CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

Deus Manifestado no Mundo

 

 

19 – A Oração Como Expressão da Vida na Igreja

g - A cruz de Cristo: O caminho e poder da Igreja

O ensinamento dogmático da Igreja tem a mais íntima conexão com a completa ordem moral da vida Cristã; ele dá a ela uma verdadeira direcção. Qualquer tipo de afastamento das verdades dogmáticas conduz a um entendimento incorrecto da obrigação moral do cristão. A fé demanda uma vida que corresponda à fé.

O Salvador definiu a obrigação moral do homem simplesmente em dois mandamentos da lei: o mandamento de amar a Deus de todo o coração, alma e mente e o entendimento; e o mandamento de amar ao próximo como a si mesmo. Mas ao mesmo tempo o Salvador ensinou que o autêntico atendimento desses dois mandamentos é impossível sem algum grau de auto-renúncia, auto-sacrifício, ele exige luta (A palavra russa «podvig» mais comumente significa "luta"; mas às vezes deve ser traduzida como ascetismo ou "feito ascético").

E onde o fiel encontra força para lutar? Ele recebe força pela comunhão com Cristo, pelo amor por Cristo que o inspira a seguir atrás dele. Essa luta de seguir Cristo, ele próprio chamou de Seu "jugo". Tomai sobre vós o meu jugo... Porque meu jugo é leve e o meu fardo suave" (Mt. 11, 29-30). Ele chamou também de cruz. Bem antes do dia de sua crucificação, o Senhor ensinou: "Se alguém quiser vir após mim renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me" (Mt. 16, 24). "E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim" (Mt. 10, 38).

O caminho Ortodoxo do cristão foi tomado pelo seu Apóstolo: "Já estou crucificado com Cristo" escreve o Apóstolo Paulo (Gal. 2, 20). "Longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo" (Gal. 6, 14). Seguindo o caminho de Cristo, os Apóstolos terminaram a luta de suas vidas com uma morte por martírio.

Todos os fiéis são chamados a lutar de acordo com suas forças: "E os que são de Cristo crucificaram a carne com suas paixões e concupiscência" (Gal. 5, 24). A vida moral não pode existir sem batalha interior, sem auto-restrição. O Apóstolo escreve: "Porque muitos há dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre e cuja glória é para a confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas" (Fil. 3, 18-19).

A história toda da Igreja tem sido de lutas: primeiro os sofrimentos dos mártires na primeira época do cristianismo; depois os trabalhos auto-sacrificiais dos pilares da igreja, os hierarcas; e então as lutas ascética pessoais, conquistas espirituais na batalha com a carne, de parte dos moradores nos desertos e outros lutadores - "anjos terrenos e homens celestes", os justos que viveram no mundo sem serem maculados pelo mundo. E assim até agora o cristianismo é adornado com confessores e mártires pela fé em Cristo. E a Santa Igreja sustêm nos fiéis essa obrigação de auto-restrição e limpeza espiritual por meios de instruções e exemplos do Evangelho e de toda Sagrada Escritura, pelos exemplos dos santos pelas regras do «tipicon» da Igreja, jejuns e apelos do arrependimento.

Tal é a porção que cabe não só a cada cristão separado mas da própria Igreja como um todo: ser perseguido pela Cruz de Cristo, como foram mostradas nas visões do Santo Apóstolo João, o Teólogo, no Apocalipse. A Igreja em muitos períodos de sua história suportou tristezas e perseguições totalmente abertas e a morte por martírio de seus melhores servos - que um padre contemporâneo e escritor da Igreja chamou de "colheita de Deus" - enquanto em outros períodos, mesmo em períodos de prosperidade exterior, ela enfrentou tristezas por inimigos internos; pela maneira indigna da vida de seus membros em particular das pessoas que estavam designadas para servi-la.

Assim é definido o dogma na Cruz. A cruz é o caminho do cristão e da Igreja.

Ao mesmo tempo é também o poder da Igreja. Olhando com olhos mentais "para Jesus, Autor e Consumador de nossa Fé" (Heb. 12, 2), o cristão encontra força espiritual na consciência que depois da morte do Senhor na Cruz seguiu-se à Ressurreição; que pela Cruz o mundo foi conquistado; que se nós morrermos com o Senhor nós reinaremos com ele, e rejubilaremos e triunfaremos na manifestação de sua glória (1 Ped. 4, 13).

A cruz finalmente é o estandarte da Igreja. Do dia quando o Salvador carregou a Cruz em seus ombros para o Gólgota e foi crucificado na Cruz material a Cruz tornou-se o sinal visível e estandarte do cristianismo, da Igreja, e de todos que acreditam em Cristo.

Nem todo mundo que pertence ao cristianismo "em geral" tem tal entendimento do Evangelho. Certas grandes sociedades cristãs negam a Cruz como estandarte visível, considerando que ela permaneceu o que ela era, um instrumento de "censura". O Apóstolo Paulo já preveniu contra tal "ofensa à Cruz" (Gal. 5, 11): "... para que a Cruz de Cristo não se faça vã. Porque a palavra da Cruz é loucura para os que perecem; mas para nós que somos salvos, é o poder de Deus" (1 Cor. 1, 17-18). Ele exortou os homens a não se envergonharem da Cruz como se ela fosse um sinal de censura: "Saiamos pois a ele fora do arraial, levando o seu vitupério (insulto)" (Heb. 13, 13-14). Pois a ofensa da Cruz conduziu à Ressurreição em glória, e a Cruz tornou-se o implemento da salvação e o caminho da glória.

Tendo sempre diante de si a imagem da Cruz, fazendo o Sinal da Cruz, o cristão antes de tudo traz para sua mente que ele é chamado para seguir os passos de Cristo, carregando em nome de Cristo tristezas e privações por sua fé. Depois, ele é reforçado pelo poder da Cruz de Cristo para batalhar contra o mal em si próprio e no mundo. E então ele confessa que espera a manifestação da glória de Cristo, a segunda vinda do Senhor, que será precedida pela manifestação no céu do sinal do Filho do Homem, de acordo com as palavras divinas do próprio Senhor (Mt. 24, 30). Esse sinal de acordo com o entendimento unânime dos Padres da Igreja, será uma magnífica manifestação da Cruz no céu.

O sinal que colocamos em nós ou desejamos em nós pelo movimento da mão em silêncio ao mesmo tempo é como se falasse alto, porque que é uma confissão aberta da nossa fé.

Assim, com a Cruz é firmada toda grandeza de nossa redenção, que nos lembra da necessidade de luta pessoal para o cristão. Na representação da Cruz, mesmo em seu nome, está resumida a história completa do Evangelho, e também a história do martírio e a confissão do cristianismo em todos os tempos.

Reflectindo profundamente sobre a riqueza de pensamentos ligados com a Cruz, os hinos da Igreja louvavam o poder da Cruz: "Ó invencível, incompreensível e divino poder da preciosa e vivificante Cruz, não esqueça de nós pecadores".

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

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Última actualização deste Link em 01 de Abril de 2009

 

 

 

 

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