CATECISMO ORTODOXO

 

  

Parte II

 

Deus Manifestado no Mundo

 

 

6 - Dogmas a respeito da Santíssima Virgem Maria

c - O Dogma Católico Romano da Imaculada Conceição

O dogma da Imaculada Conceição foi proclamado por uma Bula do Papa Pio IX em 1854. A definição desse dogma diz que a Santíssima Virgem Maria no momento de sua concepção estava limpa de pecado ancestral. Em essênio é uma dedução directa do ensinamento romano sobre o pecado original. De acordo com o ensinamento romano, o peso do pecado de nosso primeiro ancestral consiste na remoção da humanidade de um dom sobrenatural de graça. Mas aí surge uma questão teológica: se a humanidade foi privada do dom da graça, então como se pode entender as palavras do Arcanjo Gabriel endereçadas a Maria; "Rejubila, tu que és cheia de graça, o Senhor está contigo. Bendita és tu entre as mulheres... Tu que achaste graça com Deus?" Só se poderia concluir que a Santíssima Virgem Maria teria sido removida da lei geral de "privação da graça" e da culpa do pecado de Adão. E desde que a sua vida foi santa desde o nascimento, consequentemente ela recebeu, na forma de excepção um dom sobrenatural, uma graça de santidade, mesmo antes do nascimento, isto é, na sua concepção. Tal dedução foi feita pelos teólogos latinos. Eles chamaram essa remoção de um "privilégio" da Mãe de Deus. Deve notar-se que a aceitação desse dogma foi no ocidente por um longo período de disputa teológica, que durou do século doze, quando esse ensinamento apareceu, até o século dezessete, quando ele foi espalhado pelos jesuítas no mundo católico-romano (para mais informações sobre a Imaculada Conceição, ver Arcebispo João, «The Orthodoz Veneration or the Mother of God», p 35-47).

Em 1950, o assim chamado Ano do Jubileu, o Papa Pio XII triunfante proclamou um segundo dogma, o Dogma da Assunção da Mãe de Deus com o seu corpo para o céu. Dogmaticamente esse ensinamento foi deduzido na teologia romana do Dogma romano da Imaculada Conceição e é um desenvolvimento lógico decorrente do ensinamento romano do pecado original. Se a Mãe de Deus morresse, então, na visão dos teólogos romanos, ela teria aceitado a morte voluntariamente, como para emular seu Filho: mas a morte não teria domínio sobre ela.

A declaração de ambos os dogmas corresponde à teoria romana de "desenvolvimento de dogmas". A Igreja Ortodoxa não aceita o sistema latino de argumentos a respeito do pecado original. Particularmente, a Igreja Ortodoxa, confessando a pessoal e perfeita imaculabilidade e a perfeita santidade da Mãe de Deus, a quem o Senhor Jesus Cristo por seu nascimento através dela fez que ela fosse mais venerável que os Querubins e incomparavelmente mais gloriosa que os Serafins - não viu e não vê nenhuma base para o estabelecimento do dogma da Imaculada Conceição no sentido da interpretação Católica-Romana, apesar de venerar a concepção da Mãe de Deus, assim como venera também a concepção do Santo Profeta e Precursor João Baptista.

De um lado, vemos que Deus não privou a humanidade, mesmo depois da queda, de sua graça doadora de dons, como por exemplo as palavras do Salmo 51 indicam: "Não retires de mim o teu Espírito Santo... sustém-me com um Espírito Voluntário..." ou nas palavras do Salmo 71: "Por ti tenho sido sustentado desde o ventre; das entranhas da minha mãe tu me tiraste".

De outro lado, de acordo com o ensinamento na Sagrada Escritura, em Adão toda a humanidade provou o fruto proibido. Só Deus-homem, o Cristo começa consigo a nova humanidade, libertada por ele do pecado de Adão. Por isso, ele é chamado de "o primogénito de muitos irmãos" (Rom. 8, 29), isto é: o primeiro da nova raça humana; ele é o "novo Adão". A Santíssima Virgem Maria nasceu sujeita ao pecado de Adão junto com toda a humanidade, e com ela partilhou da necessidade de redenção (Epístola aos Patriarcas Orientais, parágrafo 6). A pura e imaculada vida da Virgem Maria até a Anunciação pelo Arcanjo, sua liberdade de pecados pessoais, foi o fruto da união de seu trabalho espiritual sobre si própria e a abundância de graça que foi derramada sobre ela. "Tu achaste graça diante de Deus", o Arcanjo disse a ela ao saúda-la: "tu achaste", isto é, obtiveste, adquiriste, mereceste, a Santíssima Virgem Maria foi preparada pela melhor parte da humanidade como um vaso digno para a descida de Deus o Verbo para a terra. A vinda do Espírito Santo ("Descerá sobre ti o Espírito Santo") santificou totalmente o ventre da Virgem Maria para a recepção de Deus o verbo.

Deve-se saber que o princípio de um "privilégio" preliminar é alguma coisa que não tem harmonia com os conceitos cristãos, pois "para com Deus, não há acepção de pessoas" (Rom. 2, 11).

Para a tradição a respeito da assunção do corpo da Mãe de Deus: a crença na assunção de seu corpo depois de seu sepultamento existe na Igreja Ortodoxa. Ela é expressa no conteúdo do Ofício para a Festa da Dormição da Mãe de Deus, e também na Confissão do Concílio de Jerusalém dos Patriarcas Ortodoxos em 1672. São João Damasceno em sua segunda homilia sobre a Dormição relata que uma vez a Imperatriz Pulquéria (século V), que tinha construído uma Igreja em Constantinopla, pediu ao Patriarca de Jerusalém Juvenalius, um dos participantes do Concílio de Calcedónia, relíquias da Santíssima Virgem Maria, para colocar na Igreja, Juvenalius respondeu que, de acordo com a antiga tradição, o corpo da Mãe de Deus tinha sido levado para o céu, e ele juntou a essa resposta o bem conhecido relato de como os Apóstolos tinham sido reunidos de modo milagroso para o sepultamento da Mãe de Deus, como depois da chegada do Apóstolo Tomé, o seu túmulo havia sido aberto e o seu corpo não estava lá, e como foi revelado aos Apóstolos que o seu corpo havia subido ao céu. Testemunhos escritos da Igreja sobre esse assunto datam em geral de um período relativamente tardio (não antes do século IV), e a Igreja Ortodoxa, com todo o respeito por esses escritos, não atribui a eles o significado de uma fonte dogmática. A Igreja, aceitando a tradição da Ascensão do corpo da Mãe de Deus, não encarou e não encara essa pia tradição como uma das verdades fundamentais ou dogmas da Fé Cristã.

 

 

 

Arcebispo Primaz Katholikos

Mons. Dom ++ Paulo Jorge de Laureano - Vieira y Saragoça

(Mar Alexander I da Hispânea)

 

 

 

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Última actualização deste Link em 26 de Março de 2009

 

 

 

 

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