CATECISMO ORTODOXO
Parte II
Deus Manifestado no Mundo
11 – Os Santos Mistérios ou
Sacramentos
b - A graça
Divina
A palavra “graça” é usada na Sagrada Escritura com
vários significados. Às vezes ela significa em geral a misericórdia de Deus: “Deus
é o Deus de toda a graça” (1 Ped. 3, 10). Nesse, seu mais amplo
significado, graça é a boa vontade de Deus para com os homens de vida digna em
todas as eras da humanidade, e particularmente para com os justos do Velho
Testamento como Abel, Enoch, Noé, Abraão, o Profeta
Moisés, e os últimos profetas.
No significado mais preciso, o conceito de graça
refere-se ao Novo Testamento. Aqui no Novo Testamento nós distinguimos dois
significados fundamentais desse conceito. Primeiro, pela graça de Deus, a graça
de Cristo, é para ser entendida a economia completa de nossa salvação,
realizada pela vinda do Filho de Deus para a terra, por sua vida terrena, por
sua morte na Cruz, sua Ressurreição, e sua Ascensão ao céu: “Porque pela
graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós; é dom de Deus. Não
vem das obras para que ninguém se glorie” (Ef. 2, 8-9). Em segundo lugar,
graça é o nome aplicado aos dons do Espírito Santo que foram e estão sendo
mandados para a Igreja de Cristo para a santificação de seus membros, para seu
crescimento espiritual, e para a obtenção por eles do reino do Céu.
Nesse novo significado da palavra do Novo
Testamento, a graça é um poder mandando do alto, o poder de Deus que está na
Igreja de Cristo, que dá nascimento, dá vida, aperfeiçoa e conduz os fiéis
carentes e virtuosos à apropriação da salvação que foi trazido pelo Senhor
Jesus Cristo.
Os Apóstolos, por isso, em seus escritos
frequentemente usam a palavra grega «charis», “graça”, como idêntica em
significado com a palavra «dynamis», “poder”. O termo “graça” no sentido de
“poder” dado do alto para a vida santa é encontrado em vários lugares das
Epistolas Apostólicas (2 Ped. 1, 3, Rom. 5, 2; Rom. 16, 20; 1 Ped. 5, 12; 2 Ped. 3, 18; 2 Tim. 2, 1; 1
Cor. 16, 23; 2 Cor. 13, 14; Gal. 16, 18; Ex. 6, 24, e
em outros lugares). O Apóstolo
Pedro escreve: “O Senhor disse-me: a minha graça te basta, porque o meu
poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Cor. 12, 9). A distinção entre esses
dois significados da palavra “graça”, e os entendimentos predominantes na
Sagrada Escritura do Novo Testamento como sendo um Divino poder, são
importantes de serem mantidos na mente, porque no Protestantismo
foi estabelecido sobre a graça, só o significado geral do grande trabalho para
a nossa redenção do pecado pelo feito do Salvador na Cruz, após o qual - como os Protestantes pensam - um homem que veio acreditar
e recebeu a remissão dos pecados já está entre os salvos. No entanto, os
Apóstolos nos ensinam que um Cristão, tendo a justificação como um dom de
acordo com a graça geral da redenção, nessa vida como um indivíduo está só
“sendo salvo” (1 Cor. 1, 18), (a tradução para o versículo da versão King James é imprecisa, “para nós que somos salvos”, no texto
grego temos o particípio presente: “que estamos sendo salvos”) e precisamos do
apoio dados por graça: “...temos entrada pela fé e a esta graça, na qual
estamos firmes” (Rom. 5, 2); “Porque em
esperança somos salvos” (Rom. 8, 24).
Como, então, age a graça de Deus?
O nascimento espiritual e o posterior crescimento espiritual
de um homem ocorrem através da mútua acção de dois princípios. Um desses é a
graça do Espírito Santo; o outro, a abertura do coração do homem para a
recepção dessa graça, uma sede por ela, o desejo de recebe-la, como a terra
seca, sedenta recebe a chuva - em outras palavras,
esforço pessoal para a recepção, preservação, e actividade na alma dos dons
Divinos.
