CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

8 - A economia geral da salvação

d - A palavra "redenção" no uso dos Apóstolos

A totalidade das consequências da Cruz e da Ressurreição são usualmente expressas pelos Apóstolos, e portanto em terminologia teológica também, pelo conceito único de "redenção", que literalmente significa um "resgate", uma oferta de pagamento. Esse conceito é suficientemente vívido para que fosse acessível ao entendimento do povo mesmo do mais baixo nível da sociedade. Mas essa característica vívida em si inspirou tentativas de se perguntar por outras questões não relacionadas à essência da salvação, ainda mais que esse termo tem somente um significado simbólico e alegórico. Por isso, São Gregório, o Teólogo, elimina essas demais questões e estabelece a essência da presente expressão na seguinte reflexão: "A quem foi oferecido aquele sangue que foi derramado por nós, e porque ele foi derramado? Eu quero dizer o precioso e famoso Sangue de Nosso Deus e Sumo Sacerdote e Sacrifício. Nós estamos detidos na escravidão pelo maligno, vendidos pelo pecado, e recebíamos prazeres em troca de maldade. Agora, já que um resgate pertence só a quem mantêm alguém em escravidão, eu pergunto por quem foi oferecido isso e porque causa? Se pelo maligno, livrai-me Deus do ultraje! O ladrão receberia resgate, não somente de Deus, mas um resgate que consiste no próprio Deus, e recebe tão ilustre pagamento por sua tirania, um pagamento por aqueles que teria sido bom para o ladrão deixar abandonados todos juntos. Mas primeiro eu pergunto, como? Pois não foi por Deus que nós fomos oprimidos; e segundo, baseado em que princípio o Sangue de Seu Filho Unigénito agradou o Pai, que não quis receber sequer Isaac, quando ele estava sendo oferecido por seu pai, mas mudou o sacrifício, pondo um cordeiro no lugar da vítima humana? Não é evidente que o Pai aceita o Filho, mas nem pediu por ele nem demandou-o; mas por causa da Encarnação, e porque a humanidade deve ser santificada pela humanidade de Deus, que ele deveria libertar-se a si próprio, superando o tirano, e nos conduzir a ele próprio pela mediação de seu Filho, que também arranjou isso dessa forma para honrar ao Pai, a quem Ele manifesta obedecer em todas as coisas?" (São Gregório, o Teólogo, «Second Oration on Pasha», tradução inglesa em «Eerdman’n Nicenene and Post-Nicene Fathers», Second Séries, vol 7, pg 431).

Nessa reflexão teológica de São Gregório, o Teólogo, a ideia que aparece na Primeira Epístola Católica do Apóstolo tem dada a sua completa expressão: "sabendo que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que por tradição recebeste ele de vossos pais, não com coisas corruptíveis como ouro e prata, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e contaminado, o qual na verdade em outro tempo foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo" (1 Ped. 1, 18-20).

Para a definição teológica do conceito de "redenção" um exame teológico das palavras gregas que correspondem a esse conceito tem grande importância.

No texto grego das Escrituras do Novo Testamento esse conceito é expresso por duas palavras, e cada uma delas tem uma importante sombra do significado. A primeira delas lytro-o, significa "comprar", "resgate". Naqueles tempos o mundo conhecia três formas de resgatar pessoas sendo (de acordo com dicionários gregos): 1) resgatar de cativeiro, 2) resgatar da prisão, por exemplo por débito, 3) resgatar de escravidão. No significado cristão os Apóstolos usam esse termo para expressar o momento da realização de nossa salvação que é juntada à Cruz de Cristo, isto é, a libertação dos justos das amarras do hades. Essas são as mesmas três formas de "resgate": resgate do cativeiro do pecado, resgate do hades, resgate da escravidão ao demónio.

O segundo verbo, agorazo, significa "comprar para si próprio", "comprar no mercado" (agora significa "mercado"). A imagem utilizada nesse termo refere se só a fiéis, a cristãos. Aqui ele tem um significado especialmente rico. Esse verbo é encontrado três vezes nos escritos dos Apóstolos, quais sejam:

"Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço" (1 Cor. 6, 19-20).

"Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens" (1 Cor. 7, 23).

O hino no céu ao Cordeiro: "porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus homens de toda a tribo, e língua, e povo e nação" (Apoc. 5, 9).

