemos não simples instruções, mas também avisos a respeito do futuro, quando nós tivermos que prestar contas.

"Revesti-vos de toda armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do Diabo... para que possais resistir no dia mau, e, havendo feito tudo, ficar firmes" (Ef. 6, 11-13). "Porque, se pecarmos involuntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários... horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo" (Heb. 10, 26-31). E apiedai-vos de alguns, que estão duvidosos; E salvai alguns arrebatando-os do fogo; tende deles misericórdia com temor, aborrecendo até a roupa manchada da carne. (Jud. 22, 23). "Porque é impossível que os que já foram iluminados; e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo e provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, e recaíram sejam outra vez renovados, para arrependimento, pois assim quanto a eles, de novo crucificaram o Filho de Deus, e o expõe ao vitupério" (Ef. 6, 4-6).

Assim era na era Apostólica. Mas quando a Igreja, tendo recebido liberdade, começou a crescer com massas de povo, quando a inspiração geral da fé começou a enfraquecer, existiu uma necessidade mais crítica de palavras mais poderosas, para denuncias, para chamar à vigilância espiritual, para temor de Deus e temer pela própria fé. Na colecção de instruções pastorais do mais zelosos arquipastores lemos homilias severas dando descrições do futuro julgamento que nos espera depois da morte. Essas homilias tinham a intenção de trazer pecadores a seus sentidos, e evidentemente elas eram dadas durante períodos de arrependimento cristão geral antes da Grande Quaresma. Nelas estava a verdade da justiça de Deus, a verdade que nada imundo entrará no reino da santidade e esta verdade era vestida de vívidas, parcialmente figurativas imagens, próximas a imagens do julgamento que se segue imediatamente após a morte de "pedágios". As mesas dos publicanos, os colectores de taxas e obrigações, eram evidentemente pontos para deixar que alguém fosse além na estrada para a parte central da cidade. Lógico que a palavra "pedágio" não indica para nós nenhum significado religioso particular. Na linguagem patrística ela significa aquele curto período depois da morte quando a alma Cristã tem que prestar contas por seu estado moral.

São Basílio escreve: "Que ninguém se engane com palavras vazias, "pois então lhe sobrevirá repentina destruição" (1 Tess. 5, 3) e causa uma reviravolta como uma tempestade. Um anjo estrito virá, ele forçosamente conduzirá a tua alma, ligada a pecado. Ocupe-se portanto com reflexões no último dia... Imagine para si próprio a confusão, o curto respirar, e a hora da morte, a sentença de Deus chegando perto, os anjos se apressando para ti, a terrível confusão da alma atormentada por sua consciência, com teu lastimável semblante olhando o que está acontecendo e finalmente a inevitável translação para um lugar distante (São Basílio, o Grande, citado em «Essay in na Historical Exposition of Orthodoxy Theology», por Bishop Sylvester, vol. 5, p. 89).

São Gregório, o Teólogo, que guiou um grande rebanho só por curtos períodos, limita-se a palavras gerais dizendo que "cada um é um juiz de si próprio, por causa da cadeira de julgamento esperando por ele".

Há uma descrição mais chocante encontrada em São João Crisóstomo: "Se, dirigindo-nos para lugares estrangeiros ou cidades nós necessitamos de guias, então de quantos ajudantes e guias nós precisaremos para passar não retardados e embaraçados pelos anciãos, pelas potestades, pelos governadores do ar. Os perseguidores, os colectores chefes! Por essa razão a alma, voando para fora do corpo, frequentemente sobe e desce, teme e treme. A consciência dos pecados sempre nos atormenta, ainda mais na hora quando formos conduzidos para aquele julgamento e para aquele assustador local de julgamento! Continuando São João Crisóstomo, dá instruções morais para um modo de vida cristão. Como para crianças que morreram, ele coloca em suas bocas as seguintes palavras: "Os santos anjos pacificamente nos separam de nossos corpos, e tendo bons guias, nós passamos sem dano pelos poderes do ar. Os espíritos malignos não encontraram em nós o que eles estavam buscando; eles não notaram o que eles queriam envergonhar; vendo uma alma imaculada; eles ficaram envergonhados; vendo uma língua impoluta, eles ficaram mudos. Nós passamos por eles e pusemo-los em vergonha. A rede estava rasgada e fomos libertados. Bendito seja Deus que não nos deu como presa para eles" (São João Crisóstomo, Homilia 2, «On Remembering the Dead»).

