CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
19 – A Oração Como Expressão da Vida
na Igreja
e - A veneração
dos ícones
Uma das formas exteriores da adoração de Deus e veneração
dos santos é o uso de imagens
sagradas e o respeito demonstrado por elas.
Entre
os vários dons do homem que o distingue de outras criaturas é o dom da arte ou
das pinturas em linhas e cores. Esse é um dom nobre e elevado, e é digno de ser
usado para glorificar Deus. Com todos os meios puros e elevados disponíveis
para nós, devemos glorificar a Deus de acordo com o chamado do Salmista: "Bendiz,
ó minha alma ao Senhor e tudo o que há em mim bendiga o seu santo nome"
(Sal. 103, 1). "Tudo que há em mim" refere-se a todas as capacidades
da alma. E verdadeiramente, a capacidade de arte é um dom de Deus. Antigamente,
antes de Moisés:
"...Eis que o Senhor tem chamado por nome a Bezaleel,
o filho de Uri, filho de Hur,
da tribo de Judá. E o Espírito de Deus encheu-o de sabedoria, entendimento e
ciência em todo o artifício. E para inventar invenções, para trabalhar em ouro
e prata, e em cobre, e em artifício de pedras para engastar, e em artifício de
madeira, para trabalhar em toda a obra esmerada também lhe tem disposto o
coração para ensinar a outros... Encheu-os de sabedoria de coração, para fazer
toda a obra de mestre... e a do bordador... e a do tecelão..." (Ex.
35, 30-35).
Os objectos materiais feitos pelo habilidoso
trabalho dos artistas para o tabernáculo de Moisés, assim como subsequentemente
para o Templo de Salomão, eram todos sagrados. No entanto, enquanto alguns
deles serviam mais como adornos sagrados, outros eram especialmente
reverenciados e tornaram-se lugares excepcionais da glória de Deus. Por
exemplo, existia a "Arca de Deus", e o simples toque nela sem reverência
especial podia causar a morte (2 Sam. 6-7 - o
incidente com Uza no tempo da transparência da Arca
por David, quando Uza foi ferido de morte porque
tocou na Arca com sua mão). Existiam também os "Querubins de Glória"
sobre a Arca, no meio dos quais Deus dignou-se revelar
e dar os seus comandos a Moisés. "E ali virei a ti, e falarei contigo
de cima do propiciatório, do meio de dois querubins (que estão sobre a arca do
testemunho), tudo que eu te ordenar para os filhos de Israel" (Ex. 25,
22). Essas foram "a imagem visível do Deus Invisível" (na exposição
do Metropolita Macarius em sua «Orthodox
Dogmatic Theology»).
Entre as numerosas pinturas nas paredes e cortinas
do Templo do Velho Testamento, não haviam pinturas dos justos que haviam
partido, como existem nas Igrejas Cristãs. Não existiam porque os justos
estavam esperando a sua libertação, esperando serem tirados do inferno; isso
foi feito pela descida ao inferno; isso foi feito pela descida e a Ressurreição
de Cristo. De acordo com o Apóstolo: "...para que eles sem nós não
fossem aperfeiçoados" (Heb. 11, 40); eles
foram glorificados como santos só no Novo Testamento.
Se na Sagrada Escritura há proibições contra a
erecção de ídolos e a adoração deles, não se pode transferir essas proibições
para os ícones. Ídolos são as imagens de falsos deuses, e a adoração deles era
a adoração de demónios;
ou ainda de seres imaginários que não tem existência; e assim, em essência, é a
adoração do material dos objectos sem vida - madeira,
ouro ou pedra. Mas a Sagrada Escritura instrui estritamente a pormos diferença
entre santo e o profano, entre o limpo e o imundo (Levitico
10, 10). Aquele que é incapaz de ver a diferença entre imagens sagradas e
ídolos blasfemos e profana os ícones, comete sacrilégio e está sujeito á
condenação da Sagrada Escritura, que previne: "Tu, que abominais os
ídolos, cometes sacrilégios" (Rom. 2, 22).
As descobertas da arqueologia eclesiástica mostram
que na antiga Igreja Cristã existiram imagens nas catacumbas e em outros
lugares de assembleia para oração, e subsequentemente
É natural supor que nos primeiros tempos da história
do Cristianismo, a primeira necessidade era que o povo fosse afastado da
adoração pagã dos ídolos, e só depois poderia ser trazido para a realidade a
ideia da plenitude das formas de glorificar Deus e seus santos; e entre essas
formas há lugar para a glorificação em cores, nas imagens sagradas.
O Sétimo Concílio
Ecuménico expressa o dogma da veneração dos ícones sagrados com as
seguintes palavras: "Por consequência nós definimos toda certeza e
acurácia que assim como a figura da preciosa e vivificante Cruz, também as
veneráveis e santas imagens... deveriam ser colocadas nas igrejas de Deus (para
veneração)... pois quanto mais frequentemente elas são
vistas em representação artística (isto é, o Senhor Jesus Cristo, a
«Theotokos», os anjos e santos que são pintados nos ícones), tanto mais
prontamente os homens são elevados à memória dos protótipos, e por um desejo
por eles. E para essas imagens deve ser dado saudação e honorável reverência
(em grego: «timitiki proskynisis»),
mas não aquela verdadeira adoração de fé (grego «latreia») que pertence somente
à natureza divina; mas para as imagens... incenso e luzes devem ser
oferecidos... Pois a honra que é dada às imagens passa para o que a imagem
representa" («Seven Ecumenical Councils», p. 550, Eerdmans). (Essa distinção entre a "adoração de
Deus" e a "reverência" ou "veneração" pelos ícones foi
colocada primeiro por São
João Damasceno em seus tratados sobre os ícones. Ver seu «On the Divine
Images», tradução por David Andersen,
St Vladimir Seminary Press, Crestwood, N.Y., 1980. p. 82-88 e introdução p. 10-11).
Nada é dito nos cánones ortodoxos a respeito de
veneração de estátuas, como as que vieram a ser usadas na arte religiosa do
ocidente na Idade Média e séculos posteriores. No entanto, a tradição
virtualmente universal da Igreja Ortodoxa tanto do Oriente quanto do ocidente
nos primeiros séculos, e da Igreja Oriental nos últimos séculos, tem sido
permitir como arte religiosa pinturas bidimensionais e baixo-relevo, mas não
estátuas ao redor. A razão para isto parece estar no realismo que é inevitável
nas obras tridimensionais, tornando-as adequadas para representar as coisas
desse mundo terrestre (por exemplo, as estátuas do imperador), mas não aquelas
do mundo celeste nas quais nosso pensamento e realismo terrestre não pode penetrar. Ícones bidimensionais, de outro lado, são
como "janelas para o céu" que são muito mais capazes de elevar a
mente e o coração para realidades celestes).
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)