CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte III

 

Apêndice

 

 

1 - Novas correntes no pensamento filosófico-teológico Russo

a - A questão do desenvolvimento dogmático

A questão do desenvolvimento dogmático de há muito tem sido objecto de discussão na literatura teológica: pode-se aceitar, do ponto de vista da Igreja, a ideia de desenvolvimento de dogmas? Na maioria dos casos isso é essencialmente uma disputa sobre palavras; uma diferença ocorre porque a palavra "desenvolvimento" é entendida de diferentes modos: entende-se desenvolvimento como o descobrimento de algo já dado ou como uma nova revelação?

Em geral, a visão do pensamento teológico é esse: a consciência da Igreja desde os Apóstolos até o fim da vida da Igreja, sendo guiada pelo Espírito Santo, é em sua essência única e a mesma. O ensinamento Cristão e o escopo da revelação divina são imutáveis. O ensinamento da fé, pela Igreja não se desenvolve, e a consciência da Igreja sobre si própria, com o passar dos séculos, não se torna maior, mais profundo e mais amplo do que era entre os Apóstolos. Não há a acrescentar ao ensinamento da fé passado pelos Apóstolos. Apesar da Igreja ser guiada sempre pelo Espírito Santo, não vemos na história da Igreja, e não esperamos ver, novas revelações teológicas.

Tal visão sobre a questão do desenvolvimento dogmático esteve presente, em particular, no pensamento teológico russo do século XIX. A aparente diferença de opiniões das várias pessoas sobre essa questão foi resultado das circunstâncias sob as quais ela foi discutida. Em discussões com os protestantes foi natural defender o direito da Igreja de "desenvolver" dogmas significando isso o direito dos Concílios de estabelecer e sancionar proposições dogmáticas. Nas discussões com os católicos romanos, de outro lado, foi necessário opor-se às inovações dogmáticas arbitrárias feitas pelos católicos romanos nos tempos modernos, e assim se opor ao principio da criação de novos dogmas que não tenham sido passados pela Igreja antiga. Em particular os Vetero-Católicos mais próximos da Ortodoxia, ambos rejeitando o dogma da infalibilidade papal - reforçaram no pensamento teológico russo o ponto de vista conservador sobre a questão do desenvolvimento dogmático, visão que não aprova o estabelecimento de novas definições dogmáticas.

Em 1880 e anos seguintes nós vemos uma aproximação diferente a essa questão. V. S Soloviev, que apoiava a união da Ortodoxia com a Igreja Romana desejando justificar o desenvolvimento dogmático da Igreja Católica Romana defendeu a ideia do desenvolvimento da consciência dogmática da Igreja. Ele argumentou assim: "O Corpo de Cristo muda e é aperfeiçoado" como todo organismo; a original "base" da fé é descoberta e esclarecida na história do Cristianismo; "A Ortodoxia permanece não só meramente pela antiguidade, mas pelo eternamente vivo Espírito de Deus".

Soloviev esteve inspirado para defender o ponto de vista do "desenvolvimento" não só por sua simpática pela Igreja Católica Romana, mas também por seu modo próprio de ver as questões filosóficas religiosa - suas ideias sobre Sofia, a sabedoria de Deus, sobre Deus-homem como um processo histórico, etc... Levado por seu próprio sistema metafísico, Soloviev nos anos seguintes a 1890 começou o ensinamento do "eterno feminino" que ele dizia, "não é meramente uma imagem inactiva da mente de Deus, mas um ser espiritual vivo que possui a totalidade de poder e acção. O processo completo do mundo e da história é o processo de sua realização e encarnação numa grande multiplicidade de formas e graus. O objecto celeste de nosso amor é só um, e é sempre para todo mundo e o mesmo, a eterna feminilidade de Deus" (As ideias de Soloviev podem ser superficialmente comparadas ao movimento de "libertação das mulheres" de hoje, cuja última tentativa nos círculos religiosos tem sido "de sexualizar" a Escritura removendo dela todas as referências à natureza "masculina" de Deus. Os movimentos de hoje, no entanto, não tocam realmente na filosofia ou teologia, permanecendo movimentos primitivamente de "liberação" social; ao passo que o pensamento de Soloviev é mais sério, sendo um tipo de ressurreição da antiga filosofia gnóstica: ambos, são igualmente estranhos na forma que suas ideias tomam, e ambos são concordantes em ver a necessidade de mudar os dogmas e expressões Cristãs tradicionais).

