Um
ortodoxo adora Deus como um artista, pois leva para o trono do seu Senhor as
obras da sua imaginação criadora. As cores e os desenhos dos Ícones, o som
dos cânticos sagrados, as cúpulas e os arcos dos edifícios dedicados à
celebração do mistério divino não são um mero e útil estímulo para a
Ortodoxia. Antes, formam uma parte integral e indispensável do culto, pois o
homem é chamado a humanizar o mundo material e um dos meios à sua
disposição é o poder transfigurador da arte.
A
Tradição Ortodoxa incorporou a arte na sua vivência espiritual, na medida
em que a Beleza é um dos nomes de Deus e onde há beleza há harmonia e
Deus está presente. A Ortodoxia reconhece Deus como primeiro artista:
"E Deus disse: haja luz. E houve luz. E viu Deus que era boa a
luz". Deus criou o mundo e viu que era bom! O Criador de todas as
coisas fez sua obra e a contemplou, portanto a arte tem a função sagrada
de nos transmitir uma verdade; desta decorre a beleza de uma obra. Nesse
sentido, a Arte Sacra ocupa um lugar de primeira ordem como verdade
teológica e como transfiguração deste mundo pelo reflexo do amor divino.
ÍCONE:
IMAGEM DO INVISÍVEL
Os
Ícones são característicos da Arte Sacra e Litúrgica da Igreja Oriental.
Quando penetramos num templo ortodoxo imediatamente percebemos inumeráveis
ícones por toda a Igreja. É que o ícone é sinônimo de Arte Sacra
Bizantina, onde teve sua origem e aperfeiçoamento, embora não esteja
restrito a um lugar geográfico.
Bizâncio
irradiou esta arte por todo o império Cristão e hoje se encontra em todas
as Igrejas Ortodoxas espalhadas pelo mundo. A atualidade do ícone é
surpreendente. Há um movimento de redescoberta das fontes da Cristandade e
o Ocidente Cristão cada dia se extasia e surpreende com as riquezas dos
ícones. Estes têm lugar e papel importantíssimo para a espiritualidade
ortodoxa que podemos compreender o lugar que ocupa o Ícone, já que não
existe nada semelhante na tradição religiosa ocidental, seja na forma
artística, seja no conteúdo espiritual. De fato, para o Ocidente Cristão,
o ícone é desconhecido e incompreensível até que se percebe sua função
e sentido. É isto que nos propomos aqui, uma aproximação e penetração
no mundo do Ícone.
O
QUE É UM ÍCONE?
Esta
é uma indagação básica que se faz em geral. A palavra ícone vem do
grego EIKÓN, que significa imagem, palavra com amplas aplicações e que no
Ocidente é extensiva às figuras com volume ou estátuas que representam o
Cristo ou os santos.O Oriente Cristão não produz estátuas por considerar
o volume como um passo para antropomorfizar a representação e deslizar
para a idolatria. Um Ícone, portanto, é simplesmente uma imagem pintada
sobre a madeira, com técnica muito especial e de acordo com cânones bem
definidos quanto ao tema, composição, cor, harmonia que se pretende
pintar.
O
QUE NÃO É UM ÍCONE
Para
o Cristão ortodoxo é difícil definir o que é um ícone, porque para eles
o ícone é uma experiência pessoal, a contemplação através da pintura.
Portanto, só podemos defini-lo negativamente, ou seja, não é um retrato,
não se pintam sentimentos ou emoções. Não se adora o ícone, não há
risco de idolatrar a pintura, pois essa representa uma imagem - um
protótipo, um modelo - na realidade, venera-se a pessoa representada, não
o objeto em si.
O Ícone é uma presença misteriosa que não se define. O Ícone não é um
simples estilo artístico nem um modo histórico de arte, não está preso a
um tempo específico.
QUAL
O FUNDAMENTO DO ÍCONE
No
Antigo Testamento Deus proibiu qualquer representação ou imagem divina
(Ex.20). A pedagogia Divina levou os hebreus primeiro a escutar a voz de
Deus (Dt. 4, 12-15). Começa aqui o início da experiência pessoal com
Deus. Não se podia representar Deus porque Ele nunca fora visto por
ninguém. Os homens são conduzidos e preparados para o encontro verdadeiro
com Cristo, que nos revela a verdadeira imagem de Deus. "Cristo é a
imagem de Deus invisível" (Col. 1, 15). É na Encarnação do Verbo de
Deus feito homem que podemos pintar sua imagem. Sendo o ícone a revelação
do Invisível, a Iconografia é aos olhos o que a palavra é para o ouvido.