A Igreja Ortodoxa descreve os mártires cristãos, homens e mulheres, como atingindo a câmara nupcial tão livremente como crianças e sem dano. No quinto século a descrição do julgamento da alma após sua partida do corpo, chamado de Julgamento Particular, era ainda mais justo da descrição dos pedágios, como nós vemos em São Cirilo de Alexandria em sua «Homily on the Departure of the Soul», que resume as imagens desse tipo nos Padres da Igreja que o precederam.

É perfeitamente claro para qualquer um que imagens puramente horrendas são aplicadas a assuntos espirituais para que a imagem sendo impressa na memória possa acordar a alma do homem: "Vê o noivo vem à meia-noite, e bendito é o servo que ele encontrar atento" ao mesmo tempo, nessas descrições o pecado que está presente no homem decaído é revelado em seus vários tipos e formas, e isso inspira o homem a analisar seu próprio estado de alma. Nas instruções dos ascetas cristãos os tipos de formas de pecado têm uma estampa especial própria; nas vidas dos santos há também uma estampa característica.

Dada a disponibilidade das vidas dos santos, o relato dos pedágios pela justa Teodora, descrito por ela em detalhe por São Basílio, o Novo, em seu sonho, tornou-se especialmente bem conhecido. Autenticas visões das almas dos que partilham sem sua forma terrena. O relato de Teodora tem as características de um e de outro. A ideia de que bons espíritos, ou anjos da guarda, assim como também os espíritos malignos abaixo do céu participam no destino do homem (após a morte), encontram confirmação na parábola do homem rico e Lázaro. Lázaro imediatamente após a morte foi levado por anjos para o seio de Abraão. E outra parábola, o homem injusto ouve essas palavras: "Louco, esta noite pedir-te-ão a tua alma" (Lc. 12, 10); evidentemente quem "pede" são os mesmos espíritos malignos abaixo do céu.

De acordo com a lógica simples e também com a confirmação pelo Verbo de Deus a alma imediatamente após sua separação do corpo entra numa espera onde seu destino futuro é definido. "E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo", lemos nós no Apóstolo Paulo (Heb. 9, 27). Esse é o Julgamento Particular, que é independente do Juízo Final Universal.

O ensinamento a respeito do Julgamento Particular de Deus entra na esfera da teologia dogmática. Para os pedágios, escritores russos de sistemas gerais de teologia limitam-se a uma nota bem estereotipada: "A respeito de todas as imagens terrenas sensoriais pelas quais o Julgamento Particular é apresentado na forma de pedágio, embora na ideia fundamental eles são completamente verdadeiros, ainda assim eles deveriam ser aceitos do modo que o anjo instruiu São Macário de Alexandria, sendo somente os mais fracos meios de descrever as coisas celestes" (Ver Macário, Metropolita de Moscovo em «Orthodox Dogmatic Theology», São Petesburgo, 1883, vol 2, p 538; também o Livro do Bispo Silvestre, reitor da Academia Teológica de Kiev. Arcebispo Filaret de Cherwingov, em seus dois volumes sobre teologia dogmática, não comenta sobre esse assunto).

Se alguém se queixar do carácter assustador das descrições dos pedágios - não há muitas descrições deste tipo nas escrituras do Novo testamento e nas palavras do Senhor? Não ficamos assustados pela pergunta simples: "...como entraste aqui, não tendo vestido nupcial?" (Mt. 22, 12).

Nós atendemos à discussão sobre pedágios, um tópico que é secundário no reino do nosso pensamento Ortodoxo, porque ele nos dá oportunidade de iluminar a essência da nossa vida em Igreja. Nossa vida na Igreja Cristã, é de oração não interrompida em comunhão com o mundo celeste. Não é uma simples "invocação dos santos", como é frequentemente chamada; é uma interacção em amor. Por ela o Corpo todo da Igreja, estando unido e reforçado em seus membros e ligações "vai crescendo em aumento de Deus" (Col. 2, 19). Pela Igreja "chegamos à Jerusalém Celestial, e aos muitos milhares de anjos, à universal assembleia e igreja dos aperfeiçoados" (Heb. 12, 22 - 23). Nossa interacção em oração estende-se em todas as direcções. Foi-nos ordenado: "Orai uns pelos outros". Nós vivemos de acordo com o princípio da fé: "vivamos ou morramos, somos do Senhor" (Rom. 14, 8). "O amor nunca falha" (1 Cor. 13, 8). "porque o amor cobrirá a multidão de pecador" (1 Ped. 4, 8).