Assim uma série completa de novos conceitos começou a entrar no pensamento religioso russo, esses conceitos não evocam nenhuma resistência especial nos círculos teológicos russos, já que eles eram expressões mais como filosofia do que como teologia.

Soloviev por seus trabalhos literários e palestras foi capaz de inspirar interesse por problemas religiosos num vasto círculo da sociedade russa educada. No entanto, o interesse juntou-se a um desvio do autêntico modo de pensar Ortodoxo. Isso foi expresso por exemplo, nos "encontros religiosos filosóficos" de Petesburgo em 1901-1903. Nesses encontros, questões como as seguintes foram levantadas: "Pode-se considerar o ensinamento dogmático da Igreja já completo? Não podemos esperar novas revelações? De que maneira uma nova criatividade religiosa pode ser expressa no Cristianismo, e como ela pode ser harmonizada com a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja, com os decretos dos Concílios Ecuménicos, e os ensinamentos dos Santos Padres?" Especialmente sintomáticos foram as disputas a respeito do "desenvolvimento dogmático".

No pensamento religioso e social russo, no início do século vinte apareceu uma expectativa do despertar de uma "nova consciência religiosa" no solo Ortodoxo. Começava a ser expressa a ideia de que a teologia não deveria temer novas revelações, que a dogmática deveria usar uma base racional mais larga, que ela não poderia ignorar inteiramente as inspirações proféticas pessoais dos dias presentes, que deveria haver um alargamento do círculo dos problemas dogmáticos fundamentais, para que a dogmática pudesse apresentar uma completa visão do mundo teológica filosófica. As idéias excêntricas expressas por Soloviev receberam novos desenvolvimentos e mudanças, e o primeiro lugar entre elas foi dado ao problema da Sophiologia. Os mais destacados representantes dessa nova corrente foram o Padre Paul Florensky («The Pillar and Foundation of the Church» e outras obras) e Sergei N. Bulgakov, que mais tarde foi Arcipreste (seus últimos escritos «sophiológicos» incluem «The Unsetting Light, The unbuert Bush, Person ans Personality, The Friend of the Briegroom, The Lamb of God, The Comforter, e The Revelation of John»).

Em conexão com essas questões é natural que perguntemos: a teologia dogmática, em sua forma usual, satisfaz a necessidade do Cristão de ter uma completa visão do mundo? Se a dogmática recusa-se a reconhecer o princípio do desenvolvimento, ela não se torna uma coleção sem vida de dogmas separados?

Com toda segurança deve-se dizer que a espera das verdades reveladas que entram nos sistemas aceitos da teologia dogmática dá toda oportunidade para a formação de uma exaltada e ao mesmo tempo clara e simples visão do mundo. Teologia dogmática, construída na base de firmes verdades dogmáticas fala de um Deus pessoal. Que está inexplicavelmente perto de nós, que não precisa de intermediários entre si e a criação: ela fala do Deus na Santíssima Trindade "Que é sobre todos, e por todos e em todos" (Ef. 4, 6), do Deus que ama a sua criação, que ama a humanidade e é condescendente com nossas enfermidades, mas não priva as suas criaturas de liberdade; ela fala do homem e do género humano, do seu alto propósito e de suas exaltadas possibilidades espirituais e ao mesmo tempo do seu triste nível moral no tempo presente, de sua queda; ela apresenta caminhos e meios para o retorno, ao paraíso perdido, revelados pela Encarnação e morte na Cruz do Filho de Deus, e o caminho para adquirir a eternamente abençoada vida. Todas essas são verdades vitalmente necessárias. Aqui fé e amor, conhecimento e suas aplicações em acção, são inseparáveis.

A Teologia Dogmática não pretende satisfazer todos os pontos de curiosidade da mente humana. Não há dúvida para nosso olhar espiritual a Divina revelação revelou só uma pequena parte do conhecimento de Deus e do mundo espiritual. Nós vemos nas palavras do Apóstolo, "porque agora vemos por espelho em enigma" (1 Cor. 13, 12). Um incontável número de mistérios de Deus permanece fechado para nós.