A respeito da cooperação desses dois princípios, o
Apóstolo Pedro diz: “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz
respeito à vida e piedade... e vós também, pondo nisto mesmo toda diligência,
acrescentar à vossa fé a virtude, e a virtude a ciência. E a ciência
temperança, e à temperança paciência, e à paciência piedade, e a piedade amor
fraternal, e ao amor fraternal caridade. Porque, se em vós houver e abundarem
estas cosias, não vos deixarão ociosos e nem estéreis no conhecimento de Nosso
Senhor Jesus Cristo. Pois aquele em que não há estas coisas é cego, nada vendo
ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados” (Filip. 2, 12-13). Isso é, vós deveis cooperar, mas
lembra-vos que tudo vos é dado pela graça de Deus: “Se Deus não nos
construir a casa de virtudes, nós trabalhamos em vão” (hino de Matinas, tom
3).
De acordo com esse sagrado ensinamento, o Concílio de
Cartago no terceiro século decretou: “Aquele que disser que a graça de Deus,
pela qual um só homem é justificado através de Jesus Cristo Nosso Senhor, serve
só para a remissão dos pecados passados, e não para a assistência contra
cometer pecados no futuro, seja anátema. Pois a graça de Cristo dá-nos não só o
conhecimento da nossa obrigação, mas também nos inspira com o desejo de que
sejamos capazes de cumprir com o que sabemos” (Cánones 125, 126 e 127; para
texto em inglês ver de «Eerdman Seven
Ecumenical Councils», p 497
- Cánones 11 e 112 do “Código Africano”)..
A experiência dos ascetas Ortodoxos inspira-os a
chamar Cristãos com toda força para o humilde reconhecimento de suas próprias
enfermidades, para que a graça salvadora de Deus possa agir. Muito expressiva
nesse caso é a colocação de São Simeão,
o Novo Teólogo (século X): “Se o pensamento vem a vós, instilado pelo demónio,
que vossa salvação e realizada pelo pode de vosso Deus, mas por vossa própria
sabedoria e poder e se vossa alma concorda com tal pensamento, a graça se
afasta de vossa alma. A luta contra tal poderosa e difícil batalha que surge na
alma deve ser levada até o último suspiro. A alma deve, junto com o abençoado Apóstolo
Paulo, clamar com alta voz, aos ouvidos dos anjos e homens: “Não eu, mas a
graça de Deus que está em mim”. Os Apóstolos, profetas, mártires e hierarcas,
santos monásticos e justos - todos confessaram essa graça do Espírito Santo, e
por essa confissão e com a ajuda dela elas lutaram uma boa luta e terminaram
seu percurso” (Homilias de São Simeão, o Novo Teólogo, homilia 4)
Acerca daquele que leva o nome de Cristão, nós lemos
no mesmo Santo Padre: “se ele não leva em seu coração a convicção que a graça
de Deus, dada por fé, é a misericórdia de Deus... se ele não trabalha com o
objectivo de receber a graça de Deus, primeiro de tudo através do Baptismo,
ou se ele o teve e partiu por razão dos seus pecados, façamos com que ele
retorne através do arrependimento, confissão, e uma vida autodiminuída; e se,
dando esmolas, jejuando, realizando vigílias, orações e o resto, ele pensa que
está realizando gloriosas virtudes e bons actos valiosos em si - então ele trabalha e se exaure em vão” (homilia 2).
O que é então o significado da luta ascética? É uma
arma contra “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba
da vida” (1 Jo. 2, 15-16). É a limpeza do campo da
vida das pedras, das ervas daninhas crescidas, e de locais pantanosos, em
preparação para uma semeadura sagrada que será irrigada do alto pela graça de
Deus.
Mons. Dom ++
(Mar Alexander I
da Hispânea)