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Literatura
Vistos muitas vezes nos livros sobre Teoria Literária, Álvares de Azevedo e Lord Byron e suas respectivas poéticas foram estudados por três jovens estudantes (não da Sociedade Epicuréia). Azevedo usou a máscara do herói byroniano?
A
noite na poesia: Byron e Álvares de Azevedo

Sir Lord Byron
No
presente trabalho, procuramos estudar as semelhanças entre dois poetas da geração
do mal do século, ou, como também é chamada, geração do byronismo. Como
passo inicial, procuramos definir a figura esquiva do herói byroniano: jovem
aristocrático, dotado de um forte sentimento de culpa, sarcástico e melancólico.
O personagem carrega a marca pessoal do autor — tem os mesmos problemas e
reage sempre de maneira semelhante: numa atitude desesperada, resultante de um
vazio existencial causado por uma desilusão amorosa, entrega-se à melancolia e
à devassidão, exatamente como fez Byron durante certo período da sua vida. O
herói byroniano vive sem nenhuma perspectiva e, por isso, não respeita nenhuma
das regras impostas pela sociedade. O título do primeiro capítulo resume toda
a trajetória do personagem: amor, spleen e
morte. O herói byroniano sente sem medida, entrega-se a um amor — via de
regra, problemático — que o leva ao desencanto e este, ao spleen, condição de desesperança absoluta que o faz procurar a
morte de distintas maneiras. Morrer é o fim de uma angústia sem remédio. É
por essa razão que o romântico tem sempre a morte diante de si, na forma de
assassinatos, suicídios ou atitudes e crimes que levam a uma morte mais lenta,
mas o fim de tudo é sempre a morte, que permeia todas as narrativas byronianas
escritas durante essa fase da carreira do autor.
Essa
nova poesia, carregada de negativismo, provocou reações positivas e negativas
por parte da sociedade. Tanto os críticos quanto os admiradores reagiram de
forma extrema em relação à obra e a seu autor. Enquanto uns o tomavam como
modelo de poeta e de ser humano, outros o consideravam extremamente pernicioso
e, portanto, desprezível. Se por um lado não é possível chegar a um consenso
quanto à qualidade do poeta Byron, por outro lado, podemos afirmar com
propriedade que era difícil ficar indiferente a ele: poetas conservadores invejavam-lhe
a
fama, criticando-o ferozmente, enquanto outros, fascinados com a novidade,
elevavam o lorde à condição de mais típico representante do século em que
viveu. Na política, Napoleão foi a figura mais marcante; na poesia, Lord Byron
reinava soberano. Tal controvérsia entre partidários e opositores de Byron,
cremos nós, não se restringe ao campo da literatura: é mais um conflito entre
conservadorismo e novidade, entre a rebeldia — não só na literatura, mas
também na vida real —, e o reacionarismo correspondente.
A
relação entre a vida pessoal de Byron e a sua poesia é muito estreita: o
autor fala através do personagem, expondo-se completamente. O poeta revela na
literatura a própria crise existencial em que está submerso e, sendo Byron um
romântico, é um autor que se pauta pelo subjetivismo e pelas paixões, muitas
delas violentas e irrefreáveis. A vida de Byron é quase tão fantástica e romântica
quanto a dos personagens que criou a partir de si mesmo: amores problemáticos,
melancolia exacerbada, desprezo pela sociedade que o condena, atos que revelam
uma grande sede de liberdade e, para fechar com chave de ouro, a morte na Grécia, enquanto preparava um ataque contra os turcos, que na época
dominavam o território grego.
Byron
vai se tornando, ao longo de sua vida, o paradigma de toda uma geração do
romantismo, formada, geralmente, de jovens em busca das mesmas aventuras e sensações.
Esse fato é, essencialmente, uma contradição: o lorde inglês foi, antes de
tudo, um rebelde que, com o passar do tempo se tornou um modelo de conduta e de
literatura. Surpreendentemente, ele se aborrece com o fato e passa, nas suas
obras posteriores, a minimizar e ironizar os personagens que criara — talvez
porque estes o deixaram demasiadamente exposto diante de todos, talvez porque já
não seja mais o único a defender e praticar esses novos princípios. Um
rebelde deixa de sê-lo quando muitos querem seguir o mesmo caminho; para Byron,
a “transformação” sofrida — passando de contestador radical a modelo de conduta — deve ter sido motivo de
grande irritação.
Ele
sequer imaginava que um jovem brasileiro, Álvares de Azevedo, juntamente com os
colegas da Faculdade de Direito, fosse tentar seguir os seus passos na
literatura e, até certo ponto, na
vida. Embora o lorde talvez não previsse tamanha fama, a aceitação que ele
conquistou entre os jovens é perfeitamente compreensível se levarmos em
consideração que o perfil rebelde de Byron vai ao encontro das aspirações típicas
do adolescente.
No
caso específico de Álvares de Azevedo, é natural que ele, vivendo na atrasada
província de São Paulo, tenha se encantado com as paisagens de lugares quase
totalmente desconhecidos na época, que o lorde descreve nos seus “contos
orientais”. Também é bastante compreensível que um jovem admire alguém
mundialmente famoso por ser um grande conquistador e poeta. No entanto, o traço
byroniano mais notável em Álvares de Azevedo é a rebeldia, que o levou a fundar a Sociedade Epicuréia, suposto núcleo do byronismo em São
Paulo. Os jovens “epicureus” paulistas tentam imitar Byron tudo o que seja
possível: vestuário, comportamento e, sobretudo, poesia.
Na
poesia de Byron, Álvares de Azevedo encontra alguém que pensa e sente de maneira semelhante. Seja por imitação, seja por afinidade, o que
seria mais justificável, Álvares de Azevedo tornou-se o maior poeta byroniano
do Brasil. Todavia, o brasileiro, em certos aspectos, superou o mestre: não há,
em toda a obra de Byron, um livro tão macabro quanto Noite
na taverna. Se o inglês era acusado de satanismo por obras como Cain e Manfred, Álvares
de Azevedo, com seu livro de contos fantásticos, deu origem às mais diversas
lendas em torno do seu nome, desde violações de sepulturas até rituais de
magia negra.
Ao
contrário do que se possa imaginar, o byronismo, mesmo sendo a noite da poesia,
teve seu lado mais leve: Byron criou, na Inglaterra, uma nova dicção poética,
que permitia trocadilhos e brincadeiras que chegavam a ser obscenas, como ocorre
em algumas passagens de Don Juan. Essa faceta humorística sempre esteve presente nas cartas
de Byron. Álvares de Azevedo, por sua vez, escreveu poemas com tom de humor e
certa “malandragem” brasileira, como poderá perceber o leitor atento e crítico
em relação aos estereótipos. A própria influência de Byron tende a ser
considerada como um demérito ao nosso poeta, se o tomarmos por um simples
imitador do lorde, sem levar em conta o seu próprio talento, não de
versificador, propriamente dito, mas de poeta e também prosador. As falhas que
muitos críticos não se cansam de apontar nada mais são que o produto de um
novo conceito de poesia que não aceita regras, nem poderia fazê-lo, sem
contrariar o seu caráter romântico que, conforme já foi dito, é
essencialmente a rebeldia aos padrões estabelecidos.
Não
temos a pretensão de que o presente trabalho apresente uma resposta conclusiva
em relação à influência de Byron sobre Álvares de Azevedo, que não foi
ainda estudada com a devida profundidade.
Contudo,
esperamos sinceramente ter contribuído para apresentar ao leitor um retrato
menos negro da vida e da obra dos dois poetas que estudamos, motivados pela
admiração que temos por ambos. Esperamos ter mostrado ao leitor que a noite da
poesia não foi tão escura e fantasmagórica quanto pareceu a alguns, que não
perceberam que nela também há — de vez em quando, é verdade — o sopro da
brisa noturna.
Ferrnando
Augusto Lopes, Fernando José de Souza e Francesco Rey Mauro são formados pela
UNIBERO