QUAL
A FUNÇÃO DO ÍCONE?
O
ícone tem uma função sacramental, na medida que reflete o divino, o
atemporal e nos remete para a eternidade, da qual o ícone é uma janela.O
Ícone possui uma beleza que não reside na estética do quadro, mas sim na
verdade teológica que nos comunica. Não tem nem sequer função didática
de ensino religioso, embora possamos aprender com ele. O que o Evangelho
proclama com a palavra, o Ícone o anuncia com cores e o faz presente.
Nas palavras de São João Damasceno, "o Ícone é um canal de graça
com poder santificador", na medida que nos comunica a Luz Divina,
atributo da glória do Reino de Deus. Diante do Ícone o recolhimento e o
silêncio nos abrem à luz da transfiguração aos nossos olhos e nos
permitem contemplar uma beleza que não é deste mundo.O Ícone é um
testemunho do Poder Santificador do Espírito Santo na santidade dos santos
e a certeza de que os homens podem seguir a mesma trilha aberta por Cristo.
HISTÓRIA
DOS ÍCONES
É
difícil definir quando começou a pintura de ícones. Uma tradição muito
difundida atribui os primeiros ícones ao evangelista São Lucas, que sendo
muito amigo da Virgem Maria, teria pintado vários ícones da Virgem, que
gostou muito, abençoou e agradeceu.
Outra tradição relaciona os ícones com a imagem aerobita (Santa Face não
pintada por mão humana) enviada por Cristo ao rei Abgar de Edessa. A lenda
menciona que Abgar estava leproso e queria curar-se. Enviou uma delegação
à Palestina pedindo a Cristo cura e um retrato Seu. Cristo atendeu e
enviou-lhe um pano onde tinha enxugado o rosto e aí ficaram impressos os
Seus traços.
Há uma tradição latina que menciona um episódio da Paixão de Cristo.
Diz que Santa Verônica (que talvez signifique "vero ícone",
verdadeira imagem) enxugou o rosto do Senhor, tendo esse pano retido a
imagem de Cristo.
Houve
Concílios que regulamentaram a confecção dos Ícones, como o de Trullo em
691, que defendeu uma doutrina cristológica do Ícone. Mas o Ícone viveu
um período de contestação chamado precisamente de iconoclasta, ou seja,
destruidor de Ícones. A guerra às imagens foi declarada pelo Imperador
bizantino Leão III, em 725. As sagradas imagens foram condenadas, dando
lugar à perseguição, morte e desterro dos defensores dos Ícones. Essa
guerra foi declarada sob acusação de idolatria e esta querela durou mais
de um século. Mesmo assim, em 787 celebrou-se o Concílio de Nicéia, que
condenou os iconoclastas e justificou o culto dos Ícones.
Por
fim, em 843, no primeiro Domingo da Quaresma, através da Imperatriz
Teodora, foi restabelecida veneração às imagens, e celebrada solenemente
nesta ocasião o "triunfo da Ortodoxia". Esta festa se celebra
ainda hoje todos os anos e é denominada "O Dia da Ortodoxia".
QUEM
PINTA OS ÍCONES
O
Ícone só tem fundamento na Igreja, ou seja, é dentro da Tradição da
Igreja Ortodoxa num contexto especial que surge o Ícone. O iconógrafo é
alguém autorizado e avaliado por uma autoridade da Igreja para tal
propósito; segue uma aprendizagem artística específica, quanto à
técnica propriamente dita e segue recomendações espirituais, para poder
realizar sua obra: orações, jejum, leitura e meditação bíblica.
O
pintor de Ícones deve ser humilde, manso e piedoso - não deve ser
charlatão, nem briguento, nem invejoso, nem bebedor, nem ladrão. Deve
guardar a pureza espiritual e corporal.
O
ICONÓGRAFO E A TRADIÇÃO
É
importante frisar que o iconógrafo tem seu fundamento na Tradição
espiritual da Igreja. Esta define não como conservação de uma herança
passada, mas bem uma "transmissão", uma atualização da herança
viva. O Ícone é uma das expressões da Tradição Sagrada da Igreja, o
mesmo que a tradição escrita e a oral. O significado da palavra
iconógrafo é "o que escreve os ícones" e deve ter uma
preparação espiritual em contato direto com a Igreja, que o abençoa e
orienta no seu trabalho artístico. Portanto, o conteúdo espiritual do
ícone reside na fidelidade à tradição da Igreja, que define através de
uma série de cânones e prescrições, os limites dentro dos quais o gênio
do artista se movimenta, que é menos individual e mais teológico.