Para a alma não há morte. Vida em Cristo é um mundo de oração. Ela penetra o corpo todo da Igreja, une todos os membros da Igreja como o Pai celestial, os membros da Igreja terrena entre si e os membros da igreja terrena com a Igreja celeste. Orações são o fio da fábrica viva do corpo da Igreja, pois "a oração feita por um justo pode muito" (Tiago 5, 16). Os vinte e quatro anciãos no céu no trono de Deus se prostram diante do Cordeiro, cada um tendo harpas e salvas de ouro cheias de incenso "que são a oração dos Santos" (Apoc. 5, 8); isto é, eles oferecem oração na terra para o trono celeste.

A Igreja ensina-nos que o Senhor é compassivo e misericordioso, tolerante e paciente com ofensas e pródigo em misericórdia, e está pesaroso sobre os feitos malignos dos homens, tomando sobre si nossas enfermidades. Na Igreja celeste estão também nossos intercessores, nossos ajudantes, aqueles que oram por nós. A Puríssima Mãe de Deus é a nossa protecção. As nossas orações são as orações dos santos, escritas por eles, que vieram de seus corações contritos durante os dias de suas vidas terrenas. Aqueles que oram podem sentir isso, e assim os próprios santos chegam mais perto de nós. Tais são as nossas orações diárias; tal também é o ciclo completo dos ofícios Divinos de todo dia, de toda semana, e das festas.

Toda essa literatura litúrgica não foi concebida como um exercício académico. Os inimigos do ar são impotentes contra tal ajuda. Mas nós devemos ter fé e nossas orações devem ser fervorosas e sinceras. Há mais alegria no céu por um que se arrepende, que por outro que não tem necessidade de arrependimento. Com que insistência a Igreja nos ensina (nas litanias) a passar o "resto de nossas vidas na paz e no arrependimento", e morrer assim! Ela nos ensina a chamar a nossa memória a Santíssima, Puríssima e Abençoadíssima Senhora Theotokos e todos os santos, entregando-nos e cada um de nós em cada instante de nossa vida a Cristo nosso Deus.

Ao mesmo tempo, com toda essa nuvem de protectores celestes, não ficamos contentes pela especial proximidade de nós de nossos anjos da guarda. Eles são mansos, eles se regozijam connosco, e também ficam pesarosos com nossas quedas. Nós ficamos preenchidos com esperança neles, no estado que nós estaremos quando nossa alma for separada do corpo, quando tivermos que entrar na nova vida: será na luz ou nas trevas, em alegria ou tristeza? Por isso, todos os dias oramos para nossos anjos pelo dia presente: "Livra-nos de toda astúcia do inimigo oponente". Em cánones especiais de arrependimento nós imploramos aos anjos que não se afastem de nós para após a nossa morte: "Eu vejo-te com meu olhar espiritual, tu que permanece comigo meu companheiro, santo anjo, observando, acompanhando e sempre permanecendo comigo e sempre oferecendo a mim o que é para salvação". "Quando minha humilde alma for liberada do meu corpo, possa tu cobri-la, ó meu instrutor, com teu brilho e sagradas asas". "Quando o assustador som da trombeta me ressuscitar para o julgamento, fica perto de mim então; quieto e alegre, e que tua esperança na minha salvação retire o meu medo". "Pois tu és beato em virtude e doce e alegre, uma mente brilhante como o sol; intercede brilhantemente por mim com a face alegre e o semblante radiante quando, eu estiver para ser tirado da terra". "Possa eu então te ver levantando a mão direita de minha miserável alma, brilhante e quieto, tu que intercede e ora por mim, quando meu espírito for tomado à força; possa eu te ver banindo aqueles que me buscam, meus amargos inimigos" (do Cánon para o Anjo da Guarda de João, o Monge, no Livro de Orações para os Padres).

Assim, a Santa Igreja pelas fileiras dos seus construtores, os Apóstolos, os grandes hierarcas, os santos ascetas, tendo como seu pastor chefe Nosso Salvador e Senhor Jesus Cristo, criou e nos dá todos os meios para a perfeição espiritual e o atendimento da eternamente abençoada vida em Deus, instilando em nós um espírito de vigilância e luminosa esperança, cercando-nos com santos guias e ajudantes celestes. No «tipikon» dos ofícios Divinos da Igreja, nos é dada um caminho directo para o alcance do Reino de Glória.

Entre as imagens do Evangelho a Igreja com frequência lembra-nos da parábola do filho pródigo, e uma semana no ciclo anual dos ofícios da Igreja é inteiramente dedicada a essa lembrança para que possamos conhecer o ilimitado amor de Deus, e o facto de que um sincero, contrito, cheio de lágrimas arrependimento de um homem que crê supera todos os obstáculos e todos os pedágios no caminho do Pai celeste.

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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