Em todos os três trechos esse verbo significa que Cristo nos adquiriu para si próprio de modo que agora nós devemos pertencer a Ele inteiramente, como escravos comprados pertencem a seus mestres. Fica por nossa conta reflectir sobre a profundidade dessa imagem, que foi colocada em palavras pelos próprios Apóstolos.

De um lado a palavra "escravos" de Cristo significa um completo, e incondicional, dar-se em obediência a Aquele Deus que redimiu todos nós. Assim, precisamente, os Apóstolos se sentiam. É suficiente ler os primeiros versículos de numerosas Epístolas dos Apóstolos. Nas primeiras palavras eles chamam-se de escravos (ou servos) de Cristo: "Simão Pedro, servo e Apóstolo de Jesus Cristo" (2ª Pedro); "Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago" (Judas); "Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para Apóstolo" (Romanos); "Paulo e Timóteo, servos de Jesus Cristo" (Filipenses). Tal auto-consciência deveria estar presente, segundo o ensinamento dos Apóstolos, em todos os fiéis. A Santa Igreja precisamente da mesma forma em todos os tempos chamou e chama os membros da Igreja na linguagem dos Divinos Ofícios, "escravos (servos) de Deus".

Mas há outro lado. O Salvador endereça aos discípulos em sua conversa de despedida: "Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando" (Jo. 15, 14); e no mesmo lugar Ele os chama de "Filhinhos" (Jo. 13, 33); "Como o Pai me amou, também eu vos amei a vós" (Rom. 8, 16-17). E o Santo Apóstolo João, ele que se apoia sobre o peito de Cristo, clama com inspiração: "Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifestado o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando ele se manifestar seremos semelhantes a ele; pois assim como é o veremos" (1 Jo. 3, 2).

Ele que santifica e eles que são santificados são todos do Um (Deus): por isso chama aqueles que foram santificados de seus irmãos. Mais importante, ele é o "príncipe de nossa salvação" (Heb. 2, 10); Ele é o Sumo Sacerdote do Novo Testamento. "Pelo que convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo. Porque naquilo que ele mesmo, sendo tentado, padeceu, pode socorrer aos que são tentados" (Heb. 2, 17-18). Para ele nós pedimos perdão de nossos pecados; pois o Pai Celeste não julga ninguém, mas entregou o julgamento inteiramente ao Filho, e que todos devem adorar o Filho como adoram o Pai. O Filho mesmo proclamou antes de Sua ascensão: "É-me dado todo o poder no céu e na terra" (Mt. 28, 18). É por isso que quase todas as nossas orações - seja por nós próprios, por nossos pais e irmãos, pelos vivos e pelos mortos - nós oferecemos ao Filho de Deus. Nós estamos na casa de Deus; nós somos a casa de Cristo. Portanto para nós é fácil, alegre e salvífico ter comunhão com todos os membros celestes dessa casa: com a Santíssima Trindade, com os Apóstolos, os Profetas, os Mártires, os Hierarcas, e os Santos Monásticos - uma única Igreja no céu e na terra! É para isso que nós fomos comprados por Cristo.

Tão grandes são as consequências do Sacrifício de Cristo que foi oferecido na Cruz e assinando pela Ressurreição de Cristo! Esse é o significado do novo canto diante do Cordeiro no seu trono, que foi dado no Apocalipse ao Apóstolo São João, o Teólogo: "...tu foste morto e nos compraste para Deus com teu sangue" (Apoc. 5, 9). Nós fomos comprados para Deus.

Portanto, não permitamos que a triste condição espiritual do mundo que nós observamos nos confunda. Nós sabemos que a triste condição das crianças da Igreja, os escravos de Cristo, está se cumprindo. E a salvação do mundo, no amplo, escatológico significado da palavra, já foi realizada. Mas como o Apóstolo Paulo nos instrui: "Porque em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperava? Mas se esperamos com paciência o esperamos" (Rom. 8, 24-25). As forças espirituais no mundo podem estar escondidas mas não estão extintas. O corpo celeste-terrestre da Igreja de Cristo cresce e puxa o mundo para próximo do dia místico da triunfante e gloriosa manifestação aberta do Filho do Homem, o Filho de Deus, quando após o grande e justo Juízo Geral, a renovação e transfiguração do mundo será revelada, e ele que senta no trono virá: "Eis que eu faço novas todas as coisas" (Apoc. 21, 5). E existirá um novo céu e uma nova terra. Amém.

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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