No Ícone o artista é quase anônimo, ele é um instrumento para o
Espírito Santo agir, emprestando-Lhe seu talento particular. Nenhum
iconógrafo pretende ser "um artista original"; isto é
completamente alheio à finalidade do Ícone.
AS
ESCOLAS ICONOGRÁFICAS
Existem
muitas escolas iconográficas. As principais são as eslavas e as gregas,
que deram origem a uma grande diversidade de escolas. [...]
O ícone é uma obra de arte que ultrapassa a própria arte: longe de ser
somente de ordem estética, a mensagem do ícone é de ordem teológica. E
por isso o ícone fala aos homens de nosso tempo, assim como falou aos
homens de outrora.Imagem do invisível, janela para o infinito, a
iconografia nasce da memória dos primeiros cristãos e enraíza-se no
evangelho e na liturgia. Apenas por sua existência, cada ícone evoca o
mistério da encarnação.
Qual
o significado do Ícone?
A
arte do Ícone é um apelo para que o cristão que o contempla se distancie
dele e purifique os seus sentidos, de tal modo que possa contemplar nessa
manifestação artística a própria Pessoa divina [que vem] até nós sob
uma forma humana, a de Jesus Cristo.
No
seio da Igreja Ortodoxa o Ícone recebe a mesma veneração que as Sagradas
Escrituras, porque as imagens exprimem através das suas cores e do
simbolismo das suas formas o mesmo que a palavra escrita nos anuncia. Isto
é, o Ícone procura exprimir o inexprimível; e isso tornou-se possível
desde que o Filho de Deus encarnou e Se fez Homem (na Antiga Lei era
proibido fazer imagens por existir o perigo de idolatria, ou seja, da
adoração dos ídolos: de fato, no Velho Testamento Deus revelava-Se aos
homens sobretudo através da Palavra - mas depois a Palavra fez-Se carne,
com Jesus Cristo). De certo modo podemos dizer que Cristo encarnou, tomou um
corpo, para nos mostrar a figura "humana" de Deus-Pai - Ele que
nos criou à Sua imagem e semelhança.
"Ícone"
significa exatamente "imagem". Assim, o Ícone de um Santo
representa a imagem, simultaneamente terrestre e celeste, desse Santo, a sua
imagem pura e integral. Podíamos, aliás, dizer que no Ícone a imagem
humana é pintada como ela era na origem, na Criação do Mundo, liberta das
leis da matéria resultantes da Queda. O que o Ícone nos mostra não é uma
realidade do Mundo que nos rodeia: é uma "janela" que se abre
para o Céu. E a imagem aí representada é a de uma criatura celeste,
rodeada de luz (é essa a razão do fundo dourado que vemos, geralmente, em
cada Ícone).
No
caso de um Ícone de Cristo, o que contemplamos não é a sua natureza
divina nem a sua natureza humana; é, sim, o próprio Verbo de Deus
encarnado, tendo o divino e o humano reunidos em Si. Deste modo, a
fotografia de um santo dos nossos dias não pode servir de Ícone (isto é,
de imagem sagrada) porque a fotografia é uma imagem exclusivamente
terrestre do homem. O mesmo se poderia dizer das esculturas, igualmente
representações exclusivas da humanidade de um Santo. E ainda por cima,
susceptíveis de incitar o crente à idolatria.
Deve-se
acrescentar que a veneração das Santas Imagens (Ícones) é um dogma de
Fé, assim formulado pelo 7.° Concílio Ecumênico:
"Os santos e preciosos Ícones devem ser colocados nas igrejas, casas,
estradas, quer sejam Ícones de Nosso Senhor Deus e Salvador Jesus Cristo ou
da nossa Soberana e sempre Virgem, a Santa Mãe de Deus, ou dos Santos Anjos
e dos Homens Santos e Veneráveis. Porque, cada vez que vemos a sua
representação pela imagem somos incitados a contempla-los, a lembrarmo-nos
dos modelos, e adquirindo assim mais amor por eles, somos ainda levados a
render-lhes homenagem, beijando-os e testemunhando nossa veneração, não a
verdadeira adoração que, segundo a nossa fé, convém apenas à natureza
divina, porque a honra dada à imagem vai direta ao seu modelo e aquele que
venera um Ícone venera a pessoa que se encontra nele representada".