Artes

Durante a entrega do Prêmio Multicultural do Estadão, surgiu o nome de Lenora de Barros e sua homenagem ao "fundador" da cultura russa no Brasil: Boris Schnaiderman. Este ensaio aproxima obra, autora e homenageado em um diálogo quase metonímico. 

 

Ping poems para Boris (2000)

SESC Pompéia, São Paulo

        

         Obrigados...por tudos

        Boris Schnaiderman estará feliz ao ver a homenagem a ele prestada pela artista Lenora de Barros. Boris diria – como Edgar Allan Poe – “anjos que chamam Lenora” pois a obra assusta. Não somente o título Ping-Poems com o alfabeto cirílico à frente, mas o restante: uma mesa de ping-pong ao nível do chão com a jogadora também no mesmo nível. Boris não se surpreende. Conhece Khlébnikov e Maiakovski e Malévitch e Gorki e... Não pode se surpreender, pois já viu coisas piores, já traduziu coisas piores, lançou livros com os irmãos Campos. Porém, a obra aberta – definição já deglutida por ele há tempos, pois conhece Umberto Eco – vai, a cada, minuto tomando a atenção do ex-engenheiro.

         Poderia exclamar: A situação está russa por aqui! Mas, de nada adiantaria, pois um dos poucos conhecedores da arte e da cultura russas é ele mesmo. Boris dá voltas em torno da obra – dimensões variáveis, borracha, acrílico – o espaço. Claro! O espaço. O espaço que as vanguardas russas (e do leste europeu, de maneira geral) não tiveram ou, quem sabe, o espaço das poesias e pinturas dos cubo-futuristas russos. Boris não sabe. Ou finge não saber que está sendo vigiado por amigos vermelhos e que ali está contida toda a luta batalhada em sua vida pela cultura russa no país verde-amarelo.

         Não há nenhum humano ali perto. O chão cinza adormece lembrando os céus a respirar por aí. Escuta um som, o som volta reverberando em seus ouvidos como os tiros dos Doze de Blok. Corre aos fones de ouvido para poder salvar os revolucionários dentro da taverna e o som passa mais uma vez zev. Volta e vai aquele som lembrando um baiano de Irará que há muito tempo também toma seus tirinhos – com doze – o pai dos russos ouve novamente e mata: Cid Campos!

         Sentando em um pequeno pedaço de madeira tupiniquim, Boris continua a ouvir os sons dos tiros tentando decifrar aquele jogo sonoro e conclui que parece um jogo de ping-pong – nada mais sonoro do que um jogo que possui no nome o resultado de seu som –. Conhecendo como Boris conhece, até eu apelaria para a estética de Bense, da vanguarda européia e tentaria compreender o significante/significado daquelas palavrinhas sonoras em outros campos, como o da Literatura, das Artes, do Teatro, da Poesia: “ping-pong”.

         Depois de ouvir por alguns instantes os tiros e sorits de Cid Campos – arranjador dos álbuns de Augusto de Campos –, levanta-se. Está em frente a um mural, oposto ao título em alfabeto cirílico, que contem raquetes de ping-pong em, basicamente, duas cores: vermelho – assim como o sangue, faz parte de Boris – e o preto. Aquele fundo branco incomoda, contrasta com o vermelho/preto e Boris aproxima-se para perceber a vanguarda existente sobre o tal fundo branco: nada mais do que sua obra e sua paixão transformados em arte por Lenora Barros. Porém, ele não ouvelê meu comentário e continua a pensar sobre aquelas roletas russas. Uma espécie de tentativa em tantas outras para se entender a homenagem e ele, mais uma vez, consegue. A compreensão daquelas roletas faz-se tão fáceis a ele quanto ler Khlébnikov no original russo. É simples, basta...

         Após alguns instantes traduzindo os significantes/significados para ele mesmo, Boris vira-se abruptamente como a queda do binômio Forma/Conteúdo em 1918 na ex-Tchecoslováquia e observa o vazio. Ao seu lado esquerdo – não há simbologia alguma nesta palavra, ao menos nesse contexto – está ou estão diversas Lenoras a jogar ping-pong todas em uma só, vistas de uma mesma perspectiva ou uma em diversas, vistas por outras perspectivas. Schnaiderman conhece aquilo, já traduziu, entendeu, solidificou e, logo, não há o que temer nesta seqüência de Lenoras. Identifica traços cubo-futuristas naqueles movimentos tão estáticos quanto à evolução da cultura russa no Brasil e faz com que as Lenoras saiam da única Lenora. As raquetes em suas mãos e as bolinhas em suas respectivas raquetes caem no chão frio, cinza e insólito. O mesmo chão que derrubou as perspectivas de um mundo mais igual em meados do nascimento do primeiro homem que privou a si mesmo de estabelecer a igualdade, condição natural de todos nós.

         Como a Ralé de Gorki, as Lenoras são aprisionadas pelo chão frio que, por sua vez, coloca-as em uma mesa de ping-pong – talvez o imperialismo goste de jogar – no mesmo nível da mesa, no mesmo nível do chão, no mesmo nível do desumano. Boris, que já defendeu causas tão impossíveis, observa a mesa, as Lenoras, o jogo, as bolinhas e estende a mão para Lenora dizendo: Obrigados por todos os meus amigos vermelhos. Mas ainda podemos virar o jogo.

Eduardo Messias Oliveira é estudante de Língua e Literatura Brasileira da UMESP

 

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