Mas deve-se afirmar que as tentativas de alargar os limites da teologia, seja numa base mística ou racional, que apareceram tanto nos antigos quanto nos modernos tempos, não conduzem a um mais completo conhecimento de Deus e do mundo. Esses sistemas conduzem especulações mentais definidas e colocam a mente diante de novas dificuldades. A coisa principal no entanto, é a seguinte: opiniões nebulosas a respeito da vida interior em Deus, tais como são vistas em certos teólogos que entraram no caminho de filosofar na teologia, não se harmonizam com o imediato sentimento de reverência, com a consciência e sentimento da proximidade e santidade de Deus, e na verdade, elas sufocam esse sentimento.

No entanto, por essas considerações nós não negamos absolutamente todo tipo de desenvolvimento na esfera do dogma. O que, então é sujeito a desenvolvimento na dogmática?

A história da Igreja mostra que a quantidade de dogmas, no sentido estreito da palavra foi crescendo gradualmente. Não é que dogmas foram desenvolvidos, mas sim que a esfera de dogmas na história da Igreja foi se alargando até que ela chegou a seu próprio limite, dado pela Sagrada Escritura. Em outras palavras, o aumento foi na quantidade de verdades da fé que receberam uma formulação precisa nos Concílios Ecuménicos, ou em geral foram confirmados pelos Concílios Ecuménicos. O trabalho da Igreja nessa direcção consistiu na definição precisa das afirmações dogmáticas em seus esclarecimentos, em mostrar suas bases na Palavra de Deus, em encontrar suas confirmações na Tradição da Igreja, e declara-los obrigatórios para todos os fiéis. Nesse trabalho da Igreja o escopo das verdades dogmáticas sempre permaneceu um e o mesmo; mas em vista do surgimento de opiniões e ensinamentos não ortodoxos, a Igreja sanciona algumas afirmações dogmáticas que são Ortodoxas e rejeita outras que são heréticas. Não se pode negar que graças a tais definições dogmáticas o conteúdo da fé tornou-se mais claro na consciência das pessoas da Igreja e na própria hierarquia da Igreja.

Além do mais, o próprio aprendizado teológico é sujeito a desenvolvimento. A teologia dogmática pode usar vários métodos; ela pode ser suplementada por material para mais estudo; ela pode fazer um maior ou menor uso dos fatos da exegese (a interpretação dos fatos da Sagrada Escritura), de filologia bíblica, de história da Igreja, de escritos patrísticos, e assim também de conceitos racionais; ela pode responder mais completamente ou timidamente as heresias, falsos ensinamentos e a várias correntes de pensamentos religiosos contemporâneos. Mas o aprendizado teológico (como oposto á própria teologia) é um assunto exterior em relação à vida espiritual da igreja. Ele só estuda o trabalho da Igreja e seus decretos dogmáticos e outros. A teologia dogmática como um ramo do aprendizado pode se desenvolver, mas não pode desenvolver e aperfeiçoar um ensinamento da Igreja. (Pode-se ter uma analogia aproximada disso no estudo de qualquer escrita: «Pushkinologia», por exemplo, pode crescer, mas disso a soma de pensamentos e imagens colocados em seus trabalhos pelo próprio poeta não cresce). O florescimento ou declínio do aprendizado teológico pode coincidir ou falhar em coincidir com o nível geral, com a elevação ou declínio de vida espiritual na Igreja, em um ou outro período histórico: o desenvolvimento do aprendizado teológico pode ser impedido sem perda para a essência da vida espiritual. O aprendizado teológico não é chamado a guiar a Igreja na sua totalidade; é próprio para ele buscar e se manter estritamente de acordo com o encaminhamento dado pela consciência da Igreja.

É dado a nós o que é necessário para o bem de nossas almas. O conhecimento de Deus, na vida Divina e da Divina Providência, é dado aos homens no grau em que ele tem uma imediata explicação moral na vida. O Apóstolo ensina isso quando ele escreve: "Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade... pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência temperança, e à temperança paciência, e à paciência piedade, e à piedade amor fraternal, e ao amor fraternal caridade" (2 Ped. 1, 3-7). Para o Cristão a coisa mais essencial é a perfeição moral, tudo o mais que foi dado pela palavra de Deus e pela Igreja são meios para atingir esse objectivo fundamental.

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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