Crônicas

Depois da Guerra Fria... 

 

ROSAS VERMELHAS  

 

Aristeu tinha  uma  estranha e nova fobia, para a qual nenhum psiquiatra, psicólogo, ou psicoterapeuta encontrava  a  cura. Dizem até que recorreu, sigilosamente, a curandeiros e umbandistas e mandingas, mas não devemos considerar  verdadeiras essas informações — é claro que um homem  de sua posição social não se prestaria a esse papel ridículo. O homem tinha absoluta  ojeriza  a tudo o que fosse vermelho, desde goiabas até molho de tomate. Já havia gastado  vultosas somas da sua grande fortuna sem, no entanto, conseguir amenizar, pelo menos, a sua rubrofobia — termo criado especialmente para designar a sua estranha perturbação.

Essa era a mais grave e perigosa; porém, havia outra — igualmente ridícula, mas  menos angustiante do que a mania persecutória: tinha acessos de fúria, durante os quais berrava, a plenos pulmões: “O III Reich será um reinado de mil anos!” Não adiantava nada dizer que o tal reinado de mil anos não existia mais. Quando esse furor o atacava, dava pena ver o ancião metido na sua camisa  negra ( outra mania, aliás) passando em revista aos habitantes da casa, com a mão direita estendida. Essa loucura secundária daria uma  outra  história; ficaremos aqui com a mais incomum de suas loucuras — já  que a outra, apesar de inexplicável, atinge ainda  muitas  pessoas, mesmo que de forma mais atenuada.  

Quem  conhecesse  o  passado do figurão, poderia pensar que a causa da fobia fosse o remorso: suas delações abasteceram os porões da ditadura, no auge da repressão. Mas remorso não era. Na verdade, segundo conclusões dos especialistas, tratava-se  de um processo de transferência: a  mesma  ojeriza  que  tinha  aos  comunistas  fora transferida, após o colapso da URSS, a tudo o que  tivesse  a  mais vaga semelhança com a cor vermelha. O terror do perigo vermelho ficara tão entranhado que sobreviveu ao desmoronamento do inimigo, na forma daquela estranha fobia.

O  tratamento  da  insólita  doença  era igualmente inusitado: segundo a opinião dos especialistas, era  necessário convencê-lo de que o comunismo já não representava o menor perigo ao mundo capitalista. Para isso, utilizavam fitas de vídeo, notícias, depoimentos, filmes, documentários e tudo  o  mais  que aludisse ao fim da União Soviética: a queda do muro de Berlim e a subida de Ieltsin ao poder eram as imagens que surtiam o melhor  efeito. No  entanto, uma  expressão ouvida num documentário agravou sensivelmente a situação: o fim da “cortina de ferro”. Aristeu ouviu aquilo e, diante  da  surpresa de todos, entrou numa espécie de transe, meditando  e  refletindo durante várias horas acerca do conteúdo da afirmação.

Quando despertou, mostrou-se sobremaneira  agitado  e  perturbado: “A cortina caiu e eles estão infiltrados em todos  os  cantos ... A cortina caiu, e eles se espalharam pelo mundo ... Os  bolcheviques estão por toda parte (como os ácaros) ”. Gritava e andava de um  lado  para  o  outro, fechando  portas, portões  e  janelas, em desespero. Com muita dificuldade, os enfermeiros conseguiram contê-lo e aplicar nele uma dose cavalar de tranqüilizantes. A partir daquele dia, o distúrbio agravou-se e  tomou  proporções  insustentáveis: Aristeu  demitiu  todos  os  empregados canhotos, porque “não admitia ninguém de esquerda na sua  casa”, proibiu  a  compra  e  o consumo de caviar ( era ova de peixe russo), assim  como  baniu  do seu cardápio a salada russa e a vodca. Por via  das  dúvidas, vetou também pratos à base de lula. Proibiu expressamente a  compra  e  o consumo, num raio de dez quilômetros de suas propriedades, de rum e de charutos — por engano, poderiam comprar o a bebida  Havana  Club ou os  charutos  Cohíba, e  ele  não  queria, em  hipótese  alguma, contribuir  para  a  economia  de  Cuba: “ Se  depender de mim, vão morrer à míngua”.

Com o passar do tempo, a situação piorava. Chegou a exigir que todos os que freqüentavam a sua casa jurassem de pés juntos  jamais se envolver com o comunismo. Quem se negasse, não passava da porta. Aristeu não media esforços para conter  a  infiltração  dos  “emissários de Moscou”. Por mais que lhe dissessem que  Leningrado agora se chamava outra vez São Petersburgo, ele não se convencia de que a pátria-mãe do socialismo finalmente  se rendera ao inimigo — “É uma estratégia diabólica: eles se fingem de mortos, mas  estão  conspirando contra a lei, a ordem, Deus ...” e seguia a lista de  ameaçados pela “praga do comunismo”, que era bem abrangente.

A doença de  Aristeu  progredia  assustadoramente: manifestava sinais de pânico na presença de martelos e foices, separadamente, e um terror absoluto quando lhe apresentavam  a  foice  e  o  martelo cruzados. Na verdade, essa experiência imprudente só foi  feita uma vez, já que levou o transtornado Aristeu à  beira  de  um  colapso. Quando ele soube, devido a um descuido imperdoável  de quem cuidava da “censura” das notícias que penetravam na casa, que o General Pinochet estava preso, as conseqüências foram desastrosas. Pior ainda foi quando soube que José  Saramago, comunista  confesso, ganhou  o Nobel. Aristeu convenceu-se definitivamente de  que  os  comunistas estavam mais vivos do que nunca, atuando em  todos os países, pondo em perigo a ordem, decência e moral do mundo. O  homem já não podia dormir de luz apagada: nas sombras da noite, via  os  seus  ameaçadores fantasmas — Lênin pendurado no lustre, Mao atrás da porta ... mas  isso  não  era  o  pior. O  guarda-roupa era o seu maior medo. Aristeu, transtornado, acreditava  firmemente ... que  Che  Guevara estabelecera um foco guerrilheiro no seu armário. Quando  conseguia dormir, tinha pesadelos terríveis: sonhava com milhões  de soldados chineses invadindo a sua propriedade e acordava aterrorizado.

A  essa  altura, já  se cogitava a sua internação num hospital psiquiátrico, hipótese plenamente justificável, mas não queriam expor um figurão da alta sociedade  como  ele  a  tamanho ridículo. O tratamento  já  não surtia efeito. Nem mesmo a leitura do texto que instituiu o AI – 5, um santo remédio, de efeito imediato para o seu estranho mal, o  acalmava. Nem  a  foto do senador MacCarthy. Nem a terapia musical adiantava mais; nem Frank Sinatra com New York, nem mesmo Summertime, a preferida do velho. Nada mais surtia efeito.

Tentaram, como  último  recurso, a  sugestão hipnótica. Faziam com que Aristeu entrasse em estado de letargia e  o  transportavam, em sonho, a paradisíacas paragens: via-se numa ilha, onde não havia proletários, nem insatisfação social. Nessa ilha, não se falava  em greves, motins, protestos ... só se falava da temporada de esqui em Aspen, da alta da Bolsa, Manhattan ... era o  paraíso  na terra, um mundo sem aborrecimentos. Aristeu  sorria, embevecido. Estava entre os seus. Mas esse mundo, onde  só  vivem  magnatas, notáveis, celebridades, onde só a fina flor da sociedade existe, é  irreal. Aristeu tinha que acordar, em pleno Brasil. Aí o tormento recomeçava.

As  excentricidades  do  paciente  acabavam  por  irritar   os empregados, principalmente os enfermeiros, que tratavam diretamente com ele. As demissões e contratações de novos enfermeiros  se  tornaram tão corriqueiras que era impossível cumprir as rigorosas normas que Aristeu impusera ao acesso  a  sua fortaleza anticomunista. Na verdade, ninguém acreditava  naquela paranóia de perigo vermelho do patrão, embora  uma pesquisa, encomendada por ele, ( um dos seus primeiros sinais de demência, aliás)  indicava  um grande número de pessoas  com   tendências  subversivas. Comunistas  assumidos  eram poucos, mas juntamente  os  trotskistas, anarquistas — esquerdistas em geral — e descontentes com o regime, alcançavam um  número  considerável. Dizem que o resultado dessa pesquisa foi o fator  desencadeante dos tormentos de Aristeu.

Em  suma, apesar  de  a  pesquisa  indicar um grande número de pessoas com tendências subversivas, a vigilância das sentinelas  de Aristeu foi negligenciada com o passar do tempo, e deixou-se de investigar  as  preferências políticas dos candidatos a empregados da casa.

Entre os montes  de funcionários que eram admitidos, havia uma enfermeira cuja dedicação  era  exemplar, para não dizer comovente. Ficava  sempre  à  cabeceira do velho, tentando acalmá-lo. À noite, contava histórias  para  ajudá-lo a conciliar o sono, as preferidas de Aristeu — teorias econômicas de Adam Smith e David Ricardo, trechos  protonazistas  de “Origem  das  espécies”,  “Minha  Luta”, de Hitler, além de outras amenidades. Todavia, o paciente piorava cada vez  mais, e  seus  delírios  tornaram-se cada vez mais freqüentes, terríveis e duradouros. Nem Rosa, a referida  enfermeira  conseguia amenizar as crises. Parecia que os  seus  cuidados  tinham  chegado tarde demais. Mesmo assim, ela passava o  tempo  todo  ao  lado  de Aristeu. Tentava convencê-lo de  que  seus  temores  noturnos  eram infundados. Rosa certamente não era comunista — pensava  o  velho — mas havia algo nela que o intrigava. Notou que, ao pronunciar  certas palavras, muito caras a  ele — Acúmulo  de  Capital, Estado, ou mais ainda Estado Capitalista, Ordem, Exército e muitas outras mais —, o belo rosto da jovem se transfigurava numa careta de  nojo  que ela tentava, sem sucesso, disfarçar. Mesmo com esse grave  defeito, mesmo com essa suspeita de esquerdismo, Rosa se mostrava dedicada e bondosa como um anjo sempre à beira do leito do doente. ( Mal sabia ele de que anjo se tratava ...)  

Certa  noite, por conta própria, a enfermeira resolveu mudar o teor das leituras noturnas. Deixou de lado os heróis de  Aristeu  e adotou um livro novo com uma história totalmente  desconhecida  por ele. Estranhamente, na manhã  seguinte, o  velho  não  suportava  a simples presença de Rosa. Mesmo assim, ela dizia coisas  ao  ouvido de Aristeu enquanto ele dormia. Não se sabe com certeza o que  era, mas o velho piorava dia a dia. Rosa  perdeu  a  esperança, mas  não abandonou o posto. Esteve ao lado de Aristeu até o último  momento, continuava tentando falar com ele, mas o velho não dava mais acordo de si. Alternava períodos de terror, nos quais continuava a se  ver ameaçado pelo foco guerrilheiro no armário e por Lênin, pendente do seu lustre como a espada  de  Dâmocles, com  momentos  de  euforia, quando se via na ilha paradisíaca dos burgueses serenos.

Os milhões do velho já escasseavam, sem  que  pudessem  socorrê-lo ou pelo menos aliviar seus tormentos. O poderoso Aristeu via-se reduzido à insignificância, vencido por um estranho mal. Não sucumbiu  aos   ataques  de  nenhum  inimigo  externo; ao  contrário, destruiu-se por si mesmo. As grades altas, os sistemas de alarme, o carro blindado, o  forte  esquema  de segurança não puderam impedir que Aristeu fosse perdendo a fortuna e a vida.

O velho  estava  nas  últimas. Já  não se dava conta do que se passava, mas pareceu-lhe ouvir um ruído  estrepitoso, terrível: não eram os chineses forçando as suas grades douradas, com certeza. Era o temido clamor das massas, ou seja, os funcionários  das  empresas falidas  que  exigiam  pagamento  de salários, numa manifestação na frente da casa do patrão.

Aristeu  agonizava, cercado  por  todos os seus fantasmas, que vieram atraídos pelo alvoroço da  multidão. Mas  não  estavam  sós. Vieram também ... Quem seriam aqueles? Ah, o  livro medonho da Rosa ... Aristeu, agonizante, em seu delírio foi apresentado  aos  miseráveis, tão miseráveis quanto os do livro de Victor Hugo, que  Rosa tentava ler para ele. Não os conhecia nem  queria  conhecê-los. Mas estavam lá. Por  todos  os lados. Havia também um símbolo estranho, que surgiu diante dos seus olhos  moribundos: uma  grande  bandeira negra, totalmente negra ( como  um  quadro-negro, disse Rosa, certa vez, onde todos poderão escrever a História do futuro)  na qual foi surgindo um círculo     ( vermelho!!!) e dentro do  círculo  foi-se formando uma letra ... um A maiúsculo ( da  cor  do  tomate!!!) que cresceu ... cresceu ... foi crescendo  até  romper  os  limites  do círculo. Foi essa imagem — que  Rosa, certo dia, sadicamente, apresentou a ele com um sorriso maquiavélico nos lábios, e que lhe causou uma impressão terrível — exatamente essa figura  foi  a  última que  os  olhos do nazi-fascista viram. Rosa dizia que era o símbolo de um sonho antigo. Para Aristeu, era um pesadelo

Aristeu acabou falecendo, vítima de sua estranha doença. O enterro  foi  mais  deprimente  do que se esperava, devido ao escasso comparecimento  de  parentes e amigos.  Por alguma incógnita razão, muitos  deixaram  de  acompanhá-lo em seu último trajeto. Não houve discurso à beira da cova, por conseguinte. Também não haveria lápide, se Rosa não tivesse pronunciado uma frase estranha e bonita  no momento em que Aristeu deixou o mundo dos vivos. Ela disse: “Tudo o que é sólido desmancha no ar” e acrescentou, falando  para si: “Bem que eu tentei avisar, mas já era tarde”.

Ninguém entendeu, de fato, aquela frase; mas uma lápide  enigmática é melhor do que nenhuma. Além do mais, resumia bem a  trajetória do falecido. Mas esse não foi o único enigma  que  brotou  da vida e morte de Aristeu. Uma pergunta intrigante surgiu no meio  da multidão de credores e funcionários sem pagamento que se aglomerava diante dos portões da casa do velho. Um coro indecoroso  a repetiu, e talvez foram as últimas palavras que  o  velho  escutou. Confesso que não servia para um epitáfio, mas era uma questão  instigante e, convenhamos, bastante pertinente: “Aristeu, quem foi que te f...?”

     O mundo está perdido, como dizia o defunto Aristeu. Até começo a acreditar que ele tinha razão em temer o  perigo  vermelho  e  em repelir a enfermeira Rosa. “De rosa para vermelho não falta muito”, diria o suástico velho, com certa razão. É que a  enfermeira  Rosa, por algum estranho motivo, resolveu prestar uma homenagem  a  Aristeu, deixando em seu túmulo um ramo  de  rosas ... vermelhas. Rosas de Luxemburgo, envolvidas num pedaço retangular de um tecido negro, totalmente negro ...

Fernando Augusto Lopes é tradutor, poeta e contista formado pela UNIBERO

 

Hosted by www.Geocities.ws

1