CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

19 – A Oração Como Expressão da Vida na Igreja

f - A veneração das santas relíquias

Dando veneração aos Santos de Deus que partiram com as suas almas para o céu, a Santa Igreja ao mesmo tempo honra as relíquias ou corpos dos santos de Deus que permanecem na terra.

No Velho Testamento não havia a veneração dos corpos dos justos, pois os justos estavam ainda esperando a sua libertação. Então também a carne (dos mortos) era considerada impura.

No Novo Testamento após a Encarnação do Salvador, houve uma elevação não só do conceito do homem em Cristo, mas também do conceito do corpo como morada do Espírito Santo. O próprio Senhor, o Verbo de Deus, encarnou e tomou sobre si um corpo humano. Os cristãos são chamados para isso: que não só suas almas mas também seus corpos, santificados pelo Santo Baptismo, santificados pela recepção do Puríssimo Corpo e Sangue de Cristo, possam tornar-se verdadeiros templos do Espírito Santo. "Não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós?" (1 Cor. 6, 19). E por isso os corpos dos cristãos que viveram uma vida justa ou tornaram-se santos pelo recebimento de uma morte em martírio, são dignos de especial veneração e honra.

A santa igreja em todos os tempos, seguindo a Sagrada Tradição, mostrou honra às santas relíquias. Essa honra tem sido expressa: a - pela reverente colecta e preservação dos remanescentes dos santos de Deus, como é sabido pelos relatos desde o segundo século, e a seguir pelos testemunhos dos tempos posteriores;

b - na solene descoberta e translação de santas relíquias;

c - nas construção sobre elas de igreja e altares;

d - no estabelecimento de festas em memória de suas descobertas e transladações;

e - na peregrinação para santos túmulos, e na decoração deles;

f) na regra constante da Igreja de colocar relíquias de santos mártires na dedicação de altares, ou de colocar relíquias no santo «antimension» sobre o qual é realizada a Divina Liturgia.

Essa honra inteiramente natural dada ás santas relíquias e a outros remanescentes dos santos de Deus tem uma firme fundamentação no facto que Deus dignou-se a honrá-las e glorifica-las por inumeráveis sinais e milagres - algo para o que existe testemunho através do complexo da historia da Igreja. Mesmo no Velho Testamento, quando santos não eram venerados com uma glorificação especial depois da morte, houveram sinais produzidos pelos corpos dos justos. Assim, o corpo de um certo homem morto, depois de ter tocado ossos do Profeta Eliseu em seu túmulo, imediatamente voltou à vida, e o homem morto se pôs sobre seus pés (2 Reis 13, 21). O corpo do Profeta Elias foi elevado vivo para o céu, e seu manto, que foi deixado por ele para Eliseu, dividiu por seu toque (do manto) as águas do Jordão para o cruzamento do Rio, por Eliseu.

Olhando-se no Velho Testamento, nós lemos nos Actos dos Apóstolos que lenços e aventais do corpo do Apóstolo Paulo eram colocados sobre os doentes, e as doenças eram curadas, e espíritos malignos saíam deles (Act. 19, 12). Os Santos Padres e professores da Igreja têm testemunhado diante de seus ouvintes e leitores os milagres ocorridos pelos remanescentes dos santos, e com frequência eles têm chamado seus contemporâneos a serem testemunhas da verdade de suas palavras. Por exemplo, Santo Ambrósio diz em sua homilia na descoberta das relíquias de Santos Gervário e Protásio: "Vós conhecestes e até mesmo vistes muitos que foram libertados dos demónios e mais ainda aqueles que não logo tocaram as vestes dos santos que com suas mãos e foram imediatamente curados de suas doenças. Os milagres da antiguidade foram renovados desde o tempo quando através da vinda do Senhor Jesus, foi derramada sobre a abundante graça! Vós vistes muitos que foram curados como se fosse pela sombra dos santos. Quantas roupas foram passadas de mão em mão! Quantas vestes, deixadas sobre os remanescentes sagrados, e que pelo mero toque tornaram-se fonte de cura, que os que crêem pedem de cada outro! Todos tentam no mínimo um pouco tocar (as vestes), e o que toca fica curado". Testemunhos similares podem ser lidos em São Gregório, o Teólogo, São Efrém, o Sírio, São João Crisóstomo, Bem-aventurado Santo Agostinho e outros.

Já no início do segundo século já informações sobre a honra dada pelos cristãos aos remanescestes dos santos. Assim, depois de descrever a morte por martírio de Santo Inácio Teóforo, Bispo de Alexandria, uma pessoa que testemunhou essa morte afirmou que "O que restou de seu corpo (que foi feito em pedaços pelas bestas no circo), só as partes mais firmes foram pegas e levadas para Antioquia e colocadas em linho como um inestimável tesouro da graça que habita no mártir, um tesouro deixado para a Santa Igreja". Os residentes das cidades, começando por Roma, receberam esses remanescentes em sucessão naquele; e carregaram-nos nos ombros, como São João Crisóstomo mais tarde testemunhou: "para a cidade de Antioquia, louvando o vitorioso coroado e glorificando o lutador". Da mesma forma, depois na morte por martírio de São Policarpo como um tesouro mais precioso que pedras preciosas e mais puro que ouro, e os colocaram "... para a celebração do dia de seu nascimento por martírio, e para a instrução e confirmação dos futuros cristãos".

Os remanescentes dos santos (em grego «ta leipsana», em latim «reliquiae», ambos significando o que foi "deixado") são reverenciados estejam ou não incorruptos pelo respeito pela vida santa ou pela morte por martírio do santo, mais ainda quando há evidentes e confirmados sinais de cura pelas orações aos santos pela intercessão deles diante de Deus. Os Concílios da Igreja muitas vezes (por exemplo, o Concílio de Moscovo de 1667) proibiram o reconhecimento dos que passaram como santos, pela simples incorruptibilidade de seus corpos. Mas com certeza a incorruptibilidade dos corpos dos justos é aceite como um dos sinais Divinos de sua santidade. (Pode-se dizer que a incorruptibilidade de corpo de um morto não é garantia de santidade: podem ser dados exemplos de «swamis» orientais cujos corpos estavam incorruptos muitos tempos depois da morte (seja por meios naturais relacionados às suas vidas ascéticas, ou por uma imitação demoníaca) e do corpo de alguns grande santos Ortodoxos (por exemplo, São Serafim de Sarov, São Herman do Alasca) restaram só ossos. As relíquias de São Nectário de Pentápolis (morto em 1920) ficaram incorruptos por muitos anos, e então rapidamente decaíram - no solo - deixando só ossos perfumados).

Notemos aqui que a palavra eslava «moschi»: "relíquias" refere-se não só aos corpos dos santos: no eslavo da Igreja essa palavra significa em geral os corpos que repousam assim no Rito de Sepultamento no «Book of Needs», nós lemos: "e pegando as relíquias do que repousou, nós saímos da Igreja", etc... A antiga palavra eslava «moschi» (da raiz mog) é aparentemente da família da palavra mogila, "túmulo". Reverenciando as santas relíquias, nós não acreditaríamos na força ou poder dos remanescentes nos santos, mas sim ma intercessão por oração dos santos cujas relíquias diante de nós levantam em nossos corações um sentimento de proximidade dos próprios santos de Deus, que uma vez usaram esses corpos